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Historiografia da Revolução Industrial na Europa
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

'' A destruição dos antigos modos de vida liberou as necessidades e produziu o consumidor moderno' – Pintura de August von Wille

Um dos primeiros livros do século XX a tratar das origens do processo industrial é o hoje clássico “A Revolução Industrial no século XVIII”, de 1905, escrita por Paul Mantoux. Segundo o historiador inglês, o significado da revolução industrial na história da humanidade só é equiparável à invenção da agricultura, da escrita e da metalurgia na Pré-história e na Antiguidade, com as suas profundas transformações desencadeadas em pouquíssimo tempo, trazendo a sensação de uma aceleração e sugerindo metáforas naturais como explosão, vulcão, erupção, enchente, entre outras.

Em versão hoje consensual na historiografia, este processo industrial foi deflagrado nas ilhas britânicas, mormente na segunda metade do século XVIII. Ao contrário do império espanhol no século XVI, que passou a depender apenas do ouro e da prata provenientes das suas possessões americanas, tornando-se vulnerável à oscilação do valor dos metais no mercado europeu, a Inglaterra se baseou em uma solidez agrícola.

Esta lhe permitiu um desenvolvimento interno e uma prosperidade econômica, mesmo após a perda de colônias importantíssimas como os EUA, que declararam independência em 1776. Neste mesmo ano, Adam Smith publica “A Riqueza das Nações”, onde descola o valor da riqueza da terra, como faziam os fisiocratas (Quesnay, Mirabeau, Turgot), para a produtividade sem as amarras do Estado e tornava célebre a formulação de uma inclinação natural humana para “comerciar, permutar e trocar”.

Mantoux, em sua obra clássica, associa a Revolução Industrial à combinação entre a solidez agrícola inglesa e a prosperidade comercial. Neste sentido, a revolução industrial não precisou de uma revolução política como a Francesa, pois seu antigo regime econômico vai fazer a agricultura triunfar por si própria, favorecida é claro pelas concepções de Locke acerca da propriedade privada e pela Revolução Gloriosa já pavimentada por Cromwell no final do século XVII.

Ainda segundo Mantoux, a Inglaterra até 1750 é uma ilha pontilhada de inúmeras aldeias, paróquias, condados, comarcas, vilas e pequenos burgos. O homem encontra-se disperso, atomizado, por essas diversas regiões. A imagem que prevalece da Inglaterra ainda é rural: vastas extensões de pastagem, rebanho de ovelhas e de carneiros a fornecer a principal matéria-prima para as famílias, com a extração da lã e, depois, do cultivo do algodão.

A produção se dá em nível rudimentar e familiar, a economia serve à subsistência da casa (oikos), mediante uma divisão social do trabalho do fiador que pisa, fia e carda. Pouco a pouco, juntam-se os agregados familiares e os operários. O trabalho varia em conformidade com as estações do ano e com os ciclos da natureza, em uma relação temporal e espacial anterior à intensificação da disciplinarização do trabalho industrial, que será explorada pelo historiador E. P. Thompson. Vale dizer que o tear pouco mudara desde a Idade Média, cumprindo as funções de tosar, pisar, cardar, fiar. Os moinhos d’água compõem a paisagem natural, vindo a constituir a principal energia produtiva de até então: a força hidráulica.

A cadeia produtiva, hegemônica durante séculos, compreende diversas etapas: o produto da lã caseira é entregue inacabado a um tecelão, que dá um acabamento em seu tear à mercadoria, vendendo-a ao comércio local. A compra e a venda do produto são repassadas a um mercador que se incumbe de levá-lo às feiras, às vilas e aos burgos. Este o repassa a um comerciante, ou a um burguês, capaz de alojá-lo e de oferecê-lo à venda em forma de roupa, calçado, pano, seda, flanela e outras vestimentas em cidades como Manchester e Glasgow.

O sistema de produção, com a organização, a circulação e a distribuição das mercadorias, vai evoluir para uma especialização crescente e confere um poder cada vez maior às figuras intermediárias, ou seja, mercadores e burgueses, o que compromete a independência e autossuficiência camponesa.

Entre os historiadores franceses, Henri Sée e Jean Baecheler também tentaram descrever as origens do capitalismo na Europa. Assim como Mantoux, Baecheler julga este sistema econômico com base em transformações históricas por que passou a humanidade. Seriam três as mutações maiores: a aparição do sistema da cidade grega; a queda do Império Romano ocidental e as origens do sistema capitalista.

Para explicar as razões da aparição do capitalismo no Ocidente, o autor encadeia as seguintes proposições: 1) o caráter específico do capitalismo é a procura privilegiada pela eficácia econômica; 2) a condição primeira da maximização da eficácia econômica é a liberação da sociedade civil em relação ao Estado; 3) esta condição é possível na medida em que uma atmosfera cultural se divide em várias unidades políticas soberanas; 4) para que essas virtualidades tenham todas as suas consequências, é necessário também que o sistema de valores se modifique em relação aos valores religiosos, militares e políticos e que suas necessidades sejam liberadas.

Só o Ocidente conheceu uma evolução que preencheu todas essas condições – a ordem feudal saída da decadência das províncias ocidentais do Império Romano ignorava as trocas; quando estas apareceram, produziu-se um ser original: o burguês, com taxas econômicas e sem legitimidade. A ausência de uma ordem política europeia levou à anarquia do mercado e à impossibilidade de criar uma ordem econômica. A destruição dos antigos modos de vida liberou as necessidades e produziu o consumidor moderno. Para o autor, o mesmo raciocínio permite explicar por que a mutação industrial ocorreu na Inglaterra do fim do século XVIII. Até o presente, contenta-se com certas particularidades do fenômeno, como, por exemplo, o crescimento da demanda de algodão e geração de um aumento do tecido. Donde a adoção do trabalho de tecer. E assim por diante.

A hipótese de Baechler é a de que o sistema pluralista inglês se coloca em definitivo no século XVIII. Neste momento, a Europa alcança, após séculos de guerras internas e externas, uma estabilidade política, com a unificação dos Estados e uma administração mais eficaz. O espírito científico faz um progresso decisivo na Inglaterra a partir de Newton e a elite inglesa se ocupa da economia. Isto mostra que o avanço inglês não foi um casual. Além disto, a conjuntura do sistema europeu era favorável à eclosão do sistema industrial. Desta maneira não houve nenhum sério obstáculo para se estender o processo industrial à França, aos Países Baixos, à Bélgica, à Alemanha, à Itália do Norte e à Boêmia. Se o século XVIII realiza pela primeira vez este conjunto de condições colocadas em seu raciocínio, é necessário remontar ao século XI para entender a gênese progressiva dessas condições.  

De volta à historiografia inglesa, desta vez àquela de viés marxista, saída do Pós-Segunda Guerra, Hobsbawm publica em 1959 a sua súmula do que denomina “Era das Revoluções”. Nela, começa por analisar em que medida a explosão revolucionária, ocorrida em meados do século XVIII, se deu graças a uma acumulação de transformações que se manifestaram em especial na década de 1780. Esta significou a retirada de todas as amarras para a produção, com a multiplicação de homens, mercadorias e serviços.

Ao explicar as razões para a sua eclosão nas ilhas britânicas, Hobsbawm aponta para a realidade escravocrata das Américas, para a colonização da Ásia e para o fechamento de seus antigos impérios do extremo oriente a qualquer ocidentalização, para a pulverização em pequenos principados do leste europeu, ainda muito próximo dos mecanismos servis do feudalismo, além de servir a Europa com seus alimentos, assim como a Europa latina, Espanha e Itália.

Hobsbawm trata então de circunscrever uma história regional, a do noroeste da Europa, a do eixo franco-britânico, que vai protagonizar esse acontecimento decisivo para a história do mundo, graças à força de seu impacto internacional após a dupla revolução. As guerras, como a Guerra dos Sete Anos, opõem duas potências que querem tomar a frente no mesmo processo de expansão europeia. Esta propagação depende da compreensão dos aspectos demográficos, técnicos e estruturais na região inglesa, como a construção do primeiro sistema fabril em Lancashire.

Embora a revolução industrial remeta à cidade e à fábrica, ela se encontra, conforme também defendeu Mantoux, em continuidade com as transformações rurais. A revolução industrial foi então um desdobramento evolutivo das relações agrárias e das instituições políticas (monarquia constitucional), nas Ilhas Britânicas. Ela permite a passagem do sistema doméstico de produção ao sistema mecanizado, com a especialização dos processos e funções.

O camponês típico dessa época é o servo, que realiza trabalhos forçados na fazenda do senhor, um nobre proprietário de vastas extensões de terra. Uma boa parte da Europa rural ocidental, entretanto, tinha abandonado sua condição servil e entrado em um sistema em que o camponês era o lavrador típico, com pequenos e médios camponeses vivendo não como arrendatários, mas como produtores mais ou menos autossuficientes. A Inglaterra conseguiu dar origem a uma classe de empresários agrícolas, os fazendeiros, e a um enorme proletariado rural.

A questão de Hobsbawm está em saber por que a riqueza, até então assentada na terra e na propriedade da terra, vai-se deslocar das amarras rurais e vai se voltar para uma produção baseada na mercadoria, na manufatura. A posse da terra conferia distinção – ser nobre era ter terras – e privilégios. Se até então se tinha um modo de produção local que abastecia as regiões circunvizinhas e próximas, observa-se em seguida a passagem para a articulação de um sistema interligado, voltado exclusivamente para o abastecimento e para o provimento das populações que habitam as cidades. A grande força do capitalismo é criar uma cadeia de produção entre o rural e o urbano, de modo que o que antes era isolamento e autonomia torna-se, pouco a pouco, ligação e interdependência.

Da mesma maneira que os historiadores supracitados, Hobsbawm entende que a revolução industrial está entre os acontecimentos de maior magnitude em termos históricos, equiparável na história da humanidade à agricultura e às cidades. Ela ocorreu na Grã-Bretanha e teve equivalentes entre Portugal e Rússia com os servidores das monarquias iluminadas da Europa. Mas estas foram muito pontuais, sem o alcance internacional dos complexos britânicos.

Segundo o renomado historiador, a revolução industrial não deve ser atribuída a qualquer superioridade inglesa em termos tecnológicos e científicos, acadêmicos e escolares. A França e a Escócia possuíam instituições e inventos mais adiantados, mas a novidade é que a Inglaterra passou a apostar em seu exclusivismo na produção econômica.

A revolução industrial foi feita com base no conhecimento técnico ao alcance de artesãos, carpinteiros, moleiros e serralheiros, acumulado por gerações de trabalhadores ingleses. Mesmo o invento técnico maior – a máquina a vapor rotativa, do escocês James Watt (1784) – se fez com base nas máquinas já existentes nas minas.

As condições econômicas, políticas e sociais já estavam sendo preparadas para a revolução industrial. Um espírito comercial já permeava o ambiente agrário, de modo que já não se podia falar em campesinato na Grã-Bretanha. A agricultura se dirigia para o mercado e as manufaturas circulavam no interior. Três funções fundamentais se verificavam no campo: o aumento da produção para atender a uma população não-rural; o excedente populacional escoando para as cidades; o acúmulo de capital para a modernização da economia. Concomitante a isto, ocorreu a construção de uma frota mercante e de uma malha ferroviária, o que evidencia a articulação entra a economia e a política no caso inglês.

Embora o século XVIII tenha sido marcado pela prosperidade econômica, a revolução industrial pode ser explicada menos em função de tal conjuntura e mais como a implantação de um sistema fabril mecanizado, com produção crescente e em custo decrescente, capaz de não depender da demanda e, ao invés, de criar o próprio mercado. As indústrias de objetos domésticos de pequeno porte cresceram, mas continuaram dependentes da demanda. A questão não é, pois, a expansão da produção, mas a da escala da produtividade.

Ainda segundo Hobsbawm, a revolução industrial resulta de um acúmulo de decisões de empresários, que se orientavam pelo princípio da compra no mercado mais barato e da venda no mercado mais caro. Eles buscavam recompensas excepcionais, com inovações simples e baratas, e mercado mundial com monopólio de uma única nação produtora.

O crescimento industrial podia ser obtido em certas áreas, como a têxtil, em todos os países já existentes, onde a expansão era mais viável. Havia itens, todavia, em que apenas a Grã-Bretanha se destacava, tornando-se modelo a ser imitado por outros países. Os inventos técnicos e a maquinaria, como a algodoeira, espalharam-se assim pela Europa e pela América. A Grã-Bretanha não dispunha de tais máquinas, mas possuía economia e política sólida para a conquista de mercados, após vencerem seu principal rival, a França.

De acordo com Hobsbawm, a indústria algodoeira e lanífera da Inglaterra relacionava-se com o comércio da Companhia das Índias Orientais, na tentativa de ampliação do mercado ultramarino. Variando segundo taxas de exportação e importação, a indústria de algodão estava atrelada ao comércio colonial. Na Grã-Bretanha, três portos coloniais se destacavam: Bristol, Glasgow e Liverpool, sendo este ainda um centro de comércio de escravos. Algodão e escravidão andavam, pois, pari passu.

Os escravos africanos eram comprados com os produtos de algodão indianos, enquanto a região de Lancashire veio a alimentar a escravidão sulista nos Estados Unidos, com sua demanda por matéria-prima. A revolução industrial pode ser descrita, em termos de venda, como o triunfo do mercado exportador sobre o doméstico. Foram a América, a África e a Ásia que sustentaram as fábricas britânicas.

A dependência internacional dos produtos manufaturados britânicos foi especialmente importante em duas regiões: a América Latina e a Índia. A primeira, desde a independência política de Portugal e Espanha, não parou de crescer, enquanto a segunda, tradicionalmente exportadora de matéria-prima, passou a importar em maior quantidade, invertendo um quadro histórico. Um dos aspectos que favoreceu a revolução industrial foi a possibilidade de empresários fazerem seus negócios com um investimento relativamente modesto. A conquista de novos mercados, somada à inflação de preços, permitia tal condição.

A relação da indústria algodoeira com os métodos de trabalho escravista potencializou sua expansão. A escassez de mão-de-obra barata e eficiente levou à sua mecanização, no setor da fiação. Durante o século XVIII, a fiação mecanizada foi antecedida pela expansão do sistema doméstico, onde as matérias-primas eram trabalhadas em casa, com vistas a atender aos mercadores, prestes a se tornarem patrões. Com a mecanização da fiação, os teares manuais foram desaparecendo.

Edição      Enrique Shiguematu

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Historiografia do Antigo Regime na França
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Para o historiador britânico, as origens da Revolução Francesa se encontram em seu próprio país…''

Para Albert Soboul, no opulento volume A civilização e a Revolução Francesa (1970), o termo Ancien Regime foi forjado pelos contemporâneos setecentistas que vivenciaram o processo revolucionário a partir da convocação dos Estados Gerais. A expressão, portanto, não é uma abstração categorizada por historiadores do século XIX, seja um Tocqueville a sustentar a continuidade entre antes e depois de 1789, seja um Hippolyte Taine a insistir ao contrário em seu caráter de ruptura. Junto a Marx, Tocqueville e Taine deram origem no Oitocentos a importantes tradições interpretativas do Antigo Regime, com influência na historiografia do século XX.

O Antigo Regime foi vivido, assim, segundo o historiador marxista francês, pela imensa maioria da população como mais do que uma armadura político-institucional, como um aspecto concreto arraigado na vida social, na mentalidade coletiva e na maneira de viver à época. Em seus limites cronológicos, define ainda Soboul, o Antigo Regime encontra seus primórdios na Idade Média, no curso de um longo e lento período de transição, que se inicia entre a Guerra dos Cem Anos e as Guerras de Religião e se estende até a sua brusca ruptura na França durante o quinquênio 1789-1794.

Ela compreende, portanto, três séculos de monarquia, sua idade clássica indo de 1620-1640 a 1720-1730. A crise do Antigo Regime está circunscrita à segunda metade do século XVIII, aguçando-se no período que vai de 1750-1760 até a década de 80, quando as tensões internas fazem romper o ponto de equilíbrio piramidal em que se sustentava o sistema e põem abaixo um regime despótico.

A caracterização mais geral feita pelo mesmo historiador francês aponta a economia, apesar de uma relativa prosperidade, ainda muito conectada ao passado medieval, portanto presa aos grilhões feudais. No plano social, isto se evidencia mediante a persistência do privilégio aristocrático. No plano político-administrativo, o absolutismo monárquico do direito divino é o elemento preponderante.

A economia europeia tinha manifestado um progresso contínuo desde o fim da Idade Média, sustentada pela exploração dos mundos coloniais e pela política mercantilista dos grandes Estados. Ela se acelera no século XVIII na Inglaterra com a inauguração da máquina a vapor, em um processo que, como sublinha Eric Hobsbawm, apenas depois do exemplo da Revolução Francesa, seria cunhada de Revolução Industrial.

Em uma explicação canônica do marxismo, defendida por Soboul, a dinamização econômica inglesa implicou no abandono das antigas estruturas agrárias, isto é, na adoção de um novo modo de produção, com a redistribuição da divisão da produção e com a evolução para um novo aumento demográfico, que culminaram na transformação da hierarquia de classes e na recriação dos valores sociais. A noção de revolução industrial subentende a noção de longa duração, embora sua eclosão se inscreva no tempo curto: vinte ou trinta anos no curso dos quais a produção avança de maneira decisiva, breve transição que permite à economia se desvincular das tradições agrárias e anunciar a transformação irrevogável das estruturas. Ao comparar o crescimento econômico entre Inglaterra e França, Soboul constata a existência de ritmos de desenvolvimento relativamente próximos, mas com o primeiro reino assistindo a mutações técnicas decisivas.

O inegável crescimento econômico da França não esconde a preponderância da agricultura, a lentidão das comunicações (apesar de certo progresso), o atraso da metalurgia em uma produção industrial ela mesma de segundo plano, a ausência de uma verdadeira rede bancária, enfim, vários traços que evidenciam uma estrutura arcaica e rural da sociedade francesa. À medida que se avança para o Leste da Europa, a estagnação se acentua ainda mais. Fala-se mesmo em uma “segunda servidão”. No fim do século XVIII, o Antigo Regime econômico domina a paisagem da Europa continental.

A estrutura social permanece então de essência aristocrática, fundada na hierarquia, no privilégio e nos impostos. Segundo Denis Richet, o absolutismo foi em grande parte “filho da tributação” (Cf. Doyle) A estrutura jurídica das “ordens” ou dos “estados” mascara mal, segundo Soboul, em famosa polêmica conceitual com o historiador Roland Mousnier, a realidade social das classes. Esta realidade apresentava sempre a marca de suas origens, de uma época onde a terra, constituindo a única riqueza, como queriam os fisiocratas franceses – Quesnay, Mirabeau, Turgot – conferia poder àqueles que a possuíam.

Fazendo eco a Soboul, o historiador marxista Perry Anderson considera o absolutismo a manifestação política da última etapa do modo feudal de produção, na qual os nobres procuraram escorar o domínio decadente que mantinham sobre as massas camponesas, entregando parte de seu poder e autoridade a um Estado central fortalecido, que por sua vez garantia a sua posição social. A burguesia não tinha lugar dentro desse ajuste e, em consequência, assim que se sentiu suficientemente forte, derrubou ao mesmo tempo o absolutismo e o feudalismo.

Do lado da historiografia inglesa, é possível dizer que há diversas formas de compreender a crise do Ancien Regime francês. O historiador William Doyle enumera três: 1) A competição internacional consumia além dos limites os recursos do Estado e sobrecarregava o sistema financeiro; 2) Um público leitor instruído, em expansão, encarava tudo com confiança cada vez menor, questionando e discutindo todas as opiniões convencionais sobre qualquer assunto que se possa imaginar; 3) A população crescia a níveis nunca antes atingidos e, enquanto se ampliava a distância entre ricos e pobres, perdiam importância as velhas divisões de status entre os ricos nas camadas superiores da sociedade.

Eric Hobsbawm, em seu famoso livro do final dos anos 1950, A Era das Revoluções, parte da perspectiva clássica, isto é, aquela centrada na reconstituição dos acontecimentos políticos e econômicos, para mostrar como o final do século XVIII foi marcado por agitações políticas que puseram em crise antigos regimes na Europa, sendo a Revolução Francesa seu evento mais dramático.

Para o historiador britânico, as origens da Revolução Francesa se encontram em seu próprio país, uma vez que era uma potência econômica, mas apresentava a mais típica das monarquias absolutas da Europa e, ao mesmo tempo, apresentava forças sociais ascendentes. Estes, vindos do terceiro estado, emergiam economicamente e buscam também espaço na ocupação do aparelho estatal, reivindicando formas justas de concorrência a cargos e postos oficiais.

Em um enfoque marxista, porém não mecanicista, Hobsbawm mostra de que maneira a burguesia tinha clareza do que desejava para a França, mas as forças conservadoras eram um obstáculo para a realização de seus princípios liberais, como tentou de maneira malograda Turgot. O despotismo esclarecido na Rússia, na Prússia e na Áustria havia mostrado como não existia incompatibilidade entre a monarquia absoluta e a racionalização modernizadora da economia, todavia isto não foi conseguido na França, com os nobres e as ordens privilegiadas a manter suas isenções de impostos e a monopolizar as vantagens públicas do poder.

Esse quadro, que se acumula ao longo do século XVIII e se soma à conjuntura de crise na produção alimentícia, leva ao aumento da tensão social. A reação feudal é o estopim que levou à eclosão da Revolução Francesa.

Ao descrever o panorama da época, Hobsbawm frisa o caráter majoritariamente rural da sociedade francesa, com uma ínfima nobreza constituída de 400 mil homens, em uma sociedade com 23 milhões de habitantes. A situação da nobreza vinha se deteriorando à medida que seu status elevado não correspondia mais à sua economia, em declínio. Os aristocratas eram cada vez mais dependentes do Estado e de seus benefícios, tendo de concorrer com os burgueses, que aspiravam aos mesmos postos. Em decadência, os nobres franceses começaram a se valer de seus privilégios de propriedade e de sangue para garantir as funções administrativas, as sinecuras e o poder administrativo nas províncias, o que acirra sua exploração do campesinato e sua competição com a classe média emergente.

Alguns direitos feudais foram reivindicados novamente pela nobreza. O campesinato correspondia a 80% da população francesa e sua situação, ainda que fossem livres e possuíssem terra, não era boa. O atraso técnico, a fome e o aumento da população agravavam a penúria dos camponeses nos últimos 20 anos que antecederam a Revolução. De acordo com Hobsbawm, a estrutura administrativa da monarquia era obsoleta e levava as finanças francesas a uma situação crítica. Esta se intensificou com o apoio da França à independência norte-americana, comprometendo e endividando a economia do país. Os gastos com a guerra levaram o Estado à bancarrota, constituindo os fatores externos da chamada crise do Antigo Regime.

 Para entender as razões pelas quais o Antigo Regime ruiu, alguns autores sustentam que a Revolução Francesa articulou ideais liberais burgueses e sentimentos populares de indignação. Além de seu caráter universal, que serviu de modelo político-ideológico para Índia, América Latina e outros países, deve ressaltar a ausência de programa ou de planejamento de classe. Ao protagonizar uma convulsão social daquelas proporções, em que um acúmulo de revoltas, no campo e na cidade, se transforma em revolução, a Revolução Francesa coloca em pauta os limites e a eficácia da dominação tradicional, ou seja, aquela do poder monárquico absoluto não mais exercendo a mesma capacidade de gerar obediência, afetando a coesão social.

Em obra hoje clássica intitulada O grande medo, o historiador Georges Lefebvre (1990) descreve como a Revolução se gestou tanto nas províncias francesas quanto em Paris. A ideia de um grande medo que assolou a França nas últimas décadas do século XVIII, através de um pânico generalizado manifestou do campo até as cidades, coloca a importância do terreno das mentalidades no processo revolucionário. Esta abordagem põe em questão a figura dos agentes da revolução, o papel ativo e decisivo que tiveram as massas anônimas – isto é, o campesinato e os demais membros desfavorecidos do Terceiro Estado – no curso daquele processo.

Na avaliação de Lefebvre, a Revolução Francesa foi o resultado de uma confluência revolucionária em quatro instâncias de oposição ao Antigo Regime. Uma revolução aristocrática, eu reivindicava a descentralização e a autonomia local e que no século XVIII estava longe de representar valores feudais. Uma revolução burguesa, que tinha como projeto a eliminação dos entraves à produção e propunha a propriedade privada, mas que continha variantes mais radicais, adeptas da república francesa. Uma revolução camponesa, que almejava a conquista da terra e a eliminação de todas as antigas formas de exploração. E uma revolução popular, constituída, na verdade, pela junção de setores radicais da burguesia e dos pobres urbanos que, além da melhoria das condições de vida e trabalho, não conseguiram exprimir claramente o seu projeto.

Edição      Enrique Shiguematu

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Corpo vivo: fragmentos de leitura do romance de Adonias Filho
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Adonias Filho (1915-1990) foi um romancista de origem baiana. Polêmico por suas posições políticas, pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Estreou no romance em 1946, com Servos da morte, e em 1983 lançou sua derradeira obra romancesca, Noites sem madrugada. De um total de sete romances – à parte a literatura infantil, os ensaios, as novelas e a crítica literária –, Corpo vivo (1962) é provavelmente o mais importante. Assinalo, a seguir, muito brevemente algumas passagens, diria flashes, deste ponto alto da literatura nacional.  

 

1ª parte

Depois de jurarem que iriam tomar-lhe as terras, Januário e sua família são mortos de forma cruel a mando de um inimigo. Do ataque, apenas Cajango, filho de Januário, consegue salvar-se. Em terceira pessoa, o romance narra a cena do crime:

 

Na sala de jantar, emborcadas na poça de sangue, as duas meninas – Maria Laura, de doze anos, e Maria Lúcia, de dez anos – estavam caídas como alvejadas em plena carreira. Januário de costas, estirado, estava sangrando no pescoço como se fosse um porco. Maria Thereza era a mais velha e tinha dezoito anos. Fui encontra-la na dispensa, quase despida, e observei que unhas de homem tinham rasgado a sua pele. Deitada de bruços, o sangue já não gotejava da ferida aberta na nuca. O punhal, que a matara, penetrara fundo. Compadre Januário, eu concluí, fora apanhado desprevenido, à traição.   

 

Cajango agora tem apenas Inuri, que é irmão de Januário, e ambos vivem para vingar-se dos familiares assassinados.

 

Eu e o menino, com as armas que pudéssemos levar, viajando dia e noite, iríamos em busca do Camacã muito para o sul da Bahia. ‘– Ninguém sabe, eu disse, mas Januário tem ali um irmão’. Irmão por parte de pai, filho de mãe índia, que vive naquelas brenhas do diabo.

 

2ª parte

 

Cajango ainda era um homem cercado e a vida no acampamento se tornara entediante.

 

A vida no acampamento já o cansava. Os mesmos homens, as mesmas vozes e as mesmas horas no pequeno descampado aberto na selva.

 

Filha de Pereira atrai Cajango. O pai não quer que ela venha, mas Cajango ordena a ida de João Caio a Itabuna e a sua vinda com a moça.

 

Em Itabuna, se não houvesse jeito, a moça continuaria a atrair os homens. Chico das Bonecas informara: dançava nas festas, os seios soltos na chita, os lábios pintados.

 

Não era difícil saber o que ia por dentro de Pereira, seu filho morto, a filha acordando o desejo naquele bruto.

 

3ª parte

 

Inuri não aprova que haja uma mulher na vida de Cajango e quer que a moça volte para Itabuna. Cajango não a deixa ir. Está declarada uma guerra.

Inuri era o único parente próximo de Cajango e devia tê-lo protegido. Mas, não, criou um menino cheio de ódio, como uma fera.

 

“Tornara-se odiado por homens e mulheres. Inuri, que ali está, transformara-o naquilo. E agora quer lhe tirar a mulher para que continue a guerra doida.”

 

“Ela, como nós, tem que se vingar – Cajango prossegue – veio para nossa luta. – É mentira! – e Inuri, erguendo a cabeça, engrossa a voz. – Veio como fêmea perturbar os homens. Uns aos outros, por causa dela, se morderão como cachorros.”

 

Morre Inuri.

 

“E vê o sangue, o sangue de Inuri, nas mãos e na rouba. Estava assim, sujo de sangue, quando padrinho Abílio o encontrou”.

 

“Agora, com Cajango são quatro homens e uma mulher. Tudo que resta do naufrágio, pensa João Caio”.

 

4ª parte

 

Cajango agradece João Caio por tudo que fez. Dá-lhe dinheiro e diz: “– Compre uma tropa e ganhe sua vida”. Alto morre lutando com Digo Gaspar. Cajango vai morar e viver o resto de sua vida com a sua mulher na Serra das Brenhas.

 

“Inútil dizer que Cajango se entenderá com a serra, ela o abrigando até fazer-se esquecido, o sangue de Inuri em suas veias. As peles de suas feras vestirão ele e sua mulher, o alimento em suas caças e suas ervas, os braços se encontrando com suas árvores”.

 

Edição      Enrique Shiguematu

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Peter Burke: o relativismo cultural na historiografia contemporânea
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

 

Com sua capacidade didática de síntese e visão panorâmica, o historiador inglês Peter Burke oferece em A escrita da história: novas perspectivas, publicado pela editora da UNESP em 1991, mais um balanço crítico da historiografia contemporânea, mais precisamente aquela que compreende as décadas de 1970 e 1980. Tendo como horizonte de análise e como termo de comparação o paradigma positivista fundador da história enquanto disciplina e atividade profissional, a saber, o paradigma rankeano da segunda metade do século XIX, Burke procura elencar as mutações por que passou a historiografia ao longo do século XX, a fim de prognosticar quais serão seus desafios no século XXI. O fio condutor e a pergunta que encetam a reflexão do historiador inglês se direcionam no sentido da indagação quanto à própria definição da identidade que a história parece deixar em aberto no limiar do terceiro milênio.

No livro, é possível detectar o temor do autor com a perda de referências em que a atividade do historiador, ao procurar refutar seu antigo paradigma, ao expandir suas fronteiras de uma maneira desenfreada e ao acompanhar as inovações temáticas das áreas de conhecimento que lhe são vicinais, se encontra. Há aqui a constatação de que o relativismo cultural que tanto orientou as ciências humanas e sociais na segunda metade do século XX, mormente a antropologia, possui um dúbio valor para a historiografia: por um lado, libertou-a dos limites formais, oficiais e tradicionais a que se via confinada; por outro, semeou o problema do crescimento excessivo de seu campo de abrangência, de forma tal que dissolveu a demarcação de um território comum aos historiadores e deixou vaga aos seus próprios agentes quais seriam os pontos consensuais de seu ofício.

Se Leopold Von Ranke (1795-1886), o pai da historiografia moderna, ou científica, havia fornecido todos os princípios, procedimentos e mecanismos necessários à tarefa de dar a conhecer o passado tal como ele havia realmente ocorrido, o questionamento a estes pressupostos fez com que muitos historiadores sentissem-se órfãos de uma teoria ou de um paradigma um pouco mais preciso.  

Imprecisão e concisão são, pois, dois dos sintomas e corolários principais da historiografia contemporânea. A contraposição aos critérios de objetividade, de verdade e de factualidade, no sentido destacado pelo positivismo, desencadeou uma série de novos problemas ao profissional da história, para os quais Peter Burke não crê ter sido capaz de responder ainda o seu agente. A introdução da subjetividade, por exemplo, ao mesmo tempo em que teve o mérito de admitir as limitações e as contingências epistemológicas na abordagem de uma época, colocando-a sempre em conformidade com uma perspectiva e com um ponto de vista determinado, foi exacerbada de tal modo por alguns teóricos que determinados autores aventaram até mesmo a ideia da ausência de passado concreto e da inexistência de realidade objetiva.

A passagem da esfera da história política para o plano da história econômica, social e cultural, outro exemplo, da mesma maneira que propiciou ao historiador um diálogo com a economia, a sociologia e a antropologia, deixou-a tão dependente das teorias destas disciplinas que ela própria viu-se restrita a uma atividade instrumental e menor sob o ponto de vista da reflexão teórica, metodológica e conceitual. A especialização da área em subáreas, último exemplo, tanto atendeu à demanda de novos conhecimentos e de assuntos então inexplorados, quanto provocou uma fragmentação e uma compartimentação do saber que obliterou uma visão conjuntural do passado histórico.

A avaliação sumária feita pelo historiador inglês faz-nos pensar que há dois tipos de dificuldade na construção da identidade da historiografia atual. Estes tipos podem ser apontados esquematicamente como problemas de ordem interna e problemas de ordem externa.

A nosso juízo, os problemas de ordem externa sugeridos por Peter Burke deixam um pouco a desejar, porquanto não são suficientemente desenvolvidos pelo historiador inglês. Verifica-se tão somente o entendimento de que questões como a especialização da disciplina eram inevitáveis às transformações por que passavam a sociedade e a comunidade científica como um todo no século XX. Com tal destino inexorável, cabia ao historiador uma posição de passividade frente a estas mudanças mais envolventes e a absorção do relativismo cultural foi uma delas. Mas cabe-nos, entretanto, questionar se esta postura se justifica em relação ao intercâmbio com as demais disciplinas das Ciências Sociais e a posição submissa em que a História em certo sentido se colocou perante aquelas.

Os problemas de ordem interna remetem ao próprio diálogo com a tradição e com as antigas gerações de historiadores. Para Peter Burke, a historiografia configurada a partir da Escola dos Anais procurou com todo o seu empenho intelectual negar e se contrapor às premissas do positivismo. Invertendo e colocando de ponta-cabeça a lógica interna rankeana, suas três principais gerações conseguiram chegar ao extremo oposto do projeto da carreira de historiador desenvolvido entre o último quartel do século XIX e o primeiro quartel do século XX.

Entre os dois extremos, Peter Burke insinua a ideia de que há um vácuo que quer ser preenchido. Orientando-se por um prisma dialético, tem-se a sensação de que existiria potencialmente uma síntese a ser alcançada neste processo interno de definição da identidade do historiador, observando-se para tanto suas dicotomias fundamentais, tais como acontecimento e estrutura, agência e instituição, objetividade e subjetividade, explicação e compreensão. Ao tratar novamente, no fecho do seu texto, da história total como horizonte utópico comum a todos os historiadores, Peter Burke parece terminar por acreditar que ainda há algo de congruente que possa reunificar e voltar a aproximar os membros dessa comunidade científica.    

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego: uma guia para leitura
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

       Desde o ano de 2001, pesquiso a vida e a obra de José Lins do Rego, por meio da leitura de romances, fortuna crítica e crônicas inéditas. Para sistematizar o assunto, montei para a presente coluna quinzenal uma série de apontamentos biográficos que ajudam a situar o leitor interessado no escritor. Sendo assim, a coluna dessa semana terá um formato diferente, pois, ao invés de um texto corrido, trago tópicos que podem vir a contribuir com pesquisadores em fase inicial de investigação. Vamos, pois, aos marcos autorais que considero mais importantes de uma radiografia literária:

Datas

 

Nascimento: 03 de junho de 1901.

Falecimento: 12 de setembro de 1957.

Diagnóstico: cirrose do fígado, síndrome hepato-renal e acidose urêmica.

 

Genealogia:

 

Pai: João do Rego Cavalcanti Albuquerque

Mãe: Amélia do Rego Cavalcanti (morte no mesmo ano do nascimento do filho, com seis meses, tragédia).

Avô materno: o velho Bubu, proprietário de 8 a 9 engenhos.

Avó materna: Janoca.

Mulher: Filomena (Naná) Massa, filha do Senador Massa, da Paraíba.

Data do Casamento: 1923.

Filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória (em Alagoas) e Maria Christina (no Rio).

Madrinha: Tia Maria (Maria Lins).

Primas: Maria Emília e Elza.

 

Formação Escolar:

 

Primário: Instituto Nossa Senhora do Carmo, internato em Itabaiana.

Ginásio: Colégio Diocesano Pio X, capital da Paraíba.

Instituto Carneiro Leão e Ginásio Pernambucano: Recife.

Faculdade de Direito do Recife

16 anos: leitura de O Ateneu, de Raul Pompéia.

17 anos: leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

17 anos: primeiro artigo na imprensa, sobre Rui Barbosa.

17 anos: leitura de Sthendal e Rousseau, revelado por Olívio Montenegro.

Anos 1920: leituras favoritas de juventude – Thomas Hardy, Marcel Proust e alguns nomes do modernismo.

Temperamento: extrovertido, exuberante, incapaz de rancores, apaixonado, melancólico, amante da vida, interessado por tudo, cronista. Admirável facilidade de exposição. Gargalhadas, seja quando adulto ou menino. Lírico e romântico, dionisíaco e sensual.

 

Estados em que residiu:

 

Paraíba (1901-1914) – Engenho Corredor, escola em Itabaiana, Colégio Pio X, dos Irmãos Maristas.

Pernambuco (1915-1924) – Instituto Carneiro Leão, Ginásio Pernambucano, Faculdade de Direito do Recife. Nesse período, colaborou na imprensa local e fez amizade com Gilberto Freyre, que o influenciou e, em 1922, fundou o semanário Dom Casmurro.

Minas Gerais (1925) – promotor público em Manhuaçu.

Alagoas (1926-1935) – fiscal de bancos em Maceió. Assinante da Nouvelle Revue Française (NRF), em Maceió. Revue des Deux Mondes.

Rio de Janeiro (1934) – breve passagem, onde se aloja numa pensão na Rua do Catete, 237, próximo a Mário de Andrade e ao Palácio da República;

Rio de Janeiro (1935-1957) – fixa residência na capital da República. Fiscal de imposto de consumo. Estadias obrigatórias de funcionário público em Cabo Frio e Araruama, em 1939/1940.

 

Viagens:

 

Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná – 1942, com Gilberto Freyre.

São Paulo – palestra na Faculdade de Direito, em companhia de Gilberto Freyre; vai à fazenda de Paulo Prado, chamada São Murtinho. Durante as décadas de 1940 ou 1950, volta a dar palestras na cidade de São Paulo pelo menos duas vezes. Na primeira fala sobre o Nordeste, na segunda, sobre Eduardo Prado. Uma delas está reproduzida em A casa e o homem. A outra, sobre a Marquesa de Santos, foi publicada em Homens, seres e coisas.

Argentina e Uruguai – Anos 1940

Europa – Anos 1950

Oriente Médio (Israel) – 1954

Estados Unidos: Recusa ao visto de entrada nos EUA, pois assinou carta contra Franco. Isto ocorre em 1947, durante o Macarthismo. O objetivo era uma visita à filha, embaixatriz em Washington. Carta de solidariedade de Érico Veríssimo.

 

Amizades

 

Paraíba (1901-1919) – José Américo de Almeida (casado com dona Alice), Oscar de Castro, Carlos Romero, Péricles Leal, Edson Regis e Juarez Batista.

Pernambuco (1920-1924) – Aníbal Fernandes, Arnon de Melo (O Jornal), Barbosa Lima Sobrinho (que substitui na coluna dominical do Jornal de Recife), Edson Nery da Fonseca, Gilberto Freyre, Hermínio Borba Filho, José Osório de Morais Borba, Luís Delgado, Manuel Bandeira, Odilon Ribeiro Coutinho, Olívio Montenegro e Souza Barros.

Alagoas (1926-1935) – Aloísio Branco (poemas), Aurélio Buarque de Holanda, Carlos Paurílio (contos poéticos), Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Manuel Diegues Júnior, Mário Marroquim (pesquisas linguísticas), Rachel de Queiroz (de João Miguel – dezembro de 1931 – a Caminho de pedra, de outubro de 1936), Raul Lima (redator-secretário da Gazeta de Alagoas), Santa Rosa e Valdemar Cavalcanti.

Rio de Janeiro (1935-1957) – Afonso Arinos de Melo Franco, Agripino Grieco, Alceu Amoroso Lima, Altamir Alves, Álvaro Moreyra, Assis Chateaubriand, Augusto Frederico Schmidt, Dinah Silveira de Queiroz, Érico Veríssimo, Hermes Lima (PSB), João Condé, Mário de Andrade (viveu no Rio entre 1938 e 1941), Marques Rebelo, Murilo Mendes, Nilson Rezende (médico), Oscar Niemayer, Peregrino Júnior, Roberto Marinho, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Viana Moog, Silva Mello, Simeão Leal (sobrinho de Zé Américo), Tristão de Athayde.

São Paulo: Yan de Almeida Prado, Paulo Prado e Mário Pedrosa.

 

Livraria José Olympio

 

Afonso Arinos de Melo Franco, Breno Acioli, Cândido Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Francisco de Assis Barbosa, José Olympio, Lúcia Miguel Pereira, Octávio Tarquínio de Souza, Ledo Ivo, Luis Jardim, Otávio Faria, Otto Maria Carpeaux, Paulo Mendes Campos, Paulo Ronai, Peregrino Júnior, Rubem Braga, Thiago de Melo, Thomaz Santa Rosa (capista e cenógrafo).

 

Amizades esportivas

 

Ary Barroso, Gilberto Cardoso, João Lyra Filho (conterrâneo, presidente do CND, reitor da UEG), Luís Galotti (ministro), Mário Rodrigues Filho, Vargas Neto (gaúcho, presidente da Federação Metropolitana de Futebol), Mário Pollo, Fábio Carneiro de Mendonça (ex-presidente do Fluminense), Emmanuel Lobo (Amigo da Confeitaria Colombo e do grupo Dragão Negro).

 

Amizades políticas

 

Ademar de Barros (conheceu por intermédio de Álvaro Moreira), Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

 

Literatura e política:

 

Participação no 1ª. Congresso Brasileiro de Escritores, 1945. Filiação à Esquerda Democrática (1945) e ao Partido Socialista Brasileiro (1947), graças ao vínculo com Hermes Lima.

 

Principais influências literárias

 

Alemanha: Goethe, Heine.

Espanha: Azorín (pseudônimo do escritor José Martinez Ruiz, uma das vozes altas da famosa Generación del 98 na literatura espanhola) Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno.

França: Alfred Musset, Anatole France, André Gide, Charles Baudelaire, Denis Diderot, Émile Zola, Flaubert, Honoré de Balzac, Lamartine, Maeternick, Marcel Proust, Michel de Montaigne, Molière (“Tartufo”), Paul Verlaine, Racine, Renan, Stendhal (“O vermelho e o negro”), Victor Hugo, Voltaire.

Inglaterra: Lord Byron, Oscar Wilde, Thomas Carlyle, Thomas Hardy, T.H. Lawrence, Shakespeare.

Itália: Dante Alighieri, Gabriele D’Annunzio.

Noruega: Ibsen.

Portugal: Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Fialho de Almeida, Júlio Dantas, Luís de Camões, Padre Vieira.

Rússia: Dostoievski, Gogol, Leon Tolstoi.

Católicos franceses: Barrès, Maurras, Péguy, Maritain, La Bruyère, Barbey D’Aurevilly, de Maistre.

Grécia: Aristófanes, Ésquilo, Hesíodo, Homero (poeta grego), Pitágoras, Platão, Sófocles.

Roma: Catulo, Cícero, Virgílio.

 

Principais influências literárias no Brasil:

 

Alagoas: Jorge de Lima.

Bahia: Castro Alves, Rui Barbosa.

Pernambuco: Coriolano Medeiros, Farias Neves (seu professor), Olegário Mariano, Oliveira Lima.

Rio de Janeiro: Benjamin Costallat, Coelho Neto, Euclides da Cunha, Graça Aranha, João do Rio, Machado de Assis (Dom Casmurro); Manuel Antônio de Macedo (A moreninha); Raul Pompéia (O Ateneu); Lima Barreto; Olavo Bilac.

Paraíba: Augusto dos Anjos.

Rio Grande do Sul: Raul Bopp, “O negrinho do pastoreio”, de Simões Lopes Neto.

Sergipe: Tobias Barreto.

 

Cinquentenário de nascimento de Zé Lins (1951):

 

Iniciativa de José Américo à frente do governo da Paraíba. Escritores do Rio de Janeiro presentes ao evento na Paraíba: Jorge Lacerda, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Condé, Marques Rebelo, Mario Pedrosa, Simeão Leal e Odilon Ribeiro Coutinho.

 

Temas desenvolvidos em sua obra:

 

Memória e imaginação.

O regional e o universal.

O provinciano e o cosmopolita.

O ambiente social, a natureza física e o universo psicológico.

O menino e o adulto.

A máquina e a natureza.

Doença, loucura, medo e morte: hipocondria.

Opulência e ruína

Sexo: humano e animal.

 

Posse na Academia Brasileira de Letras: 15 de dezembro de 1956.

 

Em seu discurso de posse, referiu-se ao seu antecessor, o ministro do Supremo Tribunal Federal Ataulfo de Paiva, como alguém que ''chegou à academia sem nunca ter gostado de um poema''. A partir desta nota de sarcasmo, seus discursos da academia passaram a ser previamente censurados. Por conta deste discurso na ABL, rompe relações com Roberto Marinho.

Edição      Enrique Shiguematu

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A fortuna crítica de José Lins do Rego
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Lembre-se que o pernambucano (Alvaro Lins) era chamado à época de “o príncipe da crítica”.

“… do encontro da dor e do instinto de criação nascem as obras de arte”.

Thomas Mann

“O neto de um homem rico tinha inveja dos moleques de bagaceira”.

Meus verdes anos

“Todo romance é um caso íntimo que se faz público como um escândalo.”

Homens, seres e coisas

Sabemos que a crítica literária e artística é pendular em seus processos de valorização de um autor. Talvez por isto, redescobrem-se obras à primeira vista esquecidas ou retomam-se valores, outrora no ostracismo. Conforme revela o estudioso Bernardo Gersen:

“O entusiasmo pela pintura naïf na França, por volta de 1910, constituiu uma reação vital contra o refinamento fin-de-siècle e o exacerbado intelectualismo então dominante tanto na literatura quanto nas artes plásticas. O público ansiava por recuperar o frescor da visão, por reaver um pouco da inocência.”

Quando escrevi o livro “ABC de José Lins do Rego”, o propósito era revalorizar o escritor paraibano, deixando de lado as intrincadas teorizações acadêmicas e mostrando às novas gerações o frescor da leitura d’O menino de engenho, como o fizeram seus primeiros leitores, apreciadores e tradutores.

Para tal, procurei acompanhar as peripécias biográficas de um escritor talentoso e irrequieto, cujos escritos se ligam tão intimamente às experiências pessoais e às recordações de infância. Qual imagens em caleidoscópio, ansiei por servir de estímulo para uma nova mirada sobre as milhares de crônicas e as dezenas de romances legadas por nosso escritor, tão apaixonado pelas coisas da vida e do mundo.

Pensei em palavras-chaves para guiar-me e inspirar-me por seu labirinto de letras, quais sejam: Açúcar, Bubu, Carlinhos, Doidinho, Escola do Recife, Fogo Morto, Gilberto Freyre, Histórias da Velha Totônia, Ita do Nor(des)te, José Olympio, Leônidas da Silva, o craque, Memória e imaginação, Naná, Opulência e decadência, Paixão Rubro-Negra, Quixote do Nordeste, Regionalismo e modernismo, Sertanejo é forte, Três Marias, Usina, Viandante, Xilogravuras, Zelinianas.

Claro, a leitura também vale como ensino da dinâmica social de exploração da história social brasileira, típica da estrutura fundiária, que permanece nos atormentando, tornando-se ainda mais aguda, com o surgimento de um fenômeno novo: a miséria. Basta evocar que o cenário, aos olhos de Ricardo, é desolador: “Via os moleques em bando, esfarrapados, pela porta do barracão: ‘Seu Ernesto’ chamava-os de ratos. Estavam sempre com fome. Viviam de iscas, de restos de comida, de rabo de bacalhau, que sacudiam para eles.”

Diante do objetivo de revalorização zeliniana, selecionei a seguir uma antologia de apreciações dos críticos literários que leram o escritor no calor da hora, na esteira das publicações, que ganhavam o fervor do público. Comecemos com Álvaro Lins, que vale quase como uma epígrafe antológica. Lembre-se que o pernambucano era chamado à época de “o príncipe da crítica”.

Como ele hoje é desconhecido da maioria dos leitores, reproduzo inicialmente uma citação sua no opulento livro, “A técnica do romance em Marcel Proust”, para que se tenha noção de sua perícia analítica.

“Todo o enredo de Le rouge et le noir se encontra num fait divers que Sthendhal leu na Gazette des Tribunaux dos últimos dias de dezembro de 1827, como o de La Chartreuse de Parme foi retirado de velhas crônicas italianas. Contudo, é um elemento necessário na ficção, caso não o tomemos em sentido muito estrito ou convencional. Enredo de romance é a ação das personagens numa ambiência. Ação, no entanto, nem sempre quer dizer uma sucessão de episódios desdobrados no feitio de uma intriga, regular e objetiva. A ação de um romance pode verificar-se exclusivamente como uma projeção da psicologia das personagens em movimento. A essa espécie pertence A la recherche du temps perdu, cuja ação é principalmente uma decorrência da situação psicológica das personagens em cena. Enredo uniforme e sistemático, com toda a urdidura do episódio que atrai outro episódio até um final contundente, não o tem o romance de Proust, nada preocupado com o ‘heróico’ ou com o ato fulminante para valorizar emocionalmente o desenvolvimento das situações ou os caracteres das personagens. Dado o espírito de narração, que é o de reconstituí-los por uma operação de memória no mesmo plano do passado, grande parte da ação é não raro indireta, não se produz aos olhos do leitor, e dela só tomamos conhecimento por diálogos rememorativos.” (p. 139-140)

Apresentado o crítico, vamos acompanhar três das suas referências a Zé Lins:

“… nenhum historiador do futuro poderá prescindir, para o estudo de nossa época, da obra do sr. José Lins do Rego…” (Álvaro Lins, “Memória e imaginação”, apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

“Os seus personagens, os seus enredos, o seu ambiente social, a sua memória, a sua imaginação – toda a sua vida é a de um homem que sente a sua terra e tem o destino de exprimi-la literariamente. Vejo que neste objetivo ultrapassa o regionalismo. Pois o seu regionalismo nada tem de uma limitação ou de um círculo fechado. Através do plano regional consegue abrir caminho para o plano nacional e para o plano universal”. (Álvaro Lins, “Memória e imaginação”, apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

“Sempre o sr. José Lins do Rego perturbará os críticos com a seguinte dualidade: um homem alegre, exuberante, apaixonado da vida até o sensualismo mais frenético; um escritor triste, um romancista que faz reviver personagens desgraçados, que descreve situações comoventes. Na vida real, o rumor das suas gargalhadas; na vida de ficção, um sentimento de lágrimas sufocadas”. (Álvaro Lins, crítica escrita para o Correio da Manhã, a 04 de fevereiro de 1944, transcrito na terceira edição de Fogo morto, p. 302)

Após tais menções de Álvaro Lins, vamos aludir a outros pares e contemporâneos do romancista, que recebeu críticas, mas também muitos elogios:

“A rigor não poderemos dissociar da obra de José Lins do Rego a sua figura humana. Quem teve o privilégio de conhecê-lo, reconhece-o a cada passo na leitura de seus romances, sobretudo no estilo, que lhe parece ter guardado o registro da voz. Se bem me recordo, José Lins do Rego não sabia ler em silêncio; seus lábios se movimentavam, repetindo o texto lido, enquanto os olhos faziam o seu ofício, percorrendo rapidamente as linhas impressas. E essa voz se transferia à sua frase escrita, com o mesmo calor, a mesma rusticidade lírica, a mesma fluência prodigiosa.” (Josué Montelo, no estudo “O romancista José Lins do Rego”, apresentação para as obras completas da editora Aguilar, de 1976)

*

“José Lins do Rego é, sabidamente, um dos escritores mais representativos da geração moderna. Talvez, mesmo, o mais representativo. Sua obra o demonstra exuberantemente. Não sabemos de outra que possa dar, no momento, uma impressão mais incisiva de obra menos escrita. As palavras circulam nela com o mesmo desembaraço do sangue humano no sistema arterial de um corpo adolescente.” (Coleção Fortuna Crítica: Eugênio Gomes, p. 263).

*

“O pendor para a introspecção era, em José Lins do Rego, anulado pela incapacidade de solidão. Ele precisava de estar sempre em comunicação com alguém. Bebendo ou comendo com alguém. Ou simplesmente ouvindo alguém falar, rir, fazer rir, contar anedotas. Explica-se assim seu muito convívio, nos seus últimos anos, com Luís Jardim. Sua presença constante na Colombo, no Juca’s Bar e, no Recife, na casa de Antiógenes Chaves: uma casa quase sempre em festa.” (Coleção Fortuna Crítica: Gilberto Freyre, p. 107).

*

“Ao ler trechos assim interroguei-me várias vezes sobre a natureza do prazer que eles nos proporcionam – a nós outros homens da cidade e do mundo da máquina”. (Bernardo Gersen, ao comentar o personagem José Passarinho, em Fogo morto, p. 172)

*

“Sem dúvida alguma, José Lins é um de nossos maiores criadores de personagens…escreve em estado de emoção e só o que sente” (Roberto Alvim Correia, em alusão ao romance Pureza e em específico ao personagem Lourenço, p. 372 e 373)

*

“… o projeto estético-ideológico de Doidinho pode-se definir em relação a essas ‘afinidades’ e ‘disposições’: é sublime, como Castro Alves, heroico, como Oliveiros, civilizador, como os pequenos italianos, e ‘coruscante’, como a voz dos oradores públicos que apaixonava tanto os auditórios populares.” (José Maria Arguedas: Los ríos profundos).

*

“O abalo de estruturas de uma sociedade rural aristocratizante, latifundiária e agonizante” (José Aderaldo Castelo, crítico cearense e professor da USP que, no início dos anos 1960 publicou um rico livro sobre o regionalismo e o modernismo na obra de José Lins do Rego).

*

Ainda que breve, a citação acima, de Aderaldo Castelo, é capital para o enquadramento sócio histórico do romance zeliniano. O historiador brasilianista Stuart B. Schwartz, em Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, assevera e ensina:

“Nenhum grupo na história brasileira possui uma aura de legendária magnificência tão marcante quanto a dos senhores de engenho no Nordeste. Ainda que no século XIX fosse proverbial dizer “senhor de engenho, morto de fome, cheio de empenho”, esses homens mantiveram-se no ápice da hierarquia social, projetando uma imagem de nobreza, fortuna e poder. Essa imagem sustentou-se em seu permanente controle da terra e dos escravos e no tradicional papel de potentado local que muitos deles encarnaram. Entretanto, os senhores de engenho não são simplesmente um tipo social facilmente transposto de uma época a outra; são também uma classe formada ao longo do tempo, que se desenvolveu historicamente e manifestou diferentes características em datas diversas. Houve, ademais, considerável variação dentro da própria categoria, e assim, conquanto muitos aspirassem a atingir o cume da pirâmide social, apenas uma pequena parcela logrou esse objetivo. Os senhores de engenho ditaram os padrões sociais na colônia e foram os que mais se aproximaram dos modelos vigentes na metrópole. Assim, examinando a composição e o comportamento desse grupo, podemos estabelecer a norma com a qual os demais indivíduos na sociedade eram comparados.” (p.224)  

Para fechar este breve texto, sigamos as palavras do próprio Zé Lins ao falar de seu processo criativo:

“…começou a existir em mim uma história; começou a crescer dentro de mim o romance que poderia escrever. Tinha que escrevê-lo. Depois não me contive. A coisa passou a viver com tal força, a estremecer, a desafiar-me, que resolvi levar para diante a tarefa. E o livro saiu, com um mês de trabalho contínuo. A vida dos meus personagens me arrastou violentamente à composição. Tinha que acordar cedo, para estar com eles. Às vezes a preguiça me prometia a paz das manhãs de frio; mas o caderno em branco, a existência, a luta, o amor, o sofrimento da minha gente me chamava. Vinha para eles como se fosse um médico ou um padre, obrigado pelo dever da profissão.” (Fortuna Crítica, p. 358)

Antes de terminar, deixo ainda essas 6 sugestões derradeiras, à guisa de leitura complementar:

Adelino Brandão. Cana-de-açúcar. A invenção do Nordeste.

Fernando de Azevedo.  Canaviais e engenhos na vida política brasileira.  

Linda Lewin. Política e parentela na Paraíba.

Gilberto Freyre. Açúcar.

Câmara Cascudo.  Sociologia do açúcar.  

Roberta Barros Meira. Banguês, engenhos centrais e usinas.

“… do encontro da dor e do instinto de criação nascem as obras de arte”.

Thomas Mann

“O neto de um homem rico tinha inveja dos moleques de bagaceira”.

Meus verdes anos

“Todo romance é um caso íntimo que se faz público como um escândalo.”

Homens, seres e coisas

 

Sabemos que a crítica literária e artística é pendular em seus processos de valorização de um autor. Talvez por isto, redescobrem-se obras à primeira vista esquecidas ou retomam-se valores, outrora no ostracismo. Conforme revela o estudioso Bernardo Gersen:

 

“O entusiasmo pela pintura naïf na França, por volta de 1910, constituiu uma reação vital contra o refinamento fin-de-siècle e o exacerbado intelectualismo então dominante tanto na literatura quanto nas artes plásticas. O público ansiava por recuperar o frescor da visão, por reaver um pouco da inocência.”

 

Quando escrevi o livro “ABC de José Lins do Rego”, o propósito era revalorizar o escritor paraibano, deixando de lado as intrincadas teorizações acadêmicas e mostrando às novas gerações o frescor da leitura d’O menino de engenho, como o fizeram seus primeiros leitores, apreciadores e tradutores.

Para tal, procurei acompanhar as peripécias biográficas de um escritor talentoso e irrequieto, cujos escritos se ligam tão intimamente às experiências pessoais e às recordações de infância. Qual imagens em caleidoscópio, ansiei por servir de estímulo para uma nova mirada sobre as milhares de crônicas e as dezenas de romances legadas por nosso escritor, tão apaixonado pelas coisas da vida e do mundo.

Pensei em palavras-chaves para guiar-me e inspirar-me por seu labirinto de letras, quais sejam: Açúcar, Bubu, Carlinhos, Doidinho, Escola do Recife, Fogo Morto, Gilberto Freyre, Histórias da Velha Totônia, Ita do Nor(des)te, José Olympio, Leônidas da Silva, o craque, Memória e imaginação, Naná, Opulência e decadência, Paixão Rubro-Negra, Quixote do Nordeste, Regionalismo e modernismo, Sertanejo é forte, Três Marias, Usina, Viandante, Xilogravuras, Zelinianas.

Claro, a leitura também vale como ensino da dinâmica social de exploração da história social brasileira, típica da estrutura fundiária, que permanece nos atormentando, tornando-se ainda mais aguda, com o surgimento de um fenômeno novo: a miséria. Basta evocar que o cenário, aos olhos de Ricardo, é desolador: “Via os moleques em bando, esfarrapados, pela porta do barracão: ‘Seu Ernesto’ chamava-os de ratos. Estavam sempre com fome. Viviam de iscas, de restos de comida, de rabo de bacalhau, que sacudiam para eles.”

Diante do objetivo de revalorização zeliniana, selecionei a seguir uma antologia de apreciações dos críticos literários que leram o escritor no calor da hora, na esteira das publicações, que ganhavam o fervor do público. Comecemos com Álvaro Lins, que vale quase como uma epígrafe antológica. Lembre-se que o pernambucano era chamado à época de “o príncipe da crítica”.

Como ele hoje é desconhecido da maioria dos leitores, reproduzo inicialmente uma citação sua no opulento livro, “A técnica do romance em Marcel Proust”, para que se tenha noção de sua perícia analítica.

 

“Todo o enredo de Le rouge et le noir se encontra num fait divers que Sthendhal leu na Gazette des Tribunaux dos últimos dias de dezembro de 1827, como o de La Chartreuse de Parme foi retirado de velhas crônicas italianas. Contudo, é um elemento necessário na ficção, caso não o tomemos em sentido muito estrito ou convencional. Enredo de romance é a ação das personagens numa ambiência. Ação, no entanto, nem sempre quer dizer uma sucessão de episódios desdobrados no feitio de uma intriga, regular e objetiva. A ação de um romance pode verificar-se exclusivamente como uma projeção da psicologia das personagens em movimento. A essa espécie pertence A la recherche du temps perdu, cuja ação é principalmente uma decorrência da situação psicológica das personagens em cena. Enredo uniforme e sistemático, com toda a urdidura do episódio que atrai outro episódio até um final contundente, não o tem o romance de Proust, nada preocupado com o ‘heróico’ ou com o ato fulminante para valorizar emocionalmente o desenvolvimento das situações ou os caracteres das personagens. Dado o espírito de narração, que é o de reconstituí-los por uma operação de memória no mesmo plano do passado, grande parte da ação é não raro indireta, não se produz aos olhos do leitor, e dela só tomamos conhecimento por diálogos rememorativos.” (p. 139-140)

 

Apresentado o crítico, vamos acompanhar três das suas referências a Zé Lins:

 

“… nenhum historiador do futuro poderá prescindir, para o estudo de nossa época, da obra do sr. José Lins do Rego…” (Álvaro Lins, “Memória e imaginação”, apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

“Os seus personagens, os seus enredos, o seu ambiente social, a sua memória, a sua imaginação – toda a sua vida é a de um homem que sente a sua terra e tem o destino de exprimi-la literariamente. Vejo que neste objetivo ultrapassa o regionalismo. Pois o seu regionalismo nada tem de uma limitação ou de um círculo fechado. Através do plano regional consegue abrir caminho para o plano nacional e para o plano universal”. (Álvaro Lins, “Memória e imaginação”, apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

“Sempre o sr. José Lins do Rego perturbará os críticos com a seguinte dualidade: um homem alegre, exuberante, apaixonado da vida até o sensualismo mais frenético; um escritor triste, um romancista que faz reviver personagens desgraçados, que descreve situações comoventes. Na vida real, o rumor das suas gargalhadas; na vida de ficção, um sentimento de lágrimas sufocadas”. (Álvaro Lins, crítica escrita para o Correio da Manhã, a 04 de fevereiro de 1944, transcrito na terceira edição de Fogo morto, p. 302)

 

Após tais menções de Álvaro Lins, vamos aludir a outros pares e contemporâneos do romancista, que recebeu críticas, mas também muitos elogios:

 

“A rigor não poderemos dissociar da obra de José Lins do Rego a sua figura humana. Quem teve o privilégio de conhecê-lo, reconhece-o a cada passo na leitura de seus romances, sobretudo no estilo, que lhe parece ter guardado o registro da voz. Se bem me recordo, José Lins do Rego não sabia ler em silêncio; seus lábios se movimentavam, repetindo o texto lido, enquanto os olhos faziam o seu ofício, percorrendo rapidamente as linhas impressas. E essa voz se transferia à sua frase escrita, com o mesmo calor, a mesma rusticidade lírica, a mesma fluência prodigiosa.” (Josué Montelo, no estudo “O romancista José Lins do Rego”, apresentação para as obras completas da editora Aguilar, de 1976)

*

“José Lins do Rego é, sabidamente, um dos escritores mais representativos da geração moderna. Talvez, mesmo, o mais representativo. Sua obra o demonstra exuberantemente. Não sabemos de outra que possa dar, no momento, uma impressão mais incisiva de obra menos escrita. As palavras circulam nela com o mesmo desembaraço do sangue humano no sistema arterial de um corpo adolescente.” (Coleção Fortuna Crítica: Eugênio Gomes, p. 263).

*

“O pendor para a introspecção era, em José Lins do Rego, anulado pela incapacidade de solidão. Ele precisava de estar sempre em comunicação com alguém. Bebendo ou comendo com alguém. Ou simplesmente ouvindo alguém falar, rir, fazer rir, contar anedotas. Explica-se assim seu muito convívio, nos seus últimos anos, com Luís Jardim. Sua presença constante na Colombo, no Juca’s Bar e, no Recife, na casa de Antiógenes Chaves: uma casa quase sempre em festa.” (Coleção Fortuna Crítica: Gilberto Freyre, p. 107).

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“Ao ler trechos assim interroguei-me várias vezes sobre a natureza do prazer que eles nos proporcionam – a nós outros homens da cidade e do mundo da máquina”. (Bernardo Gersen, ao comentar o personagem José Passarinho, em Fogo morto, p. 172)

*

“Sem dúvida alguma, José Lins é um de nossos maiores criadores de personagens…escreve em estado de emoção e só o que sente” (Roberto Alvim Correia, em alusão ao romance Pureza e em específico ao personagem Lourenço, p. 372 e 373)

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“… o projeto estético-ideológico de Doidinho pode-se definir em relação a essas ‘afinidades’ e ‘disposições’: é sublime, como Castro Alves, heroico, como Oliveiros, civilizador, como os pequenos italianos, e ‘coruscante’, como a voz dos oradores públicos que apaixonava tanto os auditórios populares.” (José Maria Arguedas: Los ríos profundos).

*

“O abalo de estruturas de uma sociedade rural aristocratizante, latifundiária e agonizante” (José Aderaldo Castelo, crítico cearense e professor da USP que, no início dos anos 1960 publicou um rico livro sobre o regionalismo e o modernismo na obra de José Lins do Rego).

*

Ainda que breve, a citação acima, de Aderaldo Castelo, é capital para o enquadramento sócio histórico do romance zeliniano. O historiador brasilianista Stuart B. Schwartz, em Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, assevera e ensina:

“Nenhum grupo na história brasileira possui uma aura de legendária magnificência tão marcante quanto a dos senhores de engenho no Nordeste. Ainda que no século XIX fosse proverbial dizer “senhor de engenho, morto de fome, cheio de empenho”, esses homens mantiveram-se no ápice da hierarquia social, projetando uma imagem de nobreza, fortuna e poder. Essa imagem sustentou-se em seu permanente controle da terra e dos escravos e no tradicional papel de potentado local que muitos deles encarnaram. Entretanto, os senhores de engenho não são simplesmente um tipo social facilmente transposto de uma época a outra; são também uma classe formada ao longo do tempo, que se desenvolveu historicamente e manifestou diferentes características em datas diversas. Houve, ademais, considerável variação dentro da própria categoria, e assim, conquanto muitos aspirassem a atingir o cume da pirâmide social, apenas uma pequena parcela logrou esse objetivo. Os senhores de engenho ditaram os padrões sociais na colônia e foram os que mais se aproximaram dos modelos vigentes na metrópole. Assim, examinando a composição e o comportamento desse grupo, podemos estabelecer a norma com a qual os demais indivíduos na sociedade eram comparados.” (p.224)

 

Para fechar este breve texto, sigamos as palavras do próprio Zé Lins ao falar de seu processo criativo:

 

“…começou a existir em mim uma história; começou a crescer dentro de mim o romance que poderia escrever. Tinha que escrevê-lo. Depois não me contive. A coisa passou a viver com tal força, a estremecer, a desafiar-me, que resolvi levar para diante a tarefa. E o livro saiu, com um mês de trabalho contínuo. A vida dos meus personagens me arrastou violentamente à composição. Tinha que acordar cedo, para estar com eles. Às vezes a preguiça me prometia a paz das manhãs de frio; mas o caderno em branco, a existência, a luta, o amor, o sofrimento da minha gente me chamava. Vinha para eles como se fosse um médico ou um padre, obrigado pelo dever da profissão.” (Fortuna Crítica, p. 358)

 

Antes de terminar, deixo ainda essas 6 sugestões derradeiras, à guisa de leitura complementar:

Adelino Brandão. Cana-de-açúcar. A invenção do Nordeste.

Fernando de Azevedo.  Canaviais e engenhos na vida política brasileira.  

Linda Lewin. Política e parentela na Paraíba.

Gilberto Freyre. Açúcar.

Câmara Cascudo.  Sociologia do açúcar.  

Roberta Barros Meira. Banguês, engenhos centrais e usinas.

 

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego: antologia de Meus verdes anos (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

“Nada me arreda de ligar a arte à realidade e de arrancar das entranhas

da terra a seiva dos meus romances e de minhas ideias”

(Zé Lins, citado por Austregésilo de Athayde)

No texto da quinzena passada, trouxemos passagens do livro derradeiro de José Lins do Rego: Meus verdes anos (1956), tido pela crítica como a ficção sem os disfarces da memória… Mas, de maneira semelhante ao clássico O pequeno príncipe, pode-se dizer que o universo infantil de Lins do Rego, povoado pela imaginação, é vivido à parte, inacessível, portanto, à lógica dos adultos. Além do protagonista do livro de Saint-Éxupery, José Lins do Rego chegou a ser comparado a um personagem de uma fábula do cinema infanto-juvenil.

Em seu premiado livro Engenho e memória, Luciano Trigo sugere que o autor de Menino de engenho vivenciou uma espécie de síndrome de Peter Pan, permanecendo apegado às lembranças daqueles anos primaveris, como se não quisesse crescer.

De todo modo, qualquer que seja o tipo de comparação, literária ou cinematográfica, fictícia ou confessional, o menino se evadia para os banhos no açude e para as brincadeiras com as crianças das redondezas, os moleques de bagaceira. Em suas lembranças, a fraqueza da meninice é contrastada à vitalidade das demais crianças da região, fruto talvez de um remoto espírito arcádico e por um mundo que às vezes parecia pouco entender.

Seus animais de estimação eram um carneiro e um canário. Trata-se das grandes companhias do menino, além do moleque Ricardo. Pode-se identificar igualmente uma relação direta do escritor com madrastas e padrastos, numa intrincada genealogia, muito bem esmiuçada pelo antropólogo José Sérgio Leite Lopes.

A mesma proximidade do escritor paraibano não acontece com a figura paterna, personagem ausente de Meus verdes anos. Nas vezes em que visitava o Corredor, o pai de Zé Lins não era recebido pelo antigo sogro, que se retirava da sala. João do Rego tinha uma reputação negativa na família. Era ridicularizado pelos da casa, visto como sovina e como alguém que não havia sido um bom marido à filha do coronel.

Nas recordações de José Lins do Rego, as cozinheiras da casa-grande consideravam seu pai um homem sem bondades, porém pacato. Com frequência, a semelhança física com o pai era comentada: “– Este é o menino de Amélia?  Tem tudo do pai, é a cara do João do Rego”. Ao contrário do avô, figura que muito o impressionava, Dedé era indiferente com relação à avó, dona Janoca. Dizia simplesmente não gostar dela, afigurando-se em suas lembranças como uma pessoa sombria.   

Retomamos nessa segunda parte, transcrições que consideramos antológicas da obra. Lembre-se sempre que o autor se opõe à tradição literária do romantismo, em favor de um regionalismo de fundo psicológico, com feições narrativas modernas. Comecemos com referências, sempre cruciais, à imagem do avô-coronel:

– “Gritava muito e descompunha como um capitão de navio. Mas tudo sem raiva, não fazendo medo aos moleques e nem temor aos trabalhadores. Era respeitado, e posso dizer mesmo que amado pela sua gente.” (p.22).

– “O meu avô passava a contar as suas histórias. Eram fatos dos antigos da família, episódios da guerra de 48, da cólera-morbo, das enchentes do Paraíba. Falava com a voz arrastada e contava tudo com os nomes e as datas. Muito falava do seu avô Num, do seu tio Henrique, do doutor Quinca do Pau Amarelo, das lutas do partido na Monarquia.” (p.92).

– “O meu avô não se importava com o francês das filhas do Tio João”. (p. 107).

– “Itapuá fora a maior conquista de meu avô. Desde que não pudera adquirir o Jardim, passara-se para a compra do melhor engenho da Várzea.” (p. 119).

– “Era assim o meu avô. A sua força morava na sua brandura.” (p.123).

– “Nunca o meu avô falava da morte do irmão. Só fazia dizer que cabra atrevido e gente de feira não os queria em suas terras. (…) Não gostava o meu avô de falar das desgraças da cólera.”. (p. 130).

 

Em seguida, veja-se como o escritor refere-se em duas citações às trabalhadoras domésticas do engenho, como a negra Galdina, entre outras:

– “As conversas das negras foram as primeiras crônicas que me deram notícias da minha família”. (p. 27).

– “Outra africana sobrevivente era a que chamavam tia Maria Gorda. Tremenda negra, perto de quem não podíamos chegar. Esta guardava no coração o ódio de todos os oprimidos. Dormia no último quarto da senzala e gritava contra tudo o dia inteiro. Não falava a mesma língua de vovó. Era de outra nação. Romana, assim do tamanho de um menino de dez anos, só tinha de grande a cabeça comprida como um mamão macho. Vivia a sorrir para o tempo. Fora ama de pegar de meu avô e viera da África ainda se arrastando. Tinha sido escrava dos Leitão, das Figueiras. Um seu filho chamado Isidro se empregara com um inglês da estrada de ferro. Fora com o patrão ao Rio e voltara de lá de língua atravessada contando grandezas. O negro Isidro ainda guardava uma farda que vestia na casa do inglês. Mas possuía o dom da narrativa. Tudo o que contava se parecia com a verdade.” (p. 105).   

 

É interessante igualmente observar como o imaginário fabulativo ou as notícias da capital circulavam no espaço comunicativo do engenho. Invocavam-se idas à praia e “histórias do farol” (p. 169), com sereias, faroleiros, e referências históricas, como as fortalezas dos tempos da ocupação dos holandeses. (p. 172)

– Sobre as histórias de Trancoso.  “A voz da velha Totônia enchia o quarto, povoava a minha imaginação de tantos gestos, de tantas festas de rei, de tantas mouras-tortas perversas. Tinha a velha um poder mágico na voz. Era sogra do mestre Águeda, tanoeiro, um negro que mal abria a boca para falar. Tinha para mim um poder de maravilha tudo o que saía da boca murcha da velha Totônia. – Conta outra”. (p. 114 e cont.).

– Sobre a leitura no engenho: “Não existiam livros no Corredor. Apenas chegavam maços de jornais do Rio de Janeiro, e sobre a mesa do santuário guardavam a Bíblia com estampas. Não era para ler aquele livro com capa vermelha. Seria, como os santos, um objeto sagrado. E nem o meu avô tinha necessidade de leituras. Apareciam folhinhas Bristol com as fases da lua e das marés. Se havia sobre uma lua-cheia, procurava-se a folhinha de capa amarela. Mas quando aparecia a Tia Marocas do Gameleira, os livros tomavam conta das tias Maria e Naninha. A Tia Marocas se educara em colégio do Recife. E podia falar de muita coisa. O fim do mundo não existia. Tudo aquilo era conversa de jornal. E nos punha a ler nas letras grandes dos títulos do Diário de Pernambuco e da Província.” (p. 126)

– “Apareciam os jornais do Recife, a Tia Maria passava a ler os folhetins, a Tia Naninha escutava aquela leitura embevecida. E as notícias do cometa punham um tom de terror às conversas. Os jornais davam detalhe do que seria o fim do mundo. Ficava-se na mesa a escutar a Tia Maria na leitura.” (p. 91).

– “Juntou gente para ouvir a engrenagem fabulosa” (p. 155)

 

A família extensa é de suma importância no imaginário zeliniano, como se observa em alusões à tia Naninha, tia Maria e outras: “Apesar de suas violências, era de coração bondoso. Dava esmolas e quando Tia Maria lia o Moço loiro no folhetim do Diário chorava. (p. 243 e 244)

– “A sua maneira de se comunicar com as filhas era estranha. Não conversava com a Tia Maria, a sua preferida. Qualquer coisa que desejava, pedia às travessas. À noite aparecia o momento de conversar com os seus contando histórias dos antigos.” (p. 128).

– “Tia Naninha não tinha o mesmo ar carinhoso de Tia Maria. Mudou-se para o quarto dela. Era ciumenta em comparação com a prima. Dormiam na mesma cama. Flagra a sua menstruação”. (p. 153).

 

A recordação mais pungente é a da mãe, dir-se-ia crucial. Faz a descrição materna chegando do Engenho Câmara, numa liteira, carregada por negros, ardendo em febre, quase morta:

– “Dona Amélia viera mais branca que madapolão. E vinha queimando em febre”.

 

Last but not least, o tema da fuga, sempre presente:

– “Montei no animal e de repente me chegou uma vontade indomável de fugir.” (p.154)

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego: antologia de Meus verdes anos (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Há escritores que têm a exatidão de uma caixa de fósforos e a outros que têm a exatidão do oceano. José Lins do Rego tinha essa exatidão oceânica…

 

Em conferência evocativa do centenário de nascimento do amigo José Lins do Rego (1901-1957), proferida na Academia Brasileira de Letras no ano de 2001, o poeta alagoano Lêdo Ivo disse:

“Há escritores que têm a exatidão de uma caixa de fósforos e a outros que têm a exatidão do oceano. José Lins do Rego tinha essa exatidão oceânica… Antes de morrer José Lins me disse que iria escrever o romance O menino e o carneiro. Quer dizer, havia nele a obsessão do menino. Essa obsessão está presente também em Gilberto Freyre, por isso não sei se, em José Lins, é uma coisa espontânea ou se veio de um contágio intelectual decorrente de Gilberto Freyre, que desde o começo estudou o menino brasileiro, estimulou no Brasil essa literatura da infância, da meninice, da vida familiar”.

Essa conferência fez-me volver à leitura de Meus verdes anos (1956). Destaco uma sequência das passagens que me marcaram por ocasião da leitura:

– Sobre a natureza: “O rio Paraíba corria bem próximo ao cercado. Chamavam-no ‘o rio’. E era tudo. (…) Contava-se o tempo pela era das cheias. (…) O rio para mim seria um ponto de contato com o mundo”. (p. 36 e 37).

– Sobre o mundo fora do engenho: “Foi por intermédio dele (Manuel Chapéu de Couro) que vim a saber que havia propriedades distantes que não eram do meu avô. E que havia homens que mandavam mais do que eles”. (p. 42).

– Sobre a vida na casa-grande: “À hora da ceia a velha Janoca já estava recolhida. E todos nós nos púnhamos à mesa para a última comida. O chá era servido com beiju de goma, inhame, pamonhas e requeijão feito pelo velho Amâncio” (p. 45).

– Sobre o cotidiano: “Sempre de manhã a minha tia Maria me acordava para tomar leite ao pé da vaca. Nas manhãs de sol o curral dos animais de manjedoura se enchia de trabalho” (p. 47).

– Sobre o avô: “Olhava o meu avô como se fosse ele o engenho. A grandeza da terra era a sua grandeza. Fixara-se em mim a certeza de que o mundo inteiro estava ali dentro. Não podia haver nada que não fosse do meu avô. Lá ia o gado para o pastoreador, e era dele; lá saíam os carros-de-boi a gemer pela estrada ao peso das sacas de lã ou dos sacos de açúcar, e tudo era dele; lá estavam as negras da cozinha, os moleques da estrebaria, os trabalhadores do eito, e tudo era dele. O sol nascia, as águas do céu se derramavam na terra, o rio corria, e tudo era dele. Sim, tudo era do meu avô, o velho Bubu, de corpo alto, de barbas, de olhos miúdos, de cacete na mão. O seu grito estrondava até os confins, os cabras do eito lhe tiravam o chapéu, o dr. José Maria mandava buscar lenha para a sua cozinha no Corredor, e a água boa e doce nas suas vertentes. Tudo era do meu avô Bubu, o ‘Velho’ da boca dos trabalhadores, o Cazuza da velha Janoca, o papai da Tia Maria, o meu pai da Tia Iaiá. A minha impressão firme era de que nada havia além do Corredor. Chegavam de longe os portadores de outros engenhos. Ouvia apitar o trem na linha de ferro. Apesar de tudo, só havia de concreto mesmo o Engenho Corredor.” (p. 56).

– Sobre a cidade natal: “Já via o Pilar como outra entidade que não o engenho. Lá estava o sobrado do Comendador todo rodeado de rótulas e vidro de cor. A igreja, o padre Severino, a noite de festa. A Câmara Municipal onde o meu avô me levava para ver o júri. Havia mais alguma coisa que o Corredor.” (p. 69).

– Sobre o amigo: “Comigo ficava o moleque Ricardo. Ricardo podia levar sol e chuva e nada sucederia, tomava banho de rio, montava a cavalo, tinha pontaria no bodoque e sabia assobiar como os concris, comia fruta verde sem susto. Admirava o moleque Ricardo e o colocava em plano superior aos outros. Podíamos ter seis anos de idade.” (p.86)

– Sobre a prima: “Por que se foi embora a prima? Queria descobrir os caminhos do mundo e não sabia. Os trens cortavam o silêncio que dobravam de tom. Havia maquinistas que sabiam apitar com dolência. A imagem da prima se misturava aos rumores do monstro de ferro em cima do pontilhão. Montada em trem partira para muito longe.” (p.117)   

– Sobre os parentes: “Firmina era filha natural de meu avô. E tinha tudo dele. Alta e forte, não era de muito falar. Na hora precisa, contava-se com ela para tudo. (…) Era Firmina quem costurava para os moleques e os homens do engenho. Fazia as calças de meu avô de brim fluminense e as camisas de algodãozinho dos trabalhadores. Ria-se com todo o corpo e arrotava alto como se soltasse estampidos pela boca. A Tia Maria considerava-a irmã. A velha Janoca não era prevenida com ela, dando-lhe tratamento respeitoso. Também Firmina não era de ouvir calada. Gritava, e se viessem com luxos arrumava a as malas para ir embora. Aí não a deixavam sair. O meu avô, que não falava diretamente com as filhas, não se continha: ‘Firmina, deixa de besteira’. E Firmina ficava temida e amada.” (p. 118).

– Sobre o poder local: “A política para o meu avô não tinha importância. Votava todo o tempo nos conservadores, e isto lhe bastava. O Pilar era seu. As suas terras cercavam a vila por todos os lados, e ele nunca procurou mandar, como fizera Quinca Napoleão. (…) Nunca escondeu um criminoso em suas propriedades. Fossem para o júri como o assassino do seu irmão. Mas não era homem para quem levantassem a voz em desrespeito. (…) Nunca lera um livro em toda a sua vida. Mas era como se tivesse um código na cabeça. Escrevia cartas numa letra de capricho toda cheia de abreviaturas. Tinha amigos letrados.” (p. 124).

– Sobre o mobiliário: “De luxo ali só mesmo o vinho que chegava em quintos da Paraíba, o vermelho vinho da França. O meu avô não amava o luxo. A sua cama era de sola, e tudo o que se fazia no engenho era para durar: casa de alicerces profundos, cumeeira de madeira de lei, canoas sem pintura”. (p. 126)

– Sobre a comida: “A mesa do engenho era farta. Nunca nos faltou a melhor manteiga da Dinamarca e os queijos do reino, da Holanda. Tudo à grande como ele desejava. Tinha carro de cavalo e mandara instalar banho de torneira. Saía para as suas viagens à Capital, onde os seus negócios consistiam em receber os seus dinheiros edeixá-los no banco. A Tia Maria preparava a sua bolsa de couro. Metia ele o seu grande chapéu-do-chile, paletó negro de alpaca, as calças de listra, as botinas de elástico e, montado no seu Gouveia e de tabica na mão, botava-se para a estação do Pilar.” (p. 127)

– Sobre a justiça local: “O seu primo Quinca do Engenho Novo abriu luta com ele por causa do Itapuá, e perdeu na justiça, porque os juízes sabiam que decidir pelo coronel José Lins era decidir pela boa justiça.” (p. 128).

– Sobre as ferrovias: “O trem era tudo para o engenho. Era o relógio marcando os horários com exatidão, a levar as sacas de lã de meu avô para a Capital, trazendo latas de querosene, barricas de bacalhau para a Venda.” (p. 135).

– Sobre a paixão: “Eugênia! Que saudades me ficaram daqueles instantes de alumbramento! Fogo de carne que ainda hoje queima como brasa”. (p. 160)

– Sobre o engenho: “Aqueles meses de ausência e deram a oportunidade de avaliar o que era o Corredor. Ali gritava o meu avô e a Tia Naninha sabia fazer o que era necessário.” (p. 174)

– Sobre a capital paraibana: “a Paraíba era uma cidade de bondes de burro e de carroças”. (p.258)

– Sobre o enamoramento: “Chegara para a casa de Sinhô Marinho uma menina chamada Pérola. Tinha os cabelos negros e o rosto moreno como de cera. Viera do engenho Maraú, sobrinha da segunda mulher de Sinhô. Enamorei-me de Pérola. Talvez fosse maior do que eu. Também era sozinha como eu e órfã. Pérola! Sei que ela encheu os meus dias que a tristeza devorava. (p. 305-306).

– Sobre o alumbramento: “Foi nesta tarde, quase de noite, que me apareceu Pérola como um novo deslumbramento. Estava ela no portão do sobrado de Sinhô e me chamou: – Dedé vem cá. Olhei para os seus olhos que me queimavam. Arrancou-me para o escuro da escada e só sei que um fogo escuro abrasou as minhas partes.”. (p. 310).

Edição      Enrique Shiguematu

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A trajetória jornalístico-literária de José Lins do Rego (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''…o então governador da Paraíba, José Américo, é constantemente citado e elogiado por José Lins.''

A trajetória apresentada na primeira parte deste texto permite situar a inserção de José Lins do Rego na cidade do Rio de Janeiro, a partir de suas atividades como cronista em jornais cariocas. Como se sabe, o desenvolvimento histórico da imprensa no século XIX foi fundamental para a criação de um espaço de visibilidade em torno de escritores, que tinham os jornais e as revistas como arena pública, local em que se travavam esgrimas de ideias e duelos de posição. Podemos citar inúmeros relatos, desde os elencados em Vida literária: 1900, de Brito Broca, até estudos acadêmicos, como os de Roberto Ventura, Estilo tropical, ou Literatura e missão, de Nicolau Sevcenko, para mencionar apenas os mais famosos.  

Em estritos termos literários, os jornais publicavam não apenas romances, como diversos outros gêneros. Caberia citar, a título de exemplo, os romances-folhetins, transladados da França para o Brasil no Oitocentos. Várias de nossas obras ficcionais consagradas, hoje consideradas clássicas, nasceram dessa forma, tais como José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida e Joaquim Manoel de Macedo. Isto se estendeu até princípios do século XX, com os romances de Lima Barreto, publicados também em jornais.

É Marlyse Meyer, professora da Unicamp, quem mostra como a crônica no século XX descende dos folhetins oitocentistas franceses, aclimatando-se com grande sucesso no Brasil a partir dos anos 1930. Segundo Antônio Cândido, a crônica constituiu um verdadeiro gênero nacional. Sua versão mais bem-acabada do ponto de vista literário é O conde e o passarinho, livro de Rubem Braga, que reúne suas crônicas em 1936. A receptividade deste gênero pode ser confirmada se constatamos até hoje em uma linhagem de autores, que engloba um Fernando Sabino, um Zuenir Ventura e um Luís Fernando Veríssimo.

Do ponto de vista jornalístico, existem críticos de costumes que remontam ao período da belle-époque carioca, quando a cidade tinha então com seus quase 800 mil habitantes, na virada do século XIX para o século XX. Em período de agudas transformações, Luís Edmundo descreve o Rio de Janeiro através dos diversos logradouros e de seus tipos populares. Na modernidade em vias de construção, a crônica torna-se um testemunho da vida local, seja do que morre seja do que nasce, filtro através do qual se revela sua paisagem social, cultural e humana.

A Luís Edmundo se agrega Paulo Barreto, o famoso João do Rio, artífice do gênero como reportagem, capaz de cartografar e, em muitos casos, de etnografar a vida urbana e a plena vertigem de suas mudanças, que no Rio de Janeiro se materializam na Reforma urbanística de Pereira Passos. Conforme mostra a antropóloga Júlia O’Donnell em sua dissertação de mestrado, a cidade moderna se dá a conhecer em suas regiões e em seus aspectos mais obscuros, como faz João do Rio na obra A alma encantadora das ruas, autor diversas vezes citado por José Lins do Rego. Se a vida literária se estabelece nos círculos de sociabilidade recém-instituídos, como os cafés e salões, a matéria para as reportagens é buscada pelo cronista na flânerie das ruas, como fizera o poeta Baudelaire na Paris do Segundo Império, com a invenção do gênero da crônica-reportagem.

José Lins do Rego vai ser um escritor que acolhe a crônica em seu sentido lato e polimórfico. Isto é, um gênero que abriga e franqueia uma quase total liberdade narrativa, em termos de experimentação temática e estilística. Suas crônicas variam de tamanho, são curtas e longas, são diretas ou são impessoais, transcrevem cartas de leitores. Assim, suas crônicas são um verdadeiro pot-pourri, ou um melting-pot, onde escreve sobre os mais diversos aspectos: política, agricultura, seca, livros, personalidades nacionais e estrangeiras, artistas, cientistas, exposições, viagens ao exterior, crítica de filmes, etc.

É o sentido dialógico da crônica, isto é, o da sua construção em proximidade com o leitor, em uma dicção que se aproxima do tom coloquial da fala, um fator muito importante. Embora fosse um romancista popular em termos de vendagem, foi a crônica quem lhe deu grande popularidade na capital da República, recebendo cartas, telefonemas e sendo reconhecido ao caminhar na rua. Isto concretizava um ideal modernista de aproximação e de comunicação com o povo, de contato diário através de uma linguagem oral, cujo tom de conversa era típico da crônica. É justamente a sua limitação, que o define como efêmero e menor, que no modernismo passa a se caracterizar como virtude.

É nesse sentido que podemos entender o título das colunas de José Lins do Rego nos jornais do Rio de Janeiro: “Conversa de Lotação”, “Esporte e vida”, “Pessoas, homens e coisas”.

Para além dos ideais presentes no conteúdo das crônicas, é importante entender o momento de inserção de José Lins no campo jornalístico. O pós-Segunda Guerra marcou profundas sociais, com o incremento da industrialização e da formação inicial de uma indústria cultural, potencializada pelo advento da televisão. No âmbito da imprensa, as mudanças repercutiram através das transformações gráficas, editoriais e comerciais dos periódicos brasileiros, com a passagem de um “jornalismo literário” para outro de tipo “empresarial”. A importação de máquinas de última geração, favorecida pelas diretrizes econômicas do governo Dutra, impulsionou o mercado jornalístico, com o aparecimento de empresários dispostos a investir em novos jornais, o que ampliou a concorrência.

Em algumas situações, essa competição dos jornais repercutiu em um extremado protagonismo político acentuado. Foi o que ocorreu com a Tribuna da Imprensa, criada em 1949 por Carlos Lacerda, e com o Última Hora, de Samuel Wainer, de 1951, que constituirá o braço direito do segundo governo Vargas, cujo desfecho dramático se deveu em boa parte a este aspecto interventivo mais direto do jornalismo na política.

Dentre os novos periódicos, mencione-se ainda o jornal O Dia, fundado em 1951 por Chagas Freitas, e a Revista Manchete, por Adolfo Bloch em 1952, e que tem por base congêneres estrangeiras, como a americana Life e a francesa Paris-Match. A parte visual passou a ser mais explorada, com fotos coloridas estampadas nas capas.  

Entre os jornais já existentes, um processo de reforma editorial também vai ser efetuado, até mesmo para fazer frente ao aparecimento de concorrentes. Um deles é o Jornal do Brasil, criado logo depois da proclamação da República. O JB vai assistir a transformações de forma e conteúdo, por iniciativa de sua proprietária, a condessa Pereira Carneiro, que em viagem aos Estados Unidos compra novos equipamentos gráficos para o jornal. A viagem também proporciona a atualização com as tendências do new jornalismo norte-americano. Se a objetividade do lead viera através do Diário de Notícias, é o JB responsável pela introdução da regra dos cinco Hs e do um H: onde, quando, quem, o quê, por quê e como.

A reformulação compreendeu também diagramações diferentes e a criação de encartes, como o Suplemento Dominical, o Caderno B e o Caderno C. Para isto, novos editores e jornalistas entraram em cena, como Reinaldo Jardim, Alberto Dines, Jânio de Freitas e Odilo Costa Filho, entre outros que se tornavam cada vez mais profissionalizados.

Dentro deste campo, O Globo não é um jornal nem antigo nem novato. É fundado por Irineu Marinho em 1925, que por sua vez já dirigia A Noite desde 1910. Um ano depois de criar O Globo, Irineu falece e o jornal passa a ser dirigido pelo filho, Roberto Marinho.

José Lins do Rego, amigo de Roberto Marinho, a quem dedica um de seus livros de ensaio, Homens, seres e coisas, começa a colaborar no jornal em 1943. Vai escrever com regularidade durante quinze anos consecutivos, até o seu falecimento. Na década de 1950, além da família Marinho, O Globo tem na equipe de redação Herbert Moses, seu tesoureiro. Este era presidente da Associação Brasileira de Imprensa e já pertencia aos quadros de A Noite. Outro nome importante era José Bastos Padilha, diretor-gerente, que nos anos 1930 fora presidente do Flamengo e, portanto, figura próxima a José Lins e a Mário Filho.

Se não teve o protagonismo de a Tribuna da Imprensa ou do Última Hora no processo político dos anos 1950, fica evidente a posição anti-varguista de O Globo no início da década. Com o suicídio de Vargas, convém lembrar que sua sede e seus caminhões de entrega foram apedrejados. O Globo também não chegou a ser protagonista das reformas de diagramação em curso, adequando-se a elas paulatinamente. Era de todo modo um jornal influente, tinha três cadernos principais, com um total de 28 páginas.   

Ademais, o periódico contava com um expressivo número de colunas, contemplando um variado leque de informações. O noticiário referente à política nacional predominava, com o retrato do jogo político dos principais partidos, quais sejam, UDN, PTB e PSD. Havia também um considerável espaço para notícias que exploravam a Guerra Fria, sobretudo um certo exotismo quanto aos países da Cortina de Ferro, como A morte vem do Kremlin.

As notícias referentes à cidade também tinham um peso grande nas manchetes e nas reportagens cotidianas. Colunas como “A batalha do Rio”, “Dramas e comédias da cidade”, “A serviço da cidade” e “Os que estão à margem da vida” exploravam problemas de trânsito, violência e pobreza na cidade, com a abertura de canal para que os leitores-cidadãos se expressassem.

Vista em série, e com o distanciamento do tempo, a leitura do jornal passa a sensação de uma cidade à beira da exaustão, em meio aos caos urbanos. As favelas cresciam, o subúrbio se convulsionava com os acidentes de trem, a sujeira e a poluição se espalhavam, o tráfego era descrito como uma balbúrdia de bondes, carros, ônibus, táxis e lotações.

É como se o projeto reformador civilizado da belle-époque já não mostrasse mais sinais de esperança, ainda que um ou outro prefeito ou interventor anunciasse medidas inspiradas em cidades norte-americanas, como a anunciada pelo prefeito João Carlos Vital, inspirada no plano de limpeza urbana da prefeitura da Filadélfia (EUA). Seria preciso esperar um projeto mirabolante como Brasília para que, do zero, se renovassem as esperanças ordenadoras modernistas…

As seções científicas e culturais, assim como artísticas e esportivas, também tinham considerável espaço, como se pode depreender do título das colunas. Uma incipiente atenção ao turismo, com reportagens sobre países como a França, pode ser percebida. Dentre os principais colunistas que colaboravam regularmente com José Lins do Rego, ressaltem-se os seguintes pares: Otelo, Antônio Olinto, Henrique Pongetti, Pedro Dantas, Thiago de Melo, Gustavo Doria, João Lyra Filho e Geraldo Romualdo da Silva.

Uma das descobertas feitas a partir da leitura de Conversa de Lotação é a centralidade da figura de José Américo de Almeida para José Lins. Pode-se dizer que o tão decantado relacionamento de mestre-discípulo entre José Lins e Gilberto Freyre aparece pouquíssimo nas crônicas de O Globo. Há uma análise que José Lins faz de Aventura e rotina, livro lançado por Freyre em 1952. O questionamento pode ainda ser ampliado pelo fato de que tradicionalmente diz-se que Menino de engenho é a versão literária de Casa-Grande & senzala.

Ora, tal versão pode ser questionada pelo simples fato de que a novela de José Lins é publicada em 1932, enquanto a obra sociológica de Freyre aparece um ano depois. Um mero cotejo de datas é suficiente para ao menos pôr em dúvida a relação entre criatura e criador. Como a criatura teria surgido antes do criador, em um convívio que não durou mais de um ano contínuo? É claro que a influência de Freyre remonta aos anos 1920 e não divirjo que ela é forte e indubitável. Quero somente mostrar como exemplos como este, extraídos da leitura das crônicas, podem pôr em questão certos dados cristalizados e canonizados pela fortuna crítica.    

Cumpre observar que o então governador da Paraíba, José Américo, é constantemente citado e elogiado por José Lins. Amigos desde os 17 anos de idade, os dois se acompanham desde pelo menos 1923, quando José Américo lança A Paraíba e seus problemas. Destarte, a amizade se estende por afinidades eletivas na política e na literatura. Em 1928, José Américo reaparece com A bagaceira, marco do romance social nordestino.

Neste breve bosquejo de trajetória, que aqui se encerra, este é apenas um exemplo a ser desenvolvido. No limite, creio que ele justifica a necessidade de ler os textos de José Lins do Rego em seu suporte original – os jornais do Rio – e em valorizar justamente aquilo que seus críticos e amigos não selecionaram como dignos de publicação em livro na época, considerando-os efêmeros e não-universais.

Edição      Enrique Shiguematu

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A trajetória jornalístico-literária de José Lins do Rego (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Tornou-se por fim amigo da cearense Rachel de Queiroz…''

José Lins do Rego nasceu em um engenho açucareiro, no ano de 1901, no interior da Paraíba, região da zona da mata paraibana. Como Joaquim Nabuco, Sílvio Romero e Augusto dos Anjos, foi menino de engenho até os oito anos de idade. Quando tinha 4 anos, sua mãe faleceu. Foi neste momento afastado do convívio do pai, considerado mentecapto pela família. Cresceu sob os cuidados das tias maternas, em diversos engenhos familiares, que ficavam sob a guarda geral do avô, o afamado e temido coronel José Paulino. O avô era um típico latifundiário de terras de monocultura da cana de açúcar, então em decadência: dono de oito engenhos contíguos, preservados graças à estratégia de casamento entre primos e primas. Segundo descrição do neto, o coronel tinha as características básicas de um patriarca descrito em dicção freyreana: era, ao mesmo tempo, autoritário e bondoso com os empregados.

José Lins cresceu então nesse ambiente rural de amplidão de terras e de liberdade infanto-juvenil, em meio aos banhos de rio, aos animais de estimação (carneiros e passarinhos), às brincadeiras com os moleques de bagaceira, filhos das empregadas de origem africana, algumas delas remanescentes da escravidão na primeira década do século XX. Conviveu também com os trabalhadores locais, especialistas no fabrico do açúcar, além de personagens populares, como senhoras contadoras de história, cegos trovadores e até cangaceiros históricos, como Antônio Silvino. Ia para a cidade nos fins de semana, aonde assistia às missas. Passava férias nas cidades nordestinas, em casa de familiares, ora em Recife ora na capital paraibana.

Com nove anos de idade, Zé Lins foi para o colégio interno em uma cidade próxima ao engenho, onde guarda as duras lembranças: a solidão, a crueldade dos colegas e o autoritarismo do professor. Passava férias no engenho do avô. Já adolescente foi estudar em colégio religioso na capital da Paraíba, de formação marista. Na capital pernambucana, estudou no Ginásio Pernambucano, por onde passaram nomes importantes da cultura brasileira: Celso Furtado, Clarice Lispector, Ariano Suassuna, Paulo Freire, entre outros. Despertou seu interesse pela literatura na escola, lendo romancistas nacionais e estrangeiros. Em Recife, com 18 anos começou a escrever na imprensa sobre Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, além de panfletos políticos. Substituiu Barbosa Lima Sobrinho, transferido para o Rio, em sua coluna do Diário de Pernambuco.

No final da década de 1910, ingressou na Faculdade de Recife, onde fez várias amizades. Teve vida boêmia, viveu em República e dividiu quarto com o gaúcho Raul Bopp, futuro poeta modernista, aluno da Faculdade de Direito de São Paulo, mas que passara o último ano em Recife, antes de ir para a Amazônia. Zé Lins se autodescreve como aluno medíocre, mas acentua que gostava à época da oratória e dos discursos empolados, típicos da retórica bacharelesca.

Logo depois de formado, conheceu Gilberto Freyre, recém-chegado dos Estados Unidos e da Europa, onde vivera por 5 anos. Amizade à primeira vista, Freyre revelou romancistas ingleses e uma erudição de scholar que encantou José Lins. Conviveram intensamente durante um ano. Faziam passeios por Recife e Olinda, reconhecendo suas marcas coloniais, sobrados, culinária afro-portuguesa. Viajaram juntos atrás de engenhos de fogo morto por Paraíba e Pernambuco. Mantiveram contato depois em congressos (Manifesto Regionalista, Congresso Afro-Brasileiro), no Rio de Janeiro e através de correspondências.

Ao fim da formação bacharelesca, conheceu, numa estação de trem, Philomena Massa, com que casaria em 1924. Naná era filha de Antônio Massa, um senador da Primeira República, quem lhe conseguiu um emprego público no interior de Minas Gerais, onde não ficou mais de um ano. Em sua volta ao Nordeste, radicou-se por quase dez anos, entre 1926 e 1935, onde passa a trabalhar como fiscal de consumo. Teve três filhas e graças à sua reputação de crítico literário em Recife, foi cercado de reverência em Maceió por uma nova geração de escritores.

Nos cafés da capital alagoana, reuniu em torno de si novatos como Aurélio Buarque de Holanda e Manuel Diegues Júnior. Fez-se mestre do poeta Jorge de Lima, sobre quem influiu na transição do parnasianismo para o modernismo. Em companhia do governador de Alagoas da época, foi até a cidadezinha de Palmeira dos Índios e lá conheceu Graciliano Ramos, sobre quem se dizia ser “o homem mais erudito de todo o sertão”.

Tornou-se por fim amigo da cearense Rachel de Queiroz, que estreia na ficção em 1930 com O Quinze, premiado pela Fundação Graça Aranha, de São Paulo, no ano seguinte. Em 1928, José Américo de Almeida já publicara A bagaceira, marco no romance social nordestino.

Já estabelecido como jornalista e como crítico literário, José Lins inicia em 1931 um livro que pretendia ser uma biografia do avô, com o nome de Memórias de um menino de engenho. No curso da escrita, o texto biográfico tornou-se uma ficção e, custeada pelo próprio autor, é publicada em 1932 a novela Menino de engenho. A recepção não poderia ser melhor: apesar de críticas a passagens libidinosas e até pornográficas, o romance estoura e se esgota rapidamente. O tarimbado filólogo e membro da ABL, João Ribeiro, escreve crítica elogiosa no Jornal do Brasil e entrevê elementos freudianos na narrativa…

A família paulista dos Prado é muito importante na consagração de José Lins do Rego. Graças a essa estirpe, responsável pela criação da Fundação Graça Aranha, a novela Menino de Engenho é premiada no ano seguinte, 1933, o que estimula José Lins a escrever outro romance. Passa a se corresponder com o historiador Yan de Almeida Prado. Além disto, Paulo Prado, mecenas da Semana de Arte Moderna de 1922, volta a fortalecer as relações com o Nordeste de seu amigo Capistrano de Abreu. O autor de Retrato do Brasil apresenta Menino de engenho a Blaise Cendrars, o vanguardista franco-suíço que viajara a Minas Gerais com os modernistas em 1924. Prado classifica José Lins como “o nosso Proust” e décadas depois o romance será traduzido para o francês como L’enfant de la plantation, com prefácio de Cendrars.

Todo esse reconhecimento culmina em 1934, quando o editor José Olympio convida José Lins para publicar sob a chancela de sua editora, recém-transferida para o Rio de Janeiro, aquele que seria seu terceiro romance, Banguê, em uma tiragem de cinco mil exemplares. No ano seguinte, 1935, atraído pelo sucesso, José Lins resolve se transferir junto com a família para o Rio de Janeiro. Para tanto, consegue a transferência de seu posto de trabalho, agora como fiscal de imposto no Estado do Rio de Janeiro.

A afirmação de José Lins na capital da República vai passar pela publicação contínua de romances e pela sua presença diária na Livraria José Olympio, em ponto estratégico do centro da cidade, a Rua do Ouvidor. Neste ambiente, vai criar um grande circuito de relações sociais e de amizades. Entre 1935 e 1939, publica com regularidade um romance por ano, dando origem ao Ciclo da Cana de Açúcar e ao Ciclo do Cangaço, do Misticismo e da Seca.

José Lins mora na zonal sul do Rio. Primeiro no bairro de Botafogo, depois no Humaitá – onde vai acolher Graciliano Ramos, quando este é liberado da prisão do Estado Novo, em Ilha Grande – e, por fim, no Jardim Botânico, em uma casa construída próxima à Lagoa, onde vai residir até o final da vida.

Em função de seu trabalho, pega com frequência as barcas, para prestar serviços em Niterói. É deslocado para o interior do Estado, onde faz inspeção em Cabo Frio, Araruama e Vassouras. Em 1941, publica Água-mãe, inspirado em sua residência na Região dos Lagos. Para fugir à pecha de escritor regionalista, em 1947 publica um romance com temática urbana, centrado na cidade do Rio, Eurídice.

Já a década seguinte assinala uma mudança. Os romances se tornam menos frequentes, escasseiam, por assim dizer, e as crônicas em jornais, até então esporádicas, se tornam regulares. Antologias de crônicas começam a ser publicadas, com a reunião de textos antigos, da sua época do Nordeste, tal como Gordos e magros, de 1942, e Poesia e vida, de 1945.

Em 1943, José Lins publica sua obra-prima, Fogo morto. Neste mesmo ano, é contratado por Roberto Marinho para trabalhar em O Globo e pelo conterrâneo, Assis Chateaubriand, para escrever em O Jornal e na revista O Cruzeiro, onde publica, sob a forma de folhetins, o romance Os cangaceiros, ilustrado por Cândido Portinari. Dois anos depois, em 1945, recebe convite de Mário Filho, que conhecera em O Globo, para assinar a coluna Esporte e vida, no Jornal dos Sports.

Na seção da próxima quinzena, aprofundaremos a relação de José Lins do Rego com a colaboração jornalística nos periódicos do Rio de Janeiro.

Edição      Enrique Shiguematu

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