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GV CULT - Criatividade e Cultura

Contos oníricos (V)

GvCult - Uol

06/01/2022 08h34

Pôr do sol na natureza/Fonte: Pixabay

Por Bernardo Buarque de Hollanda

Um moleque, era uma vez.

Sebastião, seu nome.

Mas Sebastião soava muito grave para um menino que mal sabia o que significava aquele santo na religião católica. Preferiam por isso chamá-lo de Tião; havia uns que gostavam de tratá-lo de Tiãozinho e ainda outros por Tizim, porque lembrava um piá da terra.

Vivia na fazenda Santa Helena, em uma região situada na divisa de São Paulo com Mato Grosso do Sul. De criação bovina, com incercáveis dimensões, o latifúndio tinha gado de corte e de leite. O pai de Tiãozinho, Zé Boêmio, trabalhava no estábulo, onde cuidava de novilhas, garrotes e bezerros. Além do pai, mais quatro moravam com ele: dona Abençoada, sua mãe; Tonho, seu irmão; Inocência, sua irmã, e Tuqué, sua cadela.

Zé Boêmio era homem de índole fraca. Tonho acordava-o todo dia às 4 horas da manhã para buscar as vacas no pasto e conduzi-las ao curral. Porém, sempre que podia escapulia do horário de serviço para ir tomar uma dose de parati. Quando sentia fome, adorava comer ovo cru. À noite, ia religiosamente à birosca mais próxima, onde curtia pitar cigarro e se divertir dançando o rasqueado com as moças do lugarejo. Os dois filhos, mesmo na alta madrugada, sempre o acompanhavam e, ao final, traziam-no carregado sobre os ombros.

Era Tonho, enfim, quem mais ajudava o pai no curral e, ainda novo, onze anos, enfrentava a dura lida de gente grande. D. Abençoada, por sua vez, quase não saía de casa e restringia-se a cultivar horta e um pequeno roçado no terreiro em frente à varanda. Inocência, muito menina, nunca havia falado desde que nascera. Tampouco havia chorado. Era um enigma bebê não chorar. Taciturna, vivia entrelaçada às pernas da mãe, feito cipó em tronco de árvore, de onde jamais se destrançara.

Tiãozinho e Tuqué viviam sempre juntos. Tuqué, filha bastarda, descendia de uma vira-lata com o cão de raça do dono da fazenda. Mas, para a família do menino, era mais um membro do lar. Tudo que vinha à mesa compartiam com a cadela mestiça. Daí a origem do nome: tu quer?

Tiãozinho não se afeiçoava ao trabalho. Olhos cor de amêndoa, cabelo preto retinto, todo encarapinhado, aprazia-lhe soltar pipa, chupar cana-de-açúcar e inventar histórias para Tuqué. Prometeu, certa feita, que iria fazê-la empinar junto a seu papagaio, para ela ver o mundo de cima, como os passarinhos. Em outra ocasião, fez crer à cadela que as montanhas eram monstros que dormiam de manhã e acordavam de noite para assombrar quem passava perto delas.

Uma vez por mês, entretanto, acontecia o fato mais importante para a vida do menino: o carro do seu Mauro, vendedor de doces, estacionava em frente ao grande portão da fazenda, trazendo as novidades da fábrica de balas da cidade grande. Todos os meninos do lugarejo vinham, arfantes, em direção ao pobre carro enferrujado. A Tioãozinho, deslumbrado, tudo apetecia: desde as balas sortidas de sabor morango e tutti-fruti até o caseiro pé-de-moleque, a paçoca, a mariola, a cocada e o cuscuz.

Aquele raro momento aguçava a imaginação de Tiãozinho. Passava os dias esperando a chegada do automóvel. Gostava de narrar a Tuqué, sentado em uma pedra à beira de um rio, os detalhes de cada doce. O moleque só ficava injuriado era com a dependência de dinheiro da mulher e do filho do fazendeiro, pois ele não possuía um tostão sequer. De quando em vez nem um trocado eles lhe ofereciam e, em vez de água na boca, ficava com água nos olhos.

Certo dia, o carro de seu Mauro não veio e ficou ausente durante todo o mês. Passaram mais catorze dias e nada. Tiãozinho, aflito, embrenhou-se nas matas e prometeu só voltar à casa quando o automóvel retornasse. Mesmo a Tuqué não dava mais importância.

Oito dias transcorreram, até que o antiquado veículo desse sinal de vida. Tiãozinho, quando o carro estacionou, caminhou desconfiado em direção à entrada da fazenda. Mesmo sem saber por que, sentia uma premonição ruim, como se algo o perseguisse. Até que se certificou da novidade. Ao se aproximar do automóvel, recebeu a triste notícia de que seu Mauro estava ali pela última vez, de que ia se instalar em definitivo em Cuiabá, entregar o carro a uma loja de ferro velho e tentar vida nova no comércio da capital.

Fora como se um raio partisse o menino em dois. Lânguido, Tiãozinho tinha uma fisionomia lúgubre, de dor insondável, alheia à das crianças debruçadas sobre o tabuleiro, que mal sabiam que aquela seria a última passagem do carro. Seu Mauro, ao perceber o desconsolo do guri, acercou-se dele e lhe ofereceu de presente um bolo fresco de milho. Ainda seco, desprovido de força e palavra.

As demais crianças despediram-se do motorista e, logo depois, cada qual voltou à sua casa. Somente Tiãozinho permaneceu inerte ao lado do automóvel, inarredável, assistindo à partida do veículo descascado pelo tempo. Feito um lençol quando se balança, o arranque do moto estendeu uma cauda de poeira da estrada. Encobriu o entristecido menino. Após segundos de um ar empoeirado e turvo, foi possível divisá-lo de novo. Seu rosto solitário tentava abotoar a dor no peito. Do úmido olhar saltitou uma lágrima que, tal qual a poeira, desfez-se rapidamente na terra já distante para o carro de doces.

Edição Final: Guilherme Mazzeo

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.