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Os escritores e os clubes de futebol
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Augusto Frederico Schmidt, por exemplo, era torcedor do Botafogo e exerceu cargos no clube.''

“Amo o Flamengo como fosse um pedaço da terra onde nasci.”

José Lins do Rego

“Era povo. Sentia povo. Respirava povo.

E como povo que era, entrou pelo futebol adentro e foi um fã,

desses de chorar ou rir, de matar ou morrer pelo seu clube.”

Carlos Lacerda,

discurso na Câmara dos Deputados (1957)

 

Embora muitos ressaltem as distâncias entre a literatura e o futebol, nem todos os escritores brasileiros foram infensos ao espectro do clubismo. Augusto Frederico Schmidt, por exemplo, era torcedor do Botafogo e exerceu cargos no clube. Além deste poeta e editor, Schmidt foi presidente do Club de Regatas Botafogo, entre 1941 e 1942. Um dos últimos atos de sua gestão foi idealizar a fusão do clube que presidia com o homônimo de futebol, o Botafogo Football Club, criando assim o Botafogo de Futebol e Regatas, como até hoje é conhecido o time da “estrela solitária”.

Caso curioso foi o do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Torcedor do América do Rio, como Marques Rebelo, destacou-se por fazer um poema ao clube. Sendo uma agremiação modesta da zona norte da cidade, que contava no entanto com a simpatia dos torcedores de outras equipes cariocas, o América foi alvo de uma poesia pouco comum, em que João Cabral faz uma espécie de elogio da derrota e da abnegação do torcedor americano.

Eis os versos, contido no livro Museu de tudo (1975):

 

“O desábito de vencer

Não cria o calo da vitória;

Não dá à vitória o fio cego

Não lhe cansa as molas nervosas.

Guarda-a sem mofo: coisa fresca,

Pele sensível, núbil, nova,

Ácida à língua qual cajá,

Salto do sol no Cais da Aurora”

 

O tom poético-melancólico de Cabral em tudo destoa do ufanismo clubístico do romancista paraibano José Lins do Rego (1901-1957). A título de exemplo, acompanhe-se mais esta crônica publicada no Jornal dos Sports:

 

“Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengos são brasileiros de todas cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juracy Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos”.

A capacidade de plasmar a pluralidade de características da nação e de condensar os seus polos mais antagônicos fazia do Flamengo, na visão apaixonada de José Lins, um clube diferente. No texto A sucessão no Flamengo, escrito na conjuntura posterior à Segunda Guerra, José Lins explicitava o caráter essencialmente anti-ditatorial do clube: “Somos uma comunidade democrática. Não topamos os ditadores e não nos agradam os que gritam e dão murros na mesa. O clube é cordial. E isto é tudo.”      

Seu ufanismo arrefecia quando passava da escala do clube ao da nação. Embora tivesse pendor patriótico, era capaz de analisar a Seleção Brasileira em chave menos exaltada. Na crônica O caráter do brasileiro, José Lins fez as vezes de sociólogo e se posicionou com as seguintes observações conclusivas sobre o Mundial de 1950, em que o time do Brasil foi derrotado pelos uruguaios:

 

“A Copa do Mundo, que se acabou tão melancolicamente, deu-me a impressão de uma experiência amarga, capaz de completar minhas impressões sobre o caráter do nosso povo. Vimos, no Estádio do Maracanã, uma multidão como raramente se tem aglomerado, em manifestações coletivas, no Brasil. Vimos duzentas mil pessoas comprimidas numa praça de esportes, nas reações mais diversas, ora na gritaria das ovações, no barulho das vaias ou no angustioso silêncio da expectativa de um fracasso. Ali estava todo o povo brasileiro, uma média de homens e mulheres de todas as classes sociais. Não era o Brasil de um grupo, de uma região, de uma classe. Era o Brasil em corpo inteiro. Para o observador social, para os que têm o poder de revelar o que há de mais particular nos povos, o campo era o mais propício. Mas para mim as observações começaram antes dos jogos sensacionais. Tive a oportunidade, como dirigente, de travar conhecimento, mais íntimo, com os que procuravam as acomodações, com os que tinham parcela de mando, com os que se sentiam com o direito de crítica, e mais ainda, com a lama das sarjetas, que queria passar pela água mais lustral deste mundo. E me perguntará o leitor: que impressão lhe deixou o brasileiro? Boa ou má? E diria sem medo de cair no exagero: uma boa impressão. Senti que havia povo na Nação – uma nova gente com capacidade de se congregar para uma causa, para uma obra, para os sofrimentos de um fracasso. Fizemos um estádio ciclópico, em menos de dois anos; organizamos um campeonato mundial, o de mais ordem até hoje realizado; formamos uma equipe perfeita de futebol. E, quando o título nos fugiu das mãos, soubemos perder, dando aos turbulentos sul-americanos uma lição de ética esportiva”.

Recorde-se que a representação do Brasil através do futebol tinha começado a ser construída doze anos antes, na Copa de França de 1938, quando justamente Leônidas da Silva, jogador do Clube de Regatas do Flamengo, se consagrou e conquistou através do rádio a notoriedade popular. A partir daí, e pelo resto da vida, José Lins tornou-se um fã de carteirinha do futebol, em particular do Flamengo. Seja como torcedor inveterado, como cronista diário ou como dirigente esportivo, o certo é que o romancista teve muitas alegrias – e também algumas tristezas – com este esporte.

Apesar dos eventuais dissabores, sua paixão ficou eternizada no “couro mágico” do atacante Leônidas (Diamante Negro), do meio-campista Fausto (A maravilha negra) e do defensor Domingos da Guia. Foram esses atletas negros que deram ao clube, conforme afirmava Mario Filho, a sua “transfusão de popularidade”. Esta se perpetuou nos pés de vários outros craques do time rubro-negro no decorrer dos anos 1940 e 50, graças à floração de Índio, Biguá, Servílio, Rubens, Evaristo, Zagalo, Benítez, Esquerdinha, Babá, Dida, entre tantos outros jogadores de origem popular, procedentes do Nordeste, do Sul e dos rincões mais longínquos do Brasil.

De José Lins do Rego, e sua paixão pelo Flamengo, pode-se dizer o mesmo que a canção de Wilson Baptista, Samba rubro-negro, composta nos anos 50, cujo refrão estribilha: “Pode chover,/ pode o sol me queimar/Que eu vou pra ver,/a Charanga do Jaime tocar/― Flamengo, Flamengo,/ sua glória é lutar/Quando o Mengo perde,/ Eu não quero almoçar, eu não quero jantar…”

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego em família
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''… de um lado, uma calorosa passionalidade, que o irmana aos demais seres, aos homens comuns; de outro, uma humildade, por assim dizer, cristã.''

“Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama”.

(Jorge de Lima, A invenção de Orfeu)

 

 

José Lins do Rego foi casado com Philomena Massa, que conheceu de modo fortuito aos dezoito anos de idade (1919), num vagão de trem indo à capital da Paraíba. Philomena era filha de um político nordestino, o senador Antônio Massa. Este, de acordo com prática comum na história brasileira, valeu-se de sua posição e de seu status político para dar proteção ao futuro escritor. Massa conseguiu, para o genro recém-formado, um emprego público no aparelho jurídico do Estado. A seguir, nomeou-o no Ministério da Justiça. Esta nomeação foi seguida no ano de 1925 pela viabilização de uma transferência para a promotoria pública de uma pequena cidade de Minas Gerais, Manhuaçu. Nesta, ficou por pouco tempo, até retornar novamente ao Nordeste, desta vez à capital alagoana, Maceió.

Nessa cidade, viveu uma década, entre 1926 e 1935, onde ganhou projeção como crítico literário e teve três filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória e Maria Christina. Em 1935, Zé Lins foi nomeado para fiscal do imposto de consumo do estado do Rio de Janeiro e na capital do Rio fixou residência. Depois de morar nos bairros de Botafogo e do Humaitá, construiu uma casa no Jardim Botânico, perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, mais precisamente na rua General Garzon.

A casa da zona sul gozava de uma espécie de personalidade própria, todos a tratavam pela alcunha de “o Garzon” e ficava sempre aberta para receber os amigos de José Lins, como Thiago de Melo, Octávio Tarquínio de Souza e os irmãos Condé, em rodas de violão na entrada da casa ou em jantares organizados por Naná, apelido caseiro de Philomena. Isto sem contar as reuniões costumeiras em família, tal como singelamente recorda a filha caçula, também escritora: “… os almoços de domingo, papai sempre servido em primeiro lugar pela minha mãe, que lhe preparava cosidos maravilhosos, galinha gorda com pirão, as famosas fritadas de camarão, e depois a espera da carona do Mario Filho, que vinha sempre buscá-lo para o futebol”.

Assim como a construção, a casa do Jardim Botânico, em frente ao Jockey Club da Lagoa, foi montada e mobiliada aos poucos. Novamente é a filha mais nova, Maria Christina, que considerava a casa ora um castelo ora uma réplica do engenho, com seu cheiro de comida inesquecível, quem conta sobre a decoração do lar, feita pela mãe Naná:

 

“Mamãe tinha um ótimo gosto, mandou buscar o sofá de palhinha com as quatro cadeiras de jacarandá do engenho, mobília remanescente que ficara guardada em casa de parentes — com eles vieram também o lampião de opalina azul com a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do meu pai. Santa Rosa, que ilustrava os livros de meu pai, fora enviado a copiar a sala de jantar que estava na vitrine da Leandro Martins, fez um croqui perfeito, lindo, que mandaram executar pela metade do preço no Catete. Os quadros iam chegando e era papai mesmo quem os pendurava: os Di Cavalcanti, Portinari, Guignard, os Cíceros com a sua fase poética, belíssimos, o menino azul do Dacosta, mas eu adorava ficar olhando a menina no orfanato vestida de uniforme bordeaux segurando uma carta. Aquele quadro do Cícero me tocava profundamente.”

Sobre os afazeres domésticos, e o cotidiano da mãe no dia a dia da Garzon, é também Christina quem narra:

 

“Minha mãe era uma boa católica, não de ir à missa, mas não perdia sua feira dos domingos. Voltava com um carregador levando na cabeça um cesto enorme que vinha cheio de frutas, legumes e flores para enfeitar o Garzon. Quando chegava fazia cestos de frutas e legumes lindos enfeitando a cozinha, na sala colocava sempre no jarro que meu pai trouxera de Portugal, as flores mais bonitas que encontrasse”.

No final da vida, após o falecimento de José Lins, a relação de Naná com a casa do Jardim Botânico se estreitou ainda mais. É ainda a caçula Christina, afilhada de Olívio Montenegro, quem recorda: “Com o desaparecimento do nosso pai, minha mãe continuou firme morando no Garzon. Com o dinheiro que ganhou na Loteria Esportiva, mandou pintar toda a casa. E todo o dinheiro que entrava dos livros de meu pai era para melhorar o Garzon. (…) morreu minha mãe amando o Garzon até os seus últimos momentos de lucidez. E hoje, quando passo pela nossa casa, procuro não olhar nem para a esquina, não consigo sentir mais nada. É como se sua alma tivesse partido com minha mãe”.

Em 1947, aos quarenta e seis anos, José Lins do Rego deu um depoimento a um jornal carioca, logo após a publicação de Eurídice, seu undécimo e penúltimo romance: “Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo com muitos sonos e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol; se faz calor, tenho saudades da chuva. Temo os poderes de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo dos meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Afinal de contas, sou um homem como os outros e Deus permita que assim continue”.

No autorretrato do escritor, já consagrado pela crítica e pelo público, observa-se um traço recorrente nas ocasiões em que fala de si: a ênfase no seu lado humano, terra-a-terra, na sua condição de simples mortal. Queria com isto, parece não muito difícil perceber, afastar-se da tradicional imagem do escritor como um indivíduo frio e esnobe, dotado de “alta” cultura, alguém enfim encastelado nas redomas da arte e nas elucubrações do intelecto, em nome de um culto artificial que dificilmente o faz descer da torre de marfim.

Nas diversas vezes em que aborda a própria personalidade, José Lins do Rego enfatiza, com insistência, sua posição diametralmente oposta à desse tipo de literato de gabinete. Em verdade, trata-se de um duplo acento: de um lado, uma calorosa passionalidade, que o irmana aos demais seres, aos homens comuns; de outro, uma humildade, por assim dizer, cristã. Ambas atravessam de ponta a ponta o espelho idealizado e construído ao longo da vida pelo próprio escritor. É o romancista da palavra direta e espontânea, é o cronista sem papas na língua, que gostava de evocar com frequência a filosofia de Montaigne: “le parler que j’aime c’est un parler simple e naïf, tel sur le papier qu’à la bouche”.

A escrita almeja desse modo se confundir com o tom coloquial mais chão, que advém do contato popular, reproduzindo na letra impressa a voz das ruas, o burburinho das esquinas, o fuzuê dos estádios de futebol. Isto explica talvez o fato de o autor ter assinado durante anos uma coluna de jornal com o nome de “Conversa de Lotação”.  “O estilo é o homem”, dizia Buffon, e José Lins do Rego parece ter querido seguir à risca o aforismo, fazendo da simplicidade franciscana, da comunhão com a natureza e da impressão imediata das coisas a sua profissão de fé.

Edição      Enrique Shiguematu

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A literatura estadunidense, a crise financeira de 1929 e o Brasil
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''À revelia da doutrina liberal, o novo presidente eleito, Franklin Delano Roosevelt, implantou os “Cem Primeiros Dias”, programa emergencial no auge da Grande Depressão'' Obra de William Sommer. Fonte: goo.gl/Ge5TfN

Até a Grande Guerra (1914-1918), acreditava-se que as potências europeias eram capazes de conduzir o mundo a partir de uma ótica imperial que se expandia desde a Europa. A imposição da supremacia dos Impérios europeus, alguns deles recém-unificados, fazia com que os últimos quadrantes do globo fossem dominados, em uma concorrência crescente por matérias-primas, territórios e mercados consumidores. A eclosão da que passou a ser chamada de Primeira Guerra mundial modificou essa percepção e, sobretudo, esse otimismo.

Depois da experiência bélica traumática, a crítica à racionalidade passou a ser veiculada também entre teorias cientificistas, em especial aquelas referentes à mente e ao comportamento humano, como a formulada por Sigmund Freud. Desde a publicação de A interpretação dos sonhos, em 1900, o fundador da psicanálise colocava em evidência as zonas sombrias da razão e revelava dimensões menos cômodas a respeito do ser humano, como o inconsciente, a histeria e a pulsão de morte.

O psicanalista reconhecia a existência de impulsos eróticos e tanáticos no homem, isto é, aqueles que direcionam o ser tanto para o amor quanto para a morte, tanto para a construção e preservação quanto para a destruição. É ainda no contexto da Primeira Guerra que o mesmo Freud troca correspondências com outro cientista, o físico Albert Einstein, com a pergunta carregada de perplexidade: Por que a guerra?

No decorrer do século passado, essas percepções se estenderam da ciência ao plano das artes. Na Espanha da Guerra Civil, o quadro do pintor espanhol Pablo Picasso, Guernica, talvez seja o mais emblemático dos efeitos perturbadores causados aos sentidos pelo genocídio das guerras.

Nos Estados Unidos, embora as guerras não tenham afetado seu território diretamente, uma crise viria a abalar suas estruturas e representações. O “modo de vida americano” – American way of life – vinha sendo propagado pela popularização de diversas imagens desde o início do século XX: o automóvel e a linha de montagem Ford; as casas de veraneio; a indústria do cinema – os estúdios de Hollywood, na Califórnia; os ídolos do star system – a começar pelo ator Rodolfo Valentino; e o uso de eletrodomésticos. O estilo de vida norte-americano se difundia não apenas na Europa, mas na América Latina, em particular no Brasil.

O discurso liberal dos Estados Unidos não impediu que suas ações internas no imediato pós-guerra fossem protecionistas. Em substituição ao livre-comércio praticado até 1914, o protecionismo foi uma das molas mestras da economia global. A subida de preço dos produtos industrializados – nos anos 1920, os EUA detinham metade da produção industrial no mundo – tentou contrabalançar os desequilíbrios econômicos internacionais, gerados pela permanência de altas taxas de desemprego, pela persistência da inflação e pela desvalorização monetária.

Em 1929, o surpreendente desabamento do valor das ações atingiu em poucos dias todos os bancos dos Estados Unidos, gerou a superprodução nacional, paralisou as vendas e faliu empresas sem discriminação, de pequenos autônomos a grandes magnatas. Seu choque se estendeu à economia como um todo, teve um efeito “dominó” sobre a política econômica mundial e desmantelou o arranjo das finanças no mundo inteiro.

Ato contínuo, a retração da demanda fez diminuir a produção, o que provocou demissões em massa nas fábricas norte-americanas, a ponto de, em 1932, cerca de 25% da população estadunidense se encontrar desempregada. A próspera nação defrontou-se então com as consequências perversas do colapso de seu sistema: fome, extrema pobreza, péssimas condições de moradia e migrações forçadas.

Tal fato afetou a própria literatura estadunidense então propagada e indignou o jovem escritor John Steinbeck (1902-1968). Passada uma década do craque da bolsa, em 1939, o Prêmio Nobel da Literatura publicou As vinhas da ira, ficção que narra a migração de fazendeiros do estado de Oklahoma para a Califórnia, empobrecidos pela crise e pela seca. Eis um trecho da pungente e indignada narrativa:

 

“Um milhão de pessoas famintas, precisando das frutas – e querosene derramado sobre as montanhas douradas. E o cheiro de podre invade o país (…) Há aqui um crime que vai além da denúncia. Há aqui uma dor que o pranto não consegue simbolizar. Há aqui uma derrota que aniquila todas as nossas vitórias. Terra fértil, árvores enfileiradas, troncos sólidos e frutas maduras. E crianças vitimadas pela pelagra devem morrer e cada laranja deve dar lucro. E os legistas devem preencher seus atestados – morte por desnutrição – porque o alimento precisa apodrecer, deve ser forçado a apodrecer. As pessoas chegam com redes para pescar as batatas nos rios e os guardas as impedem; chegam em carros barulhentos para apanhar as laranjas jogadas fora, mas o querosene é pulverizado. E elas ficam paradas vendo boiarem as batatas, ouvindo os guinchos dos porcos sendo mortos numa vala e cobertos com cal virgem, olhando para as montanhas de laranjas transformando-se em lama podre; e nos olhos das pessoas há derrota; e nos olhos dos famintos, há uma ira crescente. Nas almas das pessoas, as vinhas da ira incham e amadurecem, anunciando as próximas colheitas.”

À revelia da doutrina liberal, o novo presidente eleito, Franklin Delano Roosevelt, implantou os “Cem Primeiros Dias”, programa emergencial no auge da Grande Depressão, que concedeu dotação de crédito para os bancos, salário-desemprego e frentes de trabalho. Além disto, instituiu as leis sociais que garantiram a aposentadoria, a indenização de desempregados e a preservação dos sindicatos. As obras de infraestrutura também permitiram o reaquecimento econômico, com reformas feitas, por exemplo, no vale do estado do Tennessee.

No Brasil, também assolado pelo crash da bolsa nova-iorquina, as distâncias entre seu presidente Vargas e o equivalente norte-americano se ampliavam no tocante à configuração institucional dos governos, fruto das grandes diferenças de dinâmica política republicana. Durante os anos 1930 e 1940, o Brasil assiste a um reordenamento do pacto oligárquico estabelecido desde a implantação da República, no final do século XIX. Com o apoio de elites dissidentes, Vargas ascende ao posto máximo da nação em 1930 – o mesmo fora presidente do estado do Rio Grande do Sul anos antes – e nele vai perdurar por quinze anos, até 1945. Durante todo esse tempo, seu mandato conheceu três arranjos institucionais: um processo revolucionário (1930-1934), um governo constitucional (1934-1937) e um regime ditatorial (1937-1945), com um golpe que leva à implantação do Estado Novo.    

Em contraposição aos princípios do federalismo republicano, inspirado no modelo norte-americano e vigente desde o fim da Monarquia, a Era Vargas diminui a autonomia política dos estados e das oligarquias da República Velha. Interventores são nomeados pelo presidente e passam a fazer as vezes de governadores. Por via de consequência, as intervenções reforçam o poder centralizador do chefe da nação. Os laivos ditatoriais do governo Vargas, que se institucionalizaram com a implantação do Estado Novo em 1937, associando-o à imagem totalitária, não deixaram de ter um caráter progressista. Uma série de medidas foi legitimada na constituição, com a garantia dos direitos sociais – jornada de 40 horas, voto feminino, aposentadoria, plano de saúde, legalização dos sindicatos, etc. – até então desconhecidos pelos trabalhadores.             

É do jornalista Barbosa Lima Sobrinho a análise crítica da conjuntura de então e do tradicional posicionamento brasileiro:

“O Brasil sempre acreditou que fosse o centro de um sistema planetário, quando na verdade não estávamos muito longe das contingências de uma economia subsidiária ou dependente, arrastada na cauda de cometas impetuosos. Não chegávamos a ser originais nem mesmo no surto das correntes nacionalistas, que vinham copiadas do estrangeiro, como a reação anti-italiana que surgiu em São Paulo, em oposição aos núcleos das Sociedades Dante Alighieri, mas terminando, paradoxalmente, em apoio ao Fascismo, que iria valorizar esses movimentos de irredentismo italiano. Para se sentir até onde chegou essa agitação nacionalista e como na verdade derivava de tendências espúrias, basta considerar que se polarizou num anti-semitismo de importação e numa guerra ao imperialismo britânico, que a essa época deixa de existir ou passara aos norte-americanos a faixa, de que haviam sido detentores por mais de um século de domínio universal. Um país que chega a importar o nacionalismo está ainda muito longe das soluções que na verdade lhe convêm.”

A turbulência prossegue e, em 1935, ocorre na capital da República a Intentona Comunista, tentativa de tomada do poder através de um golpe, com o plano de tomada de quartéis no Nordeste. A iniciativa vai ser dada por correligionários do capitão Luís Carlos Prestes, líder tenentista, recém-convertido ao comunismo. À direita, no outro extremo ideológico, encontravam-se os integralistas, corrente partidária inspirada nos regimes conservadores que, sob a liderança intelectual de Plínio Salgado, também tentariam, por intermédio de táticas golpistas, a derrubada de Vargas.

Com ambas as sublevações debeladas, o regime varguista sufocou a democracia e impediu as ambições eleitorais de José Américo de Almeida e Armando Sales de Oliveira. Instaurou-se o Estado Novo em 1937, que perduraria oito anos, e só findaria em 1945, com o fim da Segunda Guerra mundial.  

Edição      Enrique Shiguematu

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O cangaço e a literatura sertaneja
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''A figura do cangaceiro impressionou não apenas personalidades da cultura brasileira. O cangaço se tornaria conhecido em âmbito internacional.'' Obra de Aldemir Martins

“Mas quem podia com o cangaceiro que mandava

por todo o interior do Estado, como um governo?”

Fogo morto, de José Lins do Rego

“Os jagunços lutaram/até o final/

defendendo Canudos/

naquela guerra fatal”

samba-enredo da escola de samba

Em Cima da Hora (1976)

Quando tinha 17 anos, Glauber Rocha, futuro cineasta, leu com afinco o conjunto da obra dos escritores nordestinos. Euclides da Cunha, José Lins do Rego e Graciliano Ramos figuravam entre seus preferido. Anos mais tarde, iria compor a alegoria cinematográfica do sertão-mar: “o sertão vai virar mar/e o mar virar sertão”, prédica milenarista cantada na voz do músico Sérgio Ricardo, ao final do filme. Nele os protagonistas, Manuel e Rosa, batem em retirada do cangaço, para encontrar o litoral, na cena de encerramento, ao som da sinfonia trágica de Villa-Lobos.

A figura do cangaceiro impressionou não apenas personalidades da cultura brasileira. O cangaço se tornaria conhecido em âmbito internacional. Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, por exemplo, no livro “Rebeldes primitivos” (1959), os cangaceiros eram afinal “heróis ambíguos”.

Já o sociólogo pernambucano Souza Barros combinava algumas dessas hipóteses na tentativa de esclarecer a realidade social sertaneja. A seu ver, o isolamento e a falta de poder público eram os principais responsáveis por aquele desregramento e anomia:

“O Sertão continuava quase isolado e até mesmo funcionários públicos, nomeados para o oeste do Estado, ainda eram obrigados a viajar pela Bahia e entrar por Petrolina. O banditismo campeava, resultado de uma péssima distribuição de justiça e de um poder de polícia omisso. A ausência de estrutura do Estado gerara o poder dos ‘coronéis’, o arbítrio, a luta entre os próprios ‘coronéis’ e as suas gangues e o uso do cangaceiro como um elemento persuasivo ou mesmo necessário para encobrir a responsabilidade de certos desfechos ou soluções de demandas e de luta entre grandes famílias. (…) No Sertão, as obras contra as Secas faziam os grandes açudes, desapropriando apenas a área de inundação e deixando esses ‘elefantes brancos’ dentro dos latifúndios dos ‘coronéis’, sem serventia maior e quase que destinados à salinização, com o assoreamento das enchentes seguidas de longas estiagens.”

A pesquisadora estadunidense Linda Lewin tem informações mais circunstanciadas da história do cangaço, em particular do período áureo de Antônio Silvino, o cangaceiro que o escritor José Lins do Rego conhecera na infância:

“Tendo se iniciado em 1897, a carreira do mais famoso cangaceiro da Paraíba, Antônio Silvino (Manuel Batista de Morais) coincidiu com a duração da oligarquia Machado-Leal. Seus roubos famosos e a continuada guerra que manteve com a Força Pública do Estado da Paraíba contribuíram acima de tudo para cristalizar a opinião pública a favor de uma posição mais dura do governo estadual contra o banditismo. As façanhas de Silvino deram-lhe, ademais, instantânea celebridade na poesia e no cancioneiro regionais. Os folhetos que por volta da virada do século começaram a ter uma grande circulação no Nordeste converteram-no num respeitável anti-herói. Na Paraíba, esses folhetos redefiniram o banditismo como uma questão política.

Para tornar as coisas piores para as oligarquias no poder, Silvino teve alguma participação na politização da questão do banditismo. A partir de 1904, aproximadamente, ele tornou públicos os seus ressentimentos pessoais com relação à administração do monsenhor Valfredo Leal e seu chefe de polícia, Antônio Massa. Silvino acusou também a Great Western Railway Company, de propriedade britânica, de expropriar terras de sua propriedade em Campina Grande. Um consumado e extemporâneo poeta por si mesmo, Silvino enviou versos politicamente derrisórios e ameaçadores a Valfredo e Massa, numa ‘guerra de telegramas’ que os poetas populares reservaram para o seu público em um número crescente de folhetins. Silvino revelou o que nenhum chefe local jamais fora capaz de demonstrar: que a autoridade pública do governo do estado acabava nos limites da capital. Para o deleite desses poetas populares, a alcunha de ‘Governador do Sertão’ – freqüentemente aposta a seus telegramas ameaçadores – espelhava a sua mobilidade territorial no interior de quatro estados. Ocasionalmente, Silvino até fez discursos em época de eleição para apoiar candidatos a cargos políticos. Suas escolhas recaíam sempre sobre os indivíduos com quem tinha um relacionamento de proteção, para os quais, assim fazendo, prestava um ‘serviço.’”     

Chama a atenção no movimento do cangaço do realce dado à personagem feminina que despertava a curiosidade e a imaginação do cancioneiro popular. Como, por exemplo, na quadra popular: “– Acorda, Maria Bonita/Levanta, vem fazer o café/Que o dia já vem raiando/E a polícia já está de pé”.

O assunto também chamou a atenção do folclorista potiguar Câmara Cascudo. A antologia Flor de romances trágicos (1966) reúne histórias de bandidos e bandoleiros. Como José Lins do Rego, Câmara Cascudo menciona a presença de Jesuíno Brilhante (1844-1879) na fazenda de seu avô, no interior do Rio Grande do Norte.

O sertanejo foi assim um dos tipos humanos mais sujeito a representações ao longo da história literária brasileira. De José de Alencar com O sertanejo (1875), e Euclides da Cunha, com Os sertões (1903), passando pelo próprio José Lins do Rego, com as obras Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953), até Guimarães Rosa, com Grande sertão: veredas (1956) e Ariano Suassuna, com A pedra do reino (1970).

A favor e contra eles se voltaram os coronéis. Vale citar o exemplo do comerciante, fazendeiro e usineiro Othon, codinome de Delmiro Gouveia, que se tornaria proprietário de uma poderosa cadeia de hotéis com seu nome. A impressionante história de ascensão do coronel Delmiro Gouveia chegou a ameaçar um vice-presidente da República, Rosa e Silva. Conta-se que os dois se atracaram pessoalmente no Rio de Janeiro, em 1900. Tal incidente não impediu que, em 1912, com o crescimento de seus negócios, o coronel Gouveia inaugurasse a Companhia Agro Fabril Mercantil e construísse a Vila Operária da Pedra. Seu poder voltou a incomodar outros coronéis do estado e acabou assassinado em 1917.

Nesse sentido, nas brevíssimas linhas deste texto, pode-se concluir dizendo que o coronel e o cangaceiro são duas faces de uma mesma moeda. Isto é, são dois protótipos de um mesmo Nordeste, marcado por conflitos pessoais, por vinganças e por faccionalismos de famílias em busca de hegemonia no poder local.

Edição      Enrique Shiguematu

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Regionalismos e modernismos na literatura brasileira
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Antes de escrever Macunaíma, o erudito Mário dedica-se à pesquisa e ao estudo…`'

“Regional, a meu ver, deve ter o sentido do real,

da realidade arraigada, da literatura que precisa do sumo da terra,

do sangue da gente, da força dos elementos para subsistir.”

José Lins do Rego

(entrevista a Aurélio Buarque de Holanda)

“Como na música de Villa-Lobos, a força

de um Lúcio Costa, de um Niemayer, de um Mendlin,

proveio da nossa vida, de nossas próprias entranhas”

José Lins do Rego

A casa e o homem

 

Quando se fala da extensão do território brasileiro, são várias as razões oficiais para apontar a sua grandeza. Do ponto de vista histórico, durante a Colônia, as fronteiras brasileiras foram estendidas pela ação das Entradas e Bandeiras, quando os portugueses e seus descendentes abriram caminho pelo interior, rumo ao Extremo Oeste; durante o Império, o Brasil ficou conhecido mundialmente como a “planta exótica” da América, a manter sua unidade em um momento em que os vizinhos hispânicos se desmembravam em Repúblicas; durante a República, logo após a sua proclamação, o Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, desenvolveu um importante trabalho junto às zonas limítrofes do país, do extremo sul ao extremo norte, culminando com acordos diplomáticos e até mesmo a compra de territórios, como o estado do Acre, em 1903.  

Em função dessa extensão, as latitudes e longitudes perfazem mais de oito milhões e meio de quilômetros quadrados. Todas as mudanças políticas, sociais e econômicas do país têm, pois, de levar em consideração tal ordem de grandeza. Apesar do esforço de centralização do governo nacional, historicamente cada região seguiu um ritmo próprio de adequação à “marcha da civilização”. Natureza, demografia e cultura foram elementos que concorreram para ritmar os avanços e para orientar, em cada caso, as demandas do progresso das cinco regiões oficiais. Hoje em dia, estas são reconhecidas pelo IBGE segundo a divisão entre Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste.   

Dentre estas, uma região merece especial destaque. Trata-se do Nordeste. A recriação paisagística e literária desta, principalmente na capital da República, já vinha sendo empreendida desde meados do século XIX. Na virada para o século seguinte, o país ainda era predominantemente rural, mas caminhava em progressiva mutação na direção da vida dita moderna. A esta altura, o imaginário nacional será marcado pela força da região nordestina, onde se acreditava encontrar uma das fontes populares supostamente mais puras e autênticas.

Com o escritor Sílvio Romero, a busca pela autenticidade popular se torna uma missão programática. Como se fossem antiquaristas à cata de relíquias, Romero e seus pares avançam em estudos sobre poesia popular, cantigas tradicionais, parlendas e tudo aquilo que hoje em dia se chama de patrimônio cultural ou imaterial. Estes coletores dão atenção cada vez mais sistemática aos vestígios das culturas lusitanas, negras e ameríndias. Neste programa, o Nordeste, em particular, passa a ser informado por um espírito científico de pesquisa.

Mas em diversas partes do Brasil, e não apenas no Nordeste, o romance se consolida entre 1870 e 1920, com Aluízio Azevedo, Rodolfo Teófilo, Adolfo Caminha, Papi Júnior, entre outros.

Um primeiro livro a ser destacado nessa safra é Terra de caipiras e tropeiros, de Valdomiro Silveira (1873-1941), considerado um dos pioneiros do regionalismo em São Paulo. Silveira captou o ambiente do interior paulista na obra Os caboclos, publicado em jornais, aparecendo em livro no ano de 1920. Em seguida, vale mencionar outro expoente, sobre o qual José Lins muito comenta em seus ensaios, o sulista João Simões Lopes Neto (1865-1916). Natural de Pelotas, ele tornou-se conhecido como autor dos antológicos Contos gauchescos (1911) e das Lendas do Sul (1912).

O regionalismo foi pródigo no Nordeste, seu principal laboratório literário, próximo da etnografia. À parte a personagem Iracema, ou o sertanejo de José de Alencar, o século XIX se concentrara nos tipos das obras de Franklin Távora (1842-1888) – responsável por separar a “literatura do Norte” da “literatura do Sul” – e de Domingos Olímpio (1851-1906).

Enquanto o primeiro se notabilizara pelo livro O cabeleira (1876), ambientado na Pernambuco setecentista, o segundo é reconhecido pela obra-prima Luzia Homem (1903), ficção com cenário no interior do Ceará, durante uma das secas históricas que assolaram o estado. A obra Luiza Homem foi considerada pelo respeitado médico Afrânio Peixoto como “um modelo de romance regional”. Já para José Lins do Rego, no livro Presença do Nordeste na literatura, foi a mais característica da geração cearense.

Outros regionalistas importantes que despontam nessa época foram o mineiro Afonso Arinos de Melo Franco (1868-1916), escritor dos contos Pelo sertão e Os jagunços, ambos de 1898; Godofredo Rangel (1884-1951), também de Minas Gerais, que descreve a história e a cultura mineiras em Vida ociosa (1920); o paulista Amadeu Amaral (1875-1929) que, embora tenha se restringido a ensaios e poemas, publicou seu Dialeto caipira (1920); e ainda o paulista Juó Bananère, artífice do regionalismo cômico-urbano, inspirado na fala da população migrante italiana, com La Divina Increnca (1924).

A região Norte do Brasil, no limiar do século XX, momento em que vivia o fausto da borracha, também ocupou seu espaço nessa galeria de ficções regionais. Inglês de Souza (1853-1918), natural de Óbidos, tal como o crítico paraense José Veríssimo, foi cedo morar em São Paulo, aos seis anos de idade, em companhia dos pais. É dele o ficcional Cenas da vida amazônica, título geral que abriga os “Contos amazônicos”, “O cacaulista”, “História de um pescador”, “O missionário” e “O coronel Sangrado”. Apoiada nas reminiscências de infância e nos relatos orais que escutou de um tio e do pai, a obra de Inglês de Souza constitui um painel da história sociopolítica do Pará, dimensão cíclica que alcançaria o ápice décadas depois, com Dalcídio Jurandir (1909-1979) e sua série romanesca sobre a Amazônia.

Como se sabe, o decênio de 1920, quando José Lins do Rego conclui seus estudos universitários e inicia carreira no serviço público de um Estado nacional que procura erigir as suas bases institucionais, assistiu à eclosão de um divisor de águas nas letras brasileiras: a Semana de Arte Moderna de 22.

Graça Aranha, em conferência pronunciada em plena Academia Brasileira de Letras, no ano de 1924, sintetizou em O espírito moderno aquela necessidade de renovação que animou os promotores da Semana de 22:

“A nossa literatura está morrendo de academicismo. Não se renova. São os mesmos sonetos, os mesmos romances, os mesmos elogios, as mesmas descomposturas que ouço desde os tempos de fundação da Academia, quando José Veríssimo não queria me deixar entrar e Nabuco forçou a minha entrada. É preciso reformar tudo aquilo. Dar vida àquele cemitério. Vocês são moços. São estudantes. Agitem a escola. Mexam com os seus companheiros. Façam alguma coisa de novo. Façam loucuras. Mas procurem espanar aquelas teias de aranha.”.

 

Seguido por uma plêiade de modernismos – um no Rio Grande do Sul, outro em Minas, um terceiro no Nordeste, um quarto no Rio – o movimento atualizará não apenas as vanguardas artísticas europeias, mas renovará, a partir de 1924, o interesse de seus escritores em “descobrir o Brasil”: seus costumes, sua língua, suas expressões mais singulares.

O paulistano Mário de Andrade será um autor emblemático desse vívido interesse dos homens letrados pela tradição artístico-popular. Antes de escrever Macunaíma, o erudito Mário dedica-se à pesquisa e ao estudo, com consulta a glossários, a vocábulos, a provérbios e a livros de escritores regionalistas. Baseado nestes, elabora um projeto de estruturar uma língua geral, comum às diversas regiões brasileiras, fundada na estilização da linguagem oral e dos seus diferentes falares regionais, com vistas a uma integração cultural do país.

Mário combina erudição com experiência, por meio da viagem. Primeiro embrenha-se pelo interior de São Paulo, em busca das origens do samba rural paulista. Vai mais longe, visita o litoral e o sertão nordestino. Lá conhece o folclorista potiguar Câmara Cascudo e o cantador de coco, Chico Antônio, seu “herói com caráter”. Mário não pára por aí, conhece as populações ribeirinhas do alto Amazonas, depois de já ter visitado as cidades coloniais de Minas Gerais, em companhia do poeta franco-suíço BlaiseCendrars, onde este se encantara com o barroco mestiço de Aleijadinho.

As aludidas viagens de Mário às regiões Norte e Nordeste em 1927, descritas em O turista aprendiz, um ano antes da rapsódia folclórica Macunaíma, que propositadamente embaralha as categorias dicotômicas do rural-urbano para “desgeograficizar” o território, são exemplo desse desejo intelectual de descobrir o Brasil, uno e múltiplo, diferenciado e integrado, nacional e regional.

No início dos anos 20, da mesma maneira que os modernistas de São Paulo, homens de letra das grandes cidades nordestinas – lembre-se de Câmara Cascudo em Natal, de Ascenso Ferreira em Recife e de Gustavo Barroso em Fortaleza –, vão fazer também as suas viagens de reconhecimento da cultura do interior. As incursões ao universo folclórico-popular revelam que a riqueza está em sua mixagem e em sua diversidade, especialmente no Nordeste, onde a presença colonial, confluência de índios, negros e portugueses, deitou fundas raízes no passado.

A materialidade da cultura popular pode ser encontrada às margens do Rio São Francisco, ao redor de cidades comerciais ou no entorno das feiras, centro de reunião de cantadores, com suas músicas de zabumba, divulgadas nos livros de Leonardo Mota (1891-1948): “Violeiros do Norte”, “Sertão alegre”, “No tempo de Lampião”.

As feiras constituíam o empório de legumes, frutas, cereais, raízes e medicamentos populares, à disposição do consumo do matuto. Havia também as feiras de animais: cavalos, jumentos, bois, carneiros, porcos e outras pequenas espécies domésticas. Um terceiro tipo de feira era dedicado às obras artesanais: redes de algodão, instrumentos de couro, louças (cerâmicas), chocalhos, urupemas, balaios, facas de ponta e brinquedos de algodão.

O artesanato foi uma das grandes expressões da cultura material nordestinas, materializadas nas peças de barro como as do Mestre Vitalino (1909-1963). O ceramista de Caruaru era especialmente admirado por José Lins, que guardava exemplares daqueles bonecos em miniatura em seu escritório de casa.

O apreço pelo patrimônio artesanal se manifesta quando aquilo que parecia como o caráter mais puro da nacionalidade – os hábitos e as práticas mais afastadas dos centros urbanos e, por conseguinte, mais próximas da natureza, da selva ou da paisagem do interior rústico – se apresenta em decomposição. Deste processo resulta o sentimento nativista que também influenciou os escritores modernistas, como a corrente do verde-amarelismo, liderada por Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e Plínio Salgado. Da mesma forma que as gerações anteriores, a tarefa de salvaguardar as tradições motivou o modernismo brasileiro a registrar as manifestações populares e folclóricas ameaçadas de desaparecimento.

A captação da fala espontânea do povo e o registro oral de vocábulos em vias de desaparição reapareceram no modernismo dos anos 20. Neste sentido, a plataforma dos modernistas paulistas se aproximava do que queria Gilberto Freyre para o Nordeste, com seu elogio da oralidade. Um e outro visavam romper com o bacharelismo dos salões acadêmicos, com o pastiche da moda parisiense, que desfilava na Rua do Ouvidor, e com a dicção empolada dos nossos bacharéis, pretensamente civilizados, que se valiam de todos os artifícios da retórica como sinal de distinção.

Longe de ser uma particularidade da intelligentsia brasileira, ir ao encontro do povo era uma demanda que se propagava desde a Europa. As correntes artísticas, descontentes com os efeitos niveladores do processo civilizatório, no qual a técnica e a máquina se impunham sobre os saberes manuais e sobre as “artes do fazer”, em meio a um continente combalido pela Grande Guerra, apostam no primitivismo e no exotismo antropológico de civilizações de além-mar, ditas primitivas, em África, Ásia e América.

Dentre esses artistas-viajantes em busca de povos e países com civilizações qualitativamente distintas do Velho Mundo, encontra-se o já citado poeta Blaise Cendrars (1887-1961). Nos anos 20, ele foi recebido no Rio de Janeiro e em São Paulo por uma comitiva de artistas, cujo mecenas era Paulo Prado. O vanguardista suíço visitará as cidades históricas de Ouro Preto, Congonhas e Mariana. Será o próprio, aliás, anos mais tarde, um efusivo leitor e apreciador das paisagens descritas nos romances de José Lins do Rego.

Edição      Enrique Shiguematu

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Matéria de ficção: o futebol em José Lins do Rego
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Mário Filho compra em 1936 um periódico voltado apenas para as modalidades esportivas: o Jornal dos Sports. O Cor de Rosa, como vai ser conhecido popularmente seu jornal, será um grande promotor de espetáculos esportivos…''

“Os caminhos da ficção que nos legou passam

pelo eito dos engenhos de cana da várzea do Paraíba,

da mesma forma que pelos vestiários dos clubes de futebol”.

Edilberto Coutinho

“Reclamando, enfezado, irritando até as traves dos gols,

ainda é ele o melhor. O mais eficiente, o de mais classe,

o mais capaz. Depois que Leônidas se foi, ou melhor,

depois que acabou o futebol de Leônidas, o que existe

por aí é o futebol de Heleno”.

José Lins do Rego

 

A aproximação do escritor José Lins do Rego (1901-1957) com o futebol em muito se deveu à figura de outro nordestino: o pernambucano Mário Rodrigues Filho (1908-1966). A atuação deste na promoção de eventos esportivos e carnavalescos na cidade do Rio de Janeiro foi notável. Em 1932, por exemplo, antes de Zé Lins residir na capital da República, Mário Filho concebeu e promoveu o Desfile das Escolas de Samba, realização que será um grande sucesso na oficialização da música popular no Rio de Janeiro.

Com o crescimento dos investimentos nos esportes, Mário Filho compra em 1936 um periódico voltado apenas para as modalidades esportivas: o Jornal dos Sports. O Cor de Rosa, como vai ser conhecido popularmente seu jornal, será um grande promotor de espetáculos esportivos. Isto porque a implantação do profissionalismo no futebol não deixava também de ser uma forma de expansão dos negócios de Mário Filho. É ele, por exemplo, quem cria a legenda Fla-Flu e quem incentiva o concurso entre torcidas, popularizando ainda mais o ambiente ruidoso dos estádios.

Mário Filho, em 1947, quando José Lins já está radicado na cidade, publica um livro seminal: O negro no futebol brasileiro. O prefácio é de Gilberto Freyre, outro amigo de Zé Lins. Inspirado em imagens literárias, Freyre compara o zagueiro Domingos da Guia ao escritor Machado de Assis. Para o sociólogo pernambucano, Da Guia jogava como Machado escrevia, tinha um estilo “apolíneo”, era ereto, fleumático, como um inglês desgarrado nos trópicos.

Autor da domingada, Da Guia driblava com elegância e frieza dentro da própria área, sem chutar a bola de qualquer maneira, sendo capaz de passar a bola com categoria. Já Leônidas da Silva seria um jogador com um estilo de jogo que classificava de “dionisíaco”, por assim dizer de explosão. Se Domingos era retilíneo corporalmente, Leônidas era curvilíneo, anguloso, lábil. Inflamado, este fazia floreios “barrocos” com a pelota. Suas fintas e seus dribles ludibriavam os adversários no arremate do gol.

O livro traz um argumento até certo ponto polêmico, qual seja, o de que o futebol se popularizou no Brasil graças à entrada de negros nos grandes clubes esportivos do Rio de Janeiro. Estes se originariam dos clubes de remo, que logo se tornariam espaços para a prática do futebol, e não queriam permitir a entrada das classes subalternas, nem nos gramados nem nas suas sedes sociais. O carioca Leônidas da Silva, ídolo-mor de José Lins do Rego, seria um jogador de origem plebeia, nascido no subúrbio da cidade, que contribuiria para romper com essas barreiras impostas pelos amadoristas endinheirados. Tais jogadores passavam a representar o país nos selecionados nacionais, em competições internacionais disputadas na América do Sul e na Europa.

Dois anos depois de publicar esse livro, chamado por muitos de um clássico, Mário Filho ainda lançaria mais um: Romance do futebol (1949). José Lins voltaria a fazer elogios ao jornalista em sua coluna do Jornal dos Sports. Desta vez ele destacava a habilidade de Mario Filho como escritor:

 

“Outro livro que Mário Filho tomou para substância e conteúdo humano o futebol. É que arrancou dessa prática esportiva a sua mais romanesca particularidade. Mário Filho é o homem que tem o dom da narração, de contar o que sabe e o que imagina, como rio que corre para o mar. Os fatos, os incidentes, os choques, as alegrias e as dores dos seus personagens se apresentam ao leitor, como um conto ou história de Trancoso, no mais simples e mais patético narrar.”

 

Não foram apenas o jornal e o livro que aproximaram José Lins do fenômeno futebolístico. Sua aproximação deriva também da popularidade desta modalidade junto ao rádio, principal veículo de comunicação nos anos 1930 e 1940. Na política, por exemplo, a radiodifusão vai permitir a Getúlio Vargas o contato com a população brasileira, então dispersa em território de dimensões continentais, perfazendo mais de oito milhões de quilômetros quadrados. Para tanto, o Departamento de Imprensa e Propaganda do governo, o temido DIP do Estado Novo, criou o hábito de irradiar os seus discursos, conhecidos pelo nacionalismo e pela grandiloquência, a ganhar fama com a habitual exclamação de abertura “– trabalhadores do Brasil!”.

O estádio de São Januário foi um dos palcos preferidos utilizados pelo presidente em datas cívicas, como o Primeiro de Maio, quando se comemorava o Dia do Trabalhador. Estas ocasiões rituais eram retransmitidas pelo rádio para boa parte do país. O rádio, instrumento de sonorização e de captação de sinais eletromagnéticos, permitiu também a Orlando Silva (1915-1978), lançado por Francisco Alves (1898-1952) e cognominado o “cantor das multidões”, ecoar sua voz e emocionar milhares de ouvintes nos diversos quadrantes do Brasil. A música se revelará um notável meio de catalisação de audiência nas estações de rádio e chegará também às telas de cinema, outro grande meio de entretenimento e de unificação do imaginário nacional no período.

Embora a década de 1930 marque a descoberta e o encantamento de José Lins com o fenômeno futebolístico, não se deve presumir que ele tenha deixado de lado o seu interesse pela literatura e pelos amigos literatos. Neste período, ocorre um incidente que chamaríamos de heroico da parte de José Lins: a soltura da cadeia do amigo Graciliano Ramos. Em todo o mundo, vivia-se uma época de radicalização política. No Brasil, em 1935, ano em que Graciliano é preso, havia ocorrido a chamada Intentona Comunista, uma tentativa malograda de tomar de assalto o poder no país, por parte de admiradores do regime em curso na União Soviética.

O próprio José Lins retratara esse ambiente de agitações em O moleque Ricardo, livro em que o personagem principal, um operário envolvido em conspirações políticas, é enviado para o degredo na Ilha de Fernando de Noronha, como o triste personagem Policarpo Quaresma, da ficção de Lima Barreto, também fora enviado para a Ilha das Enxadas. Neste contexto, Graciliano Ramos, simpatizante do Partido Comunista como muitos outros artistas e escritores – Jorge Amado, Cândido Portinari, Ismael Nery, Edison Carneiro, Dalcídio Jurandir e Carlos Drummond de Andrade –, acabou preso em Alagoas.

Graciliano foi enviado para o presídio de Ilha Grande no Rio de Janeiro, onde conheceu a doutora Nise da Silveira (1906-1999), conterrânea alagoana também encarcerada, que se tornaria uma líder na mudança de tratamento clínico em hospitais psiquiátricos no Brasil, além de fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente (1952), em parceria com o crítico de arte trotskista Mário Pedrosa. Como o teórico marxista italiano Antônio Gramsci (1891-1937), Graciliano também se dedicou a escrever no presídio, a fim de suportar o ostracismo do cativeiro. Foi na prisão que redigiu um clássico da literatura brasileira: Memórias do cárcere.

Em 1937, ao lado de José Olympio, que havia lançado no ano anterior o romance de Graciliano, Angústia, José Lins intercedeu no Palácio do Catete e solicitou a intelectuais colaboradores do governo – Almir de Andrade, Lourival Fontes e Herman Lima –, a libertação do escritor. Após uma série de negociações, o pedido foi concedido e Graciliano saiu da prisão.

De início, Graciliano se hospedou na casa de José Lins, situada na Rua Alfredo Chaves, no bairro do Humaitá. Lá conviveu com Dona Naná e com as três filhas de José Lins. De forma anedótica, conta o crítico Silviano Santiago, no livro Em liberdade: uma ficção, que um novo hábito – a veneração de José Lins pelo futebol – causou espanto em Graciliano. Depois de poucos dias na casa, teria concluído perplexo o escritor: “Aqui Leônidas da Silva é mais importante que Dostoievski”.

Em paralelo à ação política em prol de amigos escritores, nestes primeiros anos em que se estabelece no Rio de Janeiro, a veia literária se apresenta fértil como nunca. Seguindo a sugestão de José Olympio – “Você, José Lins, pode fazer um romance em cada ano” – o escritor publica em 1935 o citado O moleque Ricardo. A série continua no ano seguinte, com Usina (1936); em 1937 aparece Pureza, um ano depois Pedra Bonita (1938) e em 1939, Riacho Doce.

A impressionante sequência anual dos livros publicados atendia em parte ao sucesso de vendas, em parte à disposição do autor na reinvenção das suas lembranças do agora distante Nordeste. O pano de fundo podia ser ora o espaço litorâneo e urbano de O moleque Ricardo e Riacho Doce; ora a ligação entre o litoral e o interior nas estações das linhas de trem em Pureza; ora as transformações de sua região de origem em Usina; ora ainda o sertão adusto em Pedra Bonita.

No estado do Rio, a vivência na região praiana das salinas de Cabo Frio e das lagoas de Araruama serve de inspiração para José Lins escrever um romance que será publicado em 1941: Água-mãe. O eixo central da trama gira em torno de mistérios de uma casa mal-assombrada. O livro apresenta, contudo, algumas novidades temáticas, paisagísticas e sociais em relação às obras anteriores: 1) não se filia a nenhum dos seus ciclos de romance – nem o da Cana-de-Açúcar nem o da Seca, do Misticismo e da Fome; 2) não se passa no Nordeste nem explora a paisagem da região nordestina; e 3) tenta retratar na ficção famílias pertencentes às três esferas da sociedade, das classes populares às classes médias e às classes altas do Rio de Janeiro.

Na década de 1950, Glauber Rocha (1939-1981), então um iniciante na crítica cultural, se encantou com a obra de José Lins do Rego. O cineasta baiano leu a obra de José Lins na íntegra, inclusive Água-mãe, e resumiu a parte em que José Lins trata da carreira do jogador. Tratava-se de mais um personagem frustrado, galeria dos demais tipos sociais descritos pelo autor: o senhor de engenho, o bacharel, o cangaceiro, o contador de histórias.

Eis seu comentário:

 

“Joca, o jogador de futebol, é a manifestação em nosso romance desse ídolo nacional. José Lins, grande entusiasta e entendedor desse esporte, exibe seus conhecimento com descrições de pelejas na melhor linha da crônica esportiva. Por outro lado, ultrapassando o devaneio, traça rápida mas profundamente, o roteiro geral do jogador de futebol: sua ascensão, seu auge na seleção nacional, sua queda brusca, sua morte na humildade e no esquecimento de onde veio. Joca morre ali mesmo, sentado na porta de casa, olhando tristemente a lagoa.”

Edição      Enrique Shiguematu

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O Galileu Galilei de Bertolt Brecht
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Denise Fraga interpretando Galileu em uma versão contemporânea da peça.

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

“Eu sou o nevoeiro, e deve contar comigo

Todo aquele que viaja sobre as águas.

1000 anos e nunca se viu

Quem pretendesse atravessar os ares.

Afinal, quem é você?

(Brecht, O voo sobre o oceano)

“Como um artefato alegórico, Galileu contém pelo menos duas mensagens distintas, além da ‘literal’: a da revolução política como um tipo de nível anagógico, e a da revolução estética como um nível moral”.

(Fredric Jameson, Brecht e a questão do método)

Uma das leituras escolares de que ainda guardo boas lembranças é a peça A vida de Galileu, de autoria do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). A edição a que tive acesso em 1989, ano em que li o texto para a escola, era a primeira publicada em português e datava de junho de 1977. Tratava-se de uma versão da Editora Abril e fora traduzida por Roberto Schwarz, um dos argutos intérpretes da obra brechtiana no Brasil, a exemplo de sua análise de Santa Joana dos Matadouros.

O elenco da peça é extenso, há pelo menos 20 personagens que aparecem no decurso dos quinze capítulos da dramaturgia brechtiana. Além do próprio Galileu, avultam nos diálogos: Andrea Sarti, Dona Sarti, Ludovico Marsili, o procurador da Universidade de Pádua, o senhor Priuli, Sagredo, Vírginia, Federzoni, o Doge, Cosmo Medicis, o pequeno monge, o cardeal inquisidor, os cardeais Barberini e Bellarmino, Filippo Mucio, o senhor Gaffone, o teólogo, o filósofo e o matemático, entre outros.   

Escrito entre o final dos anos 1930 e o início da década de 1940, o texto reconstitui a vida do professor de matemática, residente inicialmente em Pádua, que almeja demonstrar o funcionamento do universo sob bases distintas das então aceitas. Reproduzo a seguir, em breves linhas, o fio condutor da narrativa brechtiana.

De seu quarto de estudo, quer provar que a terra gira em torno do sol e, para tanto, entabula conversas com Andrea, filho da governanta, dona Sarti, a quem afirma: “– Há dois mil anos a humanidade acreditou que o sol e as estrelas do céu giram em torno dela. O papa, os cardeais, os príncipes, os sábios, capitães, comerciantes, peixeiras e crianças de escola. Todos achando que estão imóveis nessa bola de cristal…”.

Dona Sarti, por seu turno, não gosta do teor do assunto, embora relembre suas observações taxativas no diálogo com Galileu: “– Ontem à noite, ele me provou que a terra dá volta no sol. Está convencido de que isso foi calculado por um tal de Copérnico… ele fala essas coisas na escola e os padres vêm me procurar, porque ele fica dizendo coisas que são contra a religião”.

Galileu dá aulas particulares, pois a universidade o remunera mal. Um procurador universitário vai à sua casa, mas nega o pedido de aumento solicitado pelo docente: “– Eu vim tratar do seu pedido de aumento; o senhor quer ganhar mil escudos. Infelizmente, o meu parecer não será favorável”.

A despeito da negativa, Galileu apresenta a sua versão do telescópio ao procurador, que por sua vez o leva aos veneráveis conselheiros da República de Veneza. Estes veem o potencial comercial do tubo com lentes, o que desagrada o astrônomo italiano: “– Pensam que estão ganhando um brinquedo lucrativo, mas é muito mais. Ontem eu apontei o tubo para a lua. Ele não tem luz própria. A astronomia parou há mil anos, porque não havia telescópio”.

A 10 de janeiro de 1610, servindo-se do telescópio, Galileu observa fenômenos celestes e deslinda o sistema copernicano. Mesmo com a advertência do amigo Sagredo quanto a possíveis consequências de sua pesquisa da rotação dos astros, Galileu endossa a força da razão humana. Em seu quarto de estudos, Galileu conclui com base em suas observações que a lua é um corpo celeste como outro qualquer.

Sagredo o dissuade: “– A lua não pode ser uma terra, com montanhas e vales, assim como a Terra não pode ser uma estrela” … “– Isto contradiz a astronomia inteira de dois mil anos”. Ao que Galileu retorque: “O que você vê é que não há diferença entre o céu e a terra. Hoje, dez de janeiro de 1610, a humanidade registra em seu diário: aboliu-se o céu”.   

Para ter mais tempo para estudar, o personagem cogita mudar-se para Florença, pois: “– Lá me dispensam de enfiar Ptolomeu na cabeça de alunos particulares e terei tempo para elaborar as minhas provas, porque o que tenho agora não basta”.

Galileu troca afinal a república de Veneza pela corte florentina, cujos sábios, entretanto, não dão créditos às suas descobertas feitas por telescópio. Membros da corte vão à residência de Galileu para ver o objeto polêmico. Ao final uma discordância de opiniões se deflagra no encontro: “Mestre-sala: – A corte está ansiosíssima, esperando a opinião da ilustre universidade a respeito do extraordinário instrumento do senhor Galileu e das suas maravilhosas estrelas novas”. Ao que o matemático obtempera: “– É duvidoso um telescópio no qual se vê o que não pode existir?”.

A peste invade as ruas de Florença. Mesmo assim, Galileu prossegue em suas pesquisas. Dona Sarti observa: “– Seu Galileu! Venha comigo! Você está louco”. O matemático responde: “– Agora eu reuni todas as provas. Sabe, quando passar a peste, vou para Roma, e aí eles vão ver…”.

No ano de 1616, o Colégio Romano ironiza as descobertas e afirmações de Galileu. Um monge sentencia em tom irônico: “– Ui, a terra está virando muito, estou tonto.”. Já um dos cardeais observa: “– Dizem que o tal do Galileu transferiu o homem do centro do universo para algum lugar na periferia. Está claro, portanto, que ele é um inimigo da humanidade”.

Na casa do cardeal Bellarmino, em Roma, há um baile. Entrementes, Galileu conversa com Barberini e Bellarmino. Afirma que acredita apenas na razão, mas ambos a acham insuficiente. Virgínia, filha de Galileu, está noiva de Ludovico, rapaz bem apessoado, de família rica. Bellarmino pondera: “– Senhor Galileu, o Santo Ofício decidiu esta noite que a doutrina de Copérnico, segundo a qual o sol é o centro do universo, e permanece inamovível, enquanto a Terra não é o centro universal, e é móvel, é tola, absurda e herética na fé. O senhor, Galileu, abjure essa opinião”.

No palácio do embaixador florentino em Roma, Galileu conversa com o pequeno monge, a quem diz: “– Se Vênus ficar sem fazer no meu quadro do universo! Nós não saberemos inventar máquinas para bombear água dos rios, se não pudermos estudar a máquina que está diante de nossos olhos, a maior de todas, a dos corpos celestes”.

Em sua casa, em Florença, Galileu estuda com seus alunos sobre a flutuação dos corpos e sobre as manchas solares. Andréa comenta: “– Quanto à flutuação, nós supomos que ela não depende da forma do corpo, mas de seu peso, comparado ao da água: se for mais leve, o corpo flutua; se for mais pesado…”.

Galileu exclama: “– Barberini será o papa! O saber será uma paixão e a pesquisa, uma volúpia. Cláudio tem razão, essas manchas solares me interessam”.

Em 1632, durante a terça-feira de carnaval, divulga-se: “– Prezados habitantes, vejam a fenomenal descoberta de Galileu Galilei: a Terra gira em torno do sol!”.

Em Florença, no Palácio dos Médicis, Galileu e a filha esperam que o grão-duque os receba. Este demora, mas os atende. Galileu não entrega o livro. Vanni, um amigo de Galileu, confidencia: “– Lá em cima falavam na sua pessoa. Dizem que o senhor é responsável pelos panfletos contra a Bíblia que estão à venda em toda a parte”.

Enquanto isso, um alto funcionário se dirige a Galileu: “Estou encarregado de informá-lo de que a corte florentina não tem mais condições de opor resistência ao desejo da sagrada Inquisição de inquirir o senhor em Roma”.

Em uma conversa, o inquisidor quer que o papa faça com que Galileu pare de falar certas coisas: “– No livro dele argumentam dois homens, um estúpido, que naturalmente defende as ideias de Aristóteles, e um inteligente, que também naturalmente defende as ideias do senhor Galileu; e a palavra final está na boca de quem, sua Santidade?” O Papa assevera que se trata de uma impertinência e considera aquele estado de coisas uma balbúrdia.        

 No clímax da peça de Brecht, à altura do capítulo XIII, Galileu é obrigado pela Igreja a negar todas as suas assertivas científicas, caso não queira morrer. O pequeno monge comenta: “– Ele passou vinte e três dias na cela. O interrogatório foi ontem. Hoje foi a sessão”. Na Inquisição, a expectativa é que Galileu renegue suas afirmações às cinco da tarde, durante a sessão inquisitorial.

Eis que, no horário esperado, a voz do arauto se manifesta: “– Eu, Galileu Galilei, professor de matemática e física na Universidade de Florença, abjuro o que ensinei: que o sol seja o centro do mundo, imóvel em seu lugar, e que a Terra não seja central nem estática. De coração sincero e fé não fingida, eu abjuro, detesto e maldigo todos estes enganos e estas heresias, assim como quaisquer outros enganos e pensamentos contrários à Santa Igreja”.

Passados muitos anos, já envelhecido, Galileu vive em uma choupana no campo, onde conclui seu livro “Os discursos”. Andréa, já um moço, vai à residência campestre de Galileu despedir-se, uma vez que viaja para as terras da Holanda. Galileu, por seu turno, entrega-lhe os Discorsi. Nesse ínterim, Galileu, semicego, observa cuidadosamente o curso de uma pequena esfera de madeira.

Na conversa, Andréa diz que, para trabalhar com ciência, resolveu-se mudar para os Países Baixos: “– Não permitem ao boi o que Júpiter não se permitia”. Galileu pondera que a responsabilidade é toda de Andréa caso queira levar a obra em sua viagem. Andréa decide levar o livro consigo, atravessando a fronteira da Itália. Junto ao cocheiro, que carrega o caixote da mudança, está Andréa, com o manuscrito de Galileu escondido na bolsa de viagem.

Fecham-se as cortinas, cai o pano. 

Edição      Enrique Shiguematu

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Literatura em movimento: a ferrovia no romance Pureza, de José Lins do Rego
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Maria Fumaça em Tiradentes. Fonte: Acervo Particular em http://www.joaobarcelos.com.br/12_03.htm

“E apitava de longe um trem, de muito longe

que o apito chegava a ele como um toque de flauta”.

Durante a segunda século XIX, e até a primeira metade do século XX, trabalhadores do campo e da cidade acostumaram-se ao trem como um de seus principais meios de transporte. Nas artes, as locomotivas inspiraram o maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) a compor O trenzinho do caipira, parte da peça Bachianas Brasileiras n. 2. Na melodia, em tom nostálgico, o movimento da máquina mimetiza os instrumentos da orquestra. A composição recebeu, anos depois, a letra do poeta Ferreira Gullar (1930-2016):

“Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar,no ar…”

Historicamente, as ferrovias já haviam produzido transformações em boa parte da Europa, no período que se seguiu à Revolução Industrial. No Brasil, este meio de locomoção de pessoas e de produtos se impregnou à sua paisagem na virada do século XIX para o XX.  Ainda no período do Império, o Brasil assistiu ao advento das estradas de ferro como uma grande novidade técnica, dinamizadora da vida local e integradora do território. Ainda que de maneira paulatina, o desenvolvimento dos meios de transporte e dos meios de comunicação – a exemplo do telégrafo, do telefone, do automóvel e do navio a vapor – impulsionava a interligação do país, sinalizando para a tendência a trocas de mercadorias e de informações.

As ferrovias substituíram os transportes em cavalos e lombos de burro, que abriam picadas em caminhos ínvios, de difícil acesso, pelo sertão. O aparecimento dos trens data de 1852, com a ação pioneira do empresário Barão de Mauá, responsável pela primeira ligação férrea entre o Rio de Janeiro e Petrópolis, esta última uma cidade serrana, com temperatura mais amena, escolhida como local propício para veraneio da família real brasileira.

O geógrafo francês Pierre Denis visitou o Brasil em princípios do século XX e assim descreveu o papel das ferrovias no desenvolvimento do país:

“A via férrea é como uma artéria vivificante. Os novos caminhos traçados na colônia terminam nela; as terras que lhe são vizinhas aumentaram de valor. Perto da estação formou-se um pequeno centro, hoteleiro, carpinteiro, ferrador e várias lojas pelas quais passa toda a importação e toda a exportação. Os produtos da terra, o milho, os feijões, adquiriram ali um valor mercantil. A existência dos colonos torna-se mais variada e mais inteligente. Germes da divisão do trabalho aparecem; alguns colonos fazem-se artistas”.

Para outros autores, menos otimistas, as vias ferroviárias cumpriam apenas interesses de ordem econômica. Isto porque os comboios da Great Western, por exemplo, levavam a Maceió, a João Pessoa e a Natal, cidades-capitais do Nordeste com maior expressão. A bitola de seus trilhos, no entanto, não penetrava o Oeste nem as brenhas dos sertões nordestinos. Esta era a crítica apontada pelo escritor nacionalista Alberto Torres (1865-1917):

“As estradas de ferro não entrelaçam as populações do interior, umas com as outras; não formam rede de relações recíprocas, movimentando a circulação interna: são vias de drenagem e de atração de povos e de riqueza, para as praças comerciais, para as capitais, para os portos, para os centros de negócio e de luxo”.

*

A ficção Pureza é constituída por personagens habituais dos romances de José Lins, como um cego – Ladislau – e uma negra velha – a criada Felismina. A novidade romanesca diz respeito ao cenário: o lugarejo é composto basicamente pela casa da estação de trem, cujo chefe é Antônio Cavalcanti, gordo e de olhos azuis, pai de uma família de posses, antigo senhor de terras em Palmares, pertencente ao nobre tronco dos Hollanda Cavalcanti, que se degradara com o passar dos séculos. Além da casa, há o chalé, construído por ingleses, banhado por um rio e envolto de eucaliptos, por onde cigarras e pássaros passam cantando.

“Fazia um mês que estava em Pureza. Era um recanto retirado, onde só existia mesmo, além da casa do chefe da estação, o chalé onde eu morava. Fora uma casa que o superintendente da estrada construíra para passar o verão. O lugar é uma delícia, um retiro que só mesmo o gosto de um inglês poderia ter descoberto”.

O enredo, de fundo psicológico, conta a história de Lourenço de Mello, conhecido por Lola, jovem que sofre de complexo de inferioridade. O complexo deriva do medo da tuberculose, doença que acometera e matara a mãe e a irmã. A sensibilidade mórbida faz de Lourenço um personagem tímido e soma-se à primeira experiência sexual, que fracassara. O trauma da morte e o amor fracassado levam o jovem enfermo a acorrer para a estação ferroviária de Pureza, lugar tranquilo, em busca da reabilitação física e psíquica.

O rapaz doente, no entanto, envolve-se em caso de amor com duas irmãs, Margarida e Maria Paula, filhas do chefe da estação, casado com D. Francisquinha: “Sempre que eu ia assistir à passagem dos trens, via na janela da estação as duas filhas do chefe. Cumprimentava-as e elas duas sorriam para mim. Reparando bem, eram duas moças bonitas. E disto elas tinham consciência, pois se enfeitavam para os horários.”.

O contato físico e a redescoberta do amor com Margarida revigoram Lourenço, que se recupera de seu mal de família em meio ao sossego, ao ar puro e à vida pacata da estação. Depois da fuga de Margarida, Lourenço inicia relação com Maria Paula, que tinha como pretendente o agulheiro da estação, Chico Bembem. O provável conflito com este faz Lourenço partir em retirada de Pureza, finalizando a história com um motivo recorrente na obra de José Lins, a fuga, valendo-se para tanto do uso da ferrovia.  

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego e a língua musical brasileira
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Serra, serra, serrador,

serra a madeira de Nosso Senhor

Fogo morto

O xaxado esquentou na gafieira
Sebastiana não deu mais fracasso

E gritava: a, e, i, o, u, ipsilone
Luiz Gonzaga.

 

José Lins do Rego foi um escritor que soube tratar das influências da oralidade e da sonoridade na literatura brasileira. A sinergia que proporcionou entre a escrita e a fala típica da região nordestina fez o crítico Bernardo Gersen evocar o cantador Dioclécio, personagem do romance Cangaceiros: “… até que ponto ele é de autoria do nosso romancista e onde começa precisamente a colaboração coletiva, pelo menos através dessa língua gostosamente oral e de suas virtualidades estéticas?”

A música, cadente e melódica, comparece em outro romance, Fogo morto. Este traz vários trechos de cantigas coletivas, de autoria desconhecida, sob a forma de estribilhos de cocos ou de versos populares cantados pelo personagem José Passarinho:

 

“O caixeiro bebe na venda/

O patrão no Varadô/

Eu estava em Itabaiana/

Quando a boiada passou/

Ô lê lê vira a moenda/

Ô lê lê moenda virou.”

“Engenho Novo,

Engenho Novo,

Engenho Novo,

Bota a roda pra rodar”.

“Me diga, minha menina/

Minha menina real/

Se não tem outros amores/

Que Dom Carro de Monteval?”

 

Os traços estilísticos de José Lins, com seu tom de linguagem despachada e de conversação corrente, fizeram o crítico baiano Eugênio Gomes observar:

“… o escritor trabalha uma língua que é, de si mesma, uma afirmação vital: a língua brasileira, com as nuanças do saboroso dialeto nordestino, malbaratado até o ridículo pelo regionalismo de convenção.

Quando se sabe que esse escritor é também um dos críticos mais lúcidos do Brasil, a trivialidade da sua prosa toca as raias do prodigioso. Porque não há por onde surpreender nele o trivialismo estudado. Pelo contrário, a sua sintaxe providencialmente insubmissa conserva uma unidade interna que não pode deixar de ser a resultante de uma assimilação normal”.

 

Em tom de elogio, outro comentador, Peregrino Júnior, alinhava:

 

“Criou José Lins do Rego estilo que era só dele: sintaxe pessoal, períodos curtos, ordem direta, adjetivação enxuta e essencial, modismos, arcaísmos e idiotismos, substância medular da fala do povo. A sua prosa é uma das prosas mais autênticas, mais ricas de seiva da nossa língua – capitosa, corrente e natural. A sua melodia interior, soube-a traduzir na língua incomparável pela comunicabilidade psicológica e formal – língua ágil, colorida e pitoresca –, que foi aquela que sua infância se acostumou a ouvir falar na bagaceira do engenho familiar”.  

Sobre as características da “língua brasileira”, Gilberto Freyre observa:

“Algumas palavras, ainda hoje duras ou acres quando pronunciadas pelos portugueses, se amaciaram no Brasil por influência da boca africana. Da boca africana aliada ao clima – outro corruptor das línguas europeias, da fervura por que passaram na América tropical e subtropical.

O processo de reduplicação da sílaba tônica, tão das línguas selvagens e da linguagem das crianças, atuou sobre várias palavras dando ao nosso vocabulário infantil um especial encanto. O ‘dói’ dos grandes tornou-se ‘dodói’ dos meninos. Palavra muito mais dengosa.

A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino as sílabas moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmente, é uma das falas mais doces deste mundo. Sem rr nem ss; as sílabas finais moles; palavras que só faltam desmanchar-se na boca da gente”.

Tal linguagem, típica da formação da criança sob a égide patriarcal, não se confinou a essa faixa etária e disseminou-se, segundo Freyre, para toda a sociedade da época. Arremata o autor em observação sobre a cultura oral e auditiva no Brasil colonial: “E não só a língua infantil se abrandou desse jeito, mas a linguagem em geral, a fala séria, solene, da gente grande, toda ela sofreu no Brasil, ao contato do senhor com o escravo, um amolecimento de resultados às vezes deliciosos para o ouvido.”

Em José Lins, o “campo de experiências” linguísticas, para glosar a expressão de um conceituado historiador alemão, está todo ele alojado na sua região natal e no interior nordestino. Com uma liberdade de narração e com uma linguagem não convencional, sua literatura, desenvolvida entre as décadas de 1930 e 1950, reconstitui o mundo decadente e agônico do Brasil rural, do qual o engenho será a sua unidade principal.

Edição      Enrique Shiguematu

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Literatura de cordel: da França ao Nordeste
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Literatura de Cordel é vendida na Feira. RJ, 01/08/2010. Foto: Wilton Junior/AE

A literatura de cordel tem sua origem na França, transladando-se para o Brasil como resiliência medieval, já sob o influxo da cultura portuguesa. Chamada de littérature de colportage, foi reconhecida pelo historiador francês Robert Mandrou, que pesquisou os milhares de livrinhos reunidos na Bibliothèque Bleue entre os séculos XVII e XIX.

A história das edições e das práticas de leitura de tal gênero foi desenvolvida por outro historiador, Roger Chartier, que demonstraria a complexidade das suas origens literárias. Ele mostrou, sobretudo, uma intrincada teia de relações, que envolviam a elaboração, a edição, a impressão, a difusão e a recepção entre o público ouvinte e leitor da França rural e das vilas normandas dos séculos XVIII e XIX.

Chartier acentua ainda que, longe de serem apenas espontâneas, as criações populares reuniam em si um caleidoscópio de influências, incidindo na fabricação dos textos, desde os manuais, os romances, os contos de fada até a alta literatura e os escritos religiosos. Da mesma maneira, o autor sustentava que a suposta originalidade e espontaneidade do texto devia ser relativizada, haja vista o elevado grau de intervenção editorial, que incluía as ilustrações e a parte gráfica. O trabalho de adaptação dos editores visava tanto o controle do que vinha expresso nos folhetos quanto a modificação do discurso, a fim de que as histórias se tornassem mais atraentes e mais acessíveis ao grande público.

As referências visuais e os artifícios mnemônicos tinham por finalidade atingir um número maior de leitores que, ao contrário das formas de leitura impostas pela norma culta, estavam acostumadas às descontinuidades e à fragmentação da narrativa. Assim, a classificação em gênero dos cordéis era uma codificação feita a posteriori, pela ação direta dos editores, o que criava expectativas e gerava demandas de interpretação, propiciando a ampliação do número de vendas e de leitores, fomentando o consumo da literatura popular.

No caso brasileiro, as historietas e as anedotas de fundo mítico, sagrado ou histórico ─ o rei Carlos Magno, os doze Pares de França, a imperadora Teodora, o Lunário Perpétuo ─ incorporaram-se ao imaginário social nordestino, com seu folclore e com suas crendices próprias. À medida que se aclimatou em imagens, poemas e músicas nesta região, o cordel passou a divulgar seus folhetos através das rústicas casas tipográficas.

Leandro Gomes de Barros (1868-1918), por exemplo, foi muito admirado por Carlos Drummond de Andrade, que lhe dedicou uma crônica no Jornal do Brasil em 1976, na qual elevou o poeta popular a uma posição maior que Olavo Bilac nas letras brasileiras.

Os cordelistas, no entanto, não teriam o mesmo impacto se suas composições não viessem acompanhadas das imagens, sobretudo as xilogravuras de gravuristas como Newton Cavalcanti, Abraão Batista, José Costa Leite, Amaro Francisco, José Lourenço e Gilvan Samico. Havia figuras incontestes como J. Borges, aclamado por Ariano Suassuna e pelo Movimento Armorial, que eram ao mesmo tempo gravadores, xilógrafos e repentistas. De modo geral, porém, um servia-se do trabalho do outro, em uma atividade artesanal de reciprocidade.

No Nordeste, o cordel andava de par com o artesanato. Fazedor de bonecos de barros em sua cidade natal, Caruaru (PE), mestre Vitalino vendia seus utensílios de cerâmica em feiras dos arredores. Além de reproduzir animais em miniatura – boizinhos, bezerros, cabritos e jegues –, modelava também personagens típicos da cultura do Nordeste, como cangaceiros, retirantes e soldados, e temas festivos da vida local – reisados, pastoris, vaquejadas, entre outros.

Edição      Enrique Shiguematu

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