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José Lins do Rego: antologia de Meus verdes anos (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

“Nada me arreda de ligar a arte à realidade e de arrancar das entranhas

da terra a seiva dos meus romances e de minhas ideias”

(Zé Lins, citado por Austregésilo de Athayde)

No texto da quinzena passada, trouxemos passagens do livro derradeiro de José Lins do Rego: Meus verdes anos (1956), tido pela crítica como a ficção sem os disfarces da memória… Mas, de maneira semelhante ao clássico O pequeno príncipe, pode-se dizer que o universo infantil de Lins do Rego, povoado pela imaginação, é vivido à parte, inacessível, portanto, à lógica dos adultos. Além do protagonista do livro de Saint-Éxupery, José Lins do Rego chegou a ser comparado a um personagem de uma fábula do cinema infanto-juvenil.

Em seu premiado livro Engenho e memória, Luciano Trigo sugere que o autor de Menino de engenho vivenciou uma espécie de síndrome de Peter Pan, permanecendo apegado às lembranças daqueles anos primaveris, como se não quisesse crescer.

De todo modo, qualquer que seja o tipo de comparação, literária ou cinematográfica, fictícia ou confessional, o menino se evadia para os banhos no açude e para as brincadeiras com as crianças das redondezas, os moleques de bagaceira. Em suas lembranças, a fraqueza da meninice é contrastada à vitalidade das demais crianças da região, fruto talvez de um remoto espírito arcádico e por um mundo que às vezes parecia pouco entender.

Seus animais de estimação eram um carneiro e um canário. Trata-se das grandes companhias do menino, além do moleque Ricardo. Pode-se identificar igualmente uma relação direta do escritor com madrastas e padrastos, numa intrincada genealogia, muito bem esmiuçada pelo antropólogo José Sérgio Leite Lopes.

A mesma proximidade do escritor paraibano não acontece com a figura paterna, personagem ausente de Meus verdes anos. Nas vezes em que visitava o Corredor, o pai de Zé Lins não era recebido pelo antigo sogro, que se retirava da sala. João do Rego tinha uma reputação negativa na família. Era ridicularizado pelos da casa, visto como sovina e como alguém que não havia sido um bom marido à filha do coronel.

Nas recordações de José Lins do Rego, as cozinheiras da casa-grande consideravam seu pai um homem sem bondades, porém pacato. Com frequência, a semelhança física com o pai era comentada: “– Este é o menino de Amélia?  Tem tudo do pai, é a cara do João do Rego”. Ao contrário do avô, figura que muito o impressionava, Dedé era indiferente com relação à avó, dona Janoca. Dizia simplesmente não gostar dela, afigurando-se em suas lembranças como uma pessoa sombria.   

Retomamos nessa segunda parte, transcrições que consideramos antológicas da obra. Lembre-se sempre que o autor se opõe à tradição literária do romantismo, em favor de um regionalismo de fundo psicológico, com feições narrativas modernas. Comecemos com referências, sempre cruciais, à imagem do avô-coronel:

– “Gritava muito e descompunha como um capitão de navio. Mas tudo sem raiva, não fazendo medo aos moleques e nem temor aos trabalhadores. Era respeitado, e posso dizer mesmo que amado pela sua gente.” (p.22).

– “O meu avô passava a contar as suas histórias. Eram fatos dos antigos da família, episódios da guerra de 48, da cólera-morbo, das enchentes do Paraíba. Falava com a voz arrastada e contava tudo com os nomes e as datas. Muito falava do seu avô Num, do seu tio Henrique, do doutor Quinca do Pau Amarelo, das lutas do partido na Monarquia.” (p.92).

– “O meu avô não se importava com o francês das filhas do Tio João”. (p. 107).

– “Itapuá fora a maior conquista de meu avô. Desde que não pudera adquirir o Jardim, passara-se para a compra do melhor engenho da Várzea.” (p. 119).

– “Era assim o meu avô. A sua força morava na sua brandura.” (p.123).

– “Nunca o meu avô falava da morte do irmão. Só fazia dizer que cabra atrevido e gente de feira não os queria em suas terras. (…) Não gostava o meu avô de falar das desgraças da cólera.”. (p. 130).

 

Em seguida, veja-se como o escritor refere-se em duas citações às trabalhadoras domésticas do engenho, como a negra Galdina, entre outras:

– “As conversas das negras foram as primeiras crônicas que me deram notícias da minha família”. (p. 27).

– “Outra africana sobrevivente era a que chamavam tia Maria Gorda. Tremenda negra, perto de quem não podíamos chegar. Esta guardava no coração o ódio de todos os oprimidos. Dormia no último quarto da senzala e gritava contra tudo o dia inteiro. Não falava a mesma língua de vovó. Era de outra nação. Romana, assim do tamanho de um menino de dez anos, só tinha de grande a cabeça comprida como um mamão macho. Vivia a sorrir para o tempo. Fora ama de pegar de meu avô e viera da África ainda se arrastando. Tinha sido escrava dos Leitão, das Figueiras. Um seu filho chamado Isidro se empregara com um inglês da estrada de ferro. Fora com o patrão ao Rio e voltara de lá de língua atravessada contando grandezas. O negro Isidro ainda guardava uma farda que vestia na casa do inglês. Mas possuía o dom da narrativa. Tudo o que contava se parecia com a verdade.” (p. 105).   

 

É interessante igualmente observar como o imaginário fabulativo ou as notícias da capital circulavam no espaço comunicativo do engenho. Invocavam-se idas à praia e “histórias do farol” (p. 169), com sereias, faroleiros, e referências históricas, como as fortalezas dos tempos da ocupação dos holandeses. (p. 172)

– Sobre as histórias de Trancoso.  “A voz da velha Totônia enchia o quarto, povoava a minha imaginação de tantos gestos, de tantas festas de rei, de tantas mouras-tortas perversas. Tinha a velha um poder mágico na voz. Era sogra do mestre Águeda, tanoeiro, um negro que mal abria a boca para falar. Tinha para mim um poder de maravilha tudo o que saía da boca murcha da velha Totônia. – Conta outra”. (p. 114 e cont.).

– Sobre a leitura no engenho: “Não existiam livros no Corredor. Apenas chegavam maços de jornais do Rio de Janeiro, e sobre a mesa do santuário guardavam a Bíblia com estampas. Não era para ler aquele livro com capa vermelha. Seria, como os santos, um objeto sagrado. E nem o meu avô tinha necessidade de leituras. Apareciam folhinhas Bristol com as fases da lua e das marés. Se havia sobre uma lua-cheia, procurava-se a folhinha de capa amarela. Mas quando aparecia a Tia Marocas do Gameleira, os livros tomavam conta das tias Maria e Naninha. A Tia Marocas se educara em colégio do Recife. E podia falar de muita coisa. O fim do mundo não existia. Tudo aquilo era conversa de jornal. E nos punha a ler nas letras grandes dos títulos do Diário de Pernambuco e da Província.” (p. 126)

– “Apareciam os jornais do Recife, a Tia Maria passava a ler os folhetins, a Tia Naninha escutava aquela leitura embevecida. E as notícias do cometa punham um tom de terror às conversas. Os jornais davam detalhe do que seria o fim do mundo. Ficava-se na mesa a escutar a Tia Maria na leitura.” (p. 91).

– “Juntou gente para ouvir a engrenagem fabulosa” (p. 155)

 

A família extensa é de suma importância no imaginário zeliniano, como se observa em alusões à tia Naninha, tia Maria e outras: “Apesar de suas violências, era de coração bondoso. Dava esmolas e quando Tia Maria lia o Moço loiro no folhetim do Diário chorava. (p. 243 e 244)

– “A sua maneira de se comunicar com as filhas era estranha. Não conversava com a Tia Maria, a sua preferida. Qualquer coisa que desejava, pedia às travessas. À noite aparecia o momento de conversar com os seus contando histórias dos antigos.” (p. 128).

– “Tia Naninha não tinha o mesmo ar carinhoso de Tia Maria. Mudou-se para o quarto dela. Era ciumenta em comparação com a prima. Dormiam na mesma cama. Flagra a sua menstruação”. (p. 153).

 

A recordação mais pungente é a da mãe, dir-se-ia crucial. Faz a descrição materna chegando do Engenho Câmara, numa liteira, carregada por negros, ardendo em febre, quase morta:

– “Dona Amélia viera mais branca que madapolão. E vinha queimando em febre”.

 

Last but not least, o tema da fuga, sempre presente:

– “Montei no animal e de repente me chegou uma vontade indomável de fugir.” (p.154)

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego: antologia de Meus verdes anos (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Há escritores que têm a exatidão de uma caixa de fósforos e a outros que têm a exatidão do oceano. José Lins do Rego tinha essa exatidão oceânica…

 

Em conferência evocativa do centenário de nascimento do amigo José Lins do Rego (1901-1957), proferida na Academia Brasileira de Letras no ano de 2001, o poeta alagoano Lêdo Ivo disse:

“Há escritores que têm a exatidão de uma caixa de fósforos e a outros que têm a exatidão do oceano. José Lins do Rego tinha essa exatidão oceânica… Antes de morrer José Lins me disse que iria escrever o romance O menino e o carneiro. Quer dizer, havia nele a obsessão do menino. Essa obsessão está presente também em Gilberto Freyre, por isso não sei se, em José Lins, é uma coisa espontânea ou se veio de um contágio intelectual decorrente de Gilberto Freyre, que desde o começo estudou o menino brasileiro, estimulou no Brasil essa literatura da infância, da meninice, da vida familiar”.

Essa conferência fez-me volver à leitura de Meus verdes anos (1956). Destaco uma sequência das passagens que me marcaram por ocasião da leitura:

– Sobre a natureza: “O rio Paraíba corria bem próximo ao cercado. Chamavam-no ‘o rio’. E era tudo. (…) Contava-se o tempo pela era das cheias. (…) O rio para mim seria um ponto de contato com o mundo”. (p. 36 e 37).

– Sobre o mundo fora do engenho: “Foi por intermédio dele (Manuel Chapéu de Couro) que vim a saber que havia propriedades distantes que não eram do meu avô. E que havia homens que mandavam mais do que eles”. (p. 42).

– Sobre a vida na casa-grande: “À hora da ceia a velha Janoca já estava recolhida. E todos nós nos púnhamos à mesa para a última comida. O chá era servido com beiju de goma, inhame, pamonhas e requeijão feito pelo velho Amâncio” (p. 45).

– Sobre o cotidiano: “Sempre de manhã a minha tia Maria me acordava para tomar leite ao pé da vaca. Nas manhãs de sol o curral dos animais de manjedoura se enchia de trabalho” (p. 47).

– Sobre o avô: “Olhava o meu avô como se fosse ele o engenho. A grandeza da terra era a sua grandeza. Fixara-se em mim a certeza de que o mundo inteiro estava ali dentro. Não podia haver nada que não fosse do meu avô. Lá ia o gado para o pastoreador, e era dele; lá saíam os carros-de-boi a gemer pela estrada ao peso das sacas de lã ou dos sacos de açúcar, e tudo era dele; lá estavam as negras da cozinha, os moleques da estrebaria, os trabalhadores do eito, e tudo era dele. O sol nascia, as águas do céu se derramavam na terra, o rio corria, e tudo era dele. Sim, tudo era do meu avô, o velho Bubu, de corpo alto, de barbas, de olhos miúdos, de cacete na mão. O seu grito estrondava até os confins, os cabras do eito lhe tiravam o chapéu, o dr. José Maria mandava buscar lenha para a sua cozinha no Corredor, e a água boa e doce nas suas vertentes. Tudo era do meu avô Bubu, o ‘Velho’ da boca dos trabalhadores, o Cazuza da velha Janoca, o papai da Tia Maria, o meu pai da Tia Iaiá. A minha impressão firme era de que nada havia além do Corredor. Chegavam de longe os portadores de outros engenhos. Ouvia apitar o trem na linha de ferro. Apesar de tudo, só havia de concreto mesmo o Engenho Corredor.” (p. 56).

– Sobre a cidade natal: “Já via o Pilar como outra entidade que não o engenho. Lá estava o sobrado do Comendador todo rodeado de rótulas e vidro de cor. A igreja, o padre Severino, a noite de festa. A Câmara Municipal onde o meu avô me levava para ver o júri. Havia mais alguma coisa que o Corredor.” (p. 69).

– Sobre o amigo: “Comigo ficava o moleque Ricardo. Ricardo podia levar sol e chuva e nada sucederia, tomava banho de rio, montava a cavalo, tinha pontaria no bodoque e sabia assobiar como os concris, comia fruta verde sem susto. Admirava o moleque Ricardo e o colocava em plano superior aos outros. Podíamos ter seis anos de idade.” (p.86)

– Sobre a prima: “Por que se foi embora a prima? Queria descobrir os caminhos do mundo e não sabia. Os trens cortavam o silêncio que dobravam de tom. Havia maquinistas que sabiam apitar com dolência. A imagem da prima se misturava aos rumores do monstro de ferro em cima do pontilhão. Montada em trem partira para muito longe.” (p.117)   

– Sobre os parentes: “Firmina era filha natural de meu avô. E tinha tudo dele. Alta e forte, não era de muito falar. Na hora precisa, contava-se com ela para tudo. (…) Era Firmina quem costurava para os moleques e os homens do engenho. Fazia as calças de meu avô de brim fluminense e as camisas de algodãozinho dos trabalhadores. Ria-se com todo o corpo e arrotava alto como se soltasse estampidos pela boca. A Tia Maria considerava-a irmã. A velha Janoca não era prevenida com ela, dando-lhe tratamento respeitoso. Também Firmina não era de ouvir calada. Gritava, e se viessem com luxos arrumava a as malas para ir embora. Aí não a deixavam sair. O meu avô, que não falava diretamente com as filhas, não se continha: ‘Firmina, deixa de besteira’. E Firmina ficava temida e amada.” (p. 118).

– Sobre o poder local: “A política para o meu avô não tinha importância. Votava todo o tempo nos conservadores, e isto lhe bastava. O Pilar era seu. As suas terras cercavam a vila por todos os lados, e ele nunca procurou mandar, como fizera Quinca Napoleão. (…) Nunca escondeu um criminoso em suas propriedades. Fossem para o júri como o assassino do seu irmão. Mas não era homem para quem levantassem a voz em desrespeito. (…) Nunca lera um livro em toda a sua vida. Mas era como se tivesse um código na cabeça. Escrevia cartas numa letra de capricho toda cheia de abreviaturas. Tinha amigos letrados.” (p. 124).

– Sobre o mobiliário: “De luxo ali só mesmo o vinho que chegava em quintos da Paraíba, o vermelho vinho da França. O meu avô não amava o luxo. A sua cama era de sola, e tudo o que se fazia no engenho era para durar: casa de alicerces profundos, cumeeira de madeira de lei, canoas sem pintura”. (p. 126)

– Sobre a comida: “A mesa do engenho era farta. Nunca nos faltou a melhor manteiga da Dinamarca e os queijos do reino, da Holanda. Tudo à grande como ele desejava. Tinha carro de cavalo e mandara instalar banho de torneira. Saía para as suas viagens à Capital, onde os seus negócios consistiam em receber os seus dinheiros edeixá-los no banco. A Tia Maria preparava a sua bolsa de couro. Metia ele o seu grande chapéu-do-chile, paletó negro de alpaca, as calças de listra, as botinas de elástico e, montado no seu Gouveia e de tabica na mão, botava-se para a estação do Pilar.” (p. 127)

– Sobre a justiça local: “O seu primo Quinca do Engenho Novo abriu luta com ele por causa do Itapuá, e perdeu na justiça, porque os juízes sabiam que decidir pelo coronel José Lins era decidir pela boa justiça.” (p. 128).

– Sobre as ferrovias: “O trem era tudo para o engenho. Era o relógio marcando os horários com exatidão, a levar as sacas de lã de meu avô para a Capital, trazendo latas de querosene, barricas de bacalhau para a Venda.” (p. 135).

– Sobre a paixão: “Eugênia! Que saudades me ficaram daqueles instantes de alumbramento! Fogo de carne que ainda hoje queima como brasa”. (p. 160)

– Sobre o engenho: “Aqueles meses de ausência e deram a oportunidade de avaliar o que era o Corredor. Ali gritava o meu avô e a Tia Naninha sabia fazer o que era necessário.” (p. 174)

– Sobre a capital paraibana: “a Paraíba era uma cidade de bondes de burro e de carroças”. (p.258)

– Sobre o enamoramento: “Chegara para a casa de Sinhô Marinho uma menina chamada Pérola. Tinha os cabelos negros e o rosto moreno como de cera. Viera do engenho Maraú, sobrinha da segunda mulher de Sinhô. Enamorei-me de Pérola. Talvez fosse maior do que eu. Também era sozinha como eu e órfã. Pérola! Sei que ela encheu os meus dias que a tristeza devorava. (p. 305-306).

– Sobre o alumbramento: “Foi nesta tarde, quase de noite, que me apareceu Pérola como um novo deslumbramento. Estava ela no portão do sobrado de Sinhô e me chamou: – Dedé vem cá. Olhei para os seus olhos que me queimavam. Arrancou-me para o escuro da escada e só sei que um fogo escuro abrasou as minhas partes.”. (p. 310).

Edição      Enrique Shiguematu

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A trajetória jornalístico-literária de José Lins do Rego (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''…o então governador da Paraíba, José Américo, é constantemente citado e elogiado por José Lins.''

A trajetória apresentada na primeira parte deste texto permite situar a inserção de José Lins do Rego na cidade do Rio de Janeiro, a partir de suas atividades como cronista em jornais cariocas. Como se sabe, o desenvolvimento histórico da imprensa no século XIX foi fundamental para a criação de um espaço de visibilidade em torno de escritores, que tinham os jornais e as revistas como arena pública, local em que se travavam esgrimas de ideias e duelos de posição. Podemos citar inúmeros relatos, desde os elencados em Vida literária: 1900, de Brito Broca, até estudos acadêmicos, como os de Roberto Ventura, Estilo tropical, ou Literatura e missão, de Nicolau Sevcenko, para mencionar apenas os mais famosos.  

Em estritos termos literários, os jornais publicavam não apenas romances, como diversos outros gêneros. Caberia citar, a título de exemplo, os romances-folhetins, transladados da França para o Brasil no Oitocentos. Várias de nossas obras ficcionais consagradas, hoje consideradas clássicas, nasceram dessa forma, tais como José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida e Joaquim Manoel de Macedo. Isto se estendeu até princípios do século XX, com os romances de Lima Barreto, publicados também em jornais.

É Marlyse Meyer, professora da Unicamp, quem mostra como a crônica no século XX descende dos folhetins oitocentistas franceses, aclimatando-se com grande sucesso no Brasil a partir dos anos 1930. Segundo Antônio Cândido, a crônica constituiu um verdadeiro gênero nacional. Sua versão mais bem-acabada do ponto de vista literário é O conde e o passarinho, livro de Rubem Braga, que reúne suas crônicas em 1936. A receptividade deste gênero pode ser confirmada se constatamos até hoje em uma linhagem de autores, que engloba um Fernando Sabino, um Zuenir Ventura e um Luís Fernando Veríssimo.

Do ponto de vista jornalístico, existem críticos de costumes que remontam ao período da belle-époque carioca, quando a cidade tinha então com seus quase 800 mil habitantes, na virada do século XIX para o século XX. Em período de agudas transformações, Luís Edmundo descreve o Rio de Janeiro através dos diversos logradouros e de seus tipos populares. Na modernidade em vias de construção, a crônica torna-se um testemunho da vida local, seja do que morre seja do que nasce, filtro através do qual se revela sua paisagem social, cultural e humana.

A Luís Edmundo se agrega Paulo Barreto, o famoso João do Rio, artífice do gênero como reportagem, capaz de cartografar e, em muitos casos, de etnografar a vida urbana e a plena vertigem de suas mudanças, que no Rio de Janeiro se materializam na Reforma urbanística de Pereira Passos. Conforme mostra a antropóloga Júlia O’Donnell em sua dissertação de mestrado, a cidade moderna se dá a conhecer em suas regiões e em seus aspectos mais obscuros, como faz João do Rio na obra A alma encantadora das ruas, autor diversas vezes citado por José Lins do Rego. Se a vida literária se estabelece nos círculos de sociabilidade recém-instituídos, como os cafés e salões, a matéria para as reportagens é buscada pelo cronista na flânerie das ruas, como fizera o poeta Baudelaire na Paris do Segundo Império, com a invenção do gênero da crônica-reportagem.

José Lins do Rego vai ser um escritor que acolhe a crônica em seu sentido lato e polimórfico. Isto é, um gênero que abriga e franqueia uma quase total liberdade narrativa, em termos de experimentação temática e estilística. Suas crônicas variam de tamanho, são curtas e longas, são diretas ou são impessoais, transcrevem cartas de leitores. Assim, suas crônicas são um verdadeiro pot-pourri, ou um melting-pot, onde escreve sobre os mais diversos aspectos: política, agricultura, seca, livros, personalidades nacionais e estrangeiras, artistas, cientistas, exposições, viagens ao exterior, crítica de filmes, etc.

É o sentido dialógico da crônica, isto é, o da sua construção em proximidade com o leitor, em uma dicção que se aproxima do tom coloquial da fala, um fator muito importante. Embora fosse um romancista popular em termos de vendagem, foi a crônica quem lhe deu grande popularidade na capital da República, recebendo cartas, telefonemas e sendo reconhecido ao caminhar na rua. Isto concretizava um ideal modernista de aproximação e de comunicação com o povo, de contato diário através de uma linguagem oral, cujo tom de conversa era típico da crônica. É justamente a sua limitação, que o define como efêmero e menor, que no modernismo passa a se caracterizar como virtude.

É nesse sentido que podemos entender o título das colunas de José Lins do Rego nos jornais do Rio de Janeiro: “Conversa de Lotação”, “Esporte e vida”, “Pessoas, homens e coisas”.

Para além dos ideais presentes no conteúdo das crônicas, é importante entender o momento de inserção de José Lins no campo jornalístico. O pós-Segunda Guerra marcou profundas sociais, com o incremento da industrialização e da formação inicial de uma indústria cultural, potencializada pelo advento da televisão. No âmbito da imprensa, as mudanças repercutiram através das transformações gráficas, editoriais e comerciais dos periódicos brasileiros, com a passagem de um “jornalismo literário” para outro de tipo “empresarial”. A importação de máquinas de última geração, favorecida pelas diretrizes econômicas do governo Dutra, impulsionou o mercado jornalístico, com o aparecimento de empresários dispostos a investir em novos jornais, o que ampliou a concorrência.

Em algumas situações, essa competição dos jornais repercutiu em um extremado protagonismo político acentuado. Foi o que ocorreu com a Tribuna da Imprensa, criada em 1949 por Carlos Lacerda, e com o Última Hora, de Samuel Wainer, de 1951, que constituirá o braço direito do segundo governo Vargas, cujo desfecho dramático se deveu em boa parte a este aspecto interventivo mais direto do jornalismo na política.

Dentre os novos periódicos, mencione-se ainda o jornal O Dia, fundado em 1951 por Chagas Freitas, e a Revista Manchete, por Adolfo Bloch em 1952, e que tem por base congêneres estrangeiras, como a americana Life e a francesa Paris-Match. A parte visual passou a ser mais explorada, com fotos coloridas estampadas nas capas.  

Entre os jornais já existentes, um processo de reforma editorial também vai ser efetuado, até mesmo para fazer frente ao aparecimento de concorrentes. Um deles é o Jornal do Brasil, criado logo depois da proclamação da República. O JB vai assistir a transformações de forma e conteúdo, por iniciativa de sua proprietária, a condessa Pereira Carneiro, que em viagem aos Estados Unidos compra novos equipamentos gráficos para o jornal. A viagem também proporciona a atualização com as tendências do new jornalismo norte-americano. Se a objetividade do lead viera através do Diário de Notícias, é o JB responsável pela introdução da regra dos cinco Hs e do um H: onde, quando, quem, o quê, por quê e como.

A reformulação compreendeu também diagramações diferentes e a criação de encartes, como o Suplemento Dominical, o Caderno B e o Caderno C. Para isto, novos editores e jornalistas entraram em cena, como Reinaldo Jardim, Alberto Dines, Jânio de Freitas e Odilo Costa Filho, entre outros que se tornavam cada vez mais profissionalizados.

Dentro deste campo, O Globo não é um jornal nem antigo nem novato. É fundado por Irineu Marinho em 1925, que por sua vez já dirigia A Noite desde 1910. Um ano depois de criar O Globo, Irineu falece e o jornal passa a ser dirigido pelo filho, Roberto Marinho.

José Lins do Rego, amigo de Roberto Marinho, a quem dedica um de seus livros de ensaio, Homens, seres e coisas, começa a colaborar no jornal em 1943. Vai escrever com regularidade durante quinze anos consecutivos, até o seu falecimento. Na década de 1950, além da família Marinho, O Globo tem na equipe de redação Herbert Moses, seu tesoureiro. Este era presidente da Associação Brasileira de Imprensa e já pertencia aos quadros de A Noite. Outro nome importante era José Bastos Padilha, diretor-gerente, que nos anos 1930 fora presidente do Flamengo e, portanto, figura próxima a José Lins e a Mário Filho.

Se não teve o protagonismo de a Tribuna da Imprensa ou do Última Hora no processo político dos anos 1950, fica evidente a posição anti-varguista de O Globo no início da década. Com o suicídio de Vargas, convém lembrar que sua sede e seus caminhões de entrega foram apedrejados. O Globo também não chegou a ser protagonista das reformas de diagramação em curso, adequando-se a elas paulatinamente. Era de todo modo um jornal influente, tinha três cadernos principais, com um total de 28 páginas.   

Ademais, o periódico contava com um expressivo número de colunas, contemplando um variado leque de informações. O noticiário referente à política nacional predominava, com o retrato do jogo político dos principais partidos, quais sejam, UDN, PTB e PSD. Havia também um considerável espaço para notícias que exploravam a Guerra Fria, sobretudo um certo exotismo quanto aos países da Cortina de Ferro, como A morte vem do Kremlin.

As notícias referentes à cidade também tinham um peso grande nas manchetes e nas reportagens cotidianas. Colunas como “A batalha do Rio”, “Dramas e comédias da cidade”, “A serviço da cidade” e “Os que estão à margem da vida” exploravam problemas de trânsito, violência e pobreza na cidade, com a abertura de canal para que os leitores-cidadãos se expressassem.

Vista em série, e com o distanciamento do tempo, a leitura do jornal passa a sensação de uma cidade à beira da exaustão, em meio aos caos urbanos. As favelas cresciam, o subúrbio se convulsionava com os acidentes de trem, a sujeira e a poluição se espalhavam, o tráfego era descrito como uma balbúrdia de bondes, carros, ônibus, táxis e lotações.

É como se o projeto reformador civilizado da belle-époque já não mostrasse mais sinais de esperança, ainda que um ou outro prefeito ou interventor anunciasse medidas inspiradas em cidades norte-americanas, como a anunciada pelo prefeito João Carlos Vital, inspirada no plano de limpeza urbana da prefeitura da Filadélfia (EUA). Seria preciso esperar um projeto mirabolante como Brasília para que, do zero, se renovassem as esperanças ordenadoras modernistas…

As seções científicas e culturais, assim como artísticas e esportivas, também tinham considerável espaço, como se pode depreender do título das colunas. Uma incipiente atenção ao turismo, com reportagens sobre países como a França, pode ser percebida. Dentre os principais colunistas que colaboravam regularmente com José Lins do Rego, ressaltem-se os seguintes pares: Otelo, Antônio Olinto, Henrique Pongetti, Pedro Dantas, Thiago de Melo, Gustavo Doria, João Lyra Filho e Geraldo Romualdo da Silva.

Uma das descobertas feitas a partir da leitura de Conversa de Lotação é a centralidade da figura de José Américo de Almeida para José Lins. Pode-se dizer que o tão decantado relacionamento de mestre-discípulo entre José Lins e Gilberto Freyre aparece pouquíssimo nas crônicas de O Globo. Há uma análise que José Lins faz de Aventura e rotina, livro lançado por Freyre em 1952. O questionamento pode ainda ser ampliado pelo fato de que tradicionalmente diz-se que Menino de engenho é a versão literária de Casa-Grande & senzala.

Ora, tal versão pode ser questionada pelo simples fato de que a novela de José Lins é publicada em 1932, enquanto a obra sociológica de Freyre aparece um ano depois. Um mero cotejo de datas é suficiente para ao menos pôr em dúvida a relação entre criatura e criador. Como a criatura teria surgido antes do criador, em um convívio que não durou mais de um ano contínuo? É claro que a influência de Freyre remonta aos anos 1920 e não divirjo que ela é forte e indubitável. Quero somente mostrar como exemplos como este, extraídos da leitura das crônicas, podem pôr em questão certos dados cristalizados e canonizados pela fortuna crítica.    

Cumpre observar que o então governador da Paraíba, José Américo, é constantemente citado e elogiado por José Lins. Amigos desde os 17 anos de idade, os dois se acompanham desde pelo menos 1923, quando José Américo lança A Paraíba e seus problemas. Destarte, a amizade se estende por afinidades eletivas na política e na literatura. Em 1928, José Américo reaparece com A bagaceira, marco do romance social nordestino.

Neste breve bosquejo de trajetória, que aqui se encerra, este é apenas um exemplo a ser desenvolvido. No limite, creio que ele justifica a necessidade de ler os textos de José Lins do Rego em seu suporte original – os jornais do Rio – e em valorizar justamente aquilo que seus críticos e amigos não selecionaram como dignos de publicação em livro na época, considerando-os efêmeros e não-universais.

Edição      Enrique Shiguematu

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A trajetória jornalístico-literária de José Lins do Rego (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Tornou-se por fim amigo da cearense Rachel de Queiroz…''

José Lins do Rego nasceu em um engenho açucareiro, no ano de 1901, no interior da Paraíba, região da zona da mata paraibana. Como Joaquim Nabuco, Sílvio Romero e Augusto dos Anjos, foi menino de engenho até os oito anos de idade. Quando tinha 4 anos, sua mãe faleceu. Foi neste momento afastado do convívio do pai, considerado mentecapto pela família. Cresceu sob os cuidados das tias maternas, em diversos engenhos familiares, que ficavam sob a guarda geral do avô, o afamado e temido coronel José Paulino. O avô era um típico latifundiário de terras de monocultura da cana de açúcar, então em decadência: dono de oito engenhos contíguos, preservados graças à estratégia de casamento entre primos e primas. Segundo descrição do neto, o coronel tinha as características básicas de um patriarca descrito em dicção freyreana: era, ao mesmo tempo, autoritário e bondoso com os empregados.

José Lins cresceu então nesse ambiente rural de amplidão de terras e de liberdade infanto-juvenil, em meio aos banhos de rio, aos animais de estimação (carneiros e passarinhos), às brincadeiras com os moleques de bagaceira, filhos das empregadas de origem africana, algumas delas remanescentes da escravidão na primeira década do século XX. Conviveu também com os trabalhadores locais, especialistas no fabrico do açúcar, além de personagens populares, como senhoras contadoras de história, cegos trovadores e até cangaceiros históricos, como Antônio Silvino. Ia para a cidade nos fins de semana, aonde assistia às missas. Passava férias nas cidades nordestinas, em casa de familiares, ora em Recife ora na capital paraibana.

Com nove anos de idade, Zé Lins foi para o colégio interno em uma cidade próxima ao engenho, onde guarda as duras lembranças: a solidão, a crueldade dos colegas e o autoritarismo do professor. Passava férias no engenho do avô. Já adolescente foi estudar em colégio religioso na capital da Paraíba, de formação marista. Na capital pernambucana, estudou no Ginásio Pernambucano, por onde passaram nomes importantes da cultura brasileira: Celso Furtado, Clarice Lispector, Ariano Suassuna, Paulo Freire, entre outros. Despertou seu interesse pela literatura na escola, lendo romancistas nacionais e estrangeiros. Em Recife, com 18 anos começou a escrever na imprensa sobre Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, além de panfletos políticos. Substituiu Barbosa Lima Sobrinho, transferido para o Rio, em sua coluna do Diário de Pernambuco.

No final da década de 1910, ingressou na Faculdade de Recife, onde fez várias amizades. Teve vida boêmia, viveu em República e dividiu quarto com o gaúcho Raul Bopp, futuro poeta modernista, aluno da Faculdade de Direito de São Paulo, mas que passara o último ano em Recife, antes de ir para a Amazônia. Zé Lins se autodescreve como aluno medíocre, mas acentua que gostava à época da oratória e dos discursos empolados, típicos da retórica bacharelesca.

Logo depois de formado, conheceu Gilberto Freyre, recém-chegado dos Estados Unidos e da Europa, onde vivera por 5 anos. Amizade à primeira vista, Freyre revelou romancistas ingleses e uma erudição de scholar que encantou José Lins. Conviveram intensamente durante um ano. Faziam passeios por Recife e Olinda, reconhecendo suas marcas coloniais, sobrados, culinária afro-portuguesa. Viajaram juntos atrás de engenhos de fogo morto por Paraíba e Pernambuco. Mantiveram contato depois em congressos (Manifesto Regionalista, Congresso Afro-Brasileiro), no Rio de Janeiro e através de correspondências.

Ao fim da formação bacharelesca, conheceu, numa estação de trem, Philomena Massa, com que casaria em 1924. Naná era filha de Antônio Massa, um senador da Primeira República, quem lhe conseguiu um emprego público no interior de Minas Gerais, onde não ficou mais de um ano. Em sua volta ao Nordeste, radicou-se por quase dez anos, entre 1926 e 1935, onde passa a trabalhar como fiscal de consumo. Teve três filhas e graças à sua reputação de crítico literário em Recife, foi cercado de reverência em Maceió por uma nova geração de escritores.

Nos cafés da capital alagoana, reuniu em torno de si novatos como Aurélio Buarque de Holanda e Manuel Diegues Júnior. Fez-se mestre do poeta Jorge de Lima, sobre quem influiu na transição do parnasianismo para o modernismo. Em companhia do governador de Alagoas da época, foi até a cidadezinha de Palmeira dos Índios e lá conheceu Graciliano Ramos, sobre quem se dizia ser “o homem mais erudito de todo o sertão”.

Tornou-se por fim amigo da cearense Rachel de Queiroz, que estreia na ficção em 1930 com O Quinze, premiado pela Fundação Graça Aranha, de São Paulo, no ano seguinte. Em 1928, José Américo de Almeida já publicara A bagaceira, marco no romance social nordestino.

Já estabelecido como jornalista e como crítico literário, José Lins inicia em 1931 um livro que pretendia ser uma biografia do avô, com o nome de Memórias de um menino de engenho. No curso da escrita, o texto biográfico tornou-se uma ficção e, custeada pelo próprio autor, é publicada em 1932 a novela Menino de engenho. A recepção não poderia ser melhor: apesar de críticas a passagens libidinosas e até pornográficas, o romance estoura e se esgota rapidamente. O tarimbado filólogo e membro da ABL, João Ribeiro, escreve crítica elogiosa no Jornal do Brasil e entrevê elementos freudianos na narrativa…

A família paulista dos Prado é muito importante na consagração de José Lins do Rego. Graças a essa estirpe, responsável pela criação da Fundação Graça Aranha, a novela Menino de Engenho é premiada no ano seguinte, 1933, o que estimula José Lins a escrever outro romance. Passa a se corresponder com o historiador Yan de Almeida Prado. Além disto, Paulo Prado, mecenas da Semana de Arte Moderna de 1922, volta a fortalecer as relações com o Nordeste de seu amigo Capistrano de Abreu. O autor de Retrato do Brasil apresenta Menino de engenho a Blaise Cendrars, o vanguardista franco-suíço que viajara a Minas Gerais com os modernistas em 1924. Prado classifica José Lins como “o nosso Proust” e décadas depois o romance será traduzido para o francês como L’enfant de la plantation, com prefácio de Cendrars.

Todo esse reconhecimento culmina em 1934, quando o editor José Olympio convida José Lins para publicar sob a chancela de sua editora, recém-transferida para o Rio de Janeiro, aquele que seria seu terceiro romance, Banguê, em uma tiragem de cinco mil exemplares. No ano seguinte, 1935, atraído pelo sucesso, José Lins resolve se transferir junto com a família para o Rio de Janeiro. Para tanto, consegue a transferência de seu posto de trabalho, agora como fiscal de imposto no Estado do Rio de Janeiro.

A afirmação de José Lins na capital da República vai passar pela publicação contínua de romances e pela sua presença diária na Livraria José Olympio, em ponto estratégico do centro da cidade, a Rua do Ouvidor. Neste ambiente, vai criar um grande circuito de relações sociais e de amizades. Entre 1935 e 1939, publica com regularidade um romance por ano, dando origem ao Ciclo da Cana de Açúcar e ao Ciclo do Cangaço, do Misticismo e da Seca.

José Lins mora na zonal sul do Rio. Primeiro no bairro de Botafogo, depois no Humaitá – onde vai acolher Graciliano Ramos, quando este é liberado da prisão do Estado Novo, em Ilha Grande – e, por fim, no Jardim Botânico, em uma casa construída próxima à Lagoa, onde vai residir até o final da vida.

Em função de seu trabalho, pega com frequência as barcas, para prestar serviços em Niterói. É deslocado para o interior do Estado, onde faz inspeção em Cabo Frio, Araruama e Vassouras. Em 1941, publica Água-mãe, inspirado em sua residência na Região dos Lagos. Para fugir à pecha de escritor regionalista, em 1947 publica um romance com temática urbana, centrado na cidade do Rio, Eurídice.

Já a década seguinte assinala uma mudança. Os romances se tornam menos frequentes, escasseiam, por assim dizer, e as crônicas em jornais, até então esporádicas, se tornam regulares. Antologias de crônicas começam a ser publicadas, com a reunião de textos antigos, da sua época do Nordeste, tal como Gordos e magros, de 1942, e Poesia e vida, de 1945.

Em 1943, José Lins publica sua obra-prima, Fogo morto. Neste mesmo ano, é contratado por Roberto Marinho para trabalhar em O Globo e pelo conterrâneo, Assis Chateaubriand, para escrever em O Jornal e na revista O Cruzeiro, onde publica, sob a forma de folhetins, o romance Os cangaceiros, ilustrado por Cândido Portinari. Dois anos depois, em 1945, recebe convite de Mário Filho, que conhecera em O Globo, para assinar a coluna Esporte e vida, no Jornal dos Sports.

Na seção da próxima quinzena, aprofundaremos a relação de José Lins do Rego com a colaboração jornalística nos periódicos do Rio de Janeiro.

Edição      Enrique Shiguematu

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O poder oligárquico e a ficção de José Lins do Rego
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

O trem, fruto da Revolução Industrial na Inglaterra e símbolo articulador entre o campo e a cidade

“Cadê meu país do Nordeste

Que eu não vi nessa Usina Central Leão de minha terra?

Ah! Usina, você engoliu os bangüezinhos do país das Alagoas!”

Jorge de Lima, O mundo do menino impossível

“Dos brutos guindastes/de vultos enormes/

ainda maiores/nessa escuridão…/

os braços de ferro/pesados e longos/

parece quererem/sustar-me do chão/

– Ai!/eu tenho medo dos guindastes/

por causa daquele bicão”

(poema ‘Noturno”, de Ascenso Ferreira)

Para compreender a visão de mundo de José Lins do Rego, e a ordem de grandeza das transformações que ficcionaliza em sua literatura, é preciso situar o leitor com uma pergunta básica: qual é o contexto histórico de aparecimento do Ciclo da Cana de Açúcar, composto pelos primeiros cinco livros publicados, numa sequência de cinco anos, de Menino de engenho, de 1932, a Usina, de 1936?

Em outras palavras, como entender o fenômeno do ponto de vista histórico? O pesquisador pernambucano Souza Barros informa que as usinas datam de 1875, com a introdução de técnicas novas e um maior índice de produtividade, mediante o emprego em alguns casos de energia elétrica. Trata-se de um processo paulatino. Em números, contabilize-se que no ano de 1901 havia em Pernambuco 1.500 engenhos e apenas 40 usinas. Não obstante, os velhos fidalgos, proprietários de antigas casas-grandes, cujos pais conheceram o fausto, vão assistir doravante à sua própria, e lenta, decadência.

A Enciclopédia Nosso Século (1910/1930), da Editora Abril, postula na reportagem O açúcar dos canaviais traz as indústrias que o predomínio das usinas sobre os engenhos de banguê ganha contornos definitivos entre 1910 e 1920. Os engenhos passam a fornecer matéria-prima às usinas, que têm sua própria produção agrícola. Em 1910, contam-se exatas 46 usinas em Pernambuco. A produção duplica ao longo do decênio, embora a média salarial seja inferior à dos trabalhadores do sul do país. As exportações decrescem e cai a venda. Esta produção atendia ao mercado brasileiro do centro-sul, mostrando, segundo o economista Paul Singer, como o Nordeste se desvinculava da divisão internacional do trabalho e se integrava à divisão nacional do mesmo.

É a brasilianista Linda Lewin, em seu livro Política e parentela na Paraíba, quem se debruça com mais profundidade na parte histórica da região, ensejando uma apropriada contextualização da obra zeliniana. Segundo a autora, o repórter Antônio Botto de Menezes descreve como o coronel José Lins de Albuquerque, avô de José Lins do Rego, era um rico plantador de cana-de-açúcar e expulsou um vizinho modesto em Pilar através da manipulação do processo legal. Ainda neste livro, Lewin fornece a informação segundo a qual a revista Veja observara em 1980 que, graças à manipulação do sistema legal, “em nenhum país do mundo titulou-se tantas vezes o mesmo pedaço de terra. A julgar pelas escrituras registradas nos cartórios, a extensão territorial do Brasil está muito acima dos oito milhões de quilômetros quadrados estabelecidos pelos acordos internacionais desde os tempos da colônia”.

Também de acordo com a pesquisa da brasilianista supracitada, a sólida rede de base familiar de Cunha Pedrosa na Paraíba começou a crescer politicamente quando Abiaí o nomeou juiz municipal em Pilar, em 1887, tornando-se amigo do coronel José Lins de Albuquerque. No município de Souza, Pedrosa favoreceu o bloco familiar Antigo-Conservador liderado pelo coronel José Gomes de Sá, mas cultivou também a boa vontade do chefe oposicionista, o Dr. Antônio Marques da Silva Mariz.

Quando consultado para indicar um político de Souza para a Assembleia Constituinte, ele diplomaticamente indicou os nomes de ambos os chefes políticos. Quarenta e três anos mais tarde, ele permanecia em contato com os Gomes de Sá. E o coronel José Lins, de Pilar, por mais de trinta anos, enviou telegramas de congratulações a Pedrosa pelo dia de seu santo.

Embora diretamente associada com a chamada República Velha, a oligarquia nordestina constituiu-se no decurso do Segundo Reinado. Como percebeu corretamente Oliveira Viana, em Instituições políticas do Brasil, o pacto oligárquico resultou do casamento de um sistema eleitoral nacional com o que ele chamou de “clãs parentais”, a saber, clãs familiares extensos, os quais, por volta do final do período colonial, expandiram-se energicamente “à maneira de mancha de azeite”, absorvendo as grandes propriedades fundiárias da sociedade rural e as populações dela dependentes.

O surgimento de partidos políticos, na década de 1840, impeliu para a esfera pública do município as famílias extensas poderosas, transformando “clãs parentais” em “clãs eleitorais”. Os Lins na Várzea Paraibana, mais precisamente de Pilar, são um exemplo. Deste modo, as grandes famílias começaram a abranger municípios inteiros e tornaram-se, em nível local, “os mais importantes segmentos” dos partidos políticos nacionais. A mescla de poder público e poder privado, devido à expansão tanto de cargos eletivos como de serviço público, levou ao fenômeno disseminado de “empreguismo”, ou do nepotismo no controle de cargos e empregos públicos pelas famílias de elite.

As facções consistiam em pelo menos vários grupos de base familiar. A facção de Epitácio Pessoa, por exemplo, futuro presidente da República no início dos anos 1920, contava com os Pessoa e seus amigos políticos de Umbuzeiro, como os Lucena, os Cavalcanti de Albuquerque, os Barbosa, os Neiva e os Pereira, que tinham um parentesco mais distante com ele e entre si.

A lista padrão das oligarquias familiares durante a Primeira República incluía as do Rio Grande do Norte (Pedro Velho), de Alagoas (os Malta), da Paraíba (os Neiva-Pessoa e os Machado), do Maranhão (os Leite), do Pará (os Lemos ou os Montenegro), do Ceará (os Acioli), do Amazonas (os Nery), de Mato Grosso (os Ponce) e, numa situação mais intermediária), as da Bahia (os Vianna). O Piauí (barão de Parnaíba) e Sergipe (os Almeida Botto) são mencionados por Oliveira Vianna como as primeiras oligarquias do Brasil.

É tal âmbito histórico que informa a imaginação ficcional da obra de José Lins do Rego, em especial aquela que trata da passagem dos engenhos às usinas. Estas, decerto, travestem-se da ambição, do arbítrio, da prepotência, da usura e da ganância desmedida, encarnada em personagens como o dr. Luís e o dr. Juca no romance Usina: “A verdade é que as usinas estavam ali para humilhar os banguês do meu avô”, afirmava o menino de apelido Doidinho, no romance de 1933.

As máquinas que participam da chegada da usina entrosam-se num mesmo sistema. Em termos tanto simbólicos quanto materiais, a locomotiva está ao lado e de mãos dadas com a usina. O trem, fruto da Revolução Industrial na Inglaterra e símbolo articulador entre o campo e a cidade, atende às demandas de escoamento da produção do sertão para o seu consumo e exportação no litoral.

A função econômica encobre os efeitos colaterais da usina e de seu subsidiário, o trem. No limite, a visão zeliniana sustenta que a usina é danosa para a cultura nordestina, sendo corruptora em sua essência. Os meios de comunicação e os meios de transporte são devastadores no sentido de que descaracterizam a integridade da natureza, comprometem a autenticidade do modo de vida dos habitantes e invadem o isolamento protetor das regiões mais distantes da civilização.

A usina e a locomotiva condenam o futuro de um personagem literário como José Passarinho, saído da vida real, de quem se diz em Fogo morto: “… cantava porque era feliz, porque o mundo para ele não tinha mágoa para lhe dar. Bebia e cantava”.

Em contraposição aos cantares e beberes mais singelos dos filhos da terra, os usineiros eram seres desconhecidos e estranhos. Representavam uma plutocracia emergente, em vias de formação no Brasil. O engenho passava, mas a monocultura açucareira ficava. Agora o açúcar não seria mais purgado artesanalmente, mas refinado de maneira artificial, em processadores dotados de esteiras mecânicas, prenúncio de uma nova era técnica, mantenedora, contudo, de um status quo concentrador de renda e excludente.

Edição      Enrique Shiguematu

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Dom Quixote na literatura brasileira
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Dom Quixote por Portinari

 

Os tipos quixotescos são recorrentes na literatura brasileira. Lembre-se que o Major Quaresma, personagem central do romance homônimo de Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma, costumava ser chamado de um Dom Quixote nacional, tamanho o seu otimismo visionário e tamanho o seu senso de justiça para extirpar os males sociais, proteger os fracos, aplacar os sofrimentos humanos.  

Como se sabe, as peripécias e pelejas do “engenhoso fidalgo” – um “apólogo da alma ocidental”, como definiu o político San Thiago Dantas (1911-1964), em conferência de 1947, comemorativa do quarto centenário de Miguel de Cervantes – provêm de um tempo bem preciso: aquele dos nobres cavaleiros andantes do final da Idade Média, período em que abundavam os chamados romances de cavalaria. Estes, junto às canções de gesta e às epopeias, compunham a literatura medievo-popular.

Na novelística de Cervantes, ponto máximo das letras modernas castelhanas, Dom Quixote é um pequeno fidalgo rural que, na altura dos cinquenta anos de idade, depois de ler uma enorme quantidade de romances, perde a razão. Desatinado e valente, elabora um plano absurdo, qual seja, o de fazer renascer a cavalaria andante, então em decadência.

Liberto de seu cotidiano e de sua condição social, Quixote peregrina ao lado de seu fiel escudeiro, Sancho Pança, um camponês da Mancha, província aldeã da região de Castela, na Espanha. Ao traçar o perfil daquele senhor comprido e magro, de armadura rústica e anacrônica, Cervantes inspira-se no gênero aventureiro, com lastro histórico e então muito difundido na Europa, para parodiar comicamente, através de Quixote e Sancho, este tipo de viagem.

As aventuras narradas pelo livro, que no século XIX receberia as clássicas ilustrações do desenhista francês Gustave Doré (1832-1883) – atualizadas no século XX por um Picasso e um Portinari –, tratam da busca um tanto insensata de Quixote por Dulcinéia, a sua dama imaginária, “o protótipo da beleza, o sentido da sua vida”. Arquétipo platônico, amor cortês, como pontua o crítico Erich Auerbach, Dulcinéia del Toboso é “la señora de sus pensamientos, extremo valor que puede desearse, término de la humana gentileza”. Poderia ser, portanto, equiparável à Beatriz de Dante, à Eneida de Virgílio ou à Margarida/Helena de Goethe.

A jornada é entrelaçada todo o tempo pelos fios que ligam a ilusão à realidade, a lucidez à loucura, o trágico ao cômico. Ao longo da trajetória, o herói romanesco da “triste figura” transporta-se para o mundo interno de sua alma – os pensamentos, as divagações e os desvarios. Presa fácil de sua ideia fixa, ele fantasia, de disparate em disparate, histórias de fases áureas e pretéritas, que gostaria de protagonizar ou de ter vivido, mantendo-se fiel ao melhor estilo narrativo cavalheiresco.

Conforme bem descreve o literato brasileiro Viana Moog, originário do Rio Grande do Sul, Dom Quixote torna-se alvo de todo tipo de escárnio:

 

“Sua vida é uma peleja contínua. Luta contra o cura e o barbeiro. Riem dele as meretrizes; apredrejam-no os galeotes por ele libertados; espanca-o o moço  de mulas do mercado de Toledo, quando, caído ao solo, enredado na própria armadura, já se não pode defender, porque, afinal, espancar os que se não podem defender é ação que corresponde aos moços de mula em todos os tempos.”

Outro escritor brasileiro a inspirar-se em Miguel de Cervantes foi o nordestino José Lins do Rego, no romance Fogo morto. Nesta ficção, o recurso à violência contra a personagem inspirada em Quixote pode ser constatado a seguir, em um comentário de outro protagonista, José Passarinho:

 

Encontrei lá embaixo o Capitão Vitorino que ia nos azeites. Pegou um menino de Chico Preto na tabica que quase lhe parte a cabeça. E quando Chico Preto apareceu para ver o que se passava, o capitão lá estava apeado, de punhal na mão, como uma fera. Nunca vi o capitão tão brabo. Eu cheguei e fui aquietando tudo. Também estes moleques fazem diabo com o velho!”

O folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu monumental Sociologia do açúcar, assim o enquadra o personagem quixotesco que, entre outros, Zé Lins reinventou na literatura brasileira: “Perdendo a fortuna, não perdia o direito satírico de diminuir quanto não lhe pertencesse. Acre. Rancoroso. Insubmisso. Pedro do Bom-Tom, pernambucano de Júlio Belo. Vitorino Carneiro da Cunha, paraibano de José Lins.”

Nesse diapasão, Zé Lins gostava de asseverar: “Ou o romancista movimenta os seus personagens com sangue e ideias, dando-lhes existência palpável, ou não passa de mero fabricador de figuras de papelão”.

Com efeito, e aqui ampliamos o debate para o terreno da criação e da inventividade literária, não se pode dizer que a aversão ao status e ao estereótipo do homem de letras seja apenas um dado idiossincrático do autor. A crítica aos artifícios da retórica e às regras da gramática, cultivadas pela tradição bacharelesca brasileira, foi uma marca de geração, uma reação desencadeada por jovens intelectuais que se formaram após a Primeira Guerra mundial, quando se desencanta o universo postiço dos dandys da belle-époque tropical.   Esta se formara entre 1890 e 1914, quando vertiginosas transformações técnico-científicas afetam o mundo e exercem notável influência sobre a fisionomia do Brasil, com novidades que vêm a alterar os hábitos e costumes da população brasileira.

Na virada para o século XX, havia três principais vertentes nas letras e nas artes do país: a geração de 1870, formada por Sílvio Romero, Tobias Barreto e outros expoentes da Escola do Recife, que ainda se fazia influente na vida intelectual da jovem república; a Academia Brasileira de Letras, criada em 1896 por literatos como Machado de Assis, José Veríssimo e João Ribeiro, aos quais logo se agregam políticos e membros da elite que em princípio nada tinham a ver com a literatura e que fazem dos salões literários meros palcos para exibição; o academismo francófono no ambiente das belas-artes, com os pintores e escultores brasileiros a imitar os cânones artísticos europeus, desde que a Missão Francesa, a convite de D. João VI, aqui se instalara no início do século XIX.

Somente depois dessas correntes é que se instaura o moderno regionalismo nordestino, nos anos 1920 e 1930. Com base nela, o crítico Tristão de Athayde irá dizer do personagem mais afamado do universo romanesco zeliniano, reafirmando sua inspiração na personagem de adjetivo quixotesco: “Dom Quixote sertanejo, o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, por alcunha ‘o Papa-Rabo’, seguramente uma das mais acabadas e tocantes figuras do nosso romanceiro nacional.”

Edição      Enrique Shiguematu

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As viagens de José Lins do Rego
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''José Lins chegou a traduzir um livro sobre a personagem (Eleonora Duse)…''

Na apresentação do livro póstumo O vulcão e a fonte (1958), seleção de crônicas do escritor e amigo José Lins do Rego, o acadêmico Ledo Ivo exprime com sapiência:

 

“O viajar de José Lins do Rego revigora a sua condição de clássico da língua, colocando-o ao lado de outros brasileiros que souberam ver a diversidade do mundo, como Joaquim Nabuco e Oliveira Lima, Eduardo Prado e Alceu Amoroso Lima, Ribeiro Couto e Érico Veríssimo. É o andar e flanar de viajantes que não ficaram encerrados nos quartos de hotéis ou sitiados pela algaravia dos seminários e congressos literários ou científicos, e souberam respirar o ar estrangeiro. E, depois, guardar essa respiração e convertê-la em visões e estampas iluminadas”.

Destarte, mais do que a descrição de um repórter comum ou de um turista passageiros – turistas a quem o romancista chamava de basbaques, como também o fez Graciliano Ramos em seu diário de bordo, publicado no livro Viagem: Tchecoslováquia e URSS (1952) ─, o que se nota é uma série de reflexões livres e de pensamentos esparsos. Estes aproximam as crônicas de viagem de José Lins do Rego ao gênero do ensaio. Gênero que, desenvolvido por Montaigne, encontrou grande receptividade entre ingleses e espanhóis, ensaístas estes muito apreciados por José Lins do Rego, como Miguel de Unamuno, Ganivet e Azorin.

Se as fontes da literatura hispânica e anglo-saxônica foram legadas a José Lins do Rego pela influência de Gilberto Freyre, como propôs a socióloga Elide Rugai Bastos, a afinidade eletiva entre a crônica de viagem e o ensaio é vislumbrada da mesma forma em relação ao romancista paraibano. Novamente é o poeta Ledo Ivo quem observa com acuidade:

 

“A essa visão das coisas e dos seres, José Lins do Rego soube dar o indispensável rendimento criativo, em suas várias matizações, fosse uma cheia do Paraíba ou um templo numa colina ateniense. Bota de sete léguas e Gregos e Troianos, marcados pelo teor do monólogo andejo, dada a condição de livros de viagens, participam também da natureza ensaística, tal como a narrativa que Montaigne fez de sua viagem à Itália e à Suíça, ou as deambulações dos ingleses em geral. Eles iluminam a mais larga etapa de José Lins do Rego, para quem as viagens eram lições, ciclos de aprendizagem, labor humanístico, e mostram como esse espírito ‘terrien’ dispunha de uma sensibilidade porosa ao repertório estrangeiro.”

 No período em que se radica no Rio de Janeiro, entre 1935 e 1957, apogeu da sua maturidade artística e intelectual, José Lins do Rego repisa as suas concepções de arte regional e arte universal, de identidade nacional e alma popular, de tradição e modernidade, de cosmopolitismo e provincianismo. Desfaz-se o provinciano e avulta o viajante cosmopolita. Isto se manifesta no início dos anos 1950 com Bota de sete léguas: o nome da obra é alusivo a uma clássica história infantil, o Pequeno Polegar, personagem folclórico que, para fugir de um ogro, vale-se dos calçados mágicos. As botas o fazem escapar do monstro perseguidor com rapidez, podendo assim partir pelo mundo afora.

Ainda naquele decênio, José Lins publica o opúsculo Roteiro de Israel. O elogio ao povo judeu se dá de duas maneiras: o reconhecimento da presença da História naquelas terras, com todo o peso da tradição; e o reconhecimento de uma nação moderna, e ainda tão jovem, se ajustar rapidamente aos novos ritmos do progresso:

 

“Deixamos o aeroporto nas proximidades de Tel-Aviv para a subida a Jerusalém. O céu é o mais azul que já vi, e as primeiras terras, verdes, cobertas de laranjais. Vamos caminhando para as raízes da nossa fé, para a cidade que fora escolhida para a primeira capital de Deus.

Há mais de dois mil anos que sobre Jerusalém caíram as fúrias do destino. Por aqui passaram os gregos, as legiões romanas de Tito, os exércitos das Cruzadas, as hostes muçulmanas. Até as pedras choraram e de tanto chorar foram ficando em cima da terra como lágrimas cristalizadas. Pedras sobre pedras. Nem um pedaço de solo para o arado das searas de Booz.

 

Mas o homem de 1949 voltou a Jerusalém para corrigir as desgraças dos tempos. Então o gênio agrícola dos mestres agrônomos de Israel pegou da realidade brutal  e se pôs a agir dominando os elementos. Pedras foram arrancadas e, através de plataformas furadas no dorso duro da serra, conseguiram os técnicos restabelecer a fecundação. Vinhais e laranjais se grudam aos rochedos como se fossem acrobatas de circo. E lá ficaram plantadas para o nosso assombro. A água se espalha pelos canos em esguichos que rodam no ar,”

 

Suas viagens também ocorrem em função do futebol, uma vez que era torcedor, cronista e dirigente esportivo. Depois de atuar em pequenas cidades suecas, próximas ao mar Báltico, o time do Flamengo segue para Dinamarca, França e Portugal, acompanhado por Zé Lins, chefe de delegação, a fim de disputar outros amistosos, em um total de dez partidas, das quais vence a maioria. Isto contribui para aumentar ainda mais a fama dos brasileiros, já então conhecidos como os “reis do futebol”, “os maiores do mundo”, com dotes malabarísticos e acrobáticos em seus desempenhos com a bola.

Nesse périplo, que passava por Portugal, aproveitou a passagem para um almoço literário. O escritor lusitano Miguel Torga (1907-1995), por exemplo, foi quem fez o discurso de saudação a José Lins, quando este se encontrava em Coimbra. O autor de Criação do mundo discursou de maneira emocionada e falou do romancista brasileiro como uma forma mais ampla de ressaltar os laços de união afetiva entre Brasil e Portugal:

 

“Temos entre nós, sentado à mesa da pequena casa lusitana, José Lins do Rego, que na companhia de um punhado de jogadores do Flamengo atravessou o Atlântico. Na adulta consciência de um dos seus maiores escritores, e na destreza lúcida da sua mocidade, visita-nos a descomunal grandeza do Brasil, durante séculos a levedar, e finalmente a florir.”

Por fim, cabe pontuar que o escritor também se interessou por personalidades que gostavam de viajar. Foi o caso da atriz italiana Eleonora Duse (1858-1924) que, residente nos Estados Unidos, visitou o Brasil no início do século XX, em uma de suas turnês à América do Sul. José Lins chegou a traduzir um livro sobre a personagem para a editora José Olympio. No prólogo de abertura, discorre sobre a situação trágica da atriz:

 

“Ela, que despertava com tanta veemência amor nos outros, não podia amar. A sua voz, que era de um canto de veludo, era para todos. Teria que se dar, da cabeça aos pés: havia um público, que queria mais. Sofreu muito, abafou com as mãos magras os gemidos que lhe vinham do peito. Foi desprezada, foi cuspida pelo desprezo do poeta cruel, foi ultrajada. Mas tanta miséria não lhe secou a alma, sempre sensível à dor da humanidade. Quando, no palco, representava a dor de uma personagem, era ela mesma que era a dor; ela vivia a sua própria vida”.

Edição      Enrique Shiguematu

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A experiência da tradução na literatura brasileira
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Ele (Caio Prado Júnior) viajou pela União Soviética e, a partir da experiência, descreveu a viagem no livro: URSS – um novo mundo.''

As informações sobre os mecanismos que decidem pela tradução de uma obra costumam ser dados de bastidor, pouco acessíveis ao grande público, pois envolvem negociações entre editores, autores e tradutores. O que se pode fazer como pesquisador é, aqui e ali, deduzir, inferir por meio de perguntas: como e por que uma determinada obra foi escolhida para ser vertida em outra língua? Ou podemos, ao menos, formular nossas próprias conjecturas, com base no contexto histórico em que ela ocorreu.

Vejamos o caso dos livros brasileiros vertidos para o russo, a partir das viagens de seus escritores. O ditador Joseph Stálin estava à frente do comando da União Soviética, desde que a morte de Lênin em 1924 abriu a luta pelo poder entre ele e seu concorrente Leon Trotski. A URSS vivia em uma franca expansão imperial, em meio à ascensão totalitária no mundo. O Comunismo iria mais tarde se abalroar com a concorrência do Nazismo e do Fascismo, resultando, entre outros elementos, em batalhas inflamadas durante a Segunda Guerra, como a famosa luta libertadora de Stalingrado.

No ano de 1934, o escritor Caio Prado Júnior era jovem, formado em Direito e convertido ao comunismo no início dos anos 1930. Ele viajou pela União Soviética e, a partir da experiência, descreveu a viagem no livro: URSS – um novo mundo. Logo depois o exemplo de Caio foi seguido por Jorge Amado. Já no início da década de 1950, Graciliano Ramos, igualmente adepto do PC, também conheceu a vida nos países da “Cortina de Ferro”. Foi não só à URSS, mas também à Tchecoslováquia.

De maneira direta ou indireta, as viagens possibilitaram desmistificar as visões maniqueístas, além de favorecer as relações pessoais e uma política de tradução dos romances desses escritores nos países “vermelhos”. As obras tiveram grande peso para a difusão da literatura brasileira naquela região do globo, área que cada vez mais se isolava do capitalismo ocidental, com o avanço da Guerra Fria e o acirramento da bipolarização mundial.

Veja-se também o caso dos autores modernistas vertidos para o francês. Os contatos de Blaise Cendrars com o modernismo no Brasil “vinham de longe”. A ligação remontava aos anos 1920, ocasião em que, ciceroneado pelos modernistas no Rio e em São Paulo, Blaise visitou as cidades coloniais mineiras. Lá, maravilhou-se com o barroco de típico corte brasileiro, talhado em madeira e em ouro. Destes, a obra escultórica e arquitetônica do mestiço Aleijadinho tornou-se seu maior exemplo.

Paulo Prado dá testemunho disso na parte integrante da apresentação de Cendrars a L’enfant de la plantation. O título do prefácio é sensorial e emotivo: A voz do sangue. O poeta europeu acentuou a admiração pelo livro. O sabor tropical da novela parece ter um quê de mistério. Identificado por Cendrars como novidade que se assemelha sensorialmente a um frescor, o poeta assim testemunha:

 

“Sinto-me incapaz de contar a vocês como é escrito. Não há frases, quase que não há palavras e as que são usadas são tão correntes e apagadas como pobres vinténs e é difícil acreditar que encerrem um valor suficiente para exprimir o que uma alma de criança tem de mais precioso a dizer e a formar um tesouro. Quase que tudo está coberto por uma terra ardente que irradia tristeza sob a felicidade de viver, de existir. Não sei como acontece isto, mas quando leio estas páginas, passarinhos saltitam de uma linha para outra. Meu sangue bate mais depressa. Todo o Brasil está neste livro transparente.”

 

Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Raymundo Magalhães Júnior, Dinah Silveira de Queiroz, Gastão Cruls, Vinícius de Moraes, Alceu Amoroso Lima, Gustavo Barroso, José Geraldo Vieira, Lúcia Miguel Pereira, Valdemar Cavalcanti, Genolino Amado, Acioli Neto, Adalgisa Nery, Almir de Andrade, Vivaldo Coaracy, Luís Jardim, Clóvis Ramalhete, Guilherme de Almeida, Heman Lima, Brito Broca, Rubem Braga (“Terra dos homens”, de Saint-Éxupery) e Lucio Cardoso (“Orgulho e preconceito”, de Jane Austin) figuraram como tradutores, em um estágio de desenvolvimento literário em que a tradução não cabia a profissionais.

Deve-se ainda ressaltar que muitas vezes o livro, embora fosse escrito originalmente em uma língua, como o russo, não era traduzido diretamente, mas conhecia a versão em língua inglesa ou francesa, as mais comuns no terreno da tradução vinda da Europa.

Mas afinal, o que vem a ser uma tradução? Apenas a conversão de um texto de uma língua estrangeira em uma língua local? Ou o movimento inverso de passar um texto em português para outra língua? Seria tão-somente um procedimento técnico-burocrático de identificar palavras equivalentes em dois idiomas distintos? A nos fiarmos em seu étimo, podemos dizer que tradução vem do latim tradere, que significa trazer, mas também, e de modo ambivalente, trair…

Convido o leitor a refletir mais a fundo sobre o assunto e proponho um sentido mais amplo para a acepção de “tradução”. Por que não pensarmos a passagem de um texto literário para uma adaptação teatral ou cinematográfica como um processo de tradução? O que se ganha e o que se perde neste movimento? Ou, no caso da literatura para o cinema: também poderíamos considerar a mudança de suporte como mecanismos de tradução? Um livro, um filme, uma peça, um programa de televisão são leituras da realidade e qualquer deslocamento de um tipo a outro não implicaria uma “tradução”?

Se estivermos de acordo quanto a isso, podemos continuar a observar as diversas e múltiplas traduções das obras de José Lins ao longo do tempo. No caso do teatro, o romance de José Lins chegou a ser adaptado pelo menos uma vez. A adaptação ocorreu em 1955 e o livro escolhido foi Fogo morto. Em crônica de setembro daquele ano, na sua coluna de jornal “Homens, seres e coisas”, o escritor relatou suas impressões da peça:

 

“Fui ver em São Paulo, levado por um grupo de amadores, a adaptação que fez, para o teatro, José Carlos Cavalcanti Borges, do meu romance Fogo morto. E a impressão que me deixou o esforço e a coragem dos jovens amadores paulistas foi a melhor. Para uma sala cheia o drama de Luís de Holanda Chacon, o Seu Lula, chegou a me empolgar. A doença e o orgulho se encontraram na obsessão pela grandeza defunta. José Carlos conseguiu exprimir em diálogos e monólogos a decadência da família rural destruída pela soberba de um homem no fim de raça. A doença deu a Seu Lula um tom lúgubre de raciocínio. Tudo para ele se resumia na filha que ia se consumindo na esterilidade de uma vida reclusa. O mundo lá de fora não existia para o pai que sonhava com um príncipe para entregar a sua filha. Tudo que não fosse a medida de seu sonho era uma vergonha. E assim o drama cresce em poesia pungente. A figura da mãe sacrificada é uma imagem da dor concentrada nas humilhações da pobreza. A presença de Vitorino Carneiro da Cunha dá à adaptação de José Carlos um triste cômico de teatro espanhol. Vitorino se espalha com a sua loucura como um verdadeiro pé-de-vento. O trágico e o cômico se cruzam na sua personalidade em atitudes e gestos que nos emocionam. Vitorino faz rir e chorar como um chapliniano autêntico. Dou parabéns a José Carlos Cavalcanti Borges. O que ele sentiu de meu livro é bem o comentário doloroso de um fim de época. Há muito de Pernambuco dos últimos senhores arrebatados na vigorosa interpretação do seu drama. Eu mesmo que imaginei os personagens me deixei surpreender pelos achados do escritor que soube arrancar das minhas pobres almas as suas terríveis particularidades.”

Edição      Enrique Shiguematu

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Os escritores e os clubes de futebol
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Augusto Frederico Schmidt, por exemplo, era torcedor do Botafogo e exerceu cargos no clube.''

“Amo o Flamengo como fosse um pedaço da terra onde nasci.”

José Lins do Rego

“Era povo. Sentia povo. Respirava povo.

E como povo que era, entrou pelo futebol adentro e foi um fã,

desses de chorar ou rir, de matar ou morrer pelo seu clube.”

Carlos Lacerda,

discurso na Câmara dos Deputados (1957)

 

Embora muitos ressaltem as distâncias entre a literatura e o futebol, nem todos os escritores brasileiros foram infensos ao espectro do clubismo. Augusto Frederico Schmidt, por exemplo, era torcedor do Botafogo e exerceu cargos no clube. Além deste poeta e editor, Schmidt foi presidente do Club de Regatas Botafogo, entre 1941 e 1942. Um dos últimos atos de sua gestão foi idealizar a fusão do clube que presidia com o homônimo de futebol, o Botafogo Football Club, criando assim o Botafogo de Futebol e Regatas, como até hoje é conhecido o time da “estrela solitária”.

Caso curioso foi o do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Torcedor do América do Rio, como Marques Rebelo, destacou-se por fazer um poema ao clube. Sendo uma agremiação modesta da zona norte da cidade, que contava no entanto com a simpatia dos torcedores de outras equipes cariocas, o América foi alvo de uma poesia pouco comum, em que João Cabral faz uma espécie de elogio da derrota e da abnegação do torcedor americano.

Eis os versos, contido no livro Museu de tudo (1975):

 

“O desábito de vencer

Não cria o calo da vitória;

Não dá à vitória o fio cego

Não lhe cansa as molas nervosas.

Guarda-a sem mofo: coisa fresca,

Pele sensível, núbil, nova,

Ácida à língua qual cajá,

Salto do sol no Cais da Aurora”

 

O tom poético-melancólico de Cabral em tudo destoa do ufanismo clubístico do romancista paraibano José Lins do Rego (1901-1957). A título de exemplo, acompanhe-se mais esta crônica publicada no Jornal dos Sports:

 

“Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengos são brasileiros de todas cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juracy Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos”.

A capacidade de plasmar a pluralidade de características da nação e de condensar os seus polos mais antagônicos fazia do Flamengo, na visão apaixonada de José Lins, um clube diferente. No texto A sucessão no Flamengo, escrito na conjuntura posterior à Segunda Guerra, José Lins explicitava o caráter essencialmente anti-ditatorial do clube: “Somos uma comunidade democrática. Não topamos os ditadores e não nos agradam os que gritam e dão murros na mesa. O clube é cordial. E isto é tudo.”      

Seu ufanismo arrefecia quando passava da escala do clube ao da nação. Embora tivesse pendor patriótico, era capaz de analisar a Seleção Brasileira em chave menos exaltada. Na crônica O caráter do brasileiro, José Lins fez as vezes de sociólogo e se posicionou com as seguintes observações conclusivas sobre o Mundial de 1950, em que o time do Brasil foi derrotado pelos uruguaios:

 

“A Copa do Mundo, que se acabou tão melancolicamente, deu-me a impressão de uma experiência amarga, capaz de completar minhas impressões sobre o caráter do nosso povo. Vimos, no Estádio do Maracanã, uma multidão como raramente se tem aglomerado, em manifestações coletivas, no Brasil. Vimos duzentas mil pessoas comprimidas numa praça de esportes, nas reações mais diversas, ora na gritaria das ovações, no barulho das vaias ou no angustioso silêncio da expectativa de um fracasso. Ali estava todo o povo brasileiro, uma média de homens e mulheres de todas as classes sociais. Não era o Brasil de um grupo, de uma região, de uma classe. Era o Brasil em corpo inteiro. Para o observador social, para os que têm o poder de revelar o que há de mais particular nos povos, o campo era o mais propício. Mas para mim as observações começaram antes dos jogos sensacionais. Tive a oportunidade, como dirigente, de travar conhecimento, mais íntimo, com os que procuravam as acomodações, com os que tinham parcela de mando, com os que se sentiam com o direito de crítica, e mais ainda, com a lama das sarjetas, que queria passar pela água mais lustral deste mundo. E me perguntará o leitor: que impressão lhe deixou o brasileiro? Boa ou má? E diria sem medo de cair no exagero: uma boa impressão. Senti que havia povo na Nação – uma nova gente com capacidade de se congregar para uma causa, para uma obra, para os sofrimentos de um fracasso. Fizemos um estádio ciclópico, em menos de dois anos; organizamos um campeonato mundial, o de mais ordem até hoje realizado; formamos uma equipe perfeita de futebol. E, quando o título nos fugiu das mãos, soubemos perder, dando aos turbulentos sul-americanos uma lição de ética esportiva”.

Recorde-se que a representação do Brasil através do futebol tinha começado a ser construída doze anos antes, na Copa de França de 1938, quando justamente Leônidas da Silva, jogador do Clube de Regatas do Flamengo, se consagrou e conquistou através do rádio a notoriedade popular. A partir daí, e pelo resto da vida, José Lins tornou-se um fã de carteirinha do futebol, em particular do Flamengo. Seja como torcedor inveterado, como cronista diário ou como dirigente esportivo, o certo é que o romancista teve muitas alegrias – e também algumas tristezas – com este esporte.

Apesar dos eventuais dissabores, sua paixão ficou eternizada no “couro mágico” do atacante Leônidas (Diamante Negro), do meio-campista Fausto (A maravilha negra) e do defensor Domingos da Guia. Foram esses atletas negros que deram ao clube, conforme afirmava Mario Filho, a sua “transfusão de popularidade”. Esta se perpetuou nos pés de vários outros craques do time rubro-negro no decorrer dos anos 1940 e 50, graças à floração de Índio, Biguá, Servílio, Rubens, Evaristo, Zagalo, Benítez, Esquerdinha, Babá, Dida, entre tantos outros jogadores de origem popular, procedentes do Nordeste, do Sul e dos rincões mais longínquos do Brasil.

De José Lins do Rego, e sua paixão pelo Flamengo, pode-se dizer o mesmo que a canção de Wilson Baptista, Samba rubro-negro, composta nos anos 50, cujo refrão estribilha: “Pode chover,/ pode o sol me queimar/Que eu vou pra ver,/a Charanga do Jaime tocar/― Flamengo, Flamengo,/ sua glória é lutar/Quando o Mengo perde,/ Eu não quero almoçar, eu não quero jantar…”

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego em família
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''… de um lado, uma calorosa passionalidade, que o irmana aos demais seres, aos homens comuns; de outro, uma humildade, por assim dizer, cristã.''

“Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama”.

(Jorge de Lima, A invenção de Orfeu)

 

 

José Lins do Rego foi casado com Philomena Massa, que conheceu de modo fortuito aos dezoito anos de idade (1919), num vagão de trem indo à capital da Paraíba. Philomena era filha de um político nordestino, o senador Antônio Massa. Este, de acordo com prática comum na história brasileira, valeu-se de sua posição e de seu status político para dar proteção ao futuro escritor. Massa conseguiu, para o genro recém-formado, um emprego público no aparelho jurídico do Estado. A seguir, nomeou-o no Ministério da Justiça. Esta nomeação foi seguida no ano de 1925 pela viabilização de uma transferência para a promotoria pública de uma pequena cidade de Minas Gerais, Manhuaçu. Nesta, ficou por pouco tempo, até retornar novamente ao Nordeste, desta vez à capital alagoana, Maceió.

Nessa cidade, viveu uma década, entre 1926 e 1935, onde ganhou projeção como crítico literário e teve três filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória e Maria Christina. Em 1935, Zé Lins foi nomeado para fiscal do imposto de consumo do estado do Rio de Janeiro e na capital do Rio fixou residência. Depois de morar nos bairros de Botafogo e do Humaitá, construiu uma casa no Jardim Botânico, perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, mais precisamente na rua General Garzon.

A casa da zona sul gozava de uma espécie de personalidade própria, todos a tratavam pela alcunha de “o Garzon” e ficava sempre aberta para receber os amigos de José Lins, como Thiago de Melo, Octávio Tarquínio de Souza e os irmãos Condé, em rodas de violão na entrada da casa ou em jantares organizados por Naná, apelido caseiro de Philomena. Isto sem contar as reuniões costumeiras em família, tal como singelamente recorda a filha caçula, também escritora: “… os almoços de domingo, papai sempre servido em primeiro lugar pela minha mãe, que lhe preparava cosidos maravilhosos, galinha gorda com pirão, as famosas fritadas de camarão, e depois a espera da carona do Mario Filho, que vinha sempre buscá-lo para o futebol”.

Assim como a construção, a casa do Jardim Botânico, em frente ao Jockey Club da Lagoa, foi montada e mobiliada aos poucos. Novamente é a filha mais nova, Maria Christina, que considerava a casa ora um castelo ora uma réplica do engenho, com seu cheiro de comida inesquecível, quem conta sobre a decoração do lar, feita pela mãe Naná:

 

“Mamãe tinha um ótimo gosto, mandou buscar o sofá de palhinha com as quatro cadeiras de jacarandá do engenho, mobília remanescente que ficara guardada em casa de parentes — com eles vieram também o lampião de opalina azul com a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do meu pai. Santa Rosa, que ilustrava os livros de meu pai, fora enviado a copiar a sala de jantar que estava na vitrine da Leandro Martins, fez um croqui perfeito, lindo, que mandaram executar pela metade do preço no Catete. Os quadros iam chegando e era papai mesmo quem os pendurava: os Di Cavalcanti, Portinari, Guignard, os Cíceros com a sua fase poética, belíssimos, o menino azul do Dacosta, mas eu adorava ficar olhando a menina no orfanato vestida de uniforme bordeaux segurando uma carta. Aquele quadro do Cícero me tocava profundamente.”

Sobre os afazeres domésticos, e o cotidiano da mãe no dia a dia da Garzon, é também Christina quem narra:

 

“Minha mãe era uma boa católica, não de ir à missa, mas não perdia sua feira dos domingos. Voltava com um carregador levando na cabeça um cesto enorme que vinha cheio de frutas, legumes e flores para enfeitar o Garzon. Quando chegava fazia cestos de frutas e legumes lindos enfeitando a cozinha, na sala colocava sempre no jarro que meu pai trouxera de Portugal, as flores mais bonitas que encontrasse”.

No final da vida, após o falecimento de José Lins, a relação de Naná com a casa do Jardim Botânico se estreitou ainda mais. É ainda a caçula Christina, afilhada de Olívio Montenegro, quem recorda: “Com o desaparecimento do nosso pai, minha mãe continuou firme morando no Garzon. Com o dinheiro que ganhou na Loteria Esportiva, mandou pintar toda a casa. E todo o dinheiro que entrava dos livros de meu pai era para melhorar o Garzon. (…) morreu minha mãe amando o Garzon até os seus últimos momentos de lucidez. E hoje, quando passo pela nossa casa, procuro não olhar nem para a esquina, não consigo sentir mais nada. É como se sua alma tivesse partido com minha mãe”.

Em 1947, aos quarenta e seis anos, José Lins do Rego deu um depoimento a um jornal carioca, logo após a publicação de Eurídice, seu undécimo e penúltimo romance: “Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo com muitos sonos e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol; se faz calor, tenho saudades da chuva. Temo os poderes de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo dos meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Afinal de contas, sou um homem como os outros e Deus permita que assim continue”.

No autorretrato do escritor, já consagrado pela crítica e pelo público, observa-se um traço recorrente nas ocasiões em que fala de si: a ênfase no seu lado humano, terra-a-terra, na sua condição de simples mortal. Queria com isto, parece não muito difícil perceber, afastar-se da tradicional imagem do escritor como um indivíduo frio e esnobe, dotado de “alta” cultura, alguém enfim encastelado nas redomas da arte e nas elucubrações do intelecto, em nome de um culto artificial que dificilmente o faz descer da torre de marfim.

Nas diversas vezes em que aborda a própria personalidade, José Lins do Rego enfatiza, com insistência, sua posição diametralmente oposta à desse tipo de literato de gabinete. Em verdade, trata-se de um duplo acento: de um lado, uma calorosa passionalidade, que o irmana aos demais seres, aos homens comuns; de outro, uma humildade, por assim dizer, cristã. Ambas atravessam de ponta a ponta o espelho idealizado e construído ao longo da vida pelo próprio escritor. É o romancista da palavra direta e espontânea, é o cronista sem papas na língua, que gostava de evocar com frequência a filosofia de Montaigne: “le parler que j’aime c’est un parler simple e naïf, tel sur le papier qu’à la bouche”.

A escrita almeja desse modo se confundir com o tom coloquial mais chão, que advém do contato popular, reproduzindo na letra impressa a voz das ruas, o burburinho das esquinas, o fuzuê dos estádios de futebol. Isto explica talvez o fato de o autor ter assinado durante anos uma coluna de jornal com o nome de “Conversa de Lotação”.  “O estilo é o homem”, dizia Buffon, e José Lins do Rego parece ter querido seguir à risca o aforismo, fazendo da simplicidade franciscana, da comunhão com a natureza e da impressão imediata das coisas a sua profissão de fé.

Edição      Enrique Shiguematu

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