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GV CULT - Criatividade e Cultura

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O passado é um país estrangeiro(II): uma leitura da obra de David Lowenthal

GV CULT

17/09/2019 07h54

David Lowenthal, 1923-2018 – University of Gothenburg, Sweden.

Por Bernardo Buarque de Hollanda

"…muitos acontecimentos que pensamos recordar a partir de nossa própria experiência,

na realidade nos foram contados e então tornam-se parte indistinta de nossa memória"

Na primeira parte deste texto, vimos o autor e a obra selecionada, com um levantamento geral de questões e referências associadas ao trabalho do eminente geógrafo Lowenthal. O objetivo foi apresentar as três vias de acesso principais ao passado, quais sejam: a memória (lembranças, recordações e insights); a história (documentos, relatos e testemunhos); e a relíquia (fragmentos, artefatos naturais e culturais). Estes são elementos que permitem a vivência e a crença na existência do passado.

Procurou-se mostrar o sentido lowenthaliano mais dinâmico do conceito de passado, nunca acessível em sua integralidade, apenas de maneira fragmentária, parcial e fracionada. O postulado conceitual apontou-o como dependente dos próprios limites da epistemologia – tempo, objetividade e subjetividade. Intentou-se argumentar ainda como a tríade memória-história-relíquia corresponde, mais do que a tipos de conhecimento pretérito, a atitudes perante este mesmo passado, apresentando convergências e divergências entre a trinca, suas oposições, bem como suas relações de complementariedade.

Ainda no texto da quinzena passada, desenvolveu-se a tese segundo a qual a consciência e o conhecimento só se tornam possíveis na história do Ocidente a partir da progressiva separação entre o passado e o presente, tal como operada pelo Renascimento, quando do advento da imprensa. A escrita e a oralidade passam a constituir tradições distintas, caracterizadoras de sociedades diferenciadas entre si. O conhecimento religioso, de um lado, e o científico, de outro, representam o tempo de maneira progressivamente diversa.

Tal cisão teria atravessado o Iluminismo no século XVIII, o Romantismo no Oitocentos e teria se concluído na virada para o século XX, quando modernas técnicas de averiguação do passado ter-se-iam consolidado. A metáfora do pretérito como "país estrangeiro" supõe uma imagem de deslocamento não só temporal como sobretudo especial do passado, uma dimensão doravante externa ao fluxo do tempo presente. A tese de Lowenthal sustenta, sem embargo, que um e outro constituem um par inseparável, relacionado de maneira recíproca.

A memória, a história e as relíquias passam a ser então as vias ternárias de mediação ao passado inexorável. Tais formas de aceder e reconstituir o passado mostram o quanto este não é fixo nem estático tampouco imutável, mas condicionado pela experiência individual e social. A volubilidade mnemônica anda de par com o desgaste da narrativa histórica e dos fragmentos fugidios da lembrança.

Para animar o debate, propusemos, ainda na parte I do texto, o diálogo de nosso autor com as concepções de Bergson acerca da representação do passado. Operando de igual maneira com base nas polaridades matéria e memória, Lowenthal entende que o passado apenas pode ser reconstituído a partir de processos seletivos e filtros de consciência. Tal filtragem pode tão somente captar uma parte infinitesimal do todo constituinte da realidade, sem nunca abarcar a onisciência da totalidade.

Ainda na quinzena passada, introduzimos questões interpeladoras do autor, considerando que este não incorpora, por exemplo, o pensamento de Sigmund Freud, cujo embasamento do conceito de inconsciente vale-se igualmente de imagens arqueológicas de escavação e revelação. Seria o caso ainda de especular um cotejo com a ideia de inconsciente coletivo, de Carl Jung, uma vez que este refere-se a "arquétipos", o que poderia ser aproximado, guardadas as devidas proporções, com a relíquia lowenthaliana.

Ademais, Lowenthal poderia ter adicionado também, junto com sua análise das relíquias, da proposta aurática de Walter Benjamin, isto é, da discussão em torno do declínio da aura dos objetos na modernidade e na era da reprodutibilidade técnica. Em que medida este caráter mecânico da reprodução imagética desenvolvida pela fotografia, pelo cinema e pela televisão insere-se no rol de questões concernentes à autenticidade das relíquias?

É possível estabelecer um paralelo da relíquia, no sentido da presença física do passado no presente, dos fragmentos que evocam, sugerem e iluminam a totalidade do que se esvaiu, e o paradigma indiciário proposto pelo historiador italiano Carlo Ginzburg? Lembre-se que, para este expoente da micro-história, os mitos, emblemas e sinais são, em seus detalhes, vias de acesso para a decifração do mundo que se foi. Em que medida é lícito afirmar que Lowenthal privilegia o polo da subjetividade como, a um só tempo, o portador dos limites e das potencialidades da epistemologia?

Tais limites e potencialidades podem ser exemplificados na narrativa histórica e na relação entre fato e ficção. Poderia, também, Lowenthal ter mencionado, ao antepor escrita à oralidade, o canadense Marshall McLuhan e sua visão negativista do fim da civilização escrita na era da cultura de massas. Por fim, diante dos inúmeros estudos na atualidade acerca da tragédia do Holocausto, Lowenthal também poderia desenvolver as interpolações entre tempo, trauma e memória da Segunda Guerra mundial.

Feita essa apresentação e recapitulação, vamos doravante pinçar passagens aforísticas que consideramos as mais representativas das ideias do autor. Para tanto, vamos agrupar as citações por tópicos, de modo a enfeixar tematicamente o corpus do livro:

  • Acerca da certeza e da incerteza quanto à existência do passado:

"Dúbio devido à sua real ausência, inacessível embora intimamente conhecido, o caráter do passado depende de como – e de quanto – é conscientemente apreendido. A maneira como tal apreensão acontece, e como molda a nossa compreensão, é o principal assunto deste texto". (p. 75)

"Meu interesse maior aqui nestas páginas está na natureza e no valor do conhecimento da memória em si. Primeiro revejo o caráter pessoal e coletivo do conhecimento da memória; prossigo mostrando como a lembrança sustenta nosso sentido de identidade; em seguida expondo até onde a 'verdade' das lembranças pode ser confirmada. Vários tipos de recordação, desejadas e espontâneas, adquiridas e inatas, revelam aspectos diversos de coisas passadas, associados para mostrar o passado como um todo. A necessidade de se utilizar e reutilizar o conhecimento da memória, e de esquecer assim como recordar, força-nos a selecionar, destilar, distorcer e transformar o passado, acomodando as lembranças às necessidades do presente". (p. 77)

"À semelhança de acervo de antiguidades, nosso repertório de lembranças preciosas está em fluxo contínuo, novas lembranças sendo adicionadas constantemente, as velhas sendo descartadas, umas emergindo à superfície da consciência presente, outras submergindo sob a atenção consciente". (p. 78)

  • Memória e identidade:

"A percepção da memória como chave para o autodesenvolvimento, assegurando e ampliando a identidade através da vida, foi uma revelação do final do século XVII, cuja única precursora havia sido a narração bíblica". (p. 85)

"A memória não apenas capitula; ela também muda, frequentemente de modo imperceptível" (p. 88)

  • Memória, percepção e realidade:

"Toda memória transmuta experiência, destila o passado em vez de refleti-lo. De tudo o que é exibido no meio ambiente, recordamos apenas uma fração daquilo que nos é impingido. Assim, a memória filtra novamente o que a percepção já havia filtrado, deixando-nos somente fragmentos dos fragmentos do que inicialmente estava exposto". (p. 94)

  • Lembrança e esquecimento:

"As cenas e acontecimentos mais vividamente lembrados são frequentemente aqueles que permanecem esquecidos por algum tempo". (p. 95)

  • Atualização e novas significações:

"As lembranças também se alteram quando revistas. Ao contrário do estereótipo do passado relembrado como imutavelmente fixo, recordações são maleáveis e flexíveis; aquilo que parece haver acontecido passa por contínua mudança. Quando recordamos, ampliamos determinados acontecimentos e então os reinterpretamos à luz da experiência subsequente e da necessidade presente. " (p. 97)

"A passagem do tempo que desgasta o passado não é uma cadeia temporal consecutiva, mas um conjunto de momentos descontínuos içados na corrente do tempo". (p. 100)

  • História e memória:

"História e memória são distinguíveis menos como tipos de conhecimento do que como atitudes relativas a esse conhecimento". (p. 108)

"Assim como a memória corrobora a identidade pessoal, a história perpetua a autoconsciência coletiva". (p. 109)

"A natureza coletiva da história aparta-a, no entanto, da memória. Tendo em vista que o passado que recordo é parcialmente compartilhado com outros, boa parte dele é unicamente meu. Meu conhecimento histórico é, por sua própria natureza, produzido e compartilhado coletivamente; a percepção histórica implica em atividades em grupo". (p. 109)

  • História e recuperação do passado:

"… é impossível recuperar ou recontar mais do que uma pequenina fração do que ocorreu, e nenhum relato histórico jamais corresponde precisamente ao verdadeiro passado. Três fatores limitam o que pode ser conhecido: a imensidão do passado em si, a diferença entre acontecimentos passados e relatos sobre esses acontecimentos, e a inventividade do preconceito – especialmente o preconceito presentista". (p. 111)

"A memória do mundo não é um cristal brilhante e reluzente, mas sim um amontoado de fragmentos soltos, uns poucos raios de luz que atravessam a escuridão". (p. 111)

  • Produto e produção do passado:

"… o fato histórico não tem realidade objetiva; ele existe apenas como reconstrução retrospectiva". (p. 112)

"Assim como somos produtos do passado, também o passado conhecido é um artefato nosso". (p. 113)

  • Anacronismo e interpretações históricas:

"A percepção tardia do passado assim como o anacronismo dão forma às interpretações históricas. Explicar o passado no presente significa lidar não apenas com percepções, valores e linguagens que mudam, mas também com acontecimentos ocorridos após a época examinada. É inevitável ver a Segunda Guerra mundial, em 1985, diferentemente do que se viu em 1950, não apenas devido ao aparecimento de grande quantidade de novas evidências, mas também devido a consequências posteriores – a Guerra Fria, as Nações Unidas, a recuperação das economias alemã e japonesa". (p. 115)

  • História, estruturas narrativas e subjetividade:

"A história é persuasiva porque é organizada e filtrada através de mentes individuais, e não apesar desse fato; a interpretação subjetiva dá-lhe vida e sentido". (p. 117)

"Os fatos históricos são atemporais e descontínuos até serem entrelaçados em histórias". (p. 119)

"Enquanto a narração histórica é unidimensional, o passado é multiforme, muito mais complexo do que qualquer enredo sequencial". (p. 124)

  • História e cronologia:

"… somente a imprensa e a expansão da escrita asseguram a aceitação e fixação da ordem temporal". (p. 121)

"Gráficos que ordenavam numa coluna cronológica faraós, reis e presidentes e, em outra, descobertas, invenções, poetas e pintores, embalaram a crença de que toda a história era passível de ser conhecida, visto que podia ser tratada". (p. 122)

  • História e literatura:

"As pérolas mais translúcidas da narrativa histórica são, com frequência, encontradas na ficção que é, há muito tempo, componente importante para a compreensão histórica". (p. 126)

"A separação entre narrativa histórica e ficcional foi um subproduto do final da Renascença, voltada para a veracidade e precisão das fontes históricas". (p. 127)

"Foi-se o tempo linear da ficção do século XIX; flashbacks, rasgos de consciência, duplicidade de narradores e múltiplos finais agora decompõem a temporalidade". (p. 131)

"Reaver o passado através de visões, sons e odores revividos foi tema de fundo da literatura do século XIX". (p. 169)

"… não existe história, apenas ficções de graus variados de plausibilidade". (p. 132)

  • Separação – ou abismo mental – entre passado e presente:

"Mas o caráter estrangeiro do passado somente veio a ser amplamente reconhecido e aceito próximo à virada deste século, quando uma 'muralha da China' entre o passado e o presente foi levantada" (p. 140)

"O passado que reconstruímos é mais coerente do que foi o passado à época dos acontecimentos" (p. 142) "A história, ainda mais que a memória, esclarece, ordena elucida".

"E da mesma forma que o pensamento do presente molda o passado conhecido, a percepção do passado inunda o presente". (p. 143) "Somente a partir dos últimos séculos é que descrever o passado como ele realmente foi tornou-se a incumbência principal de alguns historiadores". (p. 145)

  • Relíquias

 

"… nenhum objeto ou vestígio físico são guias autônomos para épocas remotas; eles iluminam o passado apenas quando já sabemos que eles lhe pertencem. A memória e a história escolhem apenas determinadas coisas como relíquias…". (p. 149) "As relíquias sucumbem ao desgaste de significado como também de importância".

"As relíquias nos oferecem apenas conjecturas sobre comportamentos e convicções; para demonstrar reações e motivos do passado, os artefatos precisam ser ampliados por relatos e reminiscências". (p. 156)

"O passado tangível está em fluxo contínuo, modificando, envelhecendo, renovando e sempre interagindo com o presente". (p. 165) "História e memória geralmente surgem na forma de histórias que a mente precisa filtrar deliberadamente; os fragmentos físicos permanecem diretamente ao alcance de nossos sentidos". (p. 159)

Edição Final: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.