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O Iluminismo em questão
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''… seriam as ideias iluministas um ponto de chegada do Renascimento ou um ponto de partida da modernidade?''  –  Pintura  Joseph Wright ‘of Derby’

Pergunta-se Geoffrey Hawthorn, em seu livro Iluminismo e dúvida: seriam as ideias iluministas um ponto de chegada do Renascimento ou um ponto de partida da modernidade? Se é possível conhecer a perfeição das leis da natureza, como fez a Revolução Científica do século XVII, os philosophes acreditaram ser possível conhecer as leis da sociedade e dotar o mundo social da mesma perfeição que o mundo natural. Eis a missão precípua da filosofia francesa: mais do que refletir sobre o conhecimento, ela buscava reunir e sistematizar todo o conhecimento humano universal produzido até o século XVIII, de modo a irradiá-lo para todo o globo e transmiti-lo sob a forma da universalização do saber e da educação.

Como isto se deu? Através da Enciclopédia, publicada a partir de 1751 por Diderot e D’Alambert em mais de 30 volumes. Robert Darnton, historiador norte-americano, que estudou a história da publicação, critica tal marco, bem como o arcabouço da filosofia das ideias, que deixa de lado a base material e os processos concretos de produção de uma obra. Com isto, desconstrói certa visão imaculada dos intelectuais que escrevem numa torre de marfim.

Um certo esquematismo histórico costuma apresentar na Europa a Revolução Científica e aquilo que aconteceu entre os séculos XV e XVIII como um progressivo embate entre Fé, de um lado, e Razão, de outro. Nada mais esquemático e simplificador.  De fato, o Iluminismo lutou com todas as suas forças contra a superstição e o obscurantismo, mas é preciso frisar como, desde a Renascença, a lei natural e a lei divina estão separadas, porém integradas.

O argumento central de Hawthorn é o de que há um deslocamento sutil no discurso que equaciona Deus, Natureza e Razão, de maneira que o primeiro elemento, antes separado e anterior ao segundo, passa pouco a pouco a ser expressão deste, o que justifica e autoriza o conhecimento divino por intermédio do conhecimento divino. Foi observado também que não é possível pensar numa homogeneidade exclusiva francesa em relação ao Iluminismo, posto que há inúmeras variáveis importantes a serem consideradas, sobretudo três:

  1.                 A) O privilégio no racionalismo, com a elaboração de quadro conceituais e sistemáticos dedutivos, versus empirismo, em que a realidade empírica permite a indução e a generalização de teorias;
  2.                 B) As diferenças religiosas na Europa, entre católicos e protestantes;
  3.                 C) As tradições políticas de cada país, com o predomínio seja da nobreza no caso francês, seja da burguesia no caso inglês.

Dito isso, o autor busca pensar as teorias sociais formuladas pelos autores ligados ao Iluminismo, como Montesquieu e Rousseau, que fornecem respostas a uma pergunta fundamental: se a natureza é uma expressão divina e se cabe ao homem conhecer a natureza, qual o lugar do Homem na Natureza?

Isso implica em uma antiga questão moral, junto a uma questão científica. Montesquieu, nobre barão de uma província francesa, em O Espírito das Leis, se propõe a pensar a existência de uma lei e de uma justiça universais, mas percebe que as variações locais implicam em leis e justiças particulares. As variantes locais derivam de diferenças manifestadas no temperamento entre os homens, por sua vez originadas das oscilações naturais, em fatores como o clima. Tem-se aí esboçada uma distinção entre o universal e o relativo, ainda que do ponto de vista climático.

O lugar do homem na natureza, segundo o sistema rousseauniano, está relacionado à ideia de um contrato social e de uma liberdade civil, que entende não ser mais possível um refúgio na natureza primitiva do homem selvagem. Embora seja o homem corrompido pela sociedade, enquanto um “bom selvagem” vive à margem dela, sem seus vícios, a humanidade passou por 4 estágios, a partir dos quais conheceu a moral, o bem e o mal, e não cabe regredir a um passado idílico, nem é possível simplesmente abolir o mal. A relação do homem com a natureza por abrir mão de suas vontades meramente instintivas e individualistas e fundar uma ordem social em que o ser humano seja consciente de seus direitos e deveres para com o outro e para consigo mesmo.

Edição      Enrique Shiguematu

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Historiografia das cidades medievais e modernas
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''…uma grande cidade provincial como Lyon, onde, sob o controle dos “Villeroi”, governadores herdeiros daquela cidade, em uma cidade sem Parlamento, as elites – sublinha Y. Lignereux – não tem um comportamento específico.''

Desde a Idade Média, há uma ligação direta entre a cidade, a organização da sociedade e a hierarquia das comunidades de ofício, tanto do ponto de vista jurídico e simbólico quanto do ponto de vista econômico. A influência das comunidades de trabalhadores está longe de se confinar nos limites da cidade, mas as profissões qualificadas, as artes mecânicas que conferem alguma ‘nobreza’ ao artesão se concentram, primeiro, na cidade. Em uma cidade organizada em corporações e hierarquizadas por privilégios, as comunidades de trabalho têm um papel não negligenciável na definição das identidades urbanas.

O lugar mais prestigioso entre elas no governo de certas cidades, sua contribuição nas cerimônias e nas procissões, em seus faustos de patriotismo citadino, ao menos até o fim do século XVII, sublinha a relação que existe entre elas e a cidade. Longe de ser moribundas no tempo das Luzes, quando se levantam os fermentos da crítica liberal, as comunidades fazem prova de capacidade de adaptação que testemunha sua importância econômica, como demonstra no caso de Turim a historiadora italiana Simona Cerutti (1990). Tais comunidades provam ainda como elas se encontram no centro dos conflitos de poder e de prestígio entre grupos citadinos dirigentes.

Aliás, as cidades que se beneficiam globalmente de um crescimento demográfico maior do que aquele do resto da população do reinado entre os séculos XVII e XVIII, constituem um mercado de trabalho em expansão, rico em trabalhos não-qualificados, situados fora do quadro corporativo. Esta população assalariada e operária, composta de migrantes, mantém ainda algum nível de relação com as vilas de origem. Ela ilustra a mobilidade da sociedade urbana que contradiz o modelo de relativo fechamento e de imobilidade social defendido pelas elites urbanas. Mas esta massa instável de mercadores ambulantes, de toda sorte de revendedores e de empregados domésticos, apesar do fascínio exercido e da norma constituída pelo “idioma corporativo”, que parece se diluir pois ele não cimenta mais as antigas identidades citadinas, torna-se um elemento obrigatório de evocação na grande cidade.

A apreensão do mundo do trabalho, seja ele desorganizado, deve muito à chave oferecida pelas comunidades de trabalho. Mais além, é progressivamente a imagem do monstro citadino, associado aos trabalhadores braçais e dos pregoeiros que se impõe através dos lugares comuns das narrativas de viagem ou das descrições dos moralistas do século das Luzes. Que se trate então de comunidades de trabalhadores ou de pequenos mercadores de rua e de portos, a cidade se perfila como pano de fundo desta evocação, seja como ambiente jurídico e social seja como instância econômica seja como simples paisagem.

O século XVII constitui uma etapa importante na história social da Europa ocidental. Para as cidades trata-se de um período de transição. De um lado, um crescimento lento, mas regular, nas cidades francesas; de outro lado, a estagnação das cidades espanholas e o começo da grande industrialização inglesa. Essas evoluções, assim como a nova afirmação centralizadora dos Estados modernos, têm consequências sobre as funções das cidades, sobre suas instituições, sobre as relações que elas entretêm com as elites sociais, sobre a religião, a cultura e as artes, assim como, sobre a condição dos pobres e o estatuto da pobreza no meio urbano. A complexidade e a diversidade das sociedades urbanas da França, da Espanha e da Inglaterra são também reveladoras das premissas da modernidade que desponta no século seguinte.

Na Europa ocidental, desde o século XIII, mesmo se os campos e aqueles que aí vivem continuam a viver longe da sociedade, mesmo se eles continuam terrenos senhoriais, isto é, feudais, um processo fundamental de mudança se coloca em curso, do qual as cidades e seus habitantes são os atores principais. No século XVIII, não há dúvida: nós temos sociedades dominadas por cidades e cidadãos que, como forma de reação, influenciam, depois de 1760, o desenvolvimento de um sentimento de natureza do qual a expressão é cada vez mais frequente. Nesta evolução de conjunto, o século XVII é particularmente interessante para compreender a evolução das nossas sociedades.

O primeiro tema escolhido foi aquele da relação entre as elites e as cidades, particularmente complexo na medida em que as elites nas cidades e as elites sociais não estão forçosamente presentes, como o mostra exemplo da Inglaterra do mesmo século. Se os valores sociais dominantes permanecem nobiliárquicos, repousando largamente sobre a terra, da qual os nobres tiram sempre o essencial dos seus dividendos, ao menos uma parte desses nobres eram antes cidadãos – houve uma destacada passagem da nobreza no fim do século XVI e início do século XVII – muitos, notadamente na Espanha participaram da administração das cidades e, sobretudo, no curso do século XVII, a relação entre os nobres as cidades foram cada vez mais numerosas, como sublinham Poussou, Bourquin e Vergé-Franchesi (2007).

No século XVII, todo o mundo partilha o senso de honra, fazendo deste um valor primordial: é o que mostra D. Turrel a propósito da prática do “bonnet vert” para os “faillis”, colocado em prática justamente neste momento. Isto se verifica da mesma maneira através do exemplo de uma grande cidade provincial como Lyon, onde, sob o controle dos “Villeroi”, governadores herdeiros daquela cidade, em uma cidade sem Parlamento, as elites – sublinha Y. Lignereux – não tem um comportamento específico. Não há dúvida de que isto permite compreender por que na Inglaterra da segunda metade do século XVII se opera uma unificação cada vez maior entre os comportamentos das esferas médias e, em um degrau menor, inferiores – pois os “squires” ficaram no campo – da nobreza inglesa, a gentry, e das elites urbanas. Através do desenvolvimento de uma pseudo-gentry e da passagem a uma definição do gentleman, as elites urbanas se agregaram às elites sociais.

Esse foi o efeito de uma “modernidade” crescente da sociedade inglesa, muito menos evidente na França e na Espanha onde o poder do Estado era mais pesado. Em relação às cidades e ao Estado, os portos foram um objeto privilegiado, assim como aqueles do comércio e dos arsenais. Parecia, com efeito, que  o funcionamento das cidades era melhor conhecido que o dos portos, levando à escolha das relações entre a vida política urbana e os elos sociais, de uma parte, e aquelas das milícias burguesas, de outra.

Já para Laurent Bourquin a presença da nobreza nas cidades é, à primeira vista, bem discreta. Mas a segunda ordem da sociedade do Antigo Regime considera a cidade familiar e pode-se dizer que os nobres partilhavam uma cultura urbana, ocupando um papel de mediadores culturais entre os mundos da cidade e do campo. Este conhecimento nobiliárquico da cidade, de sua cultura e de sua sociedade, nos leva a compreender o processo que prepara a urbanização do século XVIII. Mas a nobreza é urbanizada ou as elites urbanas são enobrecidas? A resposta a essa pergunta se esboça em princípios do século XVII e se precisa na fusão de elites largamente favorecidas pelo Estado.

 

Referências bibliográficas

MILLIOT, Vincent. « La ville au miroir des métiers: représentations du monde du travail et imaginaires de la ville (XVIe et XVIIIe siècle) ». In : PETITFRÈRE, Claude (Org.). Images et imaginaires de la ville à l’époque moderne. Tours : Maison des Sciences de la Ville, 1998.

POUSSOU, Jean-Pierre (Org.). Les sociétés urbaines au XVIIe siècles : Angleterre, France, Espagne. Paris : Presses de l’Université Paris-Sorbonne, 2007.  

Edição      Enrique Shiguematu

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A história e a política em Quentin Skinner
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

 

Quentin Skinner é um historiador britânico, nascido em 1940, que atua como professor de ciência política em Cambridge desde 1978, ano da publicação seminal de “As fundações do pensamento político moderno”. Seu livro seguinte, sobre Maquiavel, data de 1981, projetando-o na historiografia política internacional. Skinner ampara-se em Hans Baron, Keith Thomas e John G.A. Pocock, estudiosos que insistem sobre a contribuição das doutrinas aristotélicas na formação do humanismo “cidadão”. O objetivo do livro de 1981 é dar um retrato de Maquiavel como essencialmente o porta-voz de uma tradição humanista bem específica no seio do republicanismo clássico.

Entre os aspectos originais e criativos da concepção da política de Maquiavel, Skinner destaca as reações polêmicas, às vezes sob o modo da sátira, face ao conjunto dos valores humanistas dos quais ele é herdeiro e aos quais permanece subscrito. Recupera a categoria central do autor, a virtù (do latim virtus), para reconstituir o contexto no qual sua obra foi originalmente concebida: o contexto intelectual – efeito da filosofia clássica, mas também aquela da Renascença; e o contexto político – emergente na vida cotidiana dos principados italianos neste começo do século XVI.

Já no livro anterior, de 1978, Skinner dedicou-se à história do pensamento político entre os séculos XIII e XVI. Sua obra mergulha nas diversas correntes de pensamento e na interpretação dos escritos políticos de uma plêiade de autores renascentistas, tais como Dante, Marsílio, Bártoli, Maquiavel, Erasmo, Thomas More, Lutero, Calvino, Bodin, Montaigne, entre outros. O conceito-chave de Estado é entendido como a elaboração progressiva do vocabulário do pensamento político. Aborda tanto teóricos constitucionalistas franceses, como Bodin, Bèze, Hotman, Mornay, quanto autores clássicos, Pierre Mesnard, responsável por L’essor de la philosophie politique au XVIe siècle. Seu objetivo primordial é o esclarecimento da maneira pela qual é formada a concepção moderna de Estado.

O autor explora a transição decisiva entre a passagem da ideia do soberano e a existência de uma ordem legal e constituída separada, aquela do Estado, que o soberano tem o dever de defender. Em consequência, o poder do Estado passa a ser a base do governo, não mais o soberano. Em termos modernos, o Estado é a fonte única da lei e a força legítima sobre seu próprio território, como o único objeto de alegação para os cidadãos. Passa-se assim da história à semântica histórica, da concepção de Estado à palavra Estado, em particular na França e na Inglaterra. Isto pois, a seu juízo, o melhor signo de apropriação consciente por uma sociedade de um novo conceito é a formação de um novo vocabulário.

Para tanto, recebe a influência de outro historiador britânico, R. G. Colligwood, bem como inspira-se no método do livro supracitado de Mesnard, a fim de investigar a história dos textos clássicos. O método de Skinner constitui a matriz intelectual e social geral de onde saem os teóricos, frisando os elementos mais característicos da sociedade na e para a qual são escritos. A vida política coloca os problemas de que irão tratar os teóricos, a exemplo da produção dos textos: um contexto feito de escritos antecedentes e ideias adquiridas sobre a comunidade política.

Seu propósito é recolocar os textos clássicos nos contextos ideológicos, de modo a articular teoria e prática da política, e a refazer os laços entre teoria política e vida política., conciliando discurso normativo e ação política. Interpretação é, pois, o ato de tentar situar um texto num contexto. Temos assim dois novos resultados da metodologia empregada por Skinner: 1ª. O vocabulário do pensamento moral e político da Renascença tem suas fontes no estoicismo romano. Isto pode modificar a visão da relação entre Maquiavel e seus predecessores, seus objetivos e suas intenções enquanto pensador político. 2ª. Os luteranos e os calvinistas radicais baseiam-se no esquema de pensamento derivado do estudo do direito romano e da filosofia moral escolástica, com teorias banhadas, portanto, na linguagem jurídica e moral de seus adversários católicos.

Como o teórico alemão Ernest Kantorowicz, que veremos a seguir, o trabalho de três anos de Skinner foi feito no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e traz agradecimentos ao antropólogo Clifford Geertz. Assim, nos estudos de ponta do Renascimento, soma-se a Eugénio Garin, que trabalhou sobre as origens platônicas da filosofia política da Renascença.

Trata-se do segundo livro da coleção « Cursos e Trabalhos », organizada por Bourdieu, que, em razão de seu falecimento, não pode escrever o prefácio, tal como fizera para apresentar em 1967 os dois ensaios de Panofsky: “Arte gótica e pensamento escolástico”, ensaio de história da filosofia política medieval. Este primeiro fora um texto célebre, erudito e antigo, conhecido em inglês, alemão e turco, com debate entre disciplinas que têm por objeto o mundo social. Com Skinner, temos uma revolução teórica e prática, a saber:

1ª. Transforma profundamente as condições de escrita da história da filosofia política; recusa ao fetichismo do texto, à glosa de autores clássicos, às genealogias fabulosas, à celebração de grandes pensadores fora do tempo e do espaço. Opção pelas “ideias em contexto”. Coloca o léxico político, visual e textual à disposição dos agentes históricos dos séculos XIII e XIV. Lança mão das condições e os objetivos do exercício legítimo da autoridade. Opera uma re-historicização decisiva do vocabulário da filosofia política, além das exigências essenciais da “história dos conceitos”. Esta retraça a evolução do campo lexical e da gramática visual do Bom Governo, da Soberania e do Estado. Skinner descreve os contextos sociais precisos e determina seus usos efetivos, restituindo passo a passo a linguagem de uma época, a estruturas cognitivas socialmente formadas, segundo as quais os agentes pensam e transformam o mundo social.

Por exemplo: o contexto remonta aos séculos XIII e XIV. As instituições comunais de Florença e Siena são vistas à luz da construção de novos conjuntos arquitetônicos: o Palácio Vecchio e o Palácio Público. Já a decoração apresenta vastos programas iconográficos, que ensejam a percepção da ideologia das comunas italianas e suas traduções visuais.

2ª. Ruptura metodológica. Exame minucioso do léxico visual de Ambrogio Lorenzetti (1290-1348) para encontrar suas fontes verdadeiras. Para este último, a imagem conduz aos textos. Lorenzetti, filósofo italiano, dá lugar às estratégias visuais específicas das comunas na península itálica na formação de um léxico iconográfico original e procura corporificar a ideologia que o inspirava e justificava.

3ª. Skinner demonstra a existência de novos princípios de ética cívica em curso na ideologia republicana pré-humanista, anterior à difusão do aristotelismo escolástico, com ênfase nos autores romanos Cícero, Sêneca e Salustio. Explora o calendário gregoriano e aporta as conotações do latim para rei, príncipe e imperador. Não descura de examinar o magistrado, classe de oficiais de justiça, bem como dedica-se aos Studia humanitatis e à noção ciceroniana. A seu juízo, por fim, a filosofia política, anterior à revolução inglesa e a formação da ideologia liberal, não pode ignorar essa concepção neorromana.

 

Referências bibliográficas

 

SKINNER, Quentin.  Les fondements de la pensée politique moderne. Paris : Albin Michel, 2001.

 

SKINNER, Quentin.  Maquiavel. Paris: Seuil, 1989.  

 

SKINNER, Quentin. L’artiste en philosophie politique : Ambrogio Lorenzetti et le Bon Gouvernement. Paris : Raison d’Agir, 2003.  

Edição      Enrique Shiguematu

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Historiografia da Revolução Industrial na Europa
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

'' A destruição dos antigos modos de vida liberou as necessidades e produziu o consumidor moderno' – Pintura de August von Wille

Um dos primeiros livros do século XX a tratar das origens do processo industrial é o hoje clássico “A Revolução Industrial no século XVIII”, de 1905, escrita por Paul Mantoux. Segundo o historiador inglês, o significado da revolução industrial na história da humanidade só é equiparável à invenção da agricultura, da escrita e da metalurgia na Pré-história e na Antiguidade, com as suas profundas transformações desencadeadas em pouquíssimo tempo, trazendo a sensação de uma aceleração e sugerindo metáforas naturais como explosão, vulcão, erupção, enchente, entre outras.

Em versão hoje consensual na historiografia, este processo industrial foi deflagrado nas ilhas britânicas, mormente na segunda metade do século XVIII. Ao contrário do império espanhol no século XVI, que passou a depender apenas do ouro e da prata provenientes das suas possessões americanas, tornando-se vulnerável à oscilação do valor dos metais no mercado europeu, a Inglaterra se baseou em uma solidez agrícola.

Esta lhe permitiu um desenvolvimento interno e uma prosperidade econômica, mesmo após a perda de colônias importantíssimas como os EUA, que declararam independência em 1776. Neste mesmo ano, Adam Smith publica “A Riqueza das Nações”, onde descola o valor da riqueza da terra, como faziam os fisiocratas (Quesnay, Mirabeau, Turgot), para a produtividade sem as amarras do Estado e tornava célebre a formulação de uma inclinação natural humana para “comerciar, permutar e trocar”.

Mantoux, em sua obra clássica, associa a Revolução Industrial à combinação entre a solidez agrícola inglesa e a prosperidade comercial. Neste sentido, a revolução industrial não precisou de uma revolução política como a Francesa, pois seu antigo regime econômico vai fazer a agricultura triunfar por si própria, favorecida é claro pelas concepções de Locke acerca da propriedade privada e pela Revolução Gloriosa já pavimentada por Cromwell no final do século XVII.

Ainda segundo Mantoux, a Inglaterra até 1750 é uma ilha pontilhada de inúmeras aldeias, paróquias, condados, comarcas, vilas e pequenos burgos. O homem encontra-se disperso, atomizado, por essas diversas regiões. A imagem que prevalece da Inglaterra ainda é rural: vastas extensões de pastagem, rebanho de ovelhas e de carneiros a fornecer a principal matéria-prima para as famílias, com a extração da lã e, depois, do cultivo do algodão.

A produção se dá em nível rudimentar e familiar, a economia serve à subsistência da casa (oikos), mediante uma divisão social do trabalho do fiador que pisa, fia e carda. Pouco a pouco, juntam-se os agregados familiares e os operários. O trabalho varia em conformidade com as estações do ano e com os ciclos da natureza, em uma relação temporal e espacial anterior à intensificação da disciplinarização do trabalho industrial, que será explorada pelo historiador E. P. Thompson. Vale dizer que o tear pouco mudara desde a Idade Média, cumprindo as funções de tosar, pisar, cardar, fiar. Os moinhos d’água compõem a paisagem natural, vindo a constituir a principal energia produtiva de até então: a força hidráulica.

A cadeia produtiva, hegemônica durante séculos, compreende diversas etapas: o produto da lã caseira é entregue inacabado a um tecelão, que dá um acabamento em seu tear à mercadoria, vendendo-a ao comércio local. A compra e a venda do produto são repassadas a um mercador que se incumbe de levá-lo às feiras, às vilas e aos burgos. Este o repassa a um comerciante, ou a um burguês, capaz de alojá-lo e de oferecê-lo à venda em forma de roupa, calçado, pano, seda, flanela e outras vestimentas em cidades como Manchester e Glasgow.

O sistema de produção, com a organização, a circulação e a distribuição das mercadorias, vai evoluir para uma especialização crescente e confere um poder cada vez maior às figuras intermediárias, ou seja, mercadores e burgueses, o que compromete a independência e autossuficiência camponesa.

Entre os historiadores franceses, Henri Sée e Jean Baecheler também tentaram descrever as origens do capitalismo na Europa. Assim como Mantoux, Baecheler julga este sistema econômico com base em transformações históricas por que passou a humanidade. Seriam três as mutações maiores: a aparição do sistema da cidade grega; a queda do Império Romano ocidental e as origens do sistema capitalista.

Para explicar as razões da aparição do capitalismo no Ocidente, o autor encadeia as seguintes proposições: 1) o caráter específico do capitalismo é a procura privilegiada pela eficácia econômica; 2) a condição primeira da maximização da eficácia econômica é a liberação da sociedade civil em relação ao Estado; 3) esta condição é possível na medida em que uma atmosfera cultural se divide em várias unidades políticas soberanas; 4) para que essas virtualidades tenham todas as suas consequências, é necessário também que o sistema de valores se modifique em relação aos valores religiosos, militares e políticos e que suas necessidades sejam liberadas.

Só o Ocidente conheceu uma evolução que preencheu todas essas condições – a ordem feudal saída da decadência das províncias ocidentais do Império Romano ignorava as trocas; quando estas apareceram, produziu-se um ser original: o burguês, com taxas econômicas e sem legitimidade. A ausência de uma ordem política europeia levou à anarquia do mercado e à impossibilidade de criar uma ordem econômica. A destruição dos antigos modos de vida liberou as necessidades e produziu o consumidor moderno. Para o autor, o mesmo raciocínio permite explicar por que a mutação industrial ocorreu na Inglaterra do fim do século XVIII. Até o presente, contenta-se com certas particularidades do fenômeno, como, por exemplo, o crescimento da demanda de algodão e geração de um aumento do tecido. Donde a adoção do trabalho de tecer. E assim por diante.

A hipótese de Baechler é a de que o sistema pluralista inglês se coloca em definitivo no século XVIII. Neste momento, a Europa alcança, após séculos de guerras internas e externas, uma estabilidade política, com a unificação dos Estados e uma administração mais eficaz. O espírito científico faz um progresso decisivo na Inglaterra a partir de Newton e a elite inglesa se ocupa da economia. Isto mostra que o avanço inglês não foi um casual. Além disto, a conjuntura do sistema europeu era favorável à eclosão do sistema industrial. Desta maneira não houve nenhum sério obstáculo para se estender o processo industrial à França, aos Países Baixos, à Bélgica, à Alemanha, à Itália do Norte e à Boêmia. Se o século XVIII realiza pela primeira vez este conjunto de condições colocadas em seu raciocínio, é necessário remontar ao século XI para entender a gênese progressiva dessas condições.  

De volta à historiografia inglesa, desta vez àquela de viés marxista, saída do Pós-Segunda Guerra, Hobsbawm publica em 1959 a sua súmula do que denomina “Era das Revoluções”. Nela, começa por analisar em que medida a explosão revolucionária, ocorrida em meados do século XVIII, se deu graças a uma acumulação de transformações que se manifestaram em especial na década de 1780. Esta significou a retirada de todas as amarras para a produção, com a multiplicação de homens, mercadorias e serviços.

Ao explicar as razões para a sua eclosão nas ilhas britânicas, Hobsbawm aponta para a realidade escravocrata das Américas, para a colonização da Ásia e para o fechamento de seus antigos impérios do extremo oriente a qualquer ocidentalização, para a pulverização em pequenos principados do leste europeu, ainda muito próximo dos mecanismos servis do feudalismo, além de servir a Europa com seus alimentos, assim como a Europa latina, Espanha e Itália.

Hobsbawm trata então de circunscrever uma história regional, a do noroeste da Europa, a do eixo franco-britânico, que vai protagonizar esse acontecimento decisivo para a história do mundo, graças à força de seu impacto internacional após a dupla revolução. As guerras, como a Guerra dos Sete Anos, opõem duas potências que querem tomar a frente no mesmo processo de expansão europeia. Esta propagação depende da compreensão dos aspectos demográficos, técnicos e estruturais na região inglesa, como a construção do primeiro sistema fabril em Lancashire.

Embora a revolução industrial remeta à cidade e à fábrica, ela se encontra, conforme também defendeu Mantoux, em continuidade com as transformações rurais. A revolução industrial foi então um desdobramento evolutivo das relações agrárias e das instituições políticas (monarquia constitucional), nas Ilhas Britânicas. Ela permite a passagem do sistema doméstico de produção ao sistema mecanizado, com a especialização dos processos e funções.

O camponês típico dessa época é o servo, que realiza trabalhos forçados na fazenda do senhor, um nobre proprietário de vastas extensões de terra. Uma boa parte da Europa rural ocidental, entretanto, tinha abandonado sua condição servil e entrado em um sistema em que o camponês era o lavrador típico, com pequenos e médios camponeses vivendo não como arrendatários, mas como produtores mais ou menos autossuficientes. A Inglaterra conseguiu dar origem a uma classe de empresários agrícolas, os fazendeiros, e a um enorme proletariado rural.

A questão de Hobsbawm está em saber por que a riqueza, até então assentada na terra e na propriedade da terra, vai-se deslocar das amarras rurais e vai se voltar para uma produção baseada na mercadoria, na manufatura. A posse da terra conferia distinção – ser nobre era ter terras – e privilégios. Se até então se tinha um modo de produção local que abastecia as regiões circunvizinhas e próximas, observa-se em seguida a passagem para a articulação de um sistema interligado, voltado exclusivamente para o abastecimento e para o provimento das populações que habitam as cidades. A grande força do capitalismo é criar uma cadeia de produção entre o rural e o urbano, de modo que o que antes era isolamento e autonomia torna-se, pouco a pouco, ligação e interdependência.

Da mesma maneira que os historiadores supracitados, Hobsbawm entende que a revolução industrial está entre os acontecimentos de maior magnitude em termos históricos, equiparável na história da humanidade à agricultura e às cidades. Ela ocorreu na Grã-Bretanha e teve equivalentes entre Portugal e Rússia com os servidores das monarquias iluminadas da Europa. Mas estas foram muito pontuais, sem o alcance internacional dos complexos britânicos.

Segundo o renomado historiador, a revolução industrial não deve ser atribuída a qualquer superioridade inglesa em termos tecnológicos e científicos, acadêmicos e escolares. A França e a Escócia possuíam instituições e inventos mais adiantados, mas a novidade é que a Inglaterra passou a apostar em seu exclusivismo na produção econômica.

A revolução industrial foi feita com base no conhecimento técnico ao alcance de artesãos, carpinteiros, moleiros e serralheiros, acumulado por gerações de trabalhadores ingleses. Mesmo o invento técnico maior – a máquina a vapor rotativa, do escocês James Watt (1784) – se fez com base nas máquinas já existentes nas minas.

As condições econômicas, políticas e sociais já estavam sendo preparadas para a revolução industrial. Um espírito comercial já permeava o ambiente agrário, de modo que já não se podia falar em campesinato na Grã-Bretanha. A agricultura se dirigia para o mercado e as manufaturas circulavam no interior. Três funções fundamentais se verificavam no campo: o aumento da produção para atender a uma população não-rural; o excedente populacional escoando para as cidades; o acúmulo de capital para a modernização da economia. Concomitante a isto, ocorreu a construção de uma frota mercante e de uma malha ferroviária, o que evidencia a articulação entra a economia e a política no caso inglês.

Embora o século XVIII tenha sido marcado pela prosperidade econômica, a revolução industrial pode ser explicada menos em função de tal conjuntura e mais como a implantação de um sistema fabril mecanizado, com produção crescente e em custo decrescente, capaz de não depender da demanda e, ao invés, de criar o próprio mercado. As indústrias de objetos domésticos de pequeno porte cresceram, mas continuaram dependentes da demanda. A questão não é, pois, a expansão da produção, mas a da escala da produtividade.

Ainda segundo Hobsbawm, a revolução industrial resulta de um acúmulo de decisões de empresários, que se orientavam pelo princípio da compra no mercado mais barato e da venda no mercado mais caro. Eles buscavam recompensas excepcionais, com inovações simples e baratas, e mercado mundial com monopólio de uma única nação produtora.

O crescimento industrial podia ser obtido em certas áreas, como a têxtil, em todos os países já existentes, onde a expansão era mais viável. Havia itens, todavia, em que apenas a Grã-Bretanha se destacava, tornando-se modelo a ser imitado por outros países. Os inventos técnicos e a maquinaria, como a algodoeira, espalharam-se assim pela Europa e pela América. A Grã-Bretanha não dispunha de tais máquinas, mas possuía economia e política sólida para a conquista de mercados, após vencerem seu principal rival, a França.

De acordo com Hobsbawm, a indústria algodoeira e lanífera da Inglaterra relacionava-se com o comércio da Companhia das Índias Orientais, na tentativa de ampliação do mercado ultramarino. Variando segundo taxas de exportação e importação, a indústria de algodão estava atrelada ao comércio colonial. Na Grã-Bretanha, três portos coloniais se destacavam: Bristol, Glasgow e Liverpool, sendo este ainda um centro de comércio de escravos. Algodão e escravidão andavam, pois, pari passu.

Os escravos africanos eram comprados com os produtos de algodão indianos, enquanto a região de Lancashire veio a alimentar a escravidão sulista nos Estados Unidos, com sua demanda por matéria-prima. A revolução industrial pode ser descrita, em termos de venda, como o triunfo do mercado exportador sobre o doméstico. Foram a América, a África e a Ásia que sustentaram as fábricas britânicas.

A dependência internacional dos produtos manufaturados britânicos foi especialmente importante em duas regiões: a América Latina e a Índia. A primeira, desde a independência política de Portugal e Espanha, não parou de crescer, enquanto a segunda, tradicionalmente exportadora de matéria-prima, passou a importar em maior quantidade, invertendo um quadro histórico. Um dos aspectos que favoreceu a revolução industrial foi a possibilidade de empresários fazerem seus negócios com um investimento relativamente modesto. A conquista de novos mercados, somada à inflação de preços, permitia tal condição.

A relação da indústria algodoeira com os métodos de trabalho escravista potencializou sua expansão. A escassez de mão-de-obra barata e eficiente levou à sua mecanização, no setor da fiação. Durante o século XVIII, a fiação mecanizada foi antecedida pela expansão do sistema doméstico, onde as matérias-primas eram trabalhadas em casa, com vistas a atender aos mercadores, prestes a se tornarem patrões. Com a mecanização da fiação, os teares manuais foram desaparecendo.

Edição      Enrique Shiguematu

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Historiografia do Antigo Regime na França
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Para o historiador britânico, as origens da Revolução Francesa se encontram em seu próprio país…''

Para Albert Soboul, no opulento volume A civilização e a Revolução Francesa (1970), o termo Ancien Regime foi forjado pelos contemporâneos setecentistas que vivenciaram o processo revolucionário a partir da convocação dos Estados Gerais. A expressão, portanto, não é uma abstração categorizada por historiadores do século XIX, seja um Tocqueville a sustentar a continuidade entre antes e depois de 1789, seja um Hippolyte Taine a insistir ao contrário em seu caráter de ruptura. Junto a Marx, Tocqueville e Taine deram origem no Oitocentos a importantes tradições interpretativas do Antigo Regime, com influência na historiografia do século XX.

O Antigo Regime foi vivido, assim, segundo o historiador marxista francês, pela imensa maioria da população como mais do que uma armadura político-institucional, como um aspecto concreto arraigado na vida social, na mentalidade coletiva e na maneira de viver à época. Em seus limites cronológicos, define ainda Soboul, o Antigo Regime encontra seus primórdios na Idade Média, no curso de um longo e lento período de transição, que se inicia entre a Guerra dos Cem Anos e as Guerras de Religião e se estende até a sua brusca ruptura na França durante o quinquênio 1789-1794.

Ela compreende, portanto, três séculos de monarquia, sua idade clássica indo de 1620-1640 a 1720-1730. A crise do Antigo Regime está circunscrita à segunda metade do século XVIII, aguçando-se no período que vai de 1750-1760 até a década de 80, quando as tensões internas fazem romper o ponto de equilíbrio piramidal em que se sustentava o sistema e põem abaixo um regime despótico.

A caracterização mais geral feita pelo mesmo historiador francês aponta a economia, apesar de uma relativa prosperidade, ainda muito conectada ao passado medieval, portanto presa aos grilhões feudais. No plano social, isto se evidencia mediante a persistência do privilégio aristocrático. No plano político-administrativo, o absolutismo monárquico do direito divino é o elemento preponderante.

A economia europeia tinha manifestado um progresso contínuo desde o fim da Idade Média, sustentada pela exploração dos mundos coloniais e pela política mercantilista dos grandes Estados. Ela se acelera no século XVIII na Inglaterra com a inauguração da máquina a vapor, em um processo que, como sublinha Eric Hobsbawm, apenas depois do exemplo da Revolução Francesa, seria cunhada de Revolução Industrial.

Em uma explicação canônica do marxismo, defendida por Soboul, a dinamização econômica inglesa implicou no abandono das antigas estruturas agrárias, isto é, na adoção de um novo modo de produção, com a redistribuição da divisão da produção e com a evolução para um novo aumento demográfico, que culminaram na transformação da hierarquia de classes e na recriação dos valores sociais. A noção de revolução industrial subentende a noção de longa duração, embora sua eclosão se inscreva no tempo curto: vinte ou trinta anos no curso dos quais a produção avança de maneira decisiva, breve transição que permite à economia se desvincular das tradições agrárias e anunciar a transformação irrevogável das estruturas. Ao comparar o crescimento econômico entre Inglaterra e França, Soboul constata a existência de ritmos de desenvolvimento relativamente próximos, mas com o primeiro reino assistindo a mutações técnicas decisivas.

O inegável crescimento econômico da França não esconde a preponderância da agricultura, a lentidão das comunicações (apesar de certo progresso), o atraso da metalurgia em uma produção industrial ela mesma de segundo plano, a ausência de uma verdadeira rede bancária, enfim, vários traços que evidenciam uma estrutura arcaica e rural da sociedade francesa. À medida que se avança para o Leste da Europa, a estagnação se acentua ainda mais. Fala-se mesmo em uma “segunda servidão”. No fim do século XVIII, o Antigo Regime econômico domina a paisagem da Europa continental.

A estrutura social permanece então de essência aristocrática, fundada na hierarquia, no privilégio e nos impostos. Segundo Denis Richet, o absolutismo foi em grande parte “filho da tributação” (Cf. Doyle) A estrutura jurídica das “ordens” ou dos “estados” mascara mal, segundo Soboul, em famosa polêmica conceitual com o historiador Roland Mousnier, a realidade social das classes. Esta realidade apresentava sempre a marca de suas origens, de uma época onde a terra, constituindo a única riqueza, como queriam os fisiocratas franceses – Quesnay, Mirabeau, Turgot – conferia poder àqueles que a possuíam.

Fazendo eco a Soboul, o historiador marxista Perry Anderson considera o absolutismo a manifestação política da última etapa do modo feudal de produção, na qual os nobres procuraram escorar o domínio decadente que mantinham sobre as massas camponesas, entregando parte de seu poder e autoridade a um Estado central fortalecido, que por sua vez garantia a sua posição social. A burguesia não tinha lugar dentro desse ajuste e, em consequência, assim que se sentiu suficientemente forte, derrubou ao mesmo tempo o absolutismo e o feudalismo.

Do lado da historiografia inglesa, é possível dizer que há diversas formas de compreender a crise do Ancien Regime francês. O historiador William Doyle enumera três: 1) A competição internacional consumia além dos limites os recursos do Estado e sobrecarregava o sistema financeiro; 2) Um público leitor instruído, em expansão, encarava tudo com confiança cada vez menor, questionando e discutindo todas as opiniões convencionais sobre qualquer assunto que se possa imaginar; 3) A população crescia a níveis nunca antes atingidos e, enquanto se ampliava a distância entre ricos e pobres, perdiam importância as velhas divisões de status entre os ricos nas camadas superiores da sociedade.

Eric Hobsbawm, em seu famoso livro do final dos anos 1950, A Era das Revoluções, parte da perspectiva clássica, isto é, aquela centrada na reconstituição dos acontecimentos políticos e econômicos, para mostrar como o final do século XVIII foi marcado por agitações políticas que puseram em crise antigos regimes na Europa, sendo a Revolução Francesa seu evento mais dramático.

Para o historiador britânico, as origens da Revolução Francesa se encontram em seu próprio país, uma vez que era uma potência econômica, mas apresentava a mais típica das monarquias absolutas da Europa e, ao mesmo tempo, apresentava forças sociais ascendentes. Estes, vindos do terceiro estado, emergiam economicamente e buscam também espaço na ocupação do aparelho estatal, reivindicando formas justas de concorrência a cargos e postos oficiais.

Em um enfoque marxista, porém não mecanicista, Hobsbawm mostra de que maneira a burguesia tinha clareza do que desejava para a França, mas as forças conservadoras eram um obstáculo para a realização de seus princípios liberais, como tentou de maneira malograda Turgot. O despotismo esclarecido na Rússia, na Prússia e na Áustria havia mostrado como não existia incompatibilidade entre a monarquia absoluta e a racionalização modernizadora da economia, todavia isto não foi conseguido na França, com os nobres e as ordens privilegiadas a manter suas isenções de impostos e a monopolizar as vantagens públicas do poder.

Esse quadro, que se acumula ao longo do século XVIII e se soma à conjuntura de crise na produção alimentícia, leva ao aumento da tensão social. A reação feudal é o estopim que levou à eclosão da Revolução Francesa.

Ao descrever o panorama da época, Hobsbawm frisa o caráter majoritariamente rural da sociedade francesa, com uma ínfima nobreza constituída de 400 mil homens, em uma sociedade com 23 milhões de habitantes. A situação da nobreza vinha se deteriorando à medida que seu status elevado não correspondia mais à sua economia, em declínio. Os aristocratas eram cada vez mais dependentes do Estado e de seus benefícios, tendo de concorrer com os burgueses, que aspiravam aos mesmos postos. Em decadência, os nobres franceses começaram a se valer de seus privilégios de propriedade e de sangue para garantir as funções administrativas, as sinecuras e o poder administrativo nas províncias, o que acirra sua exploração do campesinato e sua competição com a classe média emergente.

Alguns direitos feudais foram reivindicados novamente pela nobreza. O campesinato correspondia a 80% da população francesa e sua situação, ainda que fossem livres e possuíssem terra, não era boa. O atraso técnico, a fome e o aumento da população agravavam a penúria dos camponeses nos últimos 20 anos que antecederam a Revolução. De acordo com Hobsbawm, a estrutura administrativa da monarquia era obsoleta e levava as finanças francesas a uma situação crítica. Esta se intensificou com o apoio da França à independência norte-americana, comprometendo e endividando a economia do país. Os gastos com a guerra levaram o Estado à bancarrota, constituindo os fatores externos da chamada crise do Antigo Regime.

 Para entender as razões pelas quais o Antigo Regime ruiu, alguns autores sustentam que a Revolução Francesa articulou ideais liberais burgueses e sentimentos populares de indignação. Além de seu caráter universal, que serviu de modelo político-ideológico para Índia, América Latina e outros países, deve ressaltar a ausência de programa ou de planejamento de classe. Ao protagonizar uma convulsão social daquelas proporções, em que um acúmulo de revoltas, no campo e na cidade, se transforma em revolução, a Revolução Francesa coloca em pauta os limites e a eficácia da dominação tradicional, ou seja, aquela do poder monárquico absoluto não mais exercendo a mesma capacidade de gerar obediência, afetando a coesão social.

Em obra hoje clássica intitulada O grande medo, o historiador Georges Lefebvre (1990) descreve como a Revolução se gestou tanto nas províncias francesas quanto em Paris. A ideia de um grande medo que assolou a França nas últimas décadas do século XVIII, através de um pânico generalizado manifestou do campo até as cidades, coloca a importância do terreno das mentalidades no processo revolucionário. Esta abordagem põe em questão a figura dos agentes da revolução, o papel ativo e decisivo que tiveram as massas anônimas – isto é, o campesinato e os demais membros desfavorecidos do Terceiro Estado – no curso daquele processo.

Na avaliação de Lefebvre, a Revolução Francesa foi o resultado de uma confluência revolucionária em quatro instâncias de oposição ao Antigo Regime. Uma revolução aristocrática, eu reivindicava a descentralização e a autonomia local e que no século XVIII estava longe de representar valores feudais. Uma revolução burguesa, que tinha como projeto a eliminação dos entraves à produção e propunha a propriedade privada, mas que continha variantes mais radicais, adeptas da república francesa. Uma revolução camponesa, que almejava a conquista da terra e a eliminação de todas as antigas formas de exploração. E uma revolução popular, constituída, na verdade, pela junção de setores radicais da burguesia e dos pobres urbanos que, além da melhoria das condições de vida e trabalho, não conseguiram exprimir claramente o seu projeto.

Edição      Enrique Shiguematu

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Corpo vivo: fragmentos de leitura do romance de Adonias Filho
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Adonias Filho (1915-1990) foi um romancista de origem baiana. Polêmico por suas posições políticas, pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Estreou no romance em 1946, com Servos da morte, e em 1983 lançou sua derradeira obra romancesca, Noites sem madrugada. De um total de sete romances – à parte a literatura infantil, os ensaios, as novelas e a crítica literária –, Corpo vivo (1962) é provavelmente o mais importante. Assinalo, a seguir, muito brevemente algumas passagens, diria flashes, deste ponto alto da literatura nacional.  

 

1ª parte

Depois de jurarem que iriam tomar-lhe as terras, Januário e sua família são mortos de forma cruel a mando de um inimigo. Do ataque, apenas Cajango, filho de Januário, consegue salvar-se. Em terceira pessoa, o romance narra a cena do crime:

 

Na sala de jantar, emborcadas na poça de sangue, as duas meninas – Maria Laura, de doze anos, e Maria Lúcia, de dez anos – estavam caídas como alvejadas em plena carreira. Januário de costas, estirado, estava sangrando no pescoço como se fosse um porco. Maria Thereza era a mais velha e tinha dezoito anos. Fui encontra-la na dispensa, quase despida, e observei que unhas de homem tinham rasgado a sua pele. Deitada de bruços, o sangue já não gotejava da ferida aberta na nuca. O punhal, que a matara, penetrara fundo. Compadre Januário, eu concluí, fora apanhado desprevenido, à traição.   

 

Cajango agora tem apenas Inuri, que é irmão de Januário, e ambos vivem para vingar-se dos familiares assassinados.

 

Eu e o menino, com as armas que pudéssemos levar, viajando dia e noite, iríamos em busca do Camacã muito para o sul da Bahia. ‘– Ninguém sabe, eu disse, mas Januário tem ali um irmão’. Irmão por parte de pai, filho de mãe índia, que vive naquelas brenhas do diabo.

 

2ª parte

 

Cajango ainda era um homem cercado e a vida no acampamento se tornara entediante.

 

A vida no acampamento já o cansava. Os mesmos homens, as mesmas vozes e as mesmas horas no pequeno descampado aberto na selva.

 

Filha de Pereira atrai Cajango. O pai não quer que ela venha, mas Cajango ordena a ida de João Caio a Itabuna e a sua vinda com a moça.

 

Em Itabuna, se não houvesse jeito, a moça continuaria a atrair os homens. Chico das Bonecas informara: dançava nas festas, os seios soltos na chita, os lábios pintados.

 

Não era difícil saber o que ia por dentro de Pereira, seu filho morto, a filha acordando o desejo naquele bruto.

 

3ª parte

 

Inuri não aprova que haja uma mulher na vida de Cajango e quer que a moça volte para Itabuna. Cajango não a deixa ir. Está declarada uma guerra.

Inuri era o único parente próximo de Cajango e devia tê-lo protegido. Mas, não, criou um menino cheio de ódio, como uma fera.

 

“Tornara-se odiado por homens e mulheres. Inuri, que ali está, transformara-o naquilo. E agora quer lhe tirar a mulher para que continue a guerra doida.”

 

“Ela, como nós, tem que se vingar – Cajango prossegue – veio para nossa luta. – É mentira! – e Inuri, erguendo a cabeça, engrossa a voz. – Veio como fêmea perturbar os homens. Uns aos outros, por causa dela, se morderão como cachorros.”

 

Morre Inuri.

 

“E vê o sangue, o sangue de Inuri, nas mãos e na rouba. Estava assim, sujo de sangue, quando padrinho Abílio o encontrou”.

 

“Agora, com Cajango são quatro homens e uma mulher. Tudo que resta do naufrágio, pensa João Caio”.

 

4ª parte

 

Cajango agradece João Caio por tudo que fez. Dá-lhe dinheiro e diz: “– Compre uma tropa e ganhe sua vida”. Alto morre lutando com Digo Gaspar. Cajango vai morar e viver o resto de sua vida com a sua mulher na Serra das Brenhas.

 

“Inútil dizer que Cajango se entenderá com a serra, ela o abrigando até fazer-se esquecido, o sangue de Inuri em suas veias. As peles de suas feras vestirão ele e sua mulher, o alimento em suas caças e suas ervas, os braços se encontrando com suas árvores”.

 

Edição      Enrique Shiguematu

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Peter Burke: o relativismo cultural na historiografia contemporânea
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

 

Com sua capacidade didática de síntese e visão panorâmica, o historiador inglês Peter Burke oferece em A escrita da história: novas perspectivas, publicado pela editora da UNESP em 1991, mais um balanço crítico da historiografia contemporânea, mais precisamente aquela que compreende as décadas de 1970 e 1980. Tendo como horizonte de análise e como termo de comparação o paradigma positivista fundador da história enquanto disciplina e atividade profissional, a saber, o paradigma rankeano da segunda metade do século XIX, Burke procura elencar as mutações por que passou a historiografia ao longo do século XX, a fim de prognosticar quais serão seus desafios no século XXI. O fio condutor e a pergunta que encetam a reflexão do historiador inglês se direcionam no sentido da indagação quanto à própria definição da identidade que a história parece deixar em aberto no limiar do terceiro milênio.

No livro, é possível detectar o temor do autor com a perda de referências em que a atividade do historiador, ao procurar refutar seu antigo paradigma, ao expandir suas fronteiras de uma maneira desenfreada e ao acompanhar as inovações temáticas das áreas de conhecimento que lhe são vicinais, se encontra. Há aqui a constatação de que o relativismo cultural que tanto orientou as ciências humanas e sociais na segunda metade do século XX, mormente a antropologia, possui um dúbio valor para a historiografia: por um lado, libertou-a dos limites formais, oficiais e tradicionais a que se via confinada; por outro, semeou o problema do crescimento excessivo de seu campo de abrangência, de forma tal que dissolveu a demarcação de um território comum aos historiadores e deixou vaga aos seus próprios agentes quais seriam os pontos consensuais de seu ofício.

Se Leopold Von Ranke (1795-1886), o pai da historiografia moderna, ou científica, havia fornecido todos os princípios, procedimentos e mecanismos necessários à tarefa de dar a conhecer o passado tal como ele havia realmente ocorrido, o questionamento a estes pressupostos fez com que muitos historiadores sentissem-se órfãos de uma teoria ou de um paradigma um pouco mais preciso.  

Imprecisão e concisão são, pois, dois dos sintomas e corolários principais da historiografia contemporânea. A contraposição aos critérios de objetividade, de verdade e de factualidade, no sentido destacado pelo positivismo, desencadeou uma série de novos problemas ao profissional da história, para os quais Peter Burke não crê ter sido capaz de responder ainda o seu agente. A introdução da subjetividade, por exemplo, ao mesmo tempo em que teve o mérito de admitir as limitações e as contingências epistemológicas na abordagem de uma época, colocando-a sempre em conformidade com uma perspectiva e com um ponto de vista determinado, foi exacerbada de tal modo por alguns teóricos que determinados autores aventaram até mesmo a ideia da ausência de passado concreto e da inexistência de realidade objetiva.

A passagem da esfera da história política para o plano da história econômica, social e cultural, outro exemplo, da mesma maneira que propiciou ao historiador um diálogo com a economia, a sociologia e a antropologia, deixou-a tão dependente das teorias destas disciplinas que ela própria viu-se restrita a uma atividade instrumental e menor sob o ponto de vista da reflexão teórica, metodológica e conceitual. A especialização da área em subáreas, último exemplo, tanto atendeu à demanda de novos conhecimentos e de assuntos então inexplorados, quanto provocou uma fragmentação e uma compartimentação do saber que obliterou uma visão conjuntural do passado histórico.

A avaliação sumária feita pelo historiador inglês faz-nos pensar que há dois tipos de dificuldade na construção da identidade da historiografia atual. Estes tipos podem ser apontados esquematicamente como problemas de ordem interna e problemas de ordem externa.

A nosso juízo, os problemas de ordem externa sugeridos por Peter Burke deixam um pouco a desejar, porquanto não são suficientemente desenvolvidos pelo historiador inglês. Verifica-se tão somente o entendimento de que questões como a especialização da disciplina eram inevitáveis às transformações por que passavam a sociedade e a comunidade científica como um todo no século XX. Com tal destino inexorável, cabia ao historiador uma posição de passividade frente a estas mudanças mais envolventes e a absorção do relativismo cultural foi uma delas. Mas cabe-nos, entretanto, questionar se esta postura se justifica em relação ao intercâmbio com as demais disciplinas das Ciências Sociais e a posição submissa em que a História em certo sentido se colocou perante aquelas.

Os problemas de ordem interna remetem ao próprio diálogo com a tradição e com as antigas gerações de historiadores. Para Peter Burke, a historiografia configurada a partir da Escola dos Anais procurou com todo o seu empenho intelectual negar e se contrapor às premissas do positivismo. Invertendo e colocando de ponta-cabeça a lógica interna rankeana, suas três principais gerações conseguiram chegar ao extremo oposto do projeto da carreira de historiador desenvolvido entre o último quartel do século XIX e o primeiro quartel do século XX.

Entre os dois extremos, Peter Burke insinua a ideia de que há um vácuo que quer ser preenchido. Orientando-se por um prisma dialético, tem-se a sensação de que existiria potencialmente uma síntese a ser alcançada neste processo interno de definição da identidade do historiador, observando-se para tanto suas dicotomias fundamentais, tais como acontecimento e estrutura, agência e instituição, objetividade e subjetividade, explicação e compreensão. Ao tratar novamente, no fecho do seu texto, da história total como horizonte utópico comum a todos os historiadores, Peter Burke parece terminar por acreditar que ainda há algo de congruente que possa reunificar e voltar a aproximar os membros dessa comunidade científica.    

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego: uma guia para leitura
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

       Desde o ano de 2001, pesquiso a vida e a obra de José Lins do Rego, por meio da leitura de romances, fortuna crítica e crônicas inéditas. Para sistematizar o assunto, montei para a presente coluna quinzenal uma série de apontamentos biográficos que ajudam a situar o leitor interessado no escritor. Sendo assim, a coluna dessa semana terá um formato diferente, pois, ao invés de um texto corrido, trago tópicos que podem vir a contribuir com pesquisadores em fase inicial de investigação. Vamos, pois, aos marcos autorais que considero mais importantes de uma radiografia literária:

Datas

 

Nascimento: 03 de junho de 1901.

Falecimento: 12 de setembro de 1957.

Diagnóstico: cirrose do fígado, síndrome hepato-renal e acidose urêmica.

 

Genealogia:

 

Pai: João do Rego Cavalcanti Albuquerque

Mãe: Amélia do Rego Cavalcanti (morte no mesmo ano do nascimento do filho, com seis meses, tragédia).

Avô materno: o velho Bubu, proprietário de 8 a 9 engenhos.

Avó materna: Janoca.

Mulher: Filomena (Naná) Massa, filha do Senador Massa, da Paraíba.

Data do Casamento: 1923.

Filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória (em Alagoas) e Maria Christina (no Rio).

Madrinha: Tia Maria (Maria Lins).

Primas: Maria Emília e Elza.

 

Formação Escolar:

 

Primário: Instituto Nossa Senhora do Carmo, internato em Itabaiana.

Ginásio: Colégio Diocesano Pio X, capital da Paraíba.

Instituto Carneiro Leão e Ginásio Pernambucano: Recife.

Faculdade de Direito do Recife

16 anos: leitura de O Ateneu, de Raul Pompéia.

17 anos: leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

17 anos: primeiro artigo na imprensa, sobre Rui Barbosa.

17 anos: leitura de Sthendal e Rousseau, revelado por Olívio Montenegro.

Anos 1920: leituras favoritas de juventude – Thomas Hardy, Marcel Proust e alguns nomes do modernismo.

Temperamento: extrovertido, exuberante, incapaz de rancores, apaixonado, melancólico, amante da vida, interessado por tudo, cronista. Admirável facilidade de exposição. Gargalhadas, seja quando adulto ou menino. Lírico e romântico, dionisíaco e sensual.

 

Estados em que residiu:

 

Paraíba (1901-1914) – Engenho Corredor, escola em Itabaiana, Colégio Pio X, dos Irmãos Maristas.

Pernambuco (1915-1924) – Instituto Carneiro Leão, Ginásio Pernambucano, Faculdade de Direito do Recife. Nesse período, colaborou na imprensa local e fez amizade com Gilberto Freyre, que o influenciou e, em 1922, fundou o semanário Dom Casmurro.

Minas Gerais (1925) – promotor público em Manhuaçu.

Alagoas (1926-1935) – fiscal de bancos em Maceió. Assinante da Nouvelle Revue Française (NRF), em Maceió. Revue des Deux Mondes.

Rio de Janeiro (1934) – breve passagem, onde se aloja numa pensão na Rua do Catete, 237, próximo a Mário de Andrade e ao Palácio da República;

Rio de Janeiro (1935-1957) – fixa residência na capital da República. Fiscal de imposto de consumo. Estadias obrigatórias de funcionário público em Cabo Frio e Araruama, em 1939/1940.

 

Viagens:

 

Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná – 1942, com Gilberto Freyre.

São Paulo – palestra na Faculdade de Direito, em companhia de Gilberto Freyre; vai à fazenda de Paulo Prado, chamada São Murtinho. Durante as décadas de 1940 ou 1950, volta a dar palestras na cidade de São Paulo pelo menos duas vezes. Na primeira fala sobre o Nordeste, na segunda, sobre Eduardo Prado. Uma delas está reproduzida em A casa e o homem. A outra, sobre a Marquesa de Santos, foi publicada em Homens, seres e coisas.

Argentina e Uruguai – Anos 1940

Europa – Anos 1950

Oriente Médio (Israel) – 1954

Estados Unidos: Recusa ao visto de entrada nos EUA, pois assinou carta contra Franco. Isto ocorre em 1947, durante o Macarthismo. O objetivo era uma visita à filha, embaixatriz em Washington. Carta de solidariedade de Érico Veríssimo.

 

Amizades

 

Paraíba (1901-1919) – José Américo de Almeida (casado com dona Alice), Oscar de Castro, Carlos Romero, Péricles Leal, Edson Regis e Juarez Batista.

Pernambuco (1920-1924) – Aníbal Fernandes, Arnon de Melo (O Jornal), Barbosa Lima Sobrinho (que substitui na coluna dominical do Jornal de Recife), Edson Nery da Fonseca, Gilberto Freyre, Hermínio Borba Filho, José Osório de Morais Borba, Luís Delgado, Manuel Bandeira, Odilon Ribeiro Coutinho, Olívio Montenegro e Souza Barros.

Alagoas (1926-1935) – Aloísio Branco (poemas), Aurélio Buarque de Holanda, Carlos Paurílio (contos poéticos), Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Manuel Diegues Júnior, Mário Marroquim (pesquisas linguísticas), Rachel de Queiroz (de João Miguel – dezembro de 1931 – a Caminho de pedra, de outubro de 1936), Raul Lima (redator-secretário da Gazeta de Alagoas), Santa Rosa e Valdemar Cavalcanti.

Rio de Janeiro (1935-1957) – Afonso Arinos de Melo Franco, Agripino Grieco, Alceu Amoroso Lima, Altamir Alves, Álvaro Moreyra, Assis Chateaubriand, Augusto Frederico Schmidt, Dinah Silveira de Queiroz, Érico Veríssimo, Hermes Lima (PSB), João Condé, Mário de Andrade (viveu no Rio entre 1938 e 1941), Marques Rebelo, Murilo Mendes, Nilson Rezende (médico), Oscar Niemayer, Peregrino Júnior, Roberto Marinho, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Viana Moog, Silva Mello, Simeão Leal (sobrinho de Zé Américo), Tristão de Athayde.

São Paulo: Yan de Almeida Prado, Paulo Prado e Mário Pedrosa.

 

Livraria José Olympio

 

Afonso Arinos de Melo Franco, Breno Acioli, Cândido Portinari, Carlos Drummond de Andrade, Francisco de Assis Barbosa, José Olympio, Lúcia Miguel Pereira, Octávio Tarquínio de Souza, Ledo Ivo, Luis Jardim, Otávio Faria, Otto Maria Carpeaux, Paulo Mendes Campos, Paulo Ronai, Peregrino Júnior, Rubem Braga, Thiago de Melo, Thomaz Santa Rosa (capista e cenógrafo).

 

Amizades esportivas

 

Ary Barroso, Gilberto Cardoso, João Lyra Filho (conterrâneo, presidente do CND, reitor da UEG), Luís Galotti (ministro), Mário Rodrigues Filho, Vargas Neto (gaúcho, presidente da Federação Metropolitana de Futebol), Mário Pollo, Fábio Carneiro de Mendonça (ex-presidente do Fluminense), Emmanuel Lobo (Amigo da Confeitaria Colombo e do grupo Dragão Negro).

 

Amizades políticas

 

Ademar de Barros (conheceu por intermédio de Álvaro Moreira), Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

 

Literatura e política:

 

Participação no 1ª. Congresso Brasileiro de Escritores, 1945. Filiação à Esquerda Democrática (1945) e ao Partido Socialista Brasileiro (1947), graças ao vínculo com Hermes Lima.

 

Principais influências literárias

 

Alemanha: Goethe, Heine.

Espanha: Azorín (pseudônimo do escritor José Martinez Ruiz, uma das vozes altas da famosa Generación del 98 na literatura espanhola) Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno.

França: Alfred Musset, Anatole France, André Gide, Charles Baudelaire, Denis Diderot, Émile Zola, Flaubert, Honoré de Balzac, Lamartine, Maeternick, Marcel Proust, Michel de Montaigne, Molière (“Tartufo”), Paul Verlaine, Racine, Renan, Stendhal (“O vermelho e o negro”), Victor Hugo, Voltaire.

Inglaterra: Lord Byron, Oscar Wilde, Thomas Carlyle, Thomas Hardy, T.H. Lawrence, Shakespeare.

Itália: Dante Alighieri, Gabriele D’Annunzio.

Noruega: Ibsen.

Portugal: Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Fialho de Almeida, Júlio Dantas, Luís de Camões, Padre Vieira.

Rússia: Dostoievski, Gogol, Leon Tolstoi.

Católicos franceses: Barrès, Maurras, Péguy, Maritain, La Bruyère, Barbey D’Aurevilly, de Maistre.

Grécia: Aristófanes, Ésquilo, Hesíodo, Homero (poeta grego), Pitágoras, Platão, Sófocles.

Roma: Catulo, Cícero, Virgílio.

 

Principais influências literárias no Brasil:

 

Alagoas: Jorge de Lima.

Bahia: Castro Alves, Rui Barbosa.

Pernambuco: Coriolano Medeiros, Farias Neves (seu professor), Olegário Mariano, Oliveira Lima.

Rio de Janeiro: Benjamin Costallat, Coelho Neto, Euclides da Cunha, Graça Aranha, João do Rio, Machado de Assis (Dom Casmurro); Manuel Antônio de Macedo (A moreninha); Raul Pompéia (O Ateneu); Lima Barreto; Olavo Bilac.

Paraíba: Augusto dos Anjos.

Rio Grande do Sul: Raul Bopp, “O negrinho do pastoreio”, de Simões Lopes Neto.

Sergipe: Tobias Barreto.

 

Cinquentenário de nascimento de Zé Lins (1951):

 

Iniciativa de José Américo à frente do governo da Paraíba. Escritores do Rio de Janeiro presentes ao evento na Paraíba: Jorge Lacerda, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, José Condé, Marques Rebelo, Mario Pedrosa, Simeão Leal e Odilon Ribeiro Coutinho.

 

Temas desenvolvidos em sua obra:

 

Memória e imaginação.

O regional e o universal.

O provinciano e o cosmopolita.

O ambiente social, a natureza física e o universo psicológico.

O menino e o adulto.

A máquina e a natureza.

Doença, loucura, medo e morte: hipocondria.

Opulência e ruína

Sexo: humano e animal.

 

Posse na Academia Brasileira de Letras: 15 de dezembro de 1956.

 

Em seu discurso de posse, referiu-se ao seu antecessor, o ministro do Supremo Tribunal Federal Ataulfo de Paiva, como alguém que ''chegou à academia sem nunca ter gostado de um poema''. A partir desta nota de sarcasmo, seus discursos da academia passaram a ser previamente censurados. Por conta deste discurso na ABL, rompe relações com Roberto Marinho.

Edição      Enrique Shiguematu

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A fortuna crítica de José Lins do Rego
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Lembre-se que o pernambucano (Alvaro Lins) era chamado à época de “o príncipe da crítica”.

“… do encontro da dor e do instinto de criação nascem as obras de arte”.

Thomas Mann

“O neto de um homem rico tinha inveja dos moleques de bagaceira”.

Meus verdes anos

“Todo romance é um caso íntimo que se faz público como um escândalo.”

Homens, seres e coisas

Sabemos que a crítica literária e artística é pendular em seus processos de valorização de um autor. Talvez por isto, redescobrem-se obras à primeira vista esquecidas ou retomam-se valores, outrora no ostracismo. Conforme revela o estudioso Bernardo Gersen:

“O entusiasmo pela pintura naïf na França, por volta de 1910, constituiu uma reação vital contra o refinamento fin-de-siècle e o exacerbado intelectualismo então dominante tanto na literatura quanto nas artes plásticas. O público ansiava por recuperar o frescor da visão, por reaver um pouco da inocência.”

Quando escrevi o livro “ABC de José Lins do Rego”, o propósito era revalorizar o escritor paraibano, deixando de lado as intrincadas teorizações acadêmicas e mostrando às novas gerações o frescor da leitura d’O menino de engenho, como o fizeram seus primeiros leitores, apreciadores e tradutores.

Para tal, procurei acompanhar as peripécias biográficas de um escritor talentoso e irrequieto, cujos escritos se ligam tão intimamente às experiências pessoais e às recordações de infância. Qual imagens em caleidoscópio, ansiei por servir de estímulo para uma nova mirada sobre as milhares de crônicas e as dezenas de romances legadas por nosso escritor, tão apaixonado pelas coisas da vida e do mundo.

Pensei em palavras-chaves para guiar-me e inspirar-me por seu labirinto de letras, quais sejam: Açúcar, Bubu, Carlinhos, Doidinho, Escola do Recife, Fogo Morto, Gilberto Freyre, Histórias da Velha Totônia, Ita do Nor(des)te, José Olympio, Leônidas da Silva, o craque, Memória e imaginação, Naná, Opulência e decadência, Paixão Rubro-Negra, Quixote do Nordeste, Regionalismo e modernismo, Sertanejo é forte, Três Marias, Usina, Viandante, Xilogravuras, Zelinianas.

Claro, a leitura também vale como ensino da dinâmica social de exploração da história social brasileira, típica da estrutura fundiária, que permanece nos atormentando, tornando-se ainda mais aguda, com o surgimento de um fenômeno novo: a miséria. Basta evocar que o cenário, aos olhos de Ricardo, é desolador: “Via os moleques em bando, esfarrapados, pela porta do barracão: ‘Seu Ernesto’ chamava-os de ratos. Estavam sempre com fome. Viviam de iscas, de restos de comida, de rabo de bacalhau, que sacudiam para eles.”

Diante do objetivo de revalorização zeliniana, selecionei a seguir uma antologia de apreciações dos críticos literários que leram o escritor no calor da hora, na esteira das publicações, que ganhavam o fervor do público. Comecemos com Álvaro Lins, que vale quase como uma epígrafe antológica. Lembre-se que o pernambucano era chamado à época de “o príncipe da crítica”.

Como ele hoje é desconhecido da maioria dos leitores, reproduzo inicialmente uma citação sua no opulento livro, “A técnica do romance em Marcel Proust”, para que se tenha noção de sua perícia analítica.

“Todo o enredo de Le rouge et le noir se encontra num fait divers que Sthendhal leu na Gazette des Tribunaux dos últimos dias de dezembro de 1827, como o de La Chartreuse de Parme foi retirado de velhas crônicas italianas. Contudo, é um elemento necessário na ficção, caso não o tomemos em sentido muito estrito ou convencional. Enredo de romance é a ação das personagens numa ambiência. Ação, no entanto, nem sempre quer dizer uma sucessão de episódios desdobrados no feitio de uma intriga, regular e objetiva. A ação de um romance pode verificar-se exclusivamente como uma projeção da psicologia das personagens em movimento. A essa espécie pertence A la recherche du temps perdu, cuja ação é principalmente uma decorrência da situação psicológica das personagens em cena. Enredo uniforme e sistemático, com toda a urdidura do episódio que atrai outro episódio até um final contundente, não o tem o romance de Proust, nada preocupado com o ‘heróico’ ou com o ato fulminante para valorizar emocionalmente o desenvolvimento das situações ou os caracteres das personagens. Dado o espírito de narração, que é o de reconstituí-los por uma operação de memória no mesmo plano do passado, grande parte da ação é não raro indireta, não se produz aos olhos do leitor, e dela só tomamos conhecimento por diálogos rememorativos.” (p. 139-140)

Apresentado o crítico, vamos acompanhar três das suas referências a Zé Lins:

“… nenhum historiador do futuro poderá prescindir, para o estudo de nossa época, da obra do sr. José Lins do Rego…” (Álvaro Lins, “Memória e imaginação”, apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

“Os seus personagens, os seus enredos, o seu ambiente social, a sua memória, a sua imaginação – toda a sua vida é a de um homem que sente a sua terra e tem o destino de exprimi-la literariamente. Vejo que neste objetivo ultrapassa o regionalismo. Pois o seu regionalismo nada tem de uma limitação ou de um círculo fechado. Através do plano regional consegue abrir caminho para o plano nacional e para o plano universal”. (Álvaro Lins, “Memória e imaginação”, apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

“Sempre o sr. José Lins do Rego perturbará os críticos com a seguinte dualidade: um homem alegre, exuberante, apaixonado da vida até o sensualismo mais frenético; um escritor triste, um romancista que faz reviver personagens desgraçados, que descreve situações comoventes. Na vida real, o rumor das suas gargalhadas; na vida de ficção, um sentimento de lágrimas sufocadas”. (Álvaro Lins, crítica escrita para o Correio da Manhã, a 04 de fevereiro de 1944, transcrito na terceira edição de Fogo morto, p. 302)

Após tais menções de Álvaro Lins, vamos aludir a outros pares e contemporâneos do romancista, que recebeu críticas, mas também muitos elogios:

“A rigor não poderemos dissociar da obra de José Lins do Rego a sua figura humana. Quem teve o privilégio de conhecê-lo, reconhece-o a cada passo na leitura de seus romances, sobretudo no estilo, que lhe parece ter guardado o registro da voz. Se bem me recordo, José Lins do Rego não sabia ler em silêncio; seus lábios se movimentavam, repetindo o texto lido, enquanto os olhos faziam o seu ofício, percorrendo rapidamente as linhas impressas. E essa voz se transferia à sua frase escrita, com o mesmo calor, a mesma rusticidade lírica, a mesma fluência prodigiosa.” (Josué Montelo, no estudo “O romancista José Lins do Rego”, apresentação para as obras completas da editora Aguilar, de 1976)

*

“José Lins do Rego é, sabidamente, um dos escritores mais representativos da geração moderna. Talvez, mesmo, o mais representativo. Sua obra o demonstra exuberantemente. Não sabemos de outra que possa dar, no momento, uma impressão mais incisiva de obra menos escrita. As palavras circulam nela com o mesmo desembaraço do sangue humano no sistema arterial de um corpo adolescente.” (Coleção Fortuna Crítica: Eugênio Gomes, p. 263).

*

“O pendor para a introspecção era, em José Lins do Rego, anulado pela incapacidade de solidão. Ele precisava de estar sempre em comunicação com alguém. Bebendo ou comendo com alguém. Ou simplesmente ouvindo alguém falar, rir, fazer rir, contar anedotas. Explica-se assim seu muito convívio, nos seus últimos anos, com Luís Jardim. Sua presença constante na Colombo, no Juca’s Bar e, no Recife, na casa de Antiógenes Chaves: uma casa quase sempre em festa.” (Coleção Fortuna Crítica: Gilberto Freyre, p. 107).

*

“Ao ler trechos assim interroguei-me várias vezes sobre a natureza do prazer que eles nos proporcionam – a nós outros homens da cidade e do mundo da máquina”. (Bernardo Gersen, ao comentar o personagem José Passarinho, em Fogo morto, p. 172)

*

“Sem dúvida alguma, José Lins é um de nossos maiores criadores de personagens…escreve em estado de emoção e só o que sente” (Roberto Alvim Correia, em alusão ao romance Pureza e em específico ao personagem Lourenço, p. 372 e 373)

*

“… o projeto estético-ideológico de Doidinho pode-se definir em relação a essas ‘afinidades’ e ‘disposições’: é sublime, como Castro Alves, heroico, como Oliveiros, civilizador, como os pequenos italianos, e ‘coruscante’, como a voz dos oradores públicos que apaixonava tanto os auditórios populares.” (José Maria Arguedas: Los ríos profundos).

*

“O abalo de estruturas de uma sociedade rural aristocratizante, latifundiária e agonizante” (José Aderaldo Castelo, crítico cearense e professor da USP que, no início dos anos 1960 publicou um rico livro sobre o regionalismo e o modernismo na obra de José Lins do Rego).

*

Ainda que breve, a citação acima, de Aderaldo Castelo, é capital para o enquadramento sócio histórico do romance zeliniano. O historiador brasilianista Stuart B. Schwartz, em Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, assevera e ensina:

“Nenhum grupo na história brasileira possui uma aura de legendária magnificência tão marcante quanto a dos senhores de engenho no Nordeste. Ainda que no século XIX fosse proverbial dizer “senhor de engenho, morto de fome, cheio de empenho”, esses homens mantiveram-se no ápice da hierarquia social, projetando uma imagem de nobreza, fortuna e poder. Essa imagem sustentou-se em seu permanente controle da terra e dos escravos e no tradicional papel de potentado local que muitos deles encarnaram. Entretanto, os senhores de engenho não são simplesmente um tipo social facilmente transposto de uma época a outra; são também uma classe formada ao longo do tempo, que se desenvolveu historicamente e manifestou diferentes características em datas diversas. Houve, ademais, considerável variação dentro da própria categoria, e assim, conquanto muitos aspirassem a atingir o cume da pirâmide social, apenas uma pequena parcela logrou esse objetivo. Os senhores de engenho ditaram os padrões sociais na colônia e foram os que mais se aproximaram dos modelos vigentes na metrópole. Assim, examinando a composição e o comportamento desse grupo, podemos estabelecer a norma com a qual os demais indivíduos na sociedade eram comparados.” (p.224)  

Para fechar este breve texto, sigamos as palavras do próprio Zé Lins ao falar de seu processo criativo:

“…começou a existir em mim uma história; começou a crescer dentro de mim o romance que poderia escrever. Tinha que escrevê-lo. Depois não me contive. A coisa passou a viver com tal força, a estremecer, a desafiar-me, que resolvi levar para diante a tarefa. E o livro saiu, com um mês de trabalho contínuo. A vida dos meus personagens me arrastou violentamente à composição. Tinha que acordar cedo, para estar com eles. Às vezes a preguiça me prometia a paz das manhãs de frio; mas o caderno em branco, a existência, a luta, o amor, o sofrimento da minha gente me chamava. Vinha para eles como se fosse um médico ou um padre, obrigado pelo dever da profissão.” (Fortuna Crítica, p. 358)

Antes de terminar, deixo ainda essas 6 sugestões derradeiras, à guisa de leitura complementar:

Adelino Brandão. Cana-de-açúcar. A invenção do Nordeste.

Fernando de Azevedo.  Canaviais e engenhos na vida política brasileira.  

Linda Lewin. Política e parentela na Paraíba.

Gilberto Freyre. Açúcar.

Câmara Cascudo.  Sociologia do açúcar.  

Roberta Barros Meira. Banguês, engenhos centrais e usinas.

“… do encontro da dor e do instinto de criação nascem as obras de arte”.

Thomas Mann

“O neto de um homem rico tinha inveja dos moleques de bagaceira”.

Meus verdes anos

“Todo romance é um caso íntimo que se faz público como um escândalo.”

Homens, seres e coisas

 

Sabemos que a crítica literária e artística é pendular em seus processos de valorização de um autor. Talvez por isto, redescobrem-se obras à primeira vista esquecidas ou retomam-se valores, outrora no ostracismo. Conforme revela o estudioso Bernardo Gersen:

 

“O entusiasmo pela pintura naïf na França, por volta de 1910, constituiu uma reação vital contra o refinamento fin-de-siècle e o exacerbado intelectualismo então dominante tanto na literatura quanto nas artes plásticas. O público ansiava por recuperar o frescor da visão, por reaver um pouco da inocência.”

 

Quando escrevi o livro “ABC de José Lins do Rego”, o propósito era revalorizar o escritor paraibano, deixando de lado as intrincadas teorizações acadêmicas e mostrando às novas gerações o frescor da leitura d’O menino de engenho, como o fizeram seus primeiros leitores, apreciadores e tradutores.

Para tal, procurei acompanhar as peripécias biográficas de um escritor talentoso e irrequieto, cujos escritos se ligam tão intimamente às experiências pessoais e às recordações de infância. Qual imagens em caleidoscópio, ansiei por servir de estímulo para uma nova mirada sobre as milhares de crônicas e as dezenas de romances legadas por nosso escritor, tão apaixonado pelas coisas da vida e do mundo.

Pensei em palavras-chaves para guiar-me e inspirar-me por seu labirinto de letras, quais sejam: Açúcar, Bubu, Carlinhos, Doidinho, Escola do Recife, Fogo Morto, Gilberto Freyre, Histórias da Velha Totônia, Ita do Nor(des)te, José Olympio, Leônidas da Silva, o craque, Memória e imaginação, Naná, Opulência e decadência, Paixão Rubro-Negra, Quixote do Nordeste, Regionalismo e modernismo, Sertanejo é forte, Três Marias, Usina, Viandante, Xilogravuras, Zelinianas.

Claro, a leitura também vale como ensino da dinâmica social de exploração da história social brasileira, típica da estrutura fundiária, que permanece nos atormentando, tornando-se ainda mais aguda, com o surgimento de um fenômeno novo: a miséria. Basta evocar que o cenário, aos olhos de Ricardo, é desolador: “Via os moleques em bando, esfarrapados, pela porta do barracão: ‘Seu Ernesto’ chamava-os de ratos. Estavam sempre com fome. Viviam de iscas, de restos de comida, de rabo de bacalhau, que sacudiam para eles.”

Diante do objetivo de revalorização zeliniana, selecionei a seguir uma antologia de apreciações dos críticos literários que leram o escritor no calor da hora, na esteira das publicações, que ganhavam o fervor do público. Comecemos com Álvaro Lins, que vale quase como uma epígrafe antológica. Lembre-se que o pernambucano era chamado à época de “o príncipe da crítica”.

Como ele hoje é desconhecido da maioria dos leitores, reproduzo inicialmente uma citação sua no opulento livro, “A técnica do romance em Marcel Proust”, para que se tenha noção de sua perícia analítica.

 

“Todo o enredo de Le rouge et le noir se encontra num fait divers que Sthendhal leu na Gazette des Tribunaux dos últimos dias de dezembro de 1827, como o de La Chartreuse de Parme foi retirado de velhas crônicas italianas. Contudo, é um elemento necessário na ficção, caso não o tomemos em sentido muito estrito ou convencional. Enredo de romance é a ação das personagens numa ambiência. Ação, no entanto, nem sempre quer dizer uma sucessão de episódios desdobrados no feitio de uma intriga, regular e objetiva. A ação de um romance pode verificar-se exclusivamente como uma projeção da psicologia das personagens em movimento. A essa espécie pertence A la recherche du temps perdu, cuja ação é principalmente uma decorrência da situação psicológica das personagens em cena. Enredo uniforme e sistemático, com toda a urdidura do episódio que atrai outro episódio até um final contundente, não o tem o romance de Proust, nada preocupado com o ‘heróico’ ou com o ato fulminante para valorizar emocionalmente o desenvolvimento das situações ou os caracteres das personagens. Dado o espírito de narração, que é o de reconstituí-los por uma operação de memória no mesmo plano do passado, grande parte da ação é não raro indireta, não se produz aos olhos do leitor, e dela só tomamos conhecimento por diálogos rememorativos.” (p. 139-140)

 

Apresentado o crítico, vamos acompanhar três das suas referências a Zé Lins:

 

“… nenhum historiador do futuro poderá prescindir, para o estudo de nossa época, da obra do sr. José Lins do Rego…” (Álvaro Lins, “Memória e imaginação”, apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

“Os seus personagens, os seus enredos, o seu ambiente social, a sua memória, a sua imaginação – toda a sua vida é a de um homem que sente a sua terra e tem o destino de exprimi-la literariamente. Vejo que neste objetivo ultrapassa o regionalismo. Pois o seu regionalismo nada tem de uma limitação ou de um círculo fechado. Através do plano regional consegue abrir caminho para o plano nacional e para o plano universal”. (Álvaro Lins, “Memória e imaginação”, apresentação à quarta edição de Água-mãe, p. 10, 11 e 14).

*

“Sempre o sr. José Lins do Rego perturbará os críticos com a seguinte dualidade: um homem alegre, exuberante, apaixonado da vida até o sensualismo mais frenético; um escritor triste, um romancista que faz reviver personagens desgraçados, que descreve situações comoventes. Na vida real, o rumor das suas gargalhadas; na vida de ficção, um sentimento de lágrimas sufocadas”. (Álvaro Lins, crítica escrita para o Correio da Manhã, a 04 de fevereiro de 1944, transcrito na terceira edição de Fogo morto, p. 302)

 

Após tais menções de Álvaro Lins, vamos aludir a outros pares e contemporâneos do romancista, que recebeu críticas, mas também muitos elogios:

 

“A rigor não poderemos dissociar da obra de José Lins do Rego a sua figura humana. Quem teve o privilégio de conhecê-lo, reconhece-o a cada passo na leitura de seus romances, sobretudo no estilo, que lhe parece ter guardado o registro da voz. Se bem me recordo, José Lins do Rego não sabia ler em silêncio; seus lábios se movimentavam, repetindo o texto lido, enquanto os olhos faziam o seu ofício, percorrendo rapidamente as linhas impressas. E essa voz se transferia à sua frase escrita, com o mesmo calor, a mesma rusticidade lírica, a mesma fluência prodigiosa.” (Josué Montelo, no estudo “O romancista José Lins do Rego”, apresentação para as obras completas da editora Aguilar, de 1976)

*

“José Lins do Rego é, sabidamente, um dos escritores mais representativos da geração moderna. Talvez, mesmo, o mais representativo. Sua obra o demonstra exuberantemente. Não sabemos de outra que possa dar, no momento, uma impressão mais incisiva de obra menos escrita. As palavras circulam nela com o mesmo desembaraço do sangue humano no sistema arterial de um corpo adolescente.” (Coleção Fortuna Crítica: Eugênio Gomes, p. 263).

*

“O pendor para a introspecção era, em José Lins do Rego, anulado pela incapacidade de solidão. Ele precisava de estar sempre em comunicação com alguém. Bebendo ou comendo com alguém. Ou simplesmente ouvindo alguém falar, rir, fazer rir, contar anedotas. Explica-se assim seu muito convívio, nos seus últimos anos, com Luís Jardim. Sua presença constante na Colombo, no Juca’s Bar e, no Recife, na casa de Antiógenes Chaves: uma casa quase sempre em festa.” (Coleção Fortuna Crítica: Gilberto Freyre, p. 107).

*

“Ao ler trechos assim interroguei-me várias vezes sobre a natureza do prazer que eles nos proporcionam – a nós outros homens da cidade e do mundo da máquina”. (Bernardo Gersen, ao comentar o personagem José Passarinho, em Fogo morto, p. 172)

*

“Sem dúvida alguma, José Lins é um de nossos maiores criadores de personagens…escreve em estado de emoção e só o que sente” (Roberto Alvim Correia, em alusão ao romance Pureza e em específico ao personagem Lourenço, p. 372 e 373)

*

“… o projeto estético-ideológico de Doidinho pode-se definir em relação a essas ‘afinidades’ e ‘disposições’: é sublime, como Castro Alves, heroico, como Oliveiros, civilizador, como os pequenos italianos, e ‘coruscante’, como a voz dos oradores públicos que apaixonava tanto os auditórios populares.” (José Maria Arguedas: Los ríos profundos).

*

“O abalo de estruturas de uma sociedade rural aristocratizante, latifundiária e agonizante” (José Aderaldo Castelo, crítico cearense e professor da USP que, no início dos anos 1960 publicou um rico livro sobre o regionalismo e o modernismo na obra de José Lins do Rego).

*

Ainda que breve, a citação acima, de Aderaldo Castelo, é capital para o enquadramento sócio histórico do romance zeliniano. O historiador brasilianista Stuart B. Schwartz, em Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, assevera e ensina:

“Nenhum grupo na história brasileira possui uma aura de legendária magnificência tão marcante quanto a dos senhores de engenho no Nordeste. Ainda que no século XIX fosse proverbial dizer “senhor de engenho, morto de fome, cheio de empenho”, esses homens mantiveram-se no ápice da hierarquia social, projetando uma imagem de nobreza, fortuna e poder. Essa imagem sustentou-se em seu permanente controle da terra e dos escravos e no tradicional papel de potentado local que muitos deles encarnaram. Entretanto, os senhores de engenho não são simplesmente um tipo social facilmente transposto de uma época a outra; são também uma classe formada ao longo do tempo, que se desenvolveu historicamente e manifestou diferentes características em datas diversas. Houve, ademais, considerável variação dentro da própria categoria, e assim, conquanto muitos aspirassem a atingir o cume da pirâmide social, apenas uma pequena parcela logrou esse objetivo. Os senhores de engenho ditaram os padrões sociais na colônia e foram os que mais se aproximaram dos modelos vigentes na metrópole. Assim, examinando a composição e o comportamento desse grupo, podemos estabelecer a norma com a qual os demais indivíduos na sociedade eram comparados.” (p.224)

 

Para fechar este breve texto, sigamos as palavras do próprio Zé Lins ao falar de seu processo criativo:

 

“…começou a existir em mim uma história; começou a crescer dentro de mim o romance que poderia escrever. Tinha que escrevê-lo. Depois não me contive. A coisa passou a viver com tal força, a estremecer, a desafiar-me, que resolvi levar para diante a tarefa. E o livro saiu, com um mês de trabalho contínuo. A vida dos meus personagens me arrastou violentamente à composição. Tinha que acordar cedo, para estar com eles. Às vezes a preguiça me prometia a paz das manhãs de frio; mas o caderno em branco, a existência, a luta, o amor, o sofrimento da minha gente me chamava. Vinha para eles como se fosse um médico ou um padre, obrigado pelo dever da profissão.” (Fortuna Crítica, p. 358)

 

Antes de terminar, deixo ainda essas 6 sugestões derradeiras, à guisa de leitura complementar:

Adelino Brandão. Cana-de-açúcar. A invenção do Nordeste.

Fernando de Azevedo.  Canaviais e engenhos na vida política brasileira.  

Linda Lewin. Política e parentela na Paraíba.

Gilberto Freyre. Açúcar.

Câmara Cascudo.  Sociologia do açúcar.  

Roberta Barros Meira. Banguês, engenhos centrais e usinas.

 

Edição      Enrique Shiguematu

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José Lins do Rego: antologia de Meus verdes anos (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

“Nada me arreda de ligar a arte à realidade e de arrancar das entranhas

da terra a seiva dos meus romances e de minhas ideias”

(Zé Lins, citado por Austregésilo de Athayde)

No texto da quinzena passada, trouxemos passagens do livro derradeiro de José Lins do Rego: Meus verdes anos (1956), tido pela crítica como a ficção sem os disfarces da memória… Mas, de maneira semelhante ao clássico O pequeno príncipe, pode-se dizer que o universo infantil de Lins do Rego, povoado pela imaginação, é vivido à parte, inacessível, portanto, à lógica dos adultos. Além do protagonista do livro de Saint-Éxupery, José Lins do Rego chegou a ser comparado a um personagem de uma fábula do cinema infanto-juvenil.

Em seu premiado livro Engenho e memória, Luciano Trigo sugere que o autor de Menino de engenho vivenciou uma espécie de síndrome de Peter Pan, permanecendo apegado às lembranças daqueles anos primaveris, como se não quisesse crescer.

De todo modo, qualquer que seja o tipo de comparação, literária ou cinematográfica, fictícia ou confessional, o menino se evadia para os banhos no açude e para as brincadeiras com as crianças das redondezas, os moleques de bagaceira. Em suas lembranças, a fraqueza da meninice é contrastada à vitalidade das demais crianças da região, fruto talvez de um remoto espírito arcádico e por um mundo que às vezes parecia pouco entender.

Seus animais de estimação eram um carneiro e um canário. Trata-se das grandes companhias do menino, além do moleque Ricardo. Pode-se identificar igualmente uma relação direta do escritor com madrastas e padrastos, numa intrincada genealogia, muito bem esmiuçada pelo antropólogo José Sérgio Leite Lopes.

A mesma proximidade do escritor paraibano não acontece com a figura paterna, personagem ausente de Meus verdes anos. Nas vezes em que visitava o Corredor, o pai de Zé Lins não era recebido pelo antigo sogro, que se retirava da sala. João do Rego tinha uma reputação negativa na família. Era ridicularizado pelos da casa, visto como sovina e como alguém que não havia sido um bom marido à filha do coronel.

Nas recordações de José Lins do Rego, as cozinheiras da casa-grande consideravam seu pai um homem sem bondades, porém pacato. Com frequência, a semelhança física com o pai era comentada: “– Este é o menino de Amélia?  Tem tudo do pai, é a cara do João do Rego”. Ao contrário do avô, figura que muito o impressionava, Dedé era indiferente com relação à avó, dona Janoca. Dizia simplesmente não gostar dela, afigurando-se em suas lembranças como uma pessoa sombria.   

Retomamos nessa segunda parte, transcrições que consideramos antológicas da obra. Lembre-se sempre que o autor se opõe à tradição literária do romantismo, em favor de um regionalismo de fundo psicológico, com feições narrativas modernas. Comecemos com referências, sempre cruciais, à imagem do avô-coronel:

– “Gritava muito e descompunha como um capitão de navio. Mas tudo sem raiva, não fazendo medo aos moleques e nem temor aos trabalhadores. Era respeitado, e posso dizer mesmo que amado pela sua gente.” (p.22).

– “O meu avô passava a contar as suas histórias. Eram fatos dos antigos da família, episódios da guerra de 48, da cólera-morbo, das enchentes do Paraíba. Falava com a voz arrastada e contava tudo com os nomes e as datas. Muito falava do seu avô Num, do seu tio Henrique, do doutor Quinca do Pau Amarelo, das lutas do partido na Monarquia.” (p.92).

– “O meu avô não se importava com o francês das filhas do Tio João”. (p. 107).

– “Itapuá fora a maior conquista de meu avô. Desde que não pudera adquirir o Jardim, passara-se para a compra do melhor engenho da Várzea.” (p. 119).

– “Era assim o meu avô. A sua força morava na sua brandura.” (p.123).

– “Nunca o meu avô falava da morte do irmão. Só fazia dizer que cabra atrevido e gente de feira não os queria em suas terras. (…) Não gostava o meu avô de falar das desgraças da cólera.”. (p. 130).

 

Em seguida, veja-se como o escritor refere-se em duas citações às trabalhadoras domésticas do engenho, como a negra Galdina, entre outras:

– “As conversas das negras foram as primeiras crônicas que me deram notícias da minha família”. (p. 27).

– “Outra africana sobrevivente era a que chamavam tia Maria Gorda. Tremenda negra, perto de quem não podíamos chegar. Esta guardava no coração o ódio de todos os oprimidos. Dormia no último quarto da senzala e gritava contra tudo o dia inteiro. Não falava a mesma língua de vovó. Era de outra nação. Romana, assim do tamanho de um menino de dez anos, só tinha de grande a cabeça comprida como um mamão macho. Vivia a sorrir para o tempo. Fora ama de pegar de meu avô e viera da África ainda se arrastando. Tinha sido escrava dos Leitão, das Figueiras. Um seu filho chamado Isidro se empregara com um inglês da estrada de ferro. Fora com o patrão ao Rio e voltara de lá de língua atravessada contando grandezas. O negro Isidro ainda guardava uma farda que vestia na casa do inglês. Mas possuía o dom da narrativa. Tudo o que contava se parecia com a verdade.” (p. 105).   

 

É interessante igualmente observar como o imaginário fabulativo ou as notícias da capital circulavam no espaço comunicativo do engenho. Invocavam-se idas à praia e “histórias do farol” (p. 169), com sereias, faroleiros, e referências históricas, como as fortalezas dos tempos da ocupação dos holandeses. (p. 172)

– Sobre as histórias de Trancoso.  “A voz da velha Totônia enchia o quarto, povoava a minha imaginação de tantos gestos, de tantas festas de rei, de tantas mouras-tortas perversas. Tinha a velha um poder mágico na voz. Era sogra do mestre Águeda, tanoeiro, um negro que mal abria a boca para falar. Tinha para mim um poder de maravilha tudo o que saía da boca murcha da velha Totônia. – Conta outra”. (p. 114 e cont.).

– Sobre a leitura no engenho: “Não existiam livros no Corredor. Apenas chegavam maços de jornais do Rio de Janeiro, e sobre a mesa do santuário guardavam a Bíblia com estampas. Não era para ler aquele livro com capa vermelha. Seria, como os santos, um objeto sagrado. E nem o meu avô tinha necessidade de leituras. Apareciam folhinhas Bristol com as fases da lua e das marés. Se havia sobre uma lua-cheia, procurava-se a folhinha de capa amarela. Mas quando aparecia a Tia Marocas do Gameleira, os livros tomavam conta das tias Maria e Naninha. A Tia Marocas se educara em colégio do Recife. E podia falar de muita coisa. O fim do mundo não existia. Tudo aquilo era conversa de jornal. E nos punha a ler nas letras grandes dos títulos do Diário de Pernambuco e da Província.” (p. 126)

– “Apareciam os jornais do Recife, a Tia Maria passava a ler os folhetins, a Tia Naninha escutava aquela leitura embevecida. E as notícias do cometa punham um tom de terror às conversas. Os jornais davam detalhe do que seria o fim do mundo. Ficava-se na mesa a escutar a Tia Maria na leitura.” (p. 91).

– “Juntou gente para ouvir a engrenagem fabulosa” (p. 155)

 

A família extensa é de suma importância no imaginário zeliniano, como se observa em alusões à tia Naninha, tia Maria e outras: “Apesar de suas violências, era de coração bondoso. Dava esmolas e quando Tia Maria lia o Moço loiro no folhetim do Diário chorava. (p. 243 e 244)

– “A sua maneira de se comunicar com as filhas era estranha. Não conversava com a Tia Maria, a sua preferida. Qualquer coisa que desejava, pedia às travessas. À noite aparecia o momento de conversar com os seus contando histórias dos antigos.” (p. 128).

– “Tia Naninha não tinha o mesmo ar carinhoso de Tia Maria. Mudou-se para o quarto dela. Era ciumenta em comparação com a prima. Dormiam na mesma cama. Flagra a sua menstruação”. (p. 153).

 

A recordação mais pungente é a da mãe, dir-se-ia crucial. Faz a descrição materna chegando do Engenho Câmara, numa liteira, carregada por negros, ardendo em febre, quase morta:

– “Dona Amélia viera mais branca que madapolão. E vinha queimando em febre”.

 

Last but not least, o tema da fuga, sempre presente:

– “Montei no animal e de repente me chegou uma vontade indomável de fugir.” (p.154)

Edição      Enrique Shiguematu

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