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Regionalismos e modernismos na literatura brasileira
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Antes de escrever Macunaíma, o erudito Mário dedica-se à pesquisa e ao estudo…`'

“Regional, a meu ver, deve ter o sentido do real,

da realidade arraigada, da literatura que precisa do sumo da terra,

do sangue da gente, da força dos elementos para subsistir.”

José Lins do Rego

(entrevista a Aurélio Buarque de Holanda)

“Como na música de Villa-Lobos, a força

de um Lúcio Costa, de um Niemayer, de um Mendlin,

proveio da nossa vida, de nossas próprias entranhas”

José Lins do Rego

A casa e o homem

 

Quando se fala da extensão do território brasileiro, são várias as razões oficiais para apontar a sua grandeza. Do ponto de vista histórico, durante a Colônia, as fronteiras brasileiras foram estendidas pela ação das Entradas e Bandeiras, quando os portugueses e seus descendentes abriram caminho pelo interior, rumo ao Extremo Oeste; durante o Império, o Brasil ficou conhecido mundialmente como a “planta exótica” da América, a manter sua unidade em um momento em que os vizinhos hispânicos se desmembravam em Repúblicas; durante a República, logo após a sua proclamação, o Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, desenvolveu um importante trabalho junto às zonas limítrofes do país, do extremo sul ao extremo norte, culminando com acordos diplomáticos e até mesmo a compra de territórios, como o estado do Acre, em 1903.  

Em função dessa extensão, as latitudes e longitudes perfazem mais de oito milhões e meio de quilômetros quadrados. Todas as mudanças políticas, sociais e econômicas do país têm, pois, de levar em consideração tal ordem de grandeza. Apesar do esforço de centralização do governo nacional, historicamente cada região seguiu um ritmo próprio de adequação à “marcha da civilização”. Natureza, demografia e cultura foram elementos que concorreram para ritmar os avanços e para orientar, em cada caso, as demandas do progresso das cinco regiões oficiais. Hoje em dia, estas são reconhecidas pelo IBGE segundo a divisão entre Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste.   

Dentre estas, uma região merece especial destaque. Trata-se do Nordeste. A recriação paisagística e literária desta, principalmente na capital da República, já vinha sendo empreendida desde meados do século XIX. Na virada para o século seguinte, o país ainda era predominantemente rural, mas caminhava em progressiva mutação na direção da vida dita moderna. A esta altura, o imaginário nacional será marcado pela força da região nordestina, onde se acreditava encontrar uma das fontes populares supostamente mais puras e autênticas.

Com o escritor Sílvio Romero, a busca pela autenticidade popular se torna uma missão programática. Como se fossem antiquaristas à cata de relíquias, Romero e seus pares avançam em estudos sobre poesia popular, cantigas tradicionais, parlendas e tudo aquilo que hoje em dia se chama de patrimônio cultural ou imaterial. Estes coletores dão atenção cada vez mais sistemática aos vestígios das culturas lusitanas, negras e ameríndias. Neste programa, o Nordeste, em particular, passa a ser informado por um espírito científico de pesquisa.

Mas em diversas partes do Brasil, e não apenas no Nordeste, o romance se consolida entre 1870 e 1920, com Aluízio Azevedo, Rodolfo Teófilo, Adolfo Caminha, Papi Júnior, entre outros.

Um primeiro livro a ser destacado nessa safra é Terra de caipiras e tropeiros, de Valdomiro Silveira (1873-1941), considerado um dos pioneiros do regionalismo em São Paulo. Silveira captou o ambiente do interior paulista na obra Os caboclos, publicado em jornais, aparecendo em livro no ano de 1920. Em seguida, vale mencionar outro expoente, sobre o qual José Lins muito comenta em seus ensaios, o sulista João Simões Lopes Neto (1865-1916). Natural de Pelotas, ele tornou-se conhecido como autor dos antológicos Contos gauchescos (1911) e das Lendas do Sul (1912).

O regionalismo foi pródigo no Nordeste, seu principal laboratório literário, próximo da etnografia. À parte a personagem Iracema, ou o sertanejo de José de Alencar, o século XIX se concentrara nos tipos das obras de Franklin Távora (1842-1888) – responsável por separar a “literatura do Norte” da “literatura do Sul” – e de Domingos Olímpio (1851-1906).

Enquanto o primeiro se notabilizara pelo livro O cabeleira (1876), ambientado na Pernambuco setecentista, o segundo é reconhecido pela obra-prima Luzia Homem (1903), ficção com cenário no interior do Ceará, durante uma das secas históricas que assolaram o estado. A obra Luiza Homem foi considerada pelo respeitado médico Afrânio Peixoto como “um modelo de romance regional”. Já para José Lins do Rego, no livro Presença do Nordeste na literatura, foi a mais característica da geração cearense.

Outros regionalistas importantes que despontam nessa época foram o mineiro Afonso Arinos de Melo Franco (1868-1916), escritor dos contos Pelo sertão e Os jagunços, ambos de 1898; Godofredo Rangel (1884-1951), também de Minas Gerais, que descreve a história e a cultura mineiras em Vida ociosa (1920); o paulista Amadeu Amaral (1875-1929) que, embora tenha se restringido a ensaios e poemas, publicou seu Dialeto caipira (1920); e ainda o paulista Juó Bananère, artífice do regionalismo cômico-urbano, inspirado na fala da população migrante italiana, com La Divina Increnca (1924).

A região Norte do Brasil, no limiar do século XX, momento em que vivia o fausto da borracha, também ocupou seu espaço nessa galeria de ficções regionais. Inglês de Souza (1853-1918), natural de Óbidos, tal como o crítico paraense José Veríssimo, foi cedo morar em São Paulo, aos seis anos de idade, em companhia dos pais. É dele o ficcional Cenas da vida amazônica, título geral que abriga os “Contos amazônicos”, “O cacaulista”, “História de um pescador”, “O missionário” e “O coronel Sangrado”. Apoiada nas reminiscências de infância e nos relatos orais que escutou de um tio e do pai, a obra de Inglês de Souza constitui um painel da história sociopolítica do Pará, dimensão cíclica que alcançaria o ápice décadas depois, com Dalcídio Jurandir (1909-1979) e sua série romanesca sobre a Amazônia.

Como se sabe, o decênio de 1920, quando José Lins do Rego conclui seus estudos universitários e inicia carreira no serviço público de um Estado nacional que procura erigir as suas bases institucionais, assistiu à eclosão de um divisor de águas nas letras brasileiras: a Semana de Arte Moderna de 22.

Graça Aranha, em conferência pronunciada em plena Academia Brasileira de Letras, no ano de 1924, sintetizou em O espírito moderno aquela necessidade de renovação que animou os promotores da Semana de 22:

“A nossa literatura está morrendo de academicismo. Não se renova. São os mesmos sonetos, os mesmos romances, os mesmos elogios, as mesmas descomposturas que ouço desde os tempos de fundação da Academia, quando José Veríssimo não queria me deixar entrar e Nabuco forçou a minha entrada. É preciso reformar tudo aquilo. Dar vida àquele cemitério. Vocês são moços. São estudantes. Agitem a escola. Mexam com os seus companheiros. Façam alguma coisa de novo. Façam loucuras. Mas procurem espanar aquelas teias de aranha.”.

 

Seguido por uma plêiade de modernismos – um no Rio Grande do Sul, outro em Minas, um terceiro no Nordeste, um quarto no Rio – o movimento atualizará não apenas as vanguardas artísticas europeias, mas renovará, a partir de 1924, o interesse de seus escritores em “descobrir o Brasil”: seus costumes, sua língua, suas expressões mais singulares.

O paulistano Mário de Andrade será um autor emblemático desse vívido interesse dos homens letrados pela tradição artístico-popular. Antes de escrever Macunaíma, o erudito Mário dedica-se à pesquisa e ao estudo, com consulta a glossários, a vocábulos, a provérbios e a livros de escritores regionalistas. Baseado nestes, elabora um projeto de estruturar uma língua geral, comum às diversas regiões brasileiras, fundada na estilização da linguagem oral e dos seus diferentes falares regionais, com vistas a uma integração cultural do país.

Mário combina erudição com experiência, por meio da viagem. Primeiro embrenha-se pelo interior de São Paulo, em busca das origens do samba rural paulista. Vai mais longe, visita o litoral e o sertão nordestino. Lá conhece o folclorista potiguar Câmara Cascudo e o cantador de coco, Chico Antônio, seu “herói com caráter”. Mário não pára por aí, conhece as populações ribeirinhas do alto Amazonas, depois de já ter visitado as cidades coloniais de Minas Gerais, em companhia do poeta franco-suíço BlaiseCendrars, onde este se encantara com o barroco mestiço de Aleijadinho.

As aludidas viagens de Mário às regiões Norte e Nordeste em 1927, descritas em O turista aprendiz, um ano antes da rapsódia folclórica Macunaíma, que propositadamente embaralha as categorias dicotômicas do rural-urbano para “desgeograficizar” o território, são exemplo desse desejo intelectual de descobrir o Brasil, uno e múltiplo, diferenciado e integrado, nacional e regional.

No início dos anos 20, da mesma maneira que os modernistas de São Paulo, homens de letra das grandes cidades nordestinas – lembre-se de Câmara Cascudo em Natal, de Ascenso Ferreira em Recife e de Gustavo Barroso em Fortaleza –, vão fazer também as suas viagens de reconhecimento da cultura do interior. As incursões ao universo folclórico-popular revelam que a riqueza está em sua mixagem e em sua diversidade, especialmente no Nordeste, onde a presença colonial, confluência de índios, negros e portugueses, deitou fundas raízes no passado.

A materialidade da cultura popular pode ser encontrada às margens do Rio São Francisco, ao redor de cidades comerciais ou no entorno das feiras, centro de reunião de cantadores, com suas músicas de zabumba, divulgadas nos livros de Leonardo Mota (1891-1948): “Violeiros do Norte”, “Sertão alegre”, “No tempo de Lampião”.

As feiras constituíam o empório de legumes, frutas, cereais, raízes e medicamentos populares, à disposição do consumo do matuto. Havia também as feiras de animais: cavalos, jumentos, bois, carneiros, porcos e outras pequenas espécies domésticas. Um terceiro tipo de feira era dedicado às obras artesanais: redes de algodão, instrumentos de couro, louças (cerâmicas), chocalhos, urupemas, balaios, facas de ponta e brinquedos de algodão.

O artesanato foi uma das grandes expressões da cultura material nordestinas, materializadas nas peças de barro como as do Mestre Vitalino (1909-1963). O ceramista de Caruaru era especialmente admirado por José Lins, que guardava exemplares daqueles bonecos em miniatura em seu escritório de casa.

O apreço pelo patrimônio artesanal se manifesta quando aquilo que parecia como o caráter mais puro da nacionalidade – os hábitos e as práticas mais afastadas dos centros urbanos e, por conseguinte, mais próximas da natureza, da selva ou da paisagem do interior rústico – se apresenta em decomposição. Deste processo resulta o sentimento nativista que também influenciou os escritores modernistas, como a corrente do verde-amarelismo, liderada por Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e Plínio Salgado. Da mesma forma que as gerações anteriores, a tarefa de salvaguardar as tradições motivou o modernismo brasileiro a registrar as manifestações populares e folclóricas ameaçadas de desaparecimento.

A captação da fala espontânea do povo e o registro oral de vocábulos em vias de desaparição reapareceram no modernismo dos anos 20. Neste sentido, a plataforma dos modernistas paulistas se aproximava do que queria Gilberto Freyre para o Nordeste, com seu elogio da oralidade. Um e outro visavam romper com o bacharelismo dos salões acadêmicos, com o pastiche da moda parisiense, que desfilava na Rua do Ouvidor, e com a dicção empolada dos nossos bacharéis, pretensamente civilizados, que se valiam de todos os artifícios da retórica como sinal de distinção.

Longe de ser uma particularidade da intelligentsia brasileira, ir ao encontro do povo era uma demanda que se propagava desde a Europa. As correntes artísticas, descontentes com os efeitos niveladores do processo civilizatório, no qual a técnica e a máquina se impunham sobre os saberes manuais e sobre as “artes do fazer”, em meio a um continente combalido pela Grande Guerra, apostam no primitivismo e no exotismo antropológico de civilizações de além-mar, ditas primitivas, em África, Ásia e América.

Dentre esses artistas-viajantes em busca de povos e países com civilizações qualitativamente distintas do Velho Mundo, encontra-se o já citado poeta Blaise Cendrars (1887-1961). Nos anos 20, ele foi recebido no Rio de Janeiro e em São Paulo por uma comitiva de artistas, cujo mecenas era Paulo Prado. O vanguardista suíço visitará as cidades históricas de Ouro Preto, Congonhas e Mariana. Será o próprio, aliás, anos mais tarde, um efusivo leitor e apreciador das paisagens descritas nos romances de José Lins do Rego.

Edição      Enrique Shiguematu

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Matéria de ficção: o futebol em José Lins do Rego
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Mário Filho compra em 1936 um periódico voltado apenas para as modalidades esportivas: o Jornal dos Sports. O Cor de Rosa, como vai ser conhecido popularmente seu jornal, será um grande promotor de espetáculos esportivos…''

“Os caminhos da ficção que nos legou passam

pelo eito dos engenhos de cana da várzea do Paraíba,

da mesma forma que pelos vestiários dos clubes de futebol”.

Edilberto Coutinho

“Reclamando, enfezado, irritando até as traves dos gols,

ainda é ele o melhor. O mais eficiente, o de mais classe,

o mais capaz. Depois que Leônidas se foi, ou melhor,

depois que acabou o futebol de Leônidas, o que existe

por aí é o futebol de Heleno”.

José Lins do Rego

 

A aproximação do escritor José Lins do Rego (1901-1957) com o futebol em muito se deveu à figura de outro nordestino: o pernambucano Mário Rodrigues Filho (1908-1966). A atuação deste na promoção de eventos esportivos e carnavalescos na cidade do Rio de Janeiro foi notável. Em 1932, por exemplo, antes de Zé Lins residir na capital da República, Mário Filho concebeu e promoveu o Desfile das Escolas de Samba, realização que será um grande sucesso na oficialização da música popular no Rio de Janeiro.

Com o crescimento dos investimentos nos esportes, Mário Filho compra em 1936 um periódico voltado apenas para as modalidades esportivas: o Jornal dos Sports. O Cor de Rosa, como vai ser conhecido popularmente seu jornal, será um grande promotor de espetáculos esportivos. Isto porque a implantação do profissionalismo no futebol não deixava também de ser uma forma de expansão dos negócios de Mário Filho. É ele, por exemplo, quem cria a legenda Fla-Flu e quem incentiva o concurso entre torcidas, popularizando ainda mais o ambiente ruidoso dos estádios.

Mário Filho, em 1947, quando José Lins já está radicado na cidade, publica um livro seminal: O negro no futebol brasileiro. O prefácio é de Gilberto Freyre, outro amigo de Zé Lins. Inspirado em imagens literárias, Freyre compara o zagueiro Domingos da Guia ao escritor Machado de Assis. Para o sociólogo pernambucano, Da Guia jogava como Machado escrevia, tinha um estilo “apolíneo”, era ereto, fleumático, como um inglês desgarrado nos trópicos.

Autor da domingada, Da Guia driblava com elegância e frieza dentro da própria área, sem chutar a bola de qualquer maneira, sendo capaz de passar a bola com categoria. Já Leônidas da Silva seria um jogador com um estilo de jogo que classificava de “dionisíaco”, por assim dizer de explosão. Se Domingos era retilíneo corporalmente, Leônidas era curvilíneo, anguloso, lábil. Inflamado, este fazia floreios “barrocos” com a pelota. Suas fintas e seus dribles ludibriavam os adversários no arremate do gol.

O livro traz um argumento até certo ponto polêmico, qual seja, o de que o futebol se popularizou no Brasil graças à entrada de negros nos grandes clubes esportivos do Rio de Janeiro. Estes se originariam dos clubes de remo, que logo se tornariam espaços para a prática do futebol, e não queriam permitir a entrada das classes subalternas, nem nos gramados nem nas suas sedes sociais. O carioca Leônidas da Silva, ídolo-mor de José Lins do Rego, seria um jogador de origem plebeia, nascido no subúrbio da cidade, que contribuiria para romper com essas barreiras impostas pelos amadoristas endinheirados. Tais jogadores passavam a representar o país nos selecionados nacionais, em competições internacionais disputadas na América do Sul e na Europa.

Dois anos depois de publicar esse livro, chamado por muitos de um clássico, Mário Filho ainda lançaria mais um: Romance do futebol (1949). José Lins voltaria a fazer elogios ao jornalista em sua coluna do Jornal dos Sports. Desta vez ele destacava a habilidade de Mario Filho como escritor:

 

“Outro livro que Mário Filho tomou para substância e conteúdo humano o futebol. É que arrancou dessa prática esportiva a sua mais romanesca particularidade. Mário Filho é o homem que tem o dom da narração, de contar o que sabe e o que imagina, como rio que corre para o mar. Os fatos, os incidentes, os choques, as alegrias e as dores dos seus personagens se apresentam ao leitor, como um conto ou história de Trancoso, no mais simples e mais patético narrar.”

 

Não foram apenas o jornal e o livro que aproximaram José Lins do fenômeno futebolístico. Sua aproximação deriva também da popularidade desta modalidade junto ao rádio, principal veículo de comunicação nos anos 1930 e 1940. Na política, por exemplo, a radiodifusão vai permitir a Getúlio Vargas o contato com a população brasileira, então dispersa em território de dimensões continentais, perfazendo mais de oito milhões de quilômetros quadrados. Para tanto, o Departamento de Imprensa e Propaganda do governo, o temido DIP do Estado Novo, criou o hábito de irradiar os seus discursos, conhecidos pelo nacionalismo e pela grandiloquência, a ganhar fama com a habitual exclamação de abertura “– trabalhadores do Brasil!”.

O estádio de São Januário foi um dos palcos preferidos utilizados pelo presidente em datas cívicas, como o Primeiro de Maio, quando se comemorava o Dia do Trabalhador. Estas ocasiões rituais eram retransmitidas pelo rádio para boa parte do país. O rádio, instrumento de sonorização e de captação de sinais eletromagnéticos, permitiu também a Orlando Silva (1915-1978), lançado por Francisco Alves (1898-1952) e cognominado o “cantor das multidões”, ecoar sua voz e emocionar milhares de ouvintes nos diversos quadrantes do Brasil. A música se revelará um notável meio de catalisação de audiência nas estações de rádio e chegará também às telas de cinema, outro grande meio de entretenimento e de unificação do imaginário nacional no período.

Embora a década de 1930 marque a descoberta e o encantamento de José Lins com o fenômeno futebolístico, não se deve presumir que ele tenha deixado de lado o seu interesse pela literatura e pelos amigos literatos. Neste período, ocorre um incidente que chamaríamos de heroico da parte de José Lins: a soltura da cadeia do amigo Graciliano Ramos. Em todo o mundo, vivia-se uma época de radicalização política. No Brasil, em 1935, ano em que Graciliano é preso, havia ocorrido a chamada Intentona Comunista, uma tentativa malograda de tomar de assalto o poder no país, por parte de admiradores do regime em curso na União Soviética.

O próprio José Lins retratara esse ambiente de agitações em O moleque Ricardo, livro em que o personagem principal, um operário envolvido em conspirações políticas, é enviado para o degredo na Ilha de Fernando de Noronha, como o triste personagem Policarpo Quaresma, da ficção de Lima Barreto, também fora enviado para a Ilha das Enxadas. Neste contexto, Graciliano Ramos, simpatizante do Partido Comunista como muitos outros artistas e escritores – Jorge Amado, Cândido Portinari, Ismael Nery, Edison Carneiro, Dalcídio Jurandir e Carlos Drummond de Andrade –, acabou preso em Alagoas.

Graciliano foi enviado para o presídio de Ilha Grande no Rio de Janeiro, onde conheceu a doutora Nise da Silveira (1906-1999), conterrânea alagoana também encarcerada, que se tornaria uma líder na mudança de tratamento clínico em hospitais psiquiátricos no Brasil, além de fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente (1952), em parceria com o crítico de arte trotskista Mário Pedrosa. Como o teórico marxista italiano Antônio Gramsci (1891-1937), Graciliano também se dedicou a escrever no presídio, a fim de suportar o ostracismo do cativeiro. Foi na prisão que redigiu um clássico da literatura brasileira: Memórias do cárcere.

Em 1937, ao lado de José Olympio, que havia lançado no ano anterior o romance de Graciliano, Angústia, José Lins intercedeu no Palácio do Catete e solicitou a intelectuais colaboradores do governo – Almir de Andrade, Lourival Fontes e Herman Lima –, a libertação do escritor. Após uma série de negociações, o pedido foi concedido e Graciliano saiu da prisão.

De início, Graciliano se hospedou na casa de José Lins, situada na Rua Alfredo Chaves, no bairro do Humaitá. Lá conviveu com Dona Naná e com as três filhas de José Lins. De forma anedótica, conta o crítico Silviano Santiago, no livro Em liberdade: uma ficção, que um novo hábito – a veneração de José Lins pelo futebol – causou espanto em Graciliano. Depois de poucos dias na casa, teria concluído perplexo o escritor: “Aqui Leônidas da Silva é mais importante que Dostoievski”.

Em paralelo à ação política em prol de amigos escritores, nestes primeiros anos em que se estabelece no Rio de Janeiro, a veia literária se apresenta fértil como nunca. Seguindo a sugestão de José Olympio – “Você, José Lins, pode fazer um romance em cada ano” – o escritor publica em 1935 o citado O moleque Ricardo. A série continua no ano seguinte, com Usina (1936); em 1937 aparece Pureza, um ano depois Pedra Bonita (1938) e em 1939, Riacho Doce.

A impressionante sequência anual dos livros publicados atendia em parte ao sucesso de vendas, em parte à disposição do autor na reinvenção das suas lembranças do agora distante Nordeste. O pano de fundo podia ser ora o espaço litorâneo e urbano de O moleque Ricardo e Riacho Doce; ora a ligação entre o litoral e o interior nas estações das linhas de trem em Pureza; ora as transformações de sua região de origem em Usina; ora ainda o sertão adusto em Pedra Bonita.

No estado do Rio, a vivência na região praiana das salinas de Cabo Frio e das lagoas de Araruama serve de inspiração para José Lins escrever um romance que será publicado em 1941: Água-mãe. O eixo central da trama gira em torno de mistérios de uma casa mal-assombrada. O livro apresenta, contudo, algumas novidades temáticas, paisagísticas e sociais em relação às obras anteriores: 1) não se filia a nenhum dos seus ciclos de romance – nem o da Cana-de-Açúcar nem o da Seca, do Misticismo e da Fome; 2) não se passa no Nordeste nem explora a paisagem da região nordestina; e 3) tenta retratar na ficção famílias pertencentes às três esferas da sociedade, das classes populares às classes médias e às classes altas do Rio de Janeiro.

Na década de 1950, Glauber Rocha (1939-1981), então um iniciante na crítica cultural, se encantou com a obra de José Lins do Rego. O cineasta baiano leu a obra de José Lins na íntegra, inclusive Água-mãe, e resumiu a parte em que José Lins trata da carreira do jogador. Tratava-se de mais um personagem frustrado, galeria dos demais tipos sociais descritos pelo autor: o senhor de engenho, o bacharel, o cangaceiro, o contador de histórias.

Eis seu comentário:

 

“Joca, o jogador de futebol, é a manifestação em nosso romance desse ídolo nacional. José Lins, grande entusiasta e entendedor desse esporte, exibe seus conhecimento com descrições de pelejas na melhor linha da crônica esportiva. Por outro lado, ultrapassando o devaneio, traça rápida mas profundamente, o roteiro geral do jogador de futebol: sua ascensão, seu auge na seleção nacional, sua queda brusca, sua morte na humildade e no esquecimento de onde veio. Joca morre ali mesmo, sentado na porta de casa, olhando tristemente a lagoa.”

Edição      Enrique Shiguematu

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O Galileu Galilei de Bertolt Brecht
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Denise Fraga interpretando Galileu em uma versão contemporânea da peça.

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

“Eu sou o nevoeiro, e deve contar comigo

Todo aquele que viaja sobre as águas.

1000 anos e nunca se viu

Quem pretendesse atravessar os ares.

Afinal, quem é você?

(Brecht, O voo sobre o oceano)

“Como um artefato alegórico, Galileu contém pelo menos duas mensagens distintas, além da ‘literal’: a da revolução política como um tipo de nível anagógico, e a da revolução estética como um nível moral”.

(Fredric Jameson, Brecht e a questão do método)

Uma das leituras escolares de que ainda guardo boas lembranças é a peça A vida de Galileu, de autoria do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). A edição a que tive acesso em 1989, ano em que li o texto para a escola, era a primeira publicada em português e datava de junho de 1977. Tratava-se de uma versão da Editora Abril e fora traduzida por Roberto Schwarz, um dos argutos intérpretes da obra brechtiana no Brasil, a exemplo de sua análise de Santa Joana dos Matadouros.

O elenco da peça é extenso, há pelo menos 20 personagens que aparecem no decurso dos quinze capítulos da dramaturgia brechtiana. Além do próprio Galileu, avultam nos diálogos: Andrea Sarti, Dona Sarti, Ludovico Marsili, o procurador da Universidade de Pádua, o senhor Priuli, Sagredo, Vírginia, Federzoni, o Doge, Cosmo Medicis, o pequeno monge, o cardeal inquisidor, os cardeais Barberini e Bellarmino, Filippo Mucio, o senhor Gaffone, o teólogo, o filósofo e o matemático, entre outros.   

Escrito entre o final dos anos 1930 e o início da década de 1940, o texto reconstitui a vida do professor de matemática, residente inicialmente em Pádua, que almeja demonstrar o funcionamento do universo sob bases distintas das então aceitas. Reproduzo a seguir, em breves linhas, o fio condutor da narrativa brechtiana.

De seu quarto de estudo, quer provar que a terra gira em torno do sol e, para tanto, entabula conversas com Andrea, filho da governanta, dona Sarti, a quem afirma: “– Há dois mil anos a humanidade acreditou que o sol e as estrelas do céu giram em torno dela. O papa, os cardeais, os príncipes, os sábios, capitães, comerciantes, peixeiras e crianças de escola. Todos achando que estão imóveis nessa bola de cristal…”.

Dona Sarti, por seu turno, não gosta do teor do assunto, embora relembre suas observações taxativas no diálogo com Galileu: “– Ontem à noite, ele me provou que a terra dá volta no sol. Está convencido de que isso foi calculado por um tal de Copérnico… ele fala essas coisas na escola e os padres vêm me procurar, porque ele fica dizendo coisas que são contra a religião”.

Galileu dá aulas particulares, pois a universidade o remunera mal. Um procurador universitário vai à sua casa, mas nega o pedido de aumento solicitado pelo docente: “– Eu vim tratar do seu pedido de aumento; o senhor quer ganhar mil escudos. Infelizmente, o meu parecer não será favorável”.

A despeito da negativa, Galileu apresenta a sua versão do telescópio ao procurador, que por sua vez o leva aos veneráveis conselheiros da República de Veneza. Estes veem o potencial comercial do tubo com lentes, o que desagrada o astrônomo italiano: “– Pensam que estão ganhando um brinquedo lucrativo, mas é muito mais. Ontem eu apontei o tubo para a lua. Ele não tem luz própria. A astronomia parou há mil anos, porque não havia telescópio”.

A 10 de janeiro de 1610, servindo-se do telescópio, Galileu observa fenômenos celestes e deslinda o sistema copernicano. Mesmo com a advertência do amigo Sagredo quanto a possíveis consequências de sua pesquisa da rotação dos astros, Galileu endossa a força da razão humana. Em seu quarto de estudos, Galileu conclui com base em suas observações que a lua é um corpo celeste como outro qualquer.

Sagredo o dissuade: “– A lua não pode ser uma terra, com montanhas e vales, assim como a Terra não pode ser uma estrela” … “– Isto contradiz a astronomia inteira de dois mil anos”. Ao que Galileu retorque: “O que você vê é que não há diferença entre o céu e a terra. Hoje, dez de janeiro de 1610, a humanidade registra em seu diário: aboliu-se o céu”.   

Para ter mais tempo para estudar, o personagem cogita mudar-se para Florença, pois: “– Lá me dispensam de enfiar Ptolomeu na cabeça de alunos particulares e terei tempo para elaborar as minhas provas, porque o que tenho agora não basta”.

Galileu troca afinal a república de Veneza pela corte florentina, cujos sábios, entretanto, não dão créditos às suas descobertas feitas por telescópio. Membros da corte vão à residência de Galileu para ver o objeto polêmico. Ao final uma discordância de opiniões se deflagra no encontro: “Mestre-sala: – A corte está ansiosíssima, esperando a opinião da ilustre universidade a respeito do extraordinário instrumento do senhor Galileu e das suas maravilhosas estrelas novas”. Ao que o matemático obtempera: “– É duvidoso um telescópio no qual se vê o que não pode existir?”.

A peste invade as ruas de Florença. Mesmo assim, Galileu prossegue em suas pesquisas. Dona Sarti observa: “– Seu Galileu! Venha comigo! Você está louco”. O matemático responde: “– Agora eu reuni todas as provas. Sabe, quando passar a peste, vou para Roma, e aí eles vão ver…”.

No ano de 1616, o Colégio Romano ironiza as descobertas e afirmações de Galileu. Um monge sentencia em tom irônico: “– Ui, a terra está virando muito, estou tonto.”. Já um dos cardeais observa: “– Dizem que o tal do Galileu transferiu o homem do centro do universo para algum lugar na periferia. Está claro, portanto, que ele é um inimigo da humanidade”.

Na casa do cardeal Bellarmino, em Roma, há um baile. Entrementes, Galileu conversa com Barberini e Bellarmino. Afirma que acredita apenas na razão, mas ambos a acham insuficiente. Virgínia, filha de Galileu, está noiva de Ludovico, rapaz bem apessoado, de família rica. Bellarmino pondera: “– Senhor Galileu, o Santo Ofício decidiu esta noite que a doutrina de Copérnico, segundo a qual o sol é o centro do universo, e permanece inamovível, enquanto a Terra não é o centro universal, e é móvel, é tola, absurda e herética na fé. O senhor, Galileu, abjure essa opinião”.

No palácio do embaixador florentino em Roma, Galileu conversa com o pequeno monge, a quem diz: “– Se Vênus ficar sem fazer no meu quadro do universo! Nós não saberemos inventar máquinas para bombear água dos rios, se não pudermos estudar a máquina que está diante de nossos olhos, a maior de todas, a dos corpos celestes”.

Em sua casa, em Florença, Galileu estuda com seus alunos sobre a flutuação dos corpos e sobre as manchas solares. Andréa comenta: “– Quanto à flutuação, nós supomos que ela não depende da forma do corpo, mas de seu peso, comparado ao da água: se for mais leve, o corpo flutua; se for mais pesado…”.

Galileu exclama: “– Barberini será o papa! O saber será uma paixão e a pesquisa, uma volúpia. Cláudio tem razão, essas manchas solares me interessam”.

Em 1632, durante a terça-feira de carnaval, divulga-se: “– Prezados habitantes, vejam a fenomenal descoberta de Galileu Galilei: a Terra gira em torno do sol!”.

Em Florença, no Palácio dos Médicis, Galileu e a filha esperam que o grão-duque os receba. Este demora, mas os atende. Galileu não entrega o livro. Vanni, um amigo de Galileu, confidencia: “– Lá em cima falavam na sua pessoa. Dizem que o senhor é responsável pelos panfletos contra a Bíblia que estão à venda em toda a parte”.

Enquanto isso, um alto funcionário se dirige a Galileu: “Estou encarregado de informá-lo de que a corte florentina não tem mais condições de opor resistência ao desejo da sagrada Inquisição de inquirir o senhor em Roma”.

Em uma conversa, o inquisidor quer que o papa faça com que Galileu pare de falar certas coisas: “– No livro dele argumentam dois homens, um estúpido, que naturalmente defende as ideias de Aristóteles, e um inteligente, que também naturalmente defende as ideias do senhor Galileu; e a palavra final está na boca de quem, sua Santidade?” O Papa assevera que se trata de uma impertinência e considera aquele estado de coisas uma balbúrdia.        

 No clímax da peça de Brecht, à altura do capítulo XIII, Galileu é obrigado pela Igreja a negar todas as suas assertivas científicas, caso não queira morrer. O pequeno monge comenta: “– Ele passou vinte e três dias na cela. O interrogatório foi ontem. Hoje foi a sessão”. Na Inquisição, a expectativa é que Galileu renegue suas afirmações às cinco da tarde, durante a sessão inquisitorial.

Eis que, no horário esperado, a voz do arauto se manifesta: “– Eu, Galileu Galilei, professor de matemática e física na Universidade de Florença, abjuro o que ensinei: que o sol seja o centro do mundo, imóvel em seu lugar, e que a Terra não seja central nem estática. De coração sincero e fé não fingida, eu abjuro, detesto e maldigo todos estes enganos e estas heresias, assim como quaisquer outros enganos e pensamentos contrários à Santa Igreja”.

Passados muitos anos, já envelhecido, Galileu vive em uma choupana no campo, onde conclui seu livro “Os discursos”. Andréa, já um moço, vai à residência campestre de Galileu despedir-se, uma vez que viaja para as terras da Holanda. Galileu, por seu turno, entrega-lhe os Discorsi. Nesse ínterim, Galileu, semicego, observa cuidadosamente o curso de uma pequena esfera de madeira.

Na conversa, Andréa diz que, para trabalhar com ciência, resolveu-se mudar para os Países Baixos: “– Não permitem ao boi o que Júpiter não se permitia”. Galileu pondera que a responsabilidade é toda de Andréa caso queira levar a obra em sua viagem. Andréa decide levar o livro consigo, atravessando a fronteira da Itália. Junto ao cocheiro, que carrega o caixote da mudança, está Andréa, com o manuscrito de Galileu escondido na bolsa de viagem.

Fecham-se as cortinas, cai o pano. 

Edição      Enrique Shiguematu

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Literatura em movimento: a ferrovia no romance Pureza, de José Lins do Rego
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Maria Fumaça em Tiradentes. Fonte: Acervo Particular em http://www.joaobarcelos.com.br/12_03.htm

“E apitava de longe um trem, de muito longe

que o apito chegava a ele como um toque de flauta”.

Durante a segunda século XIX, e até a primeira metade do século XX, trabalhadores do campo e da cidade acostumaram-se ao trem como um de seus principais meios de transporte. Nas artes, as locomotivas inspiraram o maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959) a compor O trenzinho do caipira, parte da peça Bachianas Brasileiras n. 2. Na melodia, em tom nostálgico, o movimento da máquina mimetiza os instrumentos da orquestra. A composição recebeu, anos depois, a letra do poeta Ferreira Gullar (1930-2016):

“Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar,no ar…”

Historicamente, as ferrovias já haviam produzido transformações em boa parte da Europa, no período que se seguiu à Revolução Industrial. No Brasil, este meio de locomoção de pessoas e de produtos se impregnou à sua paisagem na virada do século XIX para o XX.  Ainda no período do Império, o Brasil assistiu ao advento das estradas de ferro como uma grande novidade técnica, dinamizadora da vida local e integradora do território. Ainda que de maneira paulatina, o desenvolvimento dos meios de transporte e dos meios de comunicação – a exemplo do telégrafo, do telefone, do automóvel e do navio a vapor – impulsionava a interligação do país, sinalizando para a tendência a trocas de mercadorias e de informações.

As ferrovias substituíram os transportes em cavalos e lombos de burro, que abriam picadas em caminhos ínvios, de difícil acesso, pelo sertão. O aparecimento dos trens data de 1852, com a ação pioneira do empresário Barão de Mauá, responsável pela primeira ligação férrea entre o Rio de Janeiro e Petrópolis, esta última uma cidade serrana, com temperatura mais amena, escolhida como local propício para veraneio da família real brasileira.

O geógrafo francês Pierre Denis visitou o Brasil em princípios do século XX e assim descreveu o papel das ferrovias no desenvolvimento do país:

“A via férrea é como uma artéria vivificante. Os novos caminhos traçados na colônia terminam nela; as terras que lhe são vizinhas aumentaram de valor. Perto da estação formou-se um pequeno centro, hoteleiro, carpinteiro, ferrador e várias lojas pelas quais passa toda a importação e toda a exportação. Os produtos da terra, o milho, os feijões, adquiriram ali um valor mercantil. A existência dos colonos torna-se mais variada e mais inteligente. Germes da divisão do trabalho aparecem; alguns colonos fazem-se artistas”.

Para outros autores, menos otimistas, as vias ferroviárias cumpriam apenas interesses de ordem econômica. Isto porque os comboios da Great Western, por exemplo, levavam a Maceió, a João Pessoa e a Natal, cidades-capitais do Nordeste com maior expressão. A bitola de seus trilhos, no entanto, não penetrava o Oeste nem as brenhas dos sertões nordestinos. Esta era a crítica apontada pelo escritor nacionalista Alberto Torres (1865-1917):

“As estradas de ferro não entrelaçam as populações do interior, umas com as outras; não formam rede de relações recíprocas, movimentando a circulação interna: são vias de drenagem e de atração de povos e de riqueza, para as praças comerciais, para as capitais, para os portos, para os centros de negócio e de luxo”.

*

A ficção Pureza é constituída por personagens habituais dos romances de José Lins, como um cego – Ladislau – e uma negra velha – a criada Felismina. A novidade romanesca diz respeito ao cenário: o lugarejo é composto basicamente pela casa da estação de trem, cujo chefe é Antônio Cavalcanti, gordo e de olhos azuis, pai de uma família de posses, antigo senhor de terras em Palmares, pertencente ao nobre tronco dos Hollanda Cavalcanti, que se degradara com o passar dos séculos. Além da casa, há o chalé, construído por ingleses, banhado por um rio e envolto de eucaliptos, por onde cigarras e pássaros passam cantando.

“Fazia um mês que estava em Pureza. Era um recanto retirado, onde só existia mesmo, além da casa do chefe da estação, o chalé onde eu morava. Fora uma casa que o superintendente da estrada construíra para passar o verão. O lugar é uma delícia, um retiro que só mesmo o gosto de um inglês poderia ter descoberto”.

O enredo, de fundo psicológico, conta a história de Lourenço de Mello, conhecido por Lola, jovem que sofre de complexo de inferioridade. O complexo deriva do medo da tuberculose, doença que acometera e matara a mãe e a irmã. A sensibilidade mórbida faz de Lourenço um personagem tímido e soma-se à primeira experiência sexual, que fracassara. O trauma da morte e o amor fracassado levam o jovem enfermo a acorrer para a estação ferroviária de Pureza, lugar tranquilo, em busca da reabilitação física e psíquica.

O rapaz doente, no entanto, envolve-se em caso de amor com duas irmãs, Margarida e Maria Paula, filhas do chefe da estação, casado com D. Francisquinha: “Sempre que eu ia assistir à passagem dos trens, via na janela da estação as duas filhas do chefe. Cumprimentava-as e elas duas sorriam para mim. Reparando bem, eram duas moças bonitas. E disto elas tinham consciência, pois se enfeitavam para os horários.”.

O contato físico e a redescoberta do amor com Margarida revigoram Lourenço, que se recupera de seu mal de família em meio ao sossego, ao ar puro e à vida pacata da estação. Depois da fuga de Margarida, Lourenço inicia relação com Maria Paula, que tinha como pretendente o agulheiro da estação, Chico Bembem. O provável conflito com este faz Lourenço partir em retirada de Pureza, finalizando a história com um motivo recorrente na obra de José Lins, a fuga, valendo-se para tanto do uso da ferrovia.  

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego e a língua musical brasileira
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Serra, serra, serrador,

serra a madeira de Nosso Senhor

Fogo morto

O xaxado esquentou na gafieira
Sebastiana não deu mais fracasso

E gritava: a, e, i, o, u, ipsilone
Luiz Gonzaga.

 

José Lins do Rego foi um escritor que soube tratar das influências da oralidade e da sonoridade na literatura brasileira. A sinergia que proporcionou entre a escrita e a fala típica da região nordestina fez o crítico Bernardo Gersen evocar o cantador Dioclécio, personagem do romance Cangaceiros: “… até que ponto ele é de autoria do nosso romancista e onde começa precisamente a colaboração coletiva, pelo menos através dessa língua gostosamente oral e de suas virtualidades estéticas?”

A música, cadente e melódica, comparece em outro romance, Fogo morto. Este traz vários trechos de cantigas coletivas, de autoria desconhecida, sob a forma de estribilhos de cocos ou de versos populares cantados pelo personagem José Passarinho:

 

“O caixeiro bebe na venda/

O patrão no Varadô/

Eu estava em Itabaiana/

Quando a boiada passou/

Ô lê lê vira a moenda/

Ô lê lê moenda virou.”

“Engenho Novo,

Engenho Novo,

Engenho Novo,

Bota a roda pra rodar”.

“Me diga, minha menina/

Minha menina real/

Se não tem outros amores/

Que Dom Carro de Monteval?”

 

Os traços estilísticos de José Lins, com seu tom de linguagem despachada e de conversação corrente, fizeram o crítico baiano Eugênio Gomes observar:

“… o escritor trabalha uma língua que é, de si mesma, uma afirmação vital: a língua brasileira, com as nuanças do saboroso dialeto nordestino, malbaratado até o ridículo pelo regionalismo de convenção.

Quando se sabe que esse escritor é também um dos críticos mais lúcidos do Brasil, a trivialidade da sua prosa toca as raias do prodigioso. Porque não há por onde surpreender nele o trivialismo estudado. Pelo contrário, a sua sintaxe providencialmente insubmissa conserva uma unidade interna que não pode deixar de ser a resultante de uma assimilação normal”.

 

Em tom de elogio, outro comentador, Peregrino Júnior, alinhava:

 

“Criou José Lins do Rego estilo que era só dele: sintaxe pessoal, períodos curtos, ordem direta, adjetivação enxuta e essencial, modismos, arcaísmos e idiotismos, substância medular da fala do povo. A sua prosa é uma das prosas mais autênticas, mais ricas de seiva da nossa língua – capitosa, corrente e natural. A sua melodia interior, soube-a traduzir na língua incomparável pela comunicabilidade psicológica e formal – língua ágil, colorida e pitoresca –, que foi aquela que sua infância se acostumou a ouvir falar na bagaceira do engenho familiar”.  

Sobre as características da “língua brasileira”, Gilberto Freyre observa:

“Algumas palavras, ainda hoje duras ou acres quando pronunciadas pelos portugueses, se amaciaram no Brasil por influência da boca africana. Da boca africana aliada ao clima – outro corruptor das línguas europeias, da fervura por que passaram na América tropical e subtropical.

O processo de reduplicação da sílaba tônica, tão das línguas selvagens e da linguagem das crianças, atuou sobre várias palavras dando ao nosso vocabulário infantil um especial encanto. O ‘dói’ dos grandes tornou-se ‘dodói’ dos meninos. Palavra muito mais dengosa.

A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino as sílabas moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmente, é uma das falas mais doces deste mundo. Sem rr nem ss; as sílabas finais moles; palavras que só faltam desmanchar-se na boca da gente”.

Tal linguagem, típica da formação da criança sob a égide patriarcal, não se confinou a essa faixa etária e disseminou-se, segundo Freyre, para toda a sociedade da época. Arremata o autor em observação sobre a cultura oral e auditiva no Brasil colonial: “E não só a língua infantil se abrandou desse jeito, mas a linguagem em geral, a fala séria, solene, da gente grande, toda ela sofreu no Brasil, ao contato do senhor com o escravo, um amolecimento de resultados às vezes deliciosos para o ouvido.”

Em José Lins, o “campo de experiências” linguísticas, para glosar a expressão de um conceituado historiador alemão, está todo ele alojado na sua região natal e no interior nordestino. Com uma liberdade de narração e com uma linguagem não convencional, sua literatura, desenvolvida entre as décadas de 1930 e 1950, reconstitui o mundo decadente e agônico do Brasil rural, do qual o engenho será a sua unidade principal.

Edição      Enrique Shiguematu

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Literatura de cordel: da França ao Nordeste
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Literatura de Cordel é vendida na Feira. RJ, 01/08/2010. Foto: Wilton Junior/AE

A literatura de cordel tem sua origem na França, transladando-se para o Brasil como resiliência medieval, já sob o influxo da cultura portuguesa. Chamada de littérature de colportage, foi reconhecida pelo historiador francês Robert Mandrou, que pesquisou os milhares de livrinhos reunidos na Bibliothèque Bleue entre os séculos XVII e XIX.

A história das edições e das práticas de leitura de tal gênero foi desenvolvida por outro historiador, Roger Chartier, que demonstraria a complexidade das suas origens literárias. Ele mostrou, sobretudo, uma intrincada teia de relações, que envolviam a elaboração, a edição, a impressão, a difusão e a recepção entre o público ouvinte e leitor da França rural e das vilas normandas dos séculos XVIII e XIX.

Chartier acentua ainda que, longe de serem apenas espontâneas, as criações populares reuniam em si um caleidoscópio de influências, incidindo na fabricação dos textos, desde os manuais, os romances, os contos de fada até a alta literatura e os escritos religiosos. Da mesma maneira, o autor sustentava que a suposta originalidade e espontaneidade do texto devia ser relativizada, haja vista o elevado grau de intervenção editorial, que incluía as ilustrações e a parte gráfica. O trabalho de adaptação dos editores visava tanto o controle do que vinha expresso nos folhetos quanto a modificação do discurso, a fim de que as histórias se tornassem mais atraentes e mais acessíveis ao grande público.

As referências visuais e os artifícios mnemônicos tinham por finalidade atingir um número maior de leitores que, ao contrário das formas de leitura impostas pela norma culta, estavam acostumadas às descontinuidades e à fragmentação da narrativa. Assim, a classificação em gênero dos cordéis era uma codificação feita a posteriori, pela ação direta dos editores, o que criava expectativas e gerava demandas de interpretação, propiciando a ampliação do número de vendas e de leitores, fomentando o consumo da literatura popular.

No caso brasileiro, as historietas e as anedotas de fundo mítico, sagrado ou histórico ─ o rei Carlos Magno, os doze Pares de França, a imperadora Teodora, o Lunário Perpétuo ─ incorporaram-se ao imaginário social nordestino, com seu folclore e com suas crendices próprias. À medida que se aclimatou em imagens, poemas e músicas nesta região, o cordel passou a divulgar seus folhetos através das rústicas casas tipográficas.

Leandro Gomes de Barros (1868-1918), por exemplo, foi muito admirado por Carlos Drummond de Andrade, que lhe dedicou uma crônica no Jornal do Brasil em 1976, na qual elevou o poeta popular a uma posição maior que Olavo Bilac nas letras brasileiras.

Os cordelistas, no entanto, não teriam o mesmo impacto se suas composições não viessem acompanhadas das imagens, sobretudo as xilogravuras de gravuristas como Newton Cavalcanti, Abraão Batista, José Costa Leite, Amaro Francisco, José Lourenço e Gilvan Samico. Havia figuras incontestes como J. Borges, aclamado por Ariano Suassuna e pelo Movimento Armorial, que eram ao mesmo tempo gravadores, xilógrafos e repentistas. De modo geral, porém, um servia-se do trabalho do outro, em uma atividade artesanal de reciprocidade.

No Nordeste, o cordel andava de par com o artesanato. Fazedor de bonecos de barros em sua cidade natal, Caruaru (PE), mestre Vitalino vendia seus utensílios de cerâmica em feiras dos arredores. Além de reproduzir animais em miniatura – boizinhos, bezerros, cabritos e jegues –, modelava também personagens típicos da cultura do Nordeste, como cangaceiros, retirantes e soldados, e temas festivos da vida local – reisados, pastoris, vaquejadas, entre outros.

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego e o rito de passagem da Academia Brasileira de Letras
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Os pares e a fortuna crítica de José Lins do Rego gostam de relembrar a cerimônia que laureou o escritor de Fogo morto na ABL, na noite de 15 de dezembro 1956. Se a fala de posse chocou a muitos, também houve aqueles que se divertiram com sua ousadia e reverência.

Lembra o pesquisador Nestor Pinto Figueiredo que o amigo Cícero Dias escreveu em carta para José Lins:

 

“Recebi o seu discurso sobre o Ataulfo. Já o mostrei a Geanini, que adorou. Você fez do Ataulfo uma figura de romance carioca com hábitos franceses, o que era comum aos frequentadores da Lallé Cave ou o Alvear, muitos Ataulfos passaram por lá. Grande discurso o seu na Academia. Despido de coisas comuns, tão bom e melhor do que o de Couteau na Academia em Paris.”

 

Ao fazer uso da palavra, Zé Lins assestou baterias contra seu antecessor, frequentador da high society e assíduo dos serões aristocráticos em casa de Laurinda Santos Lobo (1878-1946), situada no bairro de Santa Teresa. Observava com ironia José Lins: “A sua vida foi um fiveo’clock em casa de Dona Laurinda.” Embora tenha efetivamente constituído uma quebra de protocolo, ao criticar a pobreza literária do patrono da cadeira para a qual fora eleito – o advogado e magistrado Ataulfo de Paiva (1867-1955) –, não se deve considerar aquele discurso o primeiro e único incidente na história da Academia Brasileira de Letras.

É necessário lembrar que a ABL, fundada em 1897 por Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Arthur Azevedo e José do Patrocínio, assistiu a outros casos parecidos, alguns deles ainda mais graves que o de José Lins/Ataulfo de Paiva, envolvendo outros de seus literatos. Basta recordar que em 1914 o poeta paranaense Emílio de Menezes (1866-1918) foi eleito para a Academia, mas seu discurso de posse ofendeu igualmente “imortais” como Afrânio Peixoto e Oliveira Lima. Diante do escândalo, as portas se fecharam para o boêmio irreverente.  

Para que se entendam as palavras duras de José Lins à Academia e ao patrono que sucedia deve-se levar em consideração que Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e outros nomes da geração dos fundadores da ABL já estavam mortos na década de 1910, à exceção de Olavo Bilac e Coelho Neto. Uma vez passada a primeira geração, a ABL transformava-se progressivamente em abrigo de conservadores, com o culto à forma pura e ao estilo rebuscado nas letras nacionais. O escritor-modelo era o dândi das elites, praticantes de uma literatura palaciana, à moda francesa.

A visão de José Lins do Rego acerca da Academia Brasileira de Letras derivava de sua concepção e de seus princípios sobre literatura. Para tanto, era contrário a tudo que lhe parecia artificial e deixou explícito várias vezes sua oposição à ideia de se candidatar a uma vaga na ABL.

Afeto à vida, não aos salões palacianos, no final dos anos 1940, pouco depois de receber o Prêmio Fábio Prado, pela publicação de Eurídice, fez um autorretrato na imprensa:

 

“Tenho quarenta e seis anos, moreno, cabelos pretos, com uma dúzia de fios brancos, um metro e 74 centímetros, casado, com três filhos e um genro, 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito medo de morrer. Não gosto de trabalhar, não fumo, não durmo com muitos sonos, e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades da chuva. Sou homem de paixões violentas. Temo os poderes de Deus, e já fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigos de meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Não sou mau pagador. Se tenho, pago, mas se não tenho, não pago, e não perco o sono por isso. Afinal de contas, sou um homem como os outros. E Deus queira que assim continue.”

 

Em verdade, para defender o seu postulado da fala espontânea e da escrita despojada, contra o caráter ornamental dos beletristas, José Lins podia recuar ainda mais no tempo: “A literatura inglesa ajudou Nabuco a fixar a sua posição de artista. Enquanto o seu colega Rui Barbosa compunha uma eloquência de titã da língua, Nabuco atingia a sua realidade de escritor sem riqueza vocabular. Como Montaigne, exprimia-se como falava.”

Foi criticado mais de uma vez, inclusive pelos amigos, em razão da falta de rigor erudito ou, para usar um eufemismo, em razão da postura heterodoxa no trato de convenções e de regras da norma culta. Diante das críticas, respondia, como na crônica Prefiro Montaigne: “Reflito sobre os conselhos, faço o meu exame de consciência, e prefiro continuar como seu, incorreto, mas claro, sem a riqueza vocabular dos estilistas, mas fácil, e capaz de chegar ao entendimento de todos.”

Zé Lins identificava-se ainda com o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma: “… mulato que quase realizou milagrosamente uma grande obra por intuição? Lima Barreto foi a maior vocação do nosso romance.”

Segundo informa a enciclopédia Nosso Século, a ABL começa naquele segundo decênio do século XX a aceitar figurões políticos como o general Dantas Barreto (eleito em 1910), que seria ministro da Guerra de Hermes da Fonseca, e mais tarde também governador de Pernambuco. Mimetizando as suspeitas quanto à lisura das eleições na Primeira República, a ABL é acusada também de eleições fraudulentas. A eleição, por exemplo, do médico Afrânio Peixoto foi tida por um escândalo. Segundo Wilson Martins, autor de A esfinge (1911) nada fizera para justificar sua escolha à ABL.

Se José Lins criticava Ataulfo de Paiva por não gostar de poesia, sublinhe-se que fato mais grave acontecera em 1912, quando, pela primeira vez, surge um candidato à Academia que não tinha escrito um único livro. Tratava-se de Lauro Müller (1863-1926), político e diplomata. Para que pudesse ser eleito, usou o estratagema de publicar em Paris um volume com seus discursos. Valeu-se de papel grosso, letra em fonte grande e, mesmo assim, o resultado foi apenas um opúsculo.

Entretanto, com o apoio de um setor da velha guarda, Lauro Müller entrou no rol da ansiada imortalidade. Revoltado, o crítico paraense José Veríssimo, autor de História da literatura brasileira (1916), renunciou ao cargo de secretário geral da Academia e definiu seu rompimento com os acadêmicos numa frase lapidar: “Deixemos que a Academia se faça à imagem da sociedade a que pertence”.

Assim, entre os membros da ABL na década de 1920, era possível encontrar, ao lado de Ataulfo de Paiva: Filinto de Almeida, Augusto de Leme, Pedro Lessa, Rodrigo Otávio Filho, Luís Guimarães Filho, Osório Duque Estrada, Carlos de Laet, Coelho Neto, Goulart de Andrade, Aloísio de Castro, Domício Gama, Conde Afonso Celso, Antônio Austregésilo.

Por fim, diga-se que notas tristes e violentas com o envolvimento de acadêmicos também macularam a imagem da ABL. Além do assassinato passional que levou à morte de Euclides da Cunha no subúrbio do Rio, Gilberto Amado, deputado e escritor sergipano, assassinou o poeta Aníbal Teófilo, após um desentendimento entre os dois conferencistas em 1915, no prédio do Jornal do Comércio.

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego, a pintura e os ilustradores de livro
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Fayga Ostrower (1920-2001), ilustradora do livro O cortiço, de Aluísio de Azevedo, entre outros. Ostrower foi aluna de Artes Gráficas na Fundação Getúlio Vargas em 1947, onde estudou xilogravura

O escritor José Lins do Rego (1901-1957) foi um grande admirador de quadros. Quando residia no Rio de Janeiro, nas décadas de 1940 e 1950, tinha por hábito frequentar museus e visitar exposições. Comentava sobre estas em seus artigos de jornal, como n’O Globo. Escreveu crônicas sobre o pintor italiano Ticiano, quando esteve em viagem a Veneza, e sobre Rufino Tamayo, pintor mexicano, menos conhecido, mas referencial em seu país. Além de contemplar, refletiu sobre as telas do pintor carioca Di Cavalcanti, com considerações relativas ao problema do engajamento social na pintura brasileira.

A admiração de José Lins do Rego por Cândido Portinari era antiga e a cultivava de há muito. Os dois se aproximariam nos anos 1950, quando Portinari fez desenhos ilustrativos, publicados na revista O Cruzeiro. Estes serviriam de base para o romance folhetinesco O cangaceiro, do romancista paraibano. Por sua vez, já em ensaio do início dos anos 1940, o romancista falava do “Brasil grande, robusto, caboclo, branco, mestiço, que Portinari exprimiu para todos os tempos”. Mais adiante, prosseguia:

“Portinari nos deu um Brasil são, com as características de seu povo, de sua gente de mãos calejadas, de resistência hercúlea. Os gaúchos, os nordestinos, os paulistas, os negros, os índios, os meninos, os padres, de seus painéis, são elementos de uma pátria que quer viver. E tudo isso sem falsa demagogia e falso patriotismo. O conteúdo de sua obra poderia ter tudo isso, e a sua pintura fracassar. Mas é que para felicidade nossa o pintor é grande, e grande também o seu amor à terra e ao homem de seu país”.

 

Um de seus pintores preferidos foi o conterrâneo Pedro Américo (1843-1905), sobre quem editou um livro, publicado na década de 1940 pela Casa do Estudante do Brasil. O livro se baseava na conferência sobre o pintor paraibano, proferida no salão da Sociedade dos Amigos de Alberto Torres, a dez de maio de 1943.

Nascido na cidade de Areia, o mesmo município natal de José Américo de Almeida, Pedro Américo foi desenhista e um dos maiores pintores brasileiros do século XIX, ao lado de Victor Meireles, Pedro Alexandrino e Eliseu Visconti, entre outros. Formado na Academia Imperial de Belas-Artes e patrocinado sob os auspícios do monarca D. Pedro II, Américo viajou à França, conheceu artistas de renome e realizou exposições na capital parisiense. Foi professor de pintura e autor de telas históricas monumentais, como O grito do Ipiranga e A batalha do Avaí, alusões à Independência do Brasil e à Guerra do Paraguai, entre outros episódios marcantes da história nacional.

Mas, apesar do apreço por quadros históricos, José Lins não cultuava a pintura oficial. Antes, valorizava, para além das telas, as capas de livros como objetos igualmente artísticos. A importância não estava no suporte, mas no talento expressivo do criador. Lembre-se por exemplo do capista Santa Rosa, que ilustrou muitos de seus romances. Ambos faleceram no mesmo ano, 1957, Santa Rosa em Nova Déli, na Índia, onde representava o Brasil em uma conferência da UNESCO. A importância de Santa Rosa é destacada pelo brasilianista Laurence Hallewell, autor do monumental O livro no Brasil (1982):

 

“Embora ele provavelmente vá ser lembrado sobretudo por sua obra teatral, tem sido considerado o maior produtor gráfico de livros do Brasil, responsável, quase sozinho, pela transformação estética do livro brasileiro nos anos 30 e 40. Sua influência foi tríplice. Em primeiro lugar, houve sua contribuição como produtor gráfico e ilustrador para editoras comerciais, principalmente a Schmidt e a José Olympio.

Em que pese sua afeição pelas artes gráfico-pictóricas, José Lins do Rego não teve o frontispício de suas obras pintadas e assinadas por Oswaldo Goeldi, um dos grandes nomes da xilogravura brasileira. Goeldi foi estilizador de vários livros importantes. Menino amazônico, filho do cientista suíço Emílio Goeldi, formou-se em Belém, na região norte do país. No início dos anos 1920, participou da Semana de Arte Moderna e estudou em escolas de artes na Europa.

Ilustrador de revistas no Rio de Janeiro, junto com Di Cavalcanti, a iniciação de Goeldi na ilustração de livros, baseados em xilogravuras, ocorreu em 1937, com Cobra Norato, de autoria do poeta gaúcho e diplomata Raul Bopp. Em 1941, ilustrou as obras completas de Dostoievski, para a Editora José Olympio. Entre outros desenhos de sua lavra, destaque-se a esmerada edição do clássico livro de Cassiano Ricardo, Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis, com capa aveludada e tamanho ampliado. Nos anos 1950, foi professor de xilogravura na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA).

Outro nome que merece menção na ilustração de livros é a judia polonesa, radicada no Brasil, Fayga Ostrower (1920-2001), ilustradora do livro O cortiço, de Aluísio de Azevedo, entre outros. Ostrower foi aluna de Artes Gráficas na Fundação Getúlio Vargas em 1947, onde estudou xilogravura com o austríaco Axl Leskoscheck, capista da Editora José Olympio. Fayga foi ainda professora de Lygia Pape (1927-2004), escultora, pintora e gravadora, filiada ao movimento neoconcreto, que nos anos 1960 faria desenhos, não para livros, mas para cartazes de filmes do movimento Cinema Novo.  

Edição      Enrique Shiguematu

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Historiografia da opulência e da decadência
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''… Edward Gibbon (…) narrou esse processo gradual que resultou na desagregação da Roma antiga…''

 

“O engenho de Maçangana

Há três anos que não mói.

Ainda ontem plantei cana.

Há três anos que não mói.”

Fogo morto

José Lins do Rego

 

A díade opulência/decadência acompanha o homem e a história ocidental. O primeiro polo tende a ser visto de maneira idealizada, sendo tão antigo quanto o mito da Idade do Ouro. Já o segundo é visto de modo realista. Quem nunca ouviu o nostálgico “vivia-se melhor antigamente…”? Ou ainda aquela expressão “no meu tempo…”?

Do ponto de vista moral, a corrupção pode levar o homem à decadência, pois é um indício de fragilidade de caráter daquele indivíduo incapaz de assimilar os valores de virtude e justiça. O jogo também traz um componente de risco decadente para o homem. O vício pelas apostas é uma maneira de arruinar o jogador, conforme retratou com maestria o romancista russo Dostoievski em uma de suas novelas.

Em termos econômicos, os indivíduos perdulários também são passíveis de decadência, efeito do empobrecimento e dos gastos excessivos descontrolados. Estes se deixam levar pelo bel-prazer, pelo hedonismo e pelo consumo. Não é à toa que o pensador alemão Max Weber associou as origens do capitalismo à ética protestante. Em seu livro clássico, o sociólogo alemão mostra de que maneira a austeridade no modo de vida pregado pelos reformadores do protestantismo levaria a uma nova conduta econômica, que culminaria na ascensão social via acumulação e na racionalização do capital.  

O processo de formação, seguido pelo de deterioração, pode ser visto também em termos de metáforas orgânicas. O declínio físico do corpo e da mente humana evoca sentimentos de perigo, com a consciência da aproximação do fim. É um caminho ameaçador, rumo ao desconhecido, ante a iminência da morte. Depois de atingir o suposto ápice na juventude, o ser humano experimenta o ocaso da velhice, seja ela corporal ou mental. Esta simboliza a tendência universal do homem a decair, a perder seu tônus, sua vitalidade.

A inspiração para esse percurso de ascensão e queda vem da própria observação dos fenômenos da natureza, tão presente na ciência oitocentista. Seria o caso de evocar o sistema astronômico do Universo e de observar o ciclo solar, com a rotação terrestre que proporciona o crepúsculo e a alvorada.

A analogia cíclica liga-se ainda, em última instância, à biologia e se refere ao sistema biológico dos seres vivos, sendo que o organismo humano não difere muito do que se observa na fauna e na flora. Assim como as plantas e os animais, as fases da vida humana incluem, entre suas etapas principais, o nascimento, o crescimento e a morte.

Nesse arco temporal de uma vida, as imagens naturais podem se reportar a várias matrizes inspiradoras. A observação do comportamento dos corpos celestes, além da transformação dos vegetais ou dos animais, serviu de base para as teorias científicas modernas, instituídas ao longo do século XIX, da Engenharia à Sociologia.

As metamorfoses por que passa o homem ao longo do tempo iluminam por fim o sentido maior da História, a chamada “marcha das civilizações”. Os regimes políticos seriam tal e qual organismos vivos e passariam por três fases impreteríveis: nascimento, maturidade e morte.

A consciência da mortalidade de um ciclo histórico possibilitou, a vários historiadores, a narrativa do esgotamento de grandes impérios. Outrora pujantes, civilizações milenares assistiram à ruína em determinadas conjunturas. Roma, por exemplo, foi da primeira infância, em 753 a.C., com seu fundador Rômulo a alimentar-se de uma loba, até o envelhecimento, quando o último imperador foi deposto (476 d.C).

No clássico, escrito em seis volumes, o historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794) narrou esse processo gradual que resultou na desagregação da Roma antiga. Após um longo período de expansão militar e de domínio territorial sobre boa parte do continente europeu, o colapso de Roma se deu por razões de ordem bélica, econômica, cultural e demográfica. Seu poder imperial foi afinal incapaz de conter a dilapidação decorrente da onda de invasões bárbaras de povos germânicos e eslavos – Godos, Visigodos e Vândalos, entre outros.

Outra época histórica em declínio foi retratada no monumental O Outono da Idade Média (1919). Escrito pelo neerlandês Johan Huizinga (1872-1945), o título significativo do livro alude à estação do ano caracterizada pelo amarelar das folhas das árvores. Da mesma maneira que a folhagem cai da copa e dos galhos e aterrissa lentamente sobre o chão, o historiador holandês ilustrou o fim do ciclo medieval, em particular o cenário outonal de Flandres e do norte da França, nos séculos XIV e XV. Pôs-se fim à “idade das trevas”, como era conhecida a época medieval, e despontaram as luzes mediterrâneas, com o alvorecer da Renascença italiana.

Por vezes, o determinismo da História, como se fosse uma seta em direção a um alvo preciso e pré-determinado, chegou a ganhar conotações fatalistas. Foi o caso do filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), que se tornou célebre e polêmico no início do século XX, em meio à Grande Guerra, ao publicar A decadência do Ocidente (1918). Na obra, o autor defendia um argumento determinista, claramente inspirado em analogias biológicas, segundo as quais todas as sociedades, em quaisquer épocas, têm o mesmo sentido: vicejam, florescem e amadurecem, para depois fenecer.

O fundamento dessa ideia é uma diferença de fundo entre cultura e civilização. Spengler sustenta que, de início, toda etapa histórica é cultural, ou seja, é marcada pela ascensão e pela criatividade de um povo. Depois, vem a sua contrapartida negativa: ela é sucedida por uma etapa civilizatória. Nesta, prevalece a queda e a imitação empobrecedora, como ocorreu na Antiguidade, com a passagem da florescente cultura grega para a decadente civilização romana.

No Brasil, Gilberto Freyre mostrou de que maneira o sistema econômico – primeiramente hegemônico, depois decadente – no Nordeste teve vários desdobramentos ao longo dos séculos de colonização, dando origem a uma estrutura social e mental específica. A aproximação entre a casa-grande, onde moravam os senhores com suas famílias, e a senzala, onde viva a massa escrava, foi decisiva a seu juízo para criar uma cultura comum, miscigenada e híbrida. Mais do que um dado arquitetônico ou físico-estrutural, a proximidade de senhores e escravos levou à formação original da sociedade brasileira, com uma mentalidade própria, instituída mediante trocas culturais entre negros e brancos.

O apogeu de pelo menos três séculos desse sistema deixou raízes profundas em nossa cultura. Sem negar a violência do colonizador, expressa por meio de abusos sexuais no exercício da poligamia, Freyre procurou mostrar como essa herança dos engenhos marcou as gerações posteriores, mesmo nas cidades, com a perpetuação de seus valores mestiços e hierárquicos. Na literatura, tal parece ser o caso de José Lins do Rego em sua descrição da ascensão e queda da civilização açucareira.

De acordo com a perspectiva cíclica da economia, depois da vigência da cana-de-açúcar, a descoberta de ouro nas minas gerais, durante o século XVIII, marcou o início de outra fase significativa na História do Brasil. A exploração aurífera representou um novo marco, pois iniciou o deslocamento do eixo geográfico e econômico, que passou do Nordeste para região do centro-sul do Brasil. Novas levas de escravos, oriundas de outras áreas do continente africano, foram trazidas pelo tráfico negreiro.

Um dos relatos mais importantes sobre as relações sociais nessa paisagem mineral não foi o de um economista, mas o de um padre de origem italiana, o jesuíta André João Antonil, autor de Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas (1711). Além de descrever as atividades econômicas da lavoura, da pecuária e do tabaco, o livro narra a cobiça do ouro e consagra a polêmica observação de que a vida na colônia era “o inferno dos negros, o purgatório dos brancos e o paraíso dos mulatos”…                 

O conceito de decadência é relativizado pelo ensaísta gaúcho Viana Moog. Autor hoje pouco mencionado, foi ele quem trouxe o argumento de que todo fechamento de um ciclo é concomitante à inauguração de uma nova era. Toda decadência contém, pois, um germe, um sinal, um anúncio de renovação:

“Em determinadas épocas haverá desagregação e declínio para certa ordem de instituições, ao passo que florescimento de outras. O primeiro século, fora de qualquer restrição, já foi de decadência para os romanos do paganismo. Ao contrário, para os romanos da cristandade que nascia, ele será o maior século do cristianismo. De decadência para o feudalismo e os costumes medievais, foi o XVI o século da Renascença. Da mesma forma, os dias que correm assinalam a ruína das instituições para todo o Ocidente, ao mesmo tempo que representam em setores conhecidos um renascer de energias e esperanças.”.

 

Edição      Enrique Shiguematu

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A literatura e o conceito de memória (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''O Engenho Corredor foi a minha grande fonte literária''

“O ‘testemunho da realidade’ foi dado, assim, pelos membros mais seriamente atingidos pela crise e tivemos o grupo admirável de ‘romancistas da memória’, de que José Lins do Rego foi o expoente mais alto”.

Gilda de Mello e Souza

A guinada literária da memória de princípios do século XX, presente em Proust e depois em Virginia Woolf, se relaciona com modificações mais profundas ocorridas no conhecimento científico, psicológico e filosófico. Pensadores como Sigmund Freud, Williams James e Henri Bergson trarão contribuições inaugurais para a compreensão da psiquê humana, até então presa a determinismos e a teorias mecanicistas. Freud, ao inventar a psicanálise, falaria do recalque, isto é, do processo de obstrução ao nível da consciência de emoções passadas do indivíduo. Este processo teria fundo e motivação sexuais, e ficaria alojado no inconsciente, outra descoberta freudiana no tocante às manifestações psíquicas. Ele precisaria ser liberado, a fim de que não se transforme em doenças como a histeria.

Enquanto o norte-americano William James, irmão do romancista Henri James, trata do fluxo da consciência no âmbito da psicologia, Henri Bergson vai articular, na filosofia, a memória à matéria, ou seja, o estoque de lembranças à dimensão sensível e palpável da realidade experienciada pelo indivíduo. A grande descoberta deste filósofo dizia respeito à duração do tempo interior. Para além de toda objetividade contida no tempo cronológico, haveria um descompasso entre este, com suas medidas temporais objetivas, materializadas na exatidão dos ponteiros mecânicos do relógio, e a interioridade do tempo psicológico, sujeita a múltiplos apelos e a variegadas dimensões. Estas se sucedem nos estados mutáveis da consciência e se movimentam, de maneira imprecisa e livre, na duração interior de cada indivíduo.

No Brasil, temos também alguns bons exemplos de romancistas modernos que se valeram do memorialismo. Sobre José Lins do Rego, o escritor Antônio Carlos Villaça comenta em apresentação a Banguê:

“O fino Eugênio Gomes se lembra de As ondas, de Virgínia Woolf, com seus processos inovadores. Há em José Lins o predomínio do olfato. O ensaísta de O enigma de Capitu se recorda da voz insólita de Sinhazinha, das chicotadas que aplica na negra Josefa, dos escarros constantes, dos gritos, da tosse do velho José Paulino, como também do ruído das cigarras, do apito do trem, da valsa tocada no piano do seu Lula, ou dos gritos deste diante de Carlos.”

De todo modo, a vinculação à realidade, em detrimento da pura invenção especulativa, foi um dos aspectos programáticos mais frisados nas declarações do escritor ao longo da vida. É como se José Lins parodiasse a famosa frase de Stravinsky, segundo a qual uma obra de arte resulta de 90% de transpiração e de 10% de inspiração. Nos termos de José Lins, trata-se de 90% de memória e 10% de imaginação…

Dos comentários a respeito da obra de José Lins, uma das considerações mais esclarecedoras remonta à força telúrica inscrita na sua literatura. Ela foi dada ao jornalista Clóvis de Gusmão, em reportagem do início dos anos 1940. Antes de ter escrito Fogo morto, o escritor dizia:

“O Engenho Corredor foi a minha grande fonte literária. Lembrando-me dele fui escritor, contando a sua história escrevi os meus romances, fiz viver criaturas. Foi a terra que me deu força para trabalhar em 10 livros e realizar em 10 romances o que nunca imaginei ser possível. Dizem que sou um instintivo, um narrador como são todos os cantadores nordestinos. Agrada-me o instintivo, e gosto de ouvir esta palavra pregada aos meus livros. Vim da terra, sou da terra e quero continuar da terra. O velho Engenho Corredor continua a me alimentar, a me dar o que a minha imaginação carece. O massapé paraibano tem muito que dar. A cama que se acama na várzea e se repete em socas e ressocas. O instintivo não quer outra vida.”

Aqui é possível ainda aproximar o autor paraibano das passagens de Minha formação, de Joaquim Nabuco, onde este retrata em tom nostálgico o engenho pernambucano Massangana, de seus primeiros anos. Se este terreno da literatura é repleto de evocações mais tradicionais de mocidade, como o Minha formação no Recife, de Gilberto Amado, ele esteve presente também na ficção, com as descrições inovadoras encetadas por Machado de Assis. Este se mostra capaz de tematizar e de “driblar” o próprio tempo em pelo menos duas obras: Memorial de Aires e Memórias póstumas de Brás Cubas, romance que conta a história em retrospectiva, a partir do fim.

Dentre os contemporâneos de José Lins, o gênero estaria sujeito a revelações de situações extremas e traumáticas, como Graciliano Ramos em Memórias do cárcere. Outra produção deste último, Infância, também se aproxima da indeterminação de José Lins, com um livro de memória estruturado e contado como ficção.

Ao tratar da obra de Graciliano Ramos, o crítico Antônio Cândido generaliza a relação de reciprocidade entre biografia e invenção: “… toda biografia de artista contém maior ou menor dose de romance, pois frequentemente ele não consegue pôr-se em contato com a vida sem recriá-la. Mesmo assim, porém, sentimos sempre um certo esqueleto de realidade escorando os arrancos da fantasia.”.

Por fim, a evocação do passado ocuparia lugar de ponta na memorialística do mineiro Pedro Nava, composta em seis tomos de uma epopeia intimista – Balão cativo, Chão de ferro, Beira-mar, Galo das trevasO círio perfeitoque acaba por revelar a cultura brasileira do século XX.      

Edição      Enrique Shiguematu

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