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José Lins do Rego, homem das letras e dos desportos (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''José Lins do Rego via os jogadores não só como atletas, mas como atletas-soldados…''

Em um caminho análogo ao de Villa-Lobos e ao de vários modernistas, José Lins do Rego irá exercer suas funções nos órgãos estatais representativos dos esportes. A ética será uma questão basilar no desempenho de seu cargo e terá repercussão em seus apontamentos como cronista esportivo. José Lins do Rego endossava a ideia que chegava ao Brasil desde o início do século XX, que atravessava a visão otimista de Coelho Neto e que seria consolidada pela atividade de Mário Filho, segundo a qual o futebol era um esporte moderno, promotor de civilização.

Nos moldes idealizados pelos europeus, compartilhava-se a crença no aperfeiçoamento do indivíduo e na afirmação nacional por meio dos esportes. Os esportes estimulavam a um só tempo a educação física e o espírito cívico, tornando possível a equiparação da nação brasileira aos países civilizados da Europa.

Todo o universo do futebol seria perpassado pelos aspectos pedagógicos, disciplinares e propedêuticos da moral esportiva: jogadores, torcedores, técnicos, cronistas e dirigentes. Aos jogadores, caberiam vários procedimentos, que iam do empenho e da ascese nos treinos à lealdade e à humildade nas partidas; aos torcedores, caberia a contenção de seus ímpetos instintivos e de sua propensão à violência, sabendo perder e vencer conforme as circunstâncias; aos técnicos, caberia a diligência e a capacidade de comando; aos cronistas, malgrado suas inclinações clubísticas, caberia o senso de justiça e o cultivo da verdade; finalmente, aos dirigentes, caberia a probidade e a retidão inerentes à conduta de homens públicos.

Todos esses requisitos eram esperados no mundo do futebol. José Lins do Rego, consciente de suas atribuições como dirigente esportivo, enfatizava tais posturas e padrões de comportamento. Na condição de representantes da nação, José Lins do Rego via os jogadores não só como atletas, mas como atletas-soldados, expressão utilizada por José Lins do Rego em reportagem de primeira página do Jornal dos Sports do dia 07 de janeiro de 1945.

Assim se expressou por ocasião do campeonato sul-americano daquele ano, no Chile, quando assume a chefia da delegação brasileira, em sua fase preparatória, na cidade de Caxambu, em Minas Gerais, famosa por sua estação hidromineral. Neste sentido, a expressão atleta-soldado era tomada no sentido quase literal do termo, na medida em que, naquele período pós-45, José Lins do Rego saudava em suas crônicas jogadores como Perácio, recém-chegado da Segunda Guerra Mundial, na condição de pracinha da FEB (Força Expedicionária Brasileira).

Além da disciplina, o fator que condicionava a atuação dos jogadores era o espírito coletivo de fervor cívico, de representação nacional e de construção de uma imagem do país no exterior. A competição significava não apenas a disputa de um sucesso esportivo, mas, acima de tudo, a possibilidade de afirmação da nação brasileira.

José Lins do Rego via-se, dessa maneira, muitas vezes dividido entre a razão e a emoção, entre o seu papel social e a sua inclinação individual. Dada a sua posição de dirigente das entidades esportivas mais importantes do período, como a CBD e o CND, era a razão quem o guiava. A ética, o interesse público e o espírito cívico deviam orientar as ponderações do cronista a fim de que o futebol fosse um exemplo dos nossos padrões civilizatórios. A dimensão pedagógica e moral do futebol não poderia nunca ser deixada de lado, tendo em vista que ela contribuía para manter o senso de justiça e de racionalidade inerente aos princípios do esporte moderno.

O cronista esportivo possuía, para ele, uma função análoga à do homem público e à do legislador que, em sua atividade política e jurídica, deve se mostrar apto a discernir o que é justo do que é injusto, o probo do ímprobo, o lícito do ilícito; o cronista esportivo possuía ainda uma função análoga à do crítico, seja ele de literatura, de cinema ou de artes em geral – funções, diga-se de passagem, exercidas por José Lins do Rego no Rio de Janeiro –, que em sua atividade judicativa deve-se ater às qualidades intrínsecas à obra, sem se deixar afetar e embotar por veleidades de ordem pessoal.

Nesse sentido, em crônica intitulada Em honra do cronista, datada de 26 de agosto de 1952 e publicada no Jornal dos Sports, José Lins do Rego arrolava os itens imprescindíveis à cobertura ideal de uma partida de futebol: 1º) equilíbrio no desenrolar dos fatos; 2º) honestidade de crítica; 3º) modéstia do cronista.

A criação de uma crônica esportiva nos moldes preconizados pelo jornalismo de Mário Filho na década de 1930 estimulava o estabelecimento de uma relação dialógica entre o cronista e o leitor. A crônica esportiva constituía assim um espaço mais direto de mediação e de interlocução entre esses dois polos integrantes do universo esportivo e ademais dava oportunidade para a troca de contato do cronista com uma pluralidade de visões acerca de suas matérias e de seus comentários sobre as partidas de futebol.

Em outras palavras, tal relação facultava uma espécie de fórum público de opiniões, de bate-papo, de “conversa fiada” ou ainda de “cumplicidade lúdica”, segundo expressão do historiador Ilmar Rohloff de Mattos. Trata-se de marcas peculiares da crônica como gênero a um só tempo literário e jornalístico, numa postura espontânea, despojada e recreativa que pode encontrar paralelo e termo de comparação na prática esportiva com a ideia de pelada ou de bate-bola informal.

Esse processo vai ter seus desdobramentos nas décadas de 1940 e 1950 com a fixação da crônica esportiva como um gênero com formato próprio e com feição específica. Para tanto, Mário Filho vale-se de figuras de destaque na composição de sua equipe de cronistas no Jornal dos Sports. O staff incluía repórteres de alto gabarito, como Antônio Olinto, Dão, Geraldo Romualdo da Silva, Pedro Nunes e Leonam Pena – este último autor de um pioneiro Dicionário popular de futebol: o ABC das arquibancadas (1951), em que, após uma pesquisa de 7 anos, coligiu e incorporou ao léxico esportivo uma vasta quantidade de locuções futebolísticas, num empreendimento que Mário Filho chamou de “o registro civil da gíria”.

O jornal também abrangia conhecedores da crônica esportiva internacional, como Albert Laurence, Giampoli Pereira e Willy Meisl. Este último, austríaco naturalizado inglês, amigo de José Lins do Rego, publicou em 1955 o negligenciado clássico Soccer revolution. Nele, segundo o sociólogo Richard Giulianotti, o autor sustenta a tese de que o declínio internacional do futebol britânico nas décadas de 1930 e 1940 ocorreu em função do seu isolamento político e do seu insulamento esportivo perante a FIFA e os campeonatos intercontinentais.

O Jornal dos Sports incluía também em sua equipe caso singular de uma cronista esportiva, Florita Costa, mulher de Flávio Costa, o famoso técnico do Flamengo, do Vasco da Gama e da seleção brasileira. O elenco compreendia ainda prestigiados dirigentes das entidades desportivas nacionais, como João Lyra Filho, Mário Pollo e Vargas Netto, este último também escritor e sobrinho de Getúlio Vargas, o que conferia um peso ainda maior para a promoção da crônica esportiva e para a efetivação de um canal mais direto de comunicação não só entre o torcedor e o cronista, como entre o torcedor e os principais representantes políticos do futebol brasileiro.

Observe-se que o difuso pensamento sociológico ou para-sociológico de João Lyra Filho, citado acima, foi estudado por Simoni Lahud Guedes (1999). Em seu estudo, a antropóloga baseia-se em dois livros publicados pelo ex-presidente do Conselho Nacional de Desportos, Taça do mundo – 1954 e Introdução à sociologia dos desportos (1973). Já na pesquisa que realizamos juntos aos periódicos do Jornal dos Sports, encontramos um artigo de Lyra Filho, “Sinais de sociologia desportiva”, publicado a 10 de abril de 1949, que muito contribui para a compreensão das influências intelectuais de sua geração à época, em que saltam à vista as referências a Gilberto Freyre e a Oliveira Viana.

Destarte, nosso ponto central assinala que escritores como José Lins do Rego eram a um tempo cartolas e epígonos desse específico projeto de crônica esportiva pautado por Mário Filho. Este, aos poucos, vai-se tornando hegemônico nos periódicos cariocas. Mais do que implicações quanto à dominação política, cumpre verificar que, do ponto de vista do desenvolvimento de uma crônica esportiva moderna, estes cronistas encontravam oportunidade para forjar um estilo narrativo próprio, para refletir de forma livre sobre temas os mais variados e para exprimir alguns aspectos de sua própria personalidade.

À crônica objetiva, fria e impessoal das primeiras décadas do século, limitada à informação, sobrepunha-se, então, nas décadas de 1930, 1940 e 1950, uma crônica esportiva de cunho pessoal, abrindo margem para a narração, para a manifestação da subjetividade do cronista e para a formação de um estilo característico de cada um deles.

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego, homem das letras e dos desportos (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''José Lins do Rego foi assim tornando-se, pouco a pouco, um homem dos desportos.''

A trajetória de José Lins do Rego contém uma faceta menos conhecida. Ela compreende o homem de letras que se volta à política dos desportos, à crônica – sendo esta herdeira do folhetim francês – e em particular à crônica esportiva. Na coluna de hoje, e da próxima quinzena, vamos nos dedicar a apresentar não o romancista do ciclo açucareiro nordestino, mas o cronista urbano, cuja importância advém do fato de ser previamente um escritor reconhecido, vinculado a círculos importantes da literatura brasileira, que se volta à crônica sobre esportes em determinado momento de sua vida no Rio de Janeiro.

A carreira de José Lins do Rego na passagem do romance à crônica e, em seu caso particular, à crônica esportiva, revela-se exemplar nesse sentido. Ligado no início de sua carreira jornalística, durante a década de 1920 em Pernambuco e Alagoas, à polêmica literária e ao panfleto político, veio a aflorar em José Lins do Rego no início da década de 1930 a vocação literária de romancista.

Com uma obra serial e opulenta, os romances de José Lins do Rego compreendiam todo um painel histórico da região nordestina, todo um retrato psicológico de seus tipos sociais mais característicos e todo um quadro político, econômico e cultural. Ao longo dos anos de 1930, eles foram dando corpo ficcional à maior parte do “Ciclo da Cana de Açúcar” e do “Ciclo do Misticismo, do Cangaço e da Seca”.

Além da recepção crítica abonadora de membros da Academia Brasileira de Letras e do acolhimento editorial de José Olympio, durante décadas editor de ponta no país, a publicação ininterrupta de seus romances fez extrapolar os limites provincianos do romancista paraibano e, ainda na década de 1930, transfere-se de maneira definitiva para o Rio de Janeiro.

É no Rio de Janeiro das décadas de 1940 e 1950 que a publicação das obras ficcionais do escritor paraibano torna-se menos intensa e mais intermitente, dando margem ao reaparecimento da figura de José Lins do Rego como cronista e possibilitando o surgimento de uma nova faceta de sua personalidade: a de cronista esportivo.

Se o autor já exercia a atividade de colunista nos principais jornais de Recife e de Maceió nas décadas de 1920 e 1930, esse ofício volta a se ampliar no Rio de Janeiro, onde chega a colaborar regularmente em três periódicos da cidade, dentre eles O Globo, O Jornal, Jornal dos Sports, além da revista O Cruzeiro e da crônica radiofônica diária.

Discorrendo sobre os mais diversos assuntos, como a poesia e a pintura, o cinema e a música, a história e a política, o cronista registrava também em sua tradicional coluna dos Diários Associados, “Conversa de lotação”, suas impressões sobre o cotidiano do habitante da cidade, não deixando nunca de cultuar um estilo simples, franco e despojado, sem sofisticações gramaticais e sem artifícios de linguagem.

Frente ao homem de gabinete, típico do bacharelismo, a crônica de José Lins do Rego fazia emergir o homem de rua, tão cultuado pelo modernismo. E, em contraposição ao romance marcado pela atmosfera da introspecção psicológica e da decadência social, a sua crônica afirmava o envolvimento com a cidade, com a vida coletiva e com o tempo presente, em seus aspectos mais prosaicos, circunstanciais e comezinhos.

José Lins do Rego foi assim tornando-se, pouco a pouco, um homem dos desportos. Embora a sua atuação não tenha sido concebida de antemão, a inserção no universo esportivo e sua rede de sociabilidade na capital da República levaram-no à ocupação de cargos nas principais entidades representativas do futebol. À maneira de outro modernista, o poeta, editor e amigo Augusto Frederico Schmidt, que dirigiu o Botafogo, José Lins do Rego esteve à frente da direção do Clube de Regatas do Flamengo entre 1939 e 1944.

Quanto a este clube, mencione-se que Lins do Rego é inscrito como sócio contribuinte em 1939. Três anos mais tarde, torna-se secretário-geral do Flamengo e, em 1948, é sócio proprietário.

Já na Confederação Brasileira de Desportos, foi secretário-geral por várias vezes ao longo da década de 1940 e 1950, chegando à presidência interina da entidade durante breve intervalo de tempo. Foi ainda, nos estertores do Estado Novo, nomeado junto ao Conselho Nacional de Desportos entre 1944 e 1946, órgão atrelado ao Ministério da Educação e Cultura, presidido por Gustavo Capanema, que o encarregou, anos mais tarde, da chefia da viagem da seleção brasileira no Campeonato Sul-Americano de 1953, em Lima, no Peru. A sua nomeação deu-se por intermédio de Carlos Drummond de Andrade.

O Conselho Nacional de Desportos (CND) foi criado pelo Decreto nº 3.199, de 14 de abril de 1941, passando a vincular a organização de todas as atividades desportivas ao Estado. Órgão ligado ao Ministério da Educação e Saúde, era composto por cinco membros nomeados pelo presidente da República. Já a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), entidade privada, foi criada em 1914, com apoio de Lauro Muller, então Ministro das Relações Exteriores do Brasil.

Esse último dado parece-nos crucial para a compreensão do elo de uma importante cadeia nos anos de 1930 e 1940: os intelectuais modernistas, a esfera política e os círculos culturais. O eixo desta relação passava pela figura do ministro Gustavo Capanema, à frente do MES (Ministério da Educação e Saúde) entre 1934 e 1945, que abria espaço no governo Vargas para a atuação de um Villa-Lobos na música, de um Portinari na pintura, de um Mário de Andrade no patrimônio artístico.

No caso que aqui mais nos interessa, pouco mencionado, franqueava-se espaço também à presença de José Lins do Rego na política dos esportes. As práticas e as instituições desportivas eram assim reconhecidas no âmbito da educação e da cultura, numa fase em que vários modernistas, passada a voga libertária, preocupavam-se com questões pedagógicas e com problemas relacionados à construção da cultura nacional.

Assim Villa-Lobos se integra, como músico erudito associado ao Estado Novo, ao projeto educativo de levar às escolas a matéria-prima sonora do Brasil, segundo o compositor, resultado da confluência de sua natureza, de sua arte e de seu povo. Os cantos orfeônicos destinados às crianças brasileiras reuniam as peças do cancioneiro popular e os repertórios do folclore infantil, em espaços públicos esportivos grandiosos, como o Estádio de São Januário. Faziam-se presentes milhares de vozes que cantavam em uníssono, num espetáculo de uma grandiloquência típica das paradas militares e dos rituais oficiais da sociedade de massas.

Villa-Lobos percebia a educação musical como um instrumento cívico de formação da infância e da juventude. A música apurava os sentidos, ao mesmo tempo em que desenvolvia os valores da nacionalidade e cumpria o seu papel de integração social, unindo, como queira Oswald de Andrade em seu manifesto poético Pau-Brasil, “a escola e a floresta”, ou, nos termos referidos pela sua biógrafa Maria Eugênia Boaventura, “o salão e a selva”.

Edição      Enrique Shiguematu

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Uma historiografia do Iluminismo (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Este assim se encontra apesar de toda a modernização produzida pelos déspotas esclarecidos…''

Para além dos homens e das sociedades ideais projetadas pelos grandes pensadores iluministas, o que dizer da realidade dos grupos e da massa anônima que vivia à época do Iluminismo? É esta a questão de fundo que perpassa a obra coletiva organizada por Michel Vovelle (1996), na qual o historiador francês periodiza o Iluminismo como o momento que se interpõe entre a ruptura do Barroco na era pós-tridentina e os efeitos paroxísticos produzidos pela Revolução francesa, com sua “pá de cal” no que se passa a denominar de estrutura política do Antigo Regime.

Apesar dessa periodização preliminar e desse vínculo social, a obra coordenada por Vovelle não se constitui à maneira, dir-se-ia um tanto apelativa, de uma “história vista de baixo”, oferecendo um perfil de personagens em sua maioria pertencentes à elite, em lista que inclui o nobre, o guerreiro, o homem de negócios, o homem de letras, o homem de ciência, o artista, o explorador, o funcionário, o padre e a mulher.

Junto ao quadro humano e social, seria o caso também de se colocar a polêmica questão proposta por Roland Mousnier na década de 1950, acerca da natureza da sociedade setecentista. Afinal, pergunta o historiador francês, num diálogo com teorias marxistas e weberianas, trata-se de uma organização social baseada ainda em estamentos/ordens ou já estruturada em classes?

Não se trata, portanto, em nenhum dos dois autores, de interrogar o homem das Luzes em sua formulação ideal. Mais do que o homem abstrato e geral definido e fixado pelo Iluminismo na Enciclopédia, mais do que prescrever valores e virtudes, do que postular a liberdade do direito natural, busca-se o homem concreto e particular de uma Europa dividida entre campo e cidade, entre letrados e analfabetos, entre hierarquias de nobreza e desejos de ascensão social, entre sistemas políticos monárquicos e aspirações republicanas, entre defensores da fisiocracia e da economia política, entre guerras e epidemias.

Para compreender a realidade e a nova configuração da ordem social, é preciso fornecer um quadro demográfico da Europa do Setecentos, o que é possível aferir graças aos estudos quantitativos de um Labrousse, de um Mandrou (1988), de um Mousnier (1980). O crescimento demográfico, sobretudo na segunda metade do século XVIII, conforme sintetiza com clareza Hobsbawm em sua era revolucionária (2006), se mostra sensível na Inglaterra e na França, que passa de 20 para 28 milhões de habitantes, e alcança a Europa central e oriental – a Hungria, por exemplo, assiste a uma explosão populacional. As causas deste crescimento, segundo Vovelle, se encontram menos no controle das doenças e no avanço da medicina e das vacinas, e mais no recuo das epidemias, com a superação das taxas de natalidade sobre a mortalidade, o que vem a relativizar a ideia de uma consequência direta da política voluntarista dos agentes das Luzes.

Nas regiões urbanas consideradas mais evoluídas e prósperas da Europa, as atitudes coletivas face ao nascimento, à vida, à sexualidade e à morte começam a mudar. Para além da história quantitativa, é Phillipe Ariès (1975) quem estuda a figura da criança no seio da família burguesa e sua mudança de papel, adquirindo cada vez mais importância como uma idade especial e autônoma frente à vida adulta. A estrutura familiar se transforma pouco a pouco nessas regiões centrais, onde práticas como a contracepção são adotadas, notadamente a partir da década de 1770.

Contudo, deve-se assinalar que, por ocasião da Revolução Francesa, cerca de 85% da população se encontra concentrada ainda no campo. Embora já seja objeto de idealização por autores como Jules Michelet e Restif de la Bretonne, o que se pode constatar de maneira concreta é o crescimento da população e a ampliação de áreas cultiváveis. Em determinados lugares da Europa, chega a se falar em Revolução Agrícola: da Inglaterra aos Flandres, de certas áreas da França até o Rio Pó. Na Europa oriental, o cultivo de cereais também alcança vastos domínios.

A condição camponesa não acompanha no mesmo ritmo as conquistas técnicas agrícolas do mundo rural. Na França da segunda metade do século XVIII, o salário encontra-se estagnado. Os quadros senhoriais tradicionais permanecem inalterados. A Inglaterra, contudo, é quem começa a sinalizar para um sistema feudal em desagregação e já moribundo. Enquanto isto, o leste europeu conhece a época de sua “segunda servidão”, com o reforço dos laços de servidão.

Assim, a Revolução Industrial já está em curso nas ilhas britânicas, com formas de protoindustrialização sendo introduzidas na Europa ocidental. As inovações são mais notáveis no campo do que na cidade. Esta assiste a novos processos de dependência, com a decomposição de antigas solidariedades corporativas, cada vez mais influenciadas pelo progresso comercial e fabril. Por outro lado, para Pierre Chaunu, nem o campo nem a cidade conhecem ainda uma verdadeira revolução. Fazendo eco a este historiador, Labrousse considera que, apesar da entrada da máquina no mundo industrial do têxtil e da metalurgia, o século das Luzes é ainda movido pelo sistema de produção antigo. É certo, de todo modo, que a nova era já apresenta seus sinais no mundo urbano de Londres ou Paris, nas grandes cidades portuárias, bem como no comércio transoceânico.

A imagem da cidade entre os contemporâneos é ambígua. Ela é vista como lugar de perdição, da mesma maneira que espetáculo de luxo e miséria, corrompida sob diversos aspectos, com seu vapor poluente. Lugar de residência da aristocracia e da burguesia, ela apenas pouco a pouco se afirma na Europa ocidental, com novos hábitos, novas maneiras de ser e aparecer, tal como estudadas por Daniel Roche e Arlette Farge. A despeito das estruturas que permanecem imutáveis, como as guildas e as corporações, a modernidade pavimenta seu caminho.

Em relação a um dos símbolos do século das Luzes, a difusão da cultura letrada, Michel Vovelle contrapõe um noroeste da Europa majoritariamente letrado, fronteira que se estende da França setentrional até Genebra, a uma Europa meridional e, progressivamente menos letrada, do oeste ao leste europeu. Este assim se encontra apesar de toda a modernização produzida pelos déspotas esclarecidos na Rússia (Catarina), na Prússia (Frederico II) e no Império Austro-Húngaro (José II).

A grande extensão territorial que resta à margem do movimento das Luzes não deixa de conhecer transformações, conforme sustenta Maurice Agulhon, com uma evolução interna no sentido da secularização, em áreas onde predominavam as penitências e as confrarias religiosas. O terreno religioso é, aliás, um dos principais campos de batalha dos iluministas e incide mais sobre homens do que sobre mulheres, mais nas cidades do que no campo.

Ainda de acordo com Vovelle, o contraste de realidades europeias permite afirmar que a estabilidade das estruturas religiosas profundas coexiste com um mundo mais povoado, mais movimentado, onde a modernidade abre seu caminho através de novas maneiras de produzir, de ser e de parecer, mobilidade refletida nas atitudes e nas representações coletivas. No domínio cultural, como na economia e na sociedade, os polos de difusão das novidades se esboçam, em meio a zonas de sombra. Assim, uma cidade nova a ser criada, unificada segundo normas inéditas, se oferece à iniciativa voluntarista dos novos atores da transformação social e intelectual.

Esses, os homens das Luzes, trazem à cena uma temática que se divide entre o antigo e o novo, a liberdade e a opressão, a natureza e a história, a razão e o despotismo, a virtude e a libertinagem, o mérito e o ócio.

Edição      Enrique Shiguematu

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Uma historiografia do iluminismo (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

O século XVIII é conhecido pela historiografia tradicional por ter colocado o homem no centro de sua visão de mundo e organizado em torno dele a sua reflexão. A centúria retoma assim, à sua maneira, um dos princípios preconizados pelo classicismo no século XVI, depois de ter assistido, com o advento do Barroco àquilo que o historiador francês Paul Hazard (1961) chamou de “crise da consciência europeia”, entre 1680 e 1715. O Iluminismo representaria, portanto, a culminância de um movimento artístico-intelectual iniciado com o Renascimento, o que, todavia, não constitui um consenso, conforme pontua o professor Francisco Falcon (2004), em livro introdutório e homônimo: “Iluminismo” (Editora Ática).

Enquanto o historiador francês Pierre Chaunu (1971) vê o século das Luzes como ponto de chegada, como prolongamento da Idade clássica, outros postulam o “glorioso século XVIII” como ponto de partida para aquilo que se convencionou chamar modernidade. Esta consistiria no esvaziamento da plenitude metafísica de tempo e espaço, na invenção da ideia de progresso e na construção de uma ordem social que procura imitar as leis da ordem natural.

Mas, como se sabe, essa imitação só seria possível através do conhecimento da perfeição das leis da natureza, conforme já fizera a Revolução Científica do século XVII – Copérnico, Bacon, Descartes, Galileu, Brahe – o que reenvia à ligação com o passado assinalado por Chaunu. Em seu projeto de edificação social, os philosophes acreditaram ser possível conhecer as leis da sociedade e dotar o mundo urbano da mesma inteligibilidade racional própria e inerente ao mundo natural.

Antes dos iluministas franceses, os teóricos do liberalismo inglês vão considerar a natureza humana como a base dos direitos e das liberdades do indivíduo e como o ponto de partida da construção de uma nova ordem social em oposição ao mundo feudal, à ordem teocrática medieval e à monarquia absoluta.

Já a filosofia francesa, mais do que a reflexão transcendental, buscava reunir e sistematizar todo o conjunto de saberes e ensinamentos universais adquiridos e produzidos pela humanidade até o século XVIII. Visava, a partir deste saber, irradiá-lo para todo o globo e transmiti-lo sob a forma da universalização da proporcionada pela pedagogia e pela educação. Isto se concretizaria através da Enciclopédia, série de 30 volumes publicados a partir de 1751 por Diderot e D’Alembert.

Quer como continuidade quer como ruptura, o encadeamento temporal do século das Luzes na História moderna suscita polêmica. Em relação à ideia de continuidade, é o sociólogo inglês Geoffrey Hawthorn (1982), no livro “Iluminismo e dúvida”, quem aponta para um certo esquematismo presente na historiografia que convencionou apresentar a Revolução Científica, e aquilo que aconteceu entre os séculos XV e XVIII, como um progressivo embate entre Fé, de um lado, e Razão, de outro. A seu juízo, nada mais esquemático e simplificador.  De fato, segue ele, o Iluminismo lutou com todas as suas forças contra a superstição e o obscurantismo, mas é preciso frisar o quanto, desde a Renascença, a lei natural e a lei divina estão separadas, porém integradas.

O argumento central de Hawthorn é o de que há um deslocamento sutil no discurso que equaciona Deus, Natureza e Razão, de maneira que o primeiro elemento, antes separado, superior e anterior ao segundo, passa pouco a pouco a ser expressão deste, o que justifica e autoriza o conhecimento divino por intermédio do conhecimento natural.

Foi observado também que não é possível pensar numa homogeneidade exclusiva francesa em relação ao Iluminismo, posto que há inúmeras variáveis histórico-culturais importantes a serem consideradas, sobretudo três: a) O privilégio no racionalismo, com a elaboração de quadro conceituais e sistemáticos dedutivos, versus o privilégio no empirismo, em que a realidade empírica permite a indução e a generalização de teorias; b) as diferenças religiosas na Europa, entre católicos e protestantes, e suas especificidades na relação com o saber; c) as tradições políticas e a base social de cada país, com o predomínio seja da nobreza no caso francês, seja da burguesia no caso inglês.

Dito isso, o autor busca pensar as teorias sociais formuladas pelos autores ligados ao Iluminismo, como Montesquieu e Rousseau, que fornecem respostas a uma pergunta fundamental: se a natureza é uma expressão divina e se cabe ao homem conhecer a natureza, qual o lugar do Homem na Natureza, aqui no caso extensível ao que se concebe por Sociedade?

A indagação de Hawthorn implica uma antiga questão moral, junto a uma questão científica. Montesquieu, nobre barão de uma província francesa, em O Espírito das Leis (1748), se propõe a pensar na existência de uma lei e de uma justiça universais, mas percebe que as variações locais implicam em leis e justiças particulares. As variantes locais derivam de diferenças manifestadas no temperamento entre os homens, por sua vez originadas das oscilações naturais, em fatores como o clima. Tem-se aí esboçada uma distinção entre o universal e o relativo, ainda que escorada no determinismo climático.

Já o lugar do homem na natureza, segundo o sistema rousseauniano, está relacionado à ideia de um contrato social e de uma liberdade civil, que entende não ser mais possível um refúgio na natureza primitiva do homem selvagem. Embora seja o homem corrompido pela sociedade, enquanto um “bom selvagem” vive à margem dela, sem seus vícios, a humanidade passou por 4 estágios, a partir dos quais conheceu a moral, o bem e o mal. Sendo assim, não cabe regredir a um passado idílico, nem é possível simplesmente abolir o mal.

A relação do homem com a natureza, por abrir mão de suas vontades meramente instintivas e individualistas, tem de fundar uma ordem social em que o ser humano seja consciente de seus direitos e deveres para com o outro e para consigo mesmo. Esta necessidade enseja o surgimento da democracia representativa e do sistema parlamentar, através do estabelecimento de constituições e de cartas de direitos civis.

Edição      Enrique Shiguematu

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As cidades europeias na Época Moderna (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

A alfabetização é diretamente superior em cidades onde aparece uma geografia mais urbanizada.

Entre as múltiplas funções das cidades, emerge na Europa moderna uma tripla hierarquia – religiosa, judiciária e administrativa. Esta hierarquização compreendia as instituições de comando, ocupada por intendentes, oficiais de justiça e de finanças, até escrivães de polícia. Por volta de 1715, o reinado da França compreendia 128 sedes episcopais, treze parlamentos, dez câmaras de contas, quatro cortes de ajuda, duas cortes de moeda, 31 intendências, dezessete universidades, cem tribunais de justiça e quatrocentas sedes administrativas.

A título de exemplo, a comuna francesa Le Puy, com população em torno de quinze mil habitantes, que compreende um artesanato numeroso e múltiplas atividades de fraca envergadura, é dominada pelo padre, pelo tribunal de justiça e por alguns negociantes. As cidades de fronteira têm com frequência uma função militar, supervisionadas em geral pelo arquiteto francês Vauban (1633-1707), enquanto as cidades portuárias tinham uma vocação comercial que vinha do período medieval, como as várias cidades atravessadas por rios – Orléans, Tours (cidade têxtil) e Lyon, por exemplo. A atividade industrial permanece na esteira do comércio, como em Amiens e Beauvais.

Os limites da paisagem urbana explicam o pequeno número de criações nas cidades, concentradas na segunda metade do século XVII. Trata-se de praças bem demarcadas, como um tabuleiro de xadrez, em fronteiras como a Lorena, a Alsácia, os Alpes e os Pireneus. Nenhuma dessas cidades-casernas conheceu um desenvolvimento demográfico. Novos portos, no entanto, são criados: Brest, Lorient, Rochefort e Sète. Mas as únicas cidades realmente prósperas são Versalhes, com 25 mil habitantes em 1715, e dois portos na Bretanha: Brest, uma base militar, e Lorient, um entreposto.

Todos os dois são cidades coloniais, pela justaposição de bairros baixos bretões, habitados por camponeses e analfabetos, e de bairros franceses, com sua elite dirigente e citadina vinda de longe. Nas cidades antigas, os muros fortificados permitem apenas uma remodelagem mais ou menos importante. Mas, se durante o primeiro terço do século XVII numerosos trabalhos foram feitos para consolidar o entorno das cidades, em Paris Vauban empreendeu um trabalho de derrubada de seus muros de pedra. As mudanças são possíveis pelo loteamento de grandes partes e pela construção a partir de então em vertical.

Mas os intendentes limitam a autonomia de decisão dos magistrados em relação ao traçado das ruas, à definição da arquitetura e à estética dos edifícios. O alargamento era às vezes decidido pelo próprio poder monárquico, as ampliações mais importantes sendo aquelas ocorridas em Lille e Marselha, onde as cartografias de 1666 previam a duplicação da superfície pela extensão a leste e a sul. Estas decisões permitiam a abertura do tecido urbano, mas somente uma minoria de privilegiados se instalava na nova zona: mercadores, oficiais, entre outros. Assiste-se à incorporação dos subúrbios em Tours e Aix-en-Provence, e à extensão do espaço aplainado em Grenoble e Toulon.

De maneira geral, essa política visa a reforçar as fortificações, a defender a cidade contra as epidemias e a conferir mais dignidade à ordem urbana. Enfim, a estreiteza da praça disponível impedia edifícios altos, com um máximo de quatro andares, e a construção de casas novas. Uma das mudanças arquitetônicas do Seiscentos é a substituição da madeira pela pedra, por causas econômicas e psicológicas que decorrem do prestígio do modelo parisiense. Em Paris, uma das inovações é a criação da Praça Real – atual Praça de Voges – construída como um lugar de habitação para a elite e como um espaço ritual para a celebração da monarquia. Antes de construir a praça, algumas cidades fazem a estátua de Luís XIV. Duas ordens sociais têm papel ativo na arquitetura urbana: o clero e a nobreza.

A Reforma Católica influencia uma construção religiosa ativa, com seu tempo forte situado entre 1600 e 1650. A atividade se traduz, sobretudo, na criação de numerosas casas religiosas, que modificam a decoração da cidade e alteram os modos de ocupação de terrenos próximos. Já o habitat aristocrático conhece uma significativa mutação: isolamento das construções vizinhas, sendo que o domicílio sobre a rua é substituído por um muro e um portão, no interior do qual se localiza a casa.

Os corpos oficiais municipais se caracterizam no século XVII pela intervenção crescente do poder central e por um aprofundamento das diferenças sociais. As instituições se organizam segundo formas diversas. Um pouco por toda a parte, o poder urbano é distribuído de maneira desigual entre um corpo restrito de cônsules e de magistrados e um conselho submetido ao poder central. O assento eleitoral dos cônsules e dos magistrados é reduzido em todas as províncias francesas. Entre as competências municipais, a preocupação fiscal é obsessiva. Os outros setores dizem respeito à assistência, aos fiscais das vias de ligação entre cidades e aos fiscais de impostos. Em algumas cidades, as funções administrativas são enobrecidas, com a formação de uma nobreza municipal.

A tutela monárquica se traduz na modificação autoritária de numerosas constituições urbanas, seja no momento seguinte à Liga católica, seja nas cidades rebeladas após da guerra civil da Fronde (1648-1653), como Marselha, seja nas cidades anexadas ao Reinado, como Lille e Besançon. O poder Real aproveitava-se também das discórdias frequentes e dos endividamentos para reforçar seu controle. O século XVII assiste a uma degradação das liberdades municipais por etapas: pela redução do número de eleitores, depois pelo decréscimo de magistrados, enfim pela criação em 1692 de oficiais municipais estreitamente ligados à monarquia, o que deslegitima todos os antigos mecanismos de nomeação local.

Face à perda de poder das províncias, os magistrados reagem às vezes com uma afirmação simbólica da cidade, passando a valorizar a sede da prefeitura (o Hôtel de Ville), por exemplo. No século XVII, são construídos novos e numerosos prédios, que possuem em geral três novas características da ordem municipal: os sinos, os relógios e as decorações das salas interiores. Ao mesmo tempo, valoriza-se a memória e a história é percebida como cimento da consciência urbana, capaz de afirmar a ancestralidade da cidade e projetá-la como monumental.

No curso do século XVII, assiste-se a uma repressão progressiva a práticas de sociabilidade da juventude, com a reprovação das confrarias festivas e das sociedades báquicas. Uma nova prática social urbana surge nas camadas mais intelectualizadas: livrarias, salões, o cultivo da erudição e da amizade. Estas reuniões intelectuais fervilham no final do século com a criação das Academias, pontos de encontro e de socialização, onde inclusive as mulheres têm espaço, que se tornam espaços de distinção da elite francesa frente aos meios populares e que continuam presos à língua regional de origem.

A Igreja tridentina, por sua parte, esforça-se por controlar e frear os lazeres, multiplicando as procissões que dão ritmo às festividades e lutando contra a dança e a máscara carnavalesca. A festa urbana evolui da participação comunitária ao espetáculo consentido. As cerimônias, como as entradas reais, tendem a ser reduzidas a um fogo de artifício e a instituir uma ordem urbana em separado. O povo, que tinha um papel ativo nos jogos e nos espetáculos, passa a ser um simples espectador.

As elites começam a cultivar lazeres próprios, como o teatro de Molière, Racine e Corneille. As trupes itinerantes chamam a atenção da burguesia letrada e bem aquinhoada. Em contrapartida, os meios populares, segundo descrevem os célebres estudos de Mikhail Bakhtin (2002) e Peter Burke (1999), cultivavam de há muito a “cultura da praça”, em particular nos dias de feira, com as mostras de animais, com os malabaristas e com os teatros populares.

Uma das especificidades do século XVII é a forte progressão da cultura letrada no meio urbano, sob a forma de escolas e de livros, na sequência do advento da imprensa. Durante os primeiros decênios, coloca-se em ação uma rede de estabelecimentos de ensino religioso que privilegiam as cidades segundo as funções administrativas e eclesiásticas. Somente pequenos institutos são criados em cidades entre três e cinco mil habitantes. Nestes, o essencial da rede é constituído por jesuítas.

Os Colégios – lembre-se a criação do afamado Collège de France – tornam-se um privilégio urbano, pois o recrutamento é limitado e os alunos dos meios modestos são proporcionalmente menos numerosos, sobretudo depois de 1660. O ensino elementar assiste a uma notável impulsão nas cidades da Reforma Católica, que multiplicam as pequenas escolas, instituem o ensino caritativo gratuito para crianças pobres e beneficiam também, em 1700, as escolas de irmãos cristãos, em cerca de vinte cidades francesas. Surge também o ensino feminino assegurado por congregações para os meios modestos, as escolas ursulinas voltadas para a alta burguesia em uma centena de cidades.

A alfabetização é diretamente superior em cidades onde aparece uma geografia mais urbanizada. Em Amiens, os bairros de mercadores são mais alfabetizados que os bairros de trabalhadores. Em Rouen, percebe-se um decrescimento das taxas de alfabetização a partir do centro que assume a direção religiosa, administrativa e comercial.

Na França do Norte, menos de 50 a 75% da população urbana masculina é alfabetizada em 1700. A alfabetização favorece a imprensa, presente em 132 cidades em 1700, a circulação de livros de catecismo e de almanaques, as livrarias que se tornam espaço de sociabilidade e as bibliotecas no mundo da escrita e dos ofícios. Nos estratos mais largos, circulam livros populares difundidos sob a forma de folhetos – os “colportage” estudados por Robert Mandrou na chamada Bibliothèque Bleue de Troyes, conforme estudado por Jacques Revel – de maneira que, em 1700, o chamado processo de aculturação escrita é largamente adotado nas cidades.

Tal processo contribui para ampliar a dominação sobre o campo. A imigração rural torna-se uma necessidade que tende a manter o equilíbrio demográfico. O aumento da demografia acentua o problema da distribuição socioeconômica, regulada por um mercado mal organizado e frágil. O menor desregramento na produção é suscetível de gerar a carestia e a ausência de alimentos. As transferências urbanas são pesadas: em 1700, a cidade se atribui dois terços da renda fundiária, com vinte por cento da renda agrícola aos proprietários e detentores de direitos senhoriais e eclesiásticos. Numerosos citadinos compram títulos senhoriais, enquanto nobres tendem a se instalar na cidade que concentra o essencial dos meios de pagamento.

Segundo Roger Chartier, no século XVII a cidade é a sede de um poder de comando temporal e espiritual, com funções tanto econômicas quanto políticas, tanto psicológicas quanto culturais. Mais do que na produção, o ideal urbano assenta no aluguel da propriedade, na administração e na mercadoria, fonte de poder citadino.

Edição      Enrique Shiguematu

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O dia de ser feliz é hoje!
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Por Marcio Samia

No dia 20 de março, apesar de não ser amplamente divulgado, comemorou-se o dia mundial da felicidade. Como tenho escrito por aqui sobre vida criativa achei que poderia ser interessante abordar esse tema, especialmente porque no mesmo dia mundial da felicidade também se comemora um outro dia muito curioso: o dia nacional do contador de histórias.

Por esse motivo, peço licença para reproduzir aqui uma das histórias que meu avô contava, e que ouvi quando ainda era criança, lá em Minas Gerais na pequena cidade de Delfim Moreira, um vale encantado e habitado por lendas e causos que povoavam a imaginação das crianças daquele pedacinho esquecido de terra.

Ele contava que muito antigamente, lá quando Deus criou o homem, Ele o fez completamente à sua imagem e semelhança. Mas quando havia quase concluído sua tarefa, percebeu que tendo um corpo, força e inteligência semelhantes ao Seu, estaria na realidade criando deuses e, portanto, seria necessário retirar algo dessa divina criação, para que a obra se diferenciasse do Criador.

Resolveu então tirar a felicidade daquela criatura, mas restava agora decidir onde esconder aquele dom tão precioso, já que com a força e a vontade que deu ao homem, este poderia escalar até a mais alta das montanhas. Com a inteligência poderia criar alguma máquina que navegasse até os mais longínquos oceanos e até mesmo esconder em outro planeta seria inútil, pois a curiosidade e a ambição faria com certeza com que os seres humanos buscassem incessantemente a felicidade, onde quer que ela se encontrasse.

Após muito pensar, Deus sabiamente decidiu colocar a felicidade no único lugar onde o ser humano demoraria a encontrar – isso se encontrasse.

Buscando pelo dom em todos os lugares existentes (e até mesmo nos objetos), certamente demoraria muito até pensar que o único lugar onde de fato a felicidade poderia estar era dentro de si mesmo.

E desde então tem sido assim: o homem passa a vida toda buscando a felicidade em vários lugares / coisas / pessoas e se esquece de olhar para dentro de si, onde Deus guardou o dom de ser feliz.

.   .   .

Essa pequena história (e muitas outras que ouvíamos sentados ao lado do fogão a lenha ardendo em brasas), servia muito para que nossas noites sem energia elétrica ganhassem um pouco de iluminação. Assim iríamos deitar para dormir pensando em como era mais importante descobrir a felicidade em pequenas coisas, como subir num pé de jabuticaba ou na graça que tinha a risada sem dentes do vizinho ao lado, do que na frustração incessante de querer o brinquedo mais moderno que existisse no momento, já que não teríamos condições de adquiri-lo.

O tempo passou e a vida na cidade grande de São Paulo me fez entender o que é que meu avô estava preocupado em nos explicar naquelas palavras tão simples. Muitas vezes a vida e nosso meio nos cobram tanto que para “parecer” que estamos nos dando bem nos preocupamos demais com o que temos, mas aí acabamos deixando de lado o que somos. E junto com isso deixamos de nos alegrar com a incrível imagem de um pôr do sol na estrada porque estamos preocupados demais com outras coisas que temos que fazer depois, e aí não percebemos que depois pode ser tarde demais para um abraço, um beijo, um carinho… que o único dia que temos é hoje. E o único momento de ser feliz, é agora!

Edição: Enrique Shiguematu


As Cidades Européias na Época Moderna (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Londres, a propósito, contava quase seiscentos mil habitantes, ultrapassando Paris com 530 mil.

Segundo o historiador francês Bernard Vogler, a Europa de 1700 possuía dois agrupamentos urbanos principais: Flandres e o norte da Itália, este último acompanhado por índices de urbanização importantes. Na Europa central e oriental, em razão da presença germânica na direção leste, é possível assinalar a existência de um número elevado de grandes cidades – Praga, Viena, Breslau, Moscou, Belgrado –, com pelo menos mais de quarenta mil habitantes. No extremo oposto, nas ilhas britânicas e na Escandinávia, a rede urbana encontrava-se ainda pouco desenvolvida, à exceção de Londres, Dublin, Estocolmo e Copenhague.

Londres, a propósito, contava quase seiscentos mil habitantes, ultrapassando Paris com 530 mil. A terceira cidade europeia é Nápoles, com cerca de trezentos mil habitantes, seguida de várias cidades italianas com uma população em torno de cem mil, como Veneza, Milão, Roma e Palermo, todas cidades importantes do ponto de vista econômico. Sublinhem-se ainda cidades holandesas como Amsterdã, Leiden, Roterdã, Haarlem, Haia e Delft que, juntas, somam mais de quatrocentos mil habitantes, o que põe em evidência o importante papel urbano-comercial ocupado pelas Províncias Unidas à época.

As estruturas sociais, muito variáveis segundo as cidades e suas funções, se caracterizam por uma dupla natureza. Uma estrutura vertical, que tende a se diluir do topo à base, reúne os ofícios e as diversas corporações de trabalhadores, nos quais cada uma mantém seus próprios ritos, suas reuniões e suas festividades, que favorecem uma forte endogamia.

Na estrutura horizontal, existe uma divisão tripartite fundamental, que tende a se reforçar no decorrer do século. No topo, uma oligarquia urbana, principalmente composta de proprietários de terras, de negociantes e de oficiais, que constitui em geral menos de 10% da população. Esta minoria oligárquica é às vezes enfraquecida por rivalidades internas, como aquelas que dividiram negociantes na cidade portuária de Bordeaux, no sudoeste da França. Esta oligarquia obtém seus dividendos, domina o mundo intelectual e artístico e participa, por extensão, do poder real. Nas cidades parlamentares, o meio judiciário, que constitui entre 7 e 8% da população, detém entre um terço e a metade da riqueza.

Já as classes médias são representadas pelo artesanato e pelo pequeno comércio, enquanto os estratos inferiores, compostos por diaristas, empregados domésticos – muito numerosos e com frequência solteiros – e pobres, representando às vezes 50% da população. Estes se submetem ao subemprego, que atinge de 25 a 50% da dependência econômica, tendo de confrontar-se ainda às incertezas do futuro.

Segundo Vogler, esse é o quadro mais geral político-econômica que estrutura a sociedade urbana europeia do Ancien Régime. Numa palavra de síntese, o século XVII conhece uma consolidação da oligarquia – a despeito da crise aristocrática britânica estudada por Lawrence Stone (1965) –, um enfraquecimento da plebe e uma fragilização da classe média, sendo esta duramente atingida pelo incremento do fisco, levado a cabo pelo ministro francês, o Cardinal de Richelieu nos anos 1630. Em virtude disto, a tensão se acirra e as insurreições urbanas tornam-se numerosas. Face à pauperização, várias cidades colocam em prática o cercamento dos pobres, com êxitos diversos: trata-se de uma ação tripla, com vistas a isolá-los, a submetê-los ao trabalho e a evangelizá-los.

No caso específico das cidades francesas do Ancien Régime e de sua organização social, sobre as quais iremos nos deter nesta resposta, a importância de sua rede urbana provincial é evidenciada na medida em que 43 cidades, à exceção de Paris, ultrapassam a escala das dez mil pessoas. Em termos demográficos, o grupo mais importante aglutina entre 15 e 25 mil habitantes e, destes, a maioria não passa de vinte mil. As grandes capitais provinciais são em número de nove, sendo que apenas Lyon se aproxima da escala dos cem mil.

Na historiografia corrente, o século XVII aparece à primeira vista como um período de imobilidade. Apesar disto, é possível afirmar que as cidades conhecem mudanças consideráveis. Na França, em particular, sua população passa de 14% – aquela do reinado em 1600 –, para 17%, no fim da mesma centúria. Na base desta estrutura demográfica, encontra-se uma multidão de pequenos mercadores enraizados no meio rural, com um artesanato ativo. Estes mercados constituem dois níveis, um primeiro entre mil e dois mil habitantes e um segundo em torno de cinco mil habitantes. Tais cidades serviam tanto de residência para as elites quanto de mercado de troca entre produtos agrícolas e artesanais, que mais tarde vão dinamizar os primórdios no processo industrial na Grã-Bretanha.

Em nível de adensamento urbano superior, havia em 1700 cerca de sessenta cidades com mais de dez mil habitantes. Elas eram numerosas ao noroeste da França, ao longo dos grandes rios, assim como no lado do litoral mediterrâneo, como Marselha. A rede urbana geral variava segundo a região, sendo fraca em regiões montanhosas, mas forte no Languedoque, na Aquitânia, no corredor de rios como o Rhône e Saône, na bacia parisiense, na região de Flandres e na Alsácia. Na Bretanha, as cidades se caracterizavam por um policentrismo vigoroso.

As cidades em expansão eram grandes praças portuárias e comerciais do Atlântico, como Nantes e Marselha, e cidades com atribuições políticas, o que confirma o papel crescente do político. Neste ponto, entretanto, há uma divergência entre os historiadores franceses. Para Jean-Pierre Poussou (1983), que estudou a estrutura das cidades nas ilhas britânicas do século XVIII, a atividade urbana tem, primeiramente, um papel econômico, mesmo se Londres exerça uma função política de destaque. Poussou se opõe, desta maneira, ao pressuposto de Georges Duby (1980), para quem o papel primordial da cidade não é econômico, mas político. Para o organizador do compêndio História da França urbana, a cidade se distingue na paisagem e no meio que a circunda como um ponto de enraizamento do poder. O Estado assim engendra a cidade.

Não obstante, ainda em relação à França, seguindo o raciocínio de Vogler, que endossa a perspectiva de Duby, algumas localidades tornam-se centros regionais graças a funções políticas, como Grenoble e Brest. A hierarquia das grandes cidades se modifica ligeiramente com o recuo de Rouen e de Toulouse, e a subida de duas cidades recentemente anexadas, Lille e Estrasburgo, transformadas em capitais administrativas, mantenedoras da fronteira.

Após ter conhecido um ritmo de crescimento rápido no século XVI, as cidades francesas assistem a uma evolução mais diversificada e contrastada no século seguinte. A grande maioria das urbes da França se beneficia do desenvolvimento econômico na primeira metade do século, seguida de uma inflexão na segunda metade. A taxa de crescimento anual médio cai de 0,53% em 1600 para 0,19% na segunda metade do século. Entre as causas da redução, figuram as crises populacionais provocadas pela fome e pelas epidemias, mais mortais nas cidades que no campo. Cada crise atinge de 10 a 20% da população e interrompe seu dinamismo durante vários decênios.

De 1640 a 1700, a população de Rouen, por exemplo, cai de 75 para 60 mil e aquela de Angers assiste a uma redução de 34 para 30 mil entre 1650 e 1680. Uma das hipóteses para o recuo se liga à revogação do Édito de Nantes, em 1685, que provoca o êxodo massivo em certas cidades devido à presença huguenote e às guerras de Luís XIV.

As ameaças navais britânicas sobre as regiões costeiras da Picardia, da Normandia e da Bretanha, e as ameaças militares sobre as fronteiras de Lille a Berfort, provocam um esvaziamento dessas cidades. Dois comportamentos majoritários se esboçam: as cidades que tiveram um grande desenvolvimento no século XVI vão diminuir seu ritmo de crescimento, como no caso de Nantes, de Saint-Malo e de Grenoble, enquanto aquelas que tiveram apenas uma progressão lenta irão conhecer a estagnação. Algumas cidades antes dinâmicas tornam-se inativas, como Toulouse.

Edição      Enrique Shiguematu

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Walter Benjamin e Paul Zumthor (IV): ocaso da civilização escrita?
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

McLuhan aponta para o estágio atual de transição de uma Era Mecânica, assentada no livro, a uma Era Eletrônica, alicerçada na televisão.

“… as relações de comunicação constituem

a estrutura de sustentação e desenvolvimento

de todo o processo da história”.

In: Civilização escrita e cultura de massas

Emmanuel Carneiro Leão

A conclusão da série sobre a oralidade e a escrita no mundo moderno será feita na coluna de hoje com apoio nas ideias de Marshall McLuhan (1911-1980). A leitura do canadense suscitou-nos a identificação de alguns pontos de contato das teses do autor com os textos de Benjamin e Zumthor. McLuhan aponta para o estágio atual de transição de uma Era Mecânica, assentada no livro, a uma Era Eletrônica, alicerçada na televisão.

Segundo sua formulação, divulgada nos anos 1960 com “A galáxia de Gutenberg”, o alfabeto e a imprensa foram os dois instrumentos principais para o desenvolvimento da escrita na história ocidental. O influxo de uma nova revolução tecnológica no século XX coloca em xeque os fundamentos da civilização calcada na leitura.

O alfabeto foi responsável não apenas pela promoção do ato de ler em nossa sociedade, mas também pela hipertrofia do olhar em detrimento dos demais órgãos dos sentidos. Estes até então se integravam em um conjunto harmônico de percepção do mundo, sem noção de perspectiva. O desequilíbrio sensorial acarretou o fim da vivência totalizadora e instaurou uma visão, por assim dizer, unidimensional. A separação entre realidade e palavra estabeleceu a necessidade de um grande esforço do ser humano na decodificação e na decifração da linguagem alfabética.

Já a imprensa substituiu o papiro e o pergaminho, típicos do Império Romano e da Idade Média, pelo livro e pelo papel. Estes possibilitaram o alargamento do alcance de uma mensagem, ao mesmo tempo em que fundou uma relação interpessoal entre autor e público, entre remetente e destinatário. Como veículo abstrato, a obra impressa dispõe informações, baseadas na relação cognitiva olho-cérebro. Mas de forma paralela acentua o individualismo, isolando o homem da participação e da convivência interpessoal.

O aparecimento da noção mcluhiana de aldeia global permite ao homem contemporâneo a recuperação da ideia de uma unidade comunitária, de uma totalidade vital e de um novo equilíbrio entre os órgãos dos sentidos. Diante da televisão, a civilização escrita vê-se reduzida em razão de seu caráter linear e fragmentário, causal e sequencial. Os laços globais do ser humano procuram ser refeitos em meio a uma mutação radical no universo da comunicação.

O ponto de convergência dessa tese com o pensamento de Benjamin diz respeito à suposição de que a imprensa segregou o convívio direto de pessoa a pessoa, ante a dissolução dos vínculos comunitários. A comunicação oral tornou-se qualitativamente distinta de um mundo embotado de informações.

De acordo com o filósofo Carneiro Leão: “Mesmo quando uma conversação é aparentemente menos carregada de informação, o simples fato de falar em grupo, de se estabelecer um encontro, mobiliza uma participação do todo. A palavra escrita só tem uma forma. O livro é uma forma para todos. Um interlocutor, ao contrário, é uma totalidade, dando e tomando parte num conjunto”. (Aprendendo a pensar I, Petrópolis: Vozes, 1991, p. 160).

Quanto a Zumthor, as semelhanças com as perspectivas de McLuhan dão-se na ênfase da literatura como um fenômeno pontual e transitório na história do Ocidente. Neste sentido, a volta do predomínio da fala e da audição na cultura de massas, através das séries radiofônicas e televisivas, por exemplo, possibilita uma projeção mais auspiciosa para a tradição oral e menos alvissareira para a tradição escrita em nossa sociedade, no limiar da humanidade do terceiro milênio.

Edição      Enrique Shiguematu

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Quer algo pós-moderno? Latte Art!
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Por Enrique Shiguematu

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No desespero de sair da situação de desempregado. Cogitei oportunidades de virar barista, um profissional especializado em bebidas baseadas em café. Curiosamente as vagas de barista, diferente de quase todo o resto do mercado trabalho, não exigem inglês, nem excel, nem ''cabeça de dono'', nada disso. Nem precisava comprovar experiência! Para virar barista, bem, a única coisa que precisava era curso de barista. Eu não tenho curso de barista. É. Grande novidade.

Mas não me desanimei. Assim como aprendi fotografia com os infinitos tutoriais do Youtube, poderia aprender a arte do barista, certo?

Nunca estive mais enganado.

Sim, você encontra bons vídeos que lhe mostram os passos corretos de como fazer um espresso, como esquentar o leite no vapor, qual é a diferença de um capuccino para um latte… Um mundo à parte. A atenção perfeccionista para os pequenos detalhes e procedimentos e opiniões de paladar que ficam próximos à pedância dos sommeliers definitivamente me indicaram para não mergulhar de cabeça no mundo café, por mais ''romântico'' que seja trabalhar numa cafeteria. Definitivamente não sou um cara dos detalhes e se você encontrou um erro de ortografia, vire barista. O mundo precisa de mais pessoas atentas ao seu café.

Por que digo isso? Já viu Latte Art? É uma técnica super-difícil na qual o barista ''desenha'' com leite no seu café. Quando digo super-difícil, eu quero dizer realmente difícil, como encostar a sua testa na ponta do seu pé. Bem, talvez eu esteja exagerando, mas não achei nada na internet que me indicasse que é algo trivial.

É tão não-trivial,que chega a ser uma experiência que vale mais que o café em si. Um pingado de padaria, mesmo com teoricamente mais leite e mais café, não vale, nem de longe, o mesmo que uma xícara bem executada de latte art. Se você fotografa um pingado e joga no instagram, provavelmente vai colocar de legenda #segundafeira #sono. Mas se você lançar nas redes sociais uma xícara com latte art, vai escrever uma mensagem que pode ser traduzida em #souchique #sourico #nãotomocafédeplebeu.

A experiência de saber que seu café foi feito com todo o ritual da máquina de espresso. De saber que um sujeito treinou anos e anos para fazer aquela xícara de ''café com leite'' vale mais que a bebida em si. A atenção que devia estar voltada ao sabor da bebida se redireciona para sua estética. A sobrevalorização das experiências é um elemento claro da pós-modernindade. Latte Art é um excelente exemplo de como, num mundo onde parcelas da população usufruem de abundância e excedentes relativos, as atenções e demandas estão sendo redirecionadas para coisas cada vez mais exóticas e gourmetizadas.

Então não se esqueça, se o ''cafézinho'' ou o ''café com leite''está custando quase 10 reais naquela padaria um pouco mais sofisticada, lembre-se que é culpa da pós-modernidade!


Walter Benjamin e Paul Zumthor (III): da voz à letra
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O romancista é a culminância do indivíduo atomizado, isolado, do ser solitário carente de comunicação e incapaz de dar conselho.

 

A inflexão na relação entre a oralidade e a escrita é resultado da invenção da imprensa e da propagação do livro impresso a partir do século XVI. A escrita, até então condicionada às convenções da leitura em grupo, do domínio de conhecimento religioso ou da performance teatral, passa a ser uma atividade encerrada em si própria. Os efeitos dessa transformação no âmbito da literatura, longe de constituírem para Benjamin um mero sinal da decadência cultural do mundo moderno, significam um fenômeno global que se inscreve no processo dialético-secular das forças produtivas. No afamado ensaio do autor alemão, o narrador e o romancista serão os dois protótipos que encarnam essa mudança histórica entre o contar e o escrever.

A figura do narrador é constituída por oposição à do romancista. A cultura oral desagrega-se nos tempos modernos com a consolidação da tipografia. Tomando-se cada vez mais residual, entre o “rastro” e o “resto”, como sugerem Sabrina Sedlmayer e Jaime Ginzburg em coletânea dedicada a Benjamin, a faculdade de narrar e de intercambiar experiências é mantida apenas entre alguns expoentes da literatura, à maneira de um Nicolai Leskkov ou de um Edgar Allan Poe.

A narrativa desses contidas possui características que remetem, ainda que longínqua e remotamente, ao estágio de vida da era pré-industrial. Nesta, a maneira de contar, de compartilhar e de repertoriar histórias integra os homens de uma comunidade em um universo totalizador. O narrador condensa experiências pessoais e coletivas, vivendo-as, colhendo-as e as transmitindo a outrem de maneira direta, de pessoa a pessoa, de geração a geração. Desta forma, constitui uma cadeia de conservação e de perpetuação da memória grupal ou comunitária.

A transmissão oral é, pois, uma das marcas da narrativa, fazendo da vivência a matéria-prima para a passagem sucessiva de histórias e enredos tradicionais. Estabelece-se aí uma comunhão entre o narrador e seus ouvintes, na mesma proporção que entre um artesão e seus aprendizes. O ato de contar carrega em si uma moral, traz nele um ensinamento, guarda consigo uma lição de sabedoria, de caráter utilitário e prático em boa parte das oportunidades. A equivalência da arte de narrar com o mundo dos mestres, dos sábios e dos artífices é um dos pontos chaves do argumento benjaminiano.

Em Magia e técnica, arte e política, assim o ilustra: “A antiga coordenação da alma, do olhar e da mão, que transparece nas palavras de Valéry, é típica do artesão, e é ela que encontramos sempre, onde quer que a arte de narrar seja praticada”. (São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 221.)

Já o romance corresponde à vigência de um contexto histórico distinto. Se para György Lukács a criação romanesca constitui uma epopeia sem deuses, para Benjamin o romance é uma epopeia destituída de fala, sem voz, sem comunicação, sem experiência vital. Para tanto, o arco do romance do autor alemão se estende do cervantino Dom Quixote, no século XVI, até o flauberiano Educação sentimental, no século XIX. O romance, cuja ascensão foi historicizada de maneira minuciosa por Ian Watt em 1957, é a expressão literária da burguesia, quando as manifestações artesanais são suplantadas pela manufatura e pelo modo industrial capitalista.

O romancista é a culminância do indivíduo atomizado, isolado, do ser solitário carente de comunicação e incapaz de dar conselho. Distanciado de seus pares, está acima, mas dissociado do convívio com o seu leitor. Este, por seu turno, é aquela pessoa ávida por extrair da leitura de uma obra impressa algum sentido para a sua vida, pois ele próprio carece de realizações. A evasão do mundo destituído de significado permite ao romancista revelar a condição melancólica do homem burguês na sociedade moderna.

Em um livro do crítico brasileiro Álvaro Lins sobre um renomado escritor francês, A técnica do romance em Marcel Proust encontramos um exemplo ilustrativo do sentimento existencial do romancista moderno:

“A solidão de Marcel Proust, a que já aludimos no início desta obra, revela-se inteiramente no seu individualismo como na sua liberdade: ele não tinha nem ideologia, nem partido político, nem norma social, nem religião. Um espírito livre, porque solitário. Decidiu-se a exprimir a realidade de sua experiência vital, mas quando já não se sentia preso a qualquer das suas contingências. Fechara as portas do mundo” (Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1956, p. 177).

Lado a lado do romance, uma nova forma de comunicação se torna dominante com a consolidação da burguesia: a informação. A notícia, veiculada de modo primordial pelo jornal, não requer a transmissão de uma experiência ou de uma sabedoria, mas a verificação e a apreensão imediata dos acontecimentos diários. Por isto, a informação é uma dimensão fechada em si mesmo, passível de explicação pura, inconcussa e exata dos eventos ordinários, ao contrário da narração, inacabada e sempre franqueada à interpretação.

Com base nessas colocações de Benjamin, a análise das consequências da informação na relação entre a tradição oral e a escrita na contemporaneidade será o quarto e último passo dessa série, a ser publicada na próxima quinzena.

 

Edição      Enrique Shiguematu

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