Blog GV Cult

O poder oligárquico e a ficção de José Lins do Rego
Comentários Comente

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

O trem, fruto da Revolução Industrial na Inglaterra e símbolo articulador entre o campo e a cidade

“Cadê meu país do Nordeste

Que eu não vi nessa Usina Central Leão de minha terra?

Ah! Usina, você engoliu os bangüezinhos do país das Alagoas!”

Jorge de Lima, O mundo do menino impossível

“Dos brutos guindastes/de vultos enormes/

ainda maiores/nessa escuridão…/

os braços de ferro/pesados e longos/

parece quererem/sustar-me do chão/

– Ai!/eu tenho medo dos guindastes/

por causa daquele bicão”

(poema ‘Noturno”, de Ascenso Ferreira)

Para compreender a visão de mundo de José Lins do Rego, e a ordem de grandeza das transformações que ficcionaliza em sua literatura, é preciso situar o leitor com uma pergunta básica: qual é o contexto histórico de aparecimento do Ciclo da Cana de Açúcar, composto pelos primeiros cinco livros publicados, numa sequência de cinco anos, de Menino de engenho, de 1932, a Usina, de 1936?

Em outras palavras, como entender o fenômeno do ponto de vista histórico? O pesquisador pernambucano Souza Barros informa que as usinas datam de 1875, com a introdução de técnicas novas e um maior índice de produtividade, mediante o emprego em alguns casos de energia elétrica. Trata-se de um processo paulatino. Em números, contabilize-se que no ano de 1901 havia em Pernambuco 1.500 engenhos e apenas 40 usinas. Não obstante, os velhos fidalgos, proprietários de antigas casas-grandes, cujos pais conheceram o fausto, vão assistir doravante à sua própria, e lenta, decadência.

A Enciclopédia Nosso Século (1910/1930), da Editora Abril, postula na reportagem O açúcar dos canaviais traz as indústrias que o predomínio das usinas sobre os engenhos de banguê ganha contornos definitivos entre 1910 e 1920. Os engenhos passam a fornecer matéria-prima às usinas, que têm sua própria produção agrícola. Em 1910, contam-se exatas 46 usinas em Pernambuco. A produção duplica ao longo do decênio, embora a média salarial seja inferior à dos trabalhadores do sul do país. As exportações decrescem e cai a venda. Esta produção atendia ao mercado brasileiro do centro-sul, mostrando, segundo o economista Paul Singer, como o Nordeste se desvinculava da divisão internacional do trabalho e se integrava à divisão nacional do mesmo.

É a brasilianista Linda Lewin, em seu livro Política e parentela na Paraíba, quem se debruça com mais profundidade na parte histórica da região, ensejando uma apropriada contextualização da obra zeliniana. Segundo a autora, o repórter Antônio Botto de Menezes descreve como o coronel José Lins de Albuquerque, avô de José Lins do Rego, era um rico plantador de cana-de-açúcar e expulsou um vizinho modesto em Pilar através da manipulação do processo legal. Ainda neste livro, Lewin fornece a informação segundo a qual a revista Veja observara em 1980 que, graças à manipulação do sistema legal, “em nenhum país do mundo titulou-se tantas vezes o mesmo pedaço de terra. A julgar pelas escrituras registradas nos cartórios, a extensão territorial do Brasil está muito acima dos oito milhões de quilômetros quadrados estabelecidos pelos acordos internacionais desde os tempos da colônia”.

Também de acordo com a pesquisa da brasilianista supracitada, a sólida rede de base familiar de Cunha Pedrosa na Paraíba começou a crescer politicamente quando Abiaí o nomeou juiz municipal em Pilar, em 1887, tornando-se amigo do coronel José Lins de Albuquerque. No município de Souza, Pedrosa favoreceu o bloco familiar Antigo-Conservador liderado pelo coronel José Gomes de Sá, mas cultivou também a boa vontade do chefe oposicionista, o Dr. Antônio Marques da Silva Mariz.

Quando consultado para indicar um político de Souza para a Assembleia Constituinte, ele diplomaticamente indicou os nomes de ambos os chefes políticos. Quarenta e três anos mais tarde, ele permanecia em contato com os Gomes de Sá. E o coronel José Lins, de Pilar, por mais de trinta anos, enviou telegramas de congratulações a Pedrosa pelo dia de seu santo.

Embora diretamente associada com a chamada República Velha, a oligarquia nordestina constituiu-se no decurso do Segundo Reinado. Como percebeu corretamente Oliveira Viana, em Instituições políticas do Brasil, o pacto oligárquico resultou do casamento de um sistema eleitoral nacional com o que ele chamou de “clãs parentais”, a saber, clãs familiares extensos, os quais, por volta do final do período colonial, expandiram-se energicamente “à maneira de mancha de azeite”, absorvendo as grandes propriedades fundiárias da sociedade rural e as populações dela dependentes.

O surgimento de partidos políticos, na década de 1840, impeliu para a esfera pública do município as famílias extensas poderosas, transformando “clãs parentais” em “clãs eleitorais”. Os Lins na Várzea Paraibana, mais precisamente de Pilar, são um exemplo. Deste modo, as grandes famílias começaram a abranger municípios inteiros e tornaram-se, em nível local, “os mais importantes segmentos” dos partidos políticos nacionais. A mescla de poder público e poder privado, devido à expansão tanto de cargos eletivos como de serviço público, levou ao fenômeno disseminado de “empreguismo”, ou do nepotismo no controle de cargos e empregos públicos pelas famílias de elite.

As facções consistiam em pelo menos vários grupos de base familiar. A facção de Epitácio Pessoa, por exemplo, futuro presidente da República no início dos anos 1920, contava com os Pessoa e seus amigos políticos de Umbuzeiro, como os Lucena, os Cavalcanti de Albuquerque, os Barbosa, os Neiva e os Pereira, que tinham um parentesco mais distante com ele e entre si.

A lista padrão das oligarquias familiares durante a Primeira República incluía as do Rio Grande do Norte (Pedro Velho), de Alagoas (os Malta), da Paraíba (os Neiva-Pessoa e os Machado), do Maranhão (os Leite), do Pará (os Lemos ou os Montenegro), do Ceará (os Acioli), do Amazonas (os Nery), de Mato Grosso (os Ponce) e, numa situação mais intermediária), as da Bahia (os Vianna). O Piauí (barão de Parnaíba) e Sergipe (os Almeida Botto) são mencionados por Oliveira Vianna como as primeiras oligarquias do Brasil.

É tal âmbito histórico que informa a imaginação ficcional da obra de José Lins do Rego, em especial aquela que trata da passagem dos engenhos às usinas. Estas, decerto, travestem-se da ambição, do arbítrio, da prepotência, da usura e da ganância desmedida, encarnada em personagens como o dr. Luís e o dr. Juca no romance Usina: “A verdade é que as usinas estavam ali para humilhar os banguês do meu avô”, afirmava o menino de apelido Doidinho, no romance de 1933.

As máquinas que participam da chegada da usina entrosam-se num mesmo sistema. Em termos tanto simbólicos quanto materiais, a locomotiva está ao lado e de mãos dadas com a usina. O trem, fruto da Revolução Industrial na Inglaterra e símbolo articulador entre o campo e a cidade, atende às demandas de escoamento da produção do sertão para o seu consumo e exportação no litoral.

A função econômica encobre os efeitos colaterais da usina e de seu subsidiário, o trem. No limite, a visão zeliniana sustenta que a usina é danosa para a cultura nordestina, sendo corruptora em sua essência. Os meios de comunicação e os meios de transporte são devastadores no sentido de que descaracterizam a integridade da natureza, comprometem a autenticidade do modo de vida dos habitantes e invadem o isolamento protetor das regiões mais distantes da civilização.

A usina e a locomotiva condenam o futuro de um personagem literário como José Passarinho, saído da vida real, de quem se diz em Fogo morto: “… cantava porque era feliz, porque o mundo para ele não tinha mágoa para lhe dar. Bebia e cantava”.

Em contraposição aos cantares e beberes mais singelos dos filhos da terra, os usineiros eram seres desconhecidos e estranhos. Representavam uma plutocracia emergente, em vias de formação no Brasil. O engenho passava, mas a monocultura açucareira ficava. Agora o açúcar não seria mais purgado artesanalmente, mas refinado de maneira artificial, em processadores dotados de esteiras mecânicas, prenúncio de uma nova era técnica, mantenedora, contudo, de um status quo concentrador de renda e excludente.

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213


Dom Quixote na literatura brasileira
Comentários Comente

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Dom Quixote por Portinari

 

Os tipos quixotescos são recorrentes na literatura brasileira. Lembre-se que o Major Quaresma, personagem central do romance homônimo de Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma, costumava ser chamado de um Dom Quixote nacional, tamanho o seu otimismo visionário e tamanho o seu senso de justiça para extirpar os males sociais, proteger os fracos, aplacar os sofrimentos humanos.  

Como se sabe, as peripécias e pelejas do “engenhoso fidalgo” – um “apólogo da alma ocidental”, como definiu o político San Thiago Dantas (1911-1964), em conferência de 1947, comemorativa do quarto centenário de Miguel de Cervantes – provêm de um tempo bem preciso: aquele dos nobres cavaleiros andantes do final da Idade Média, período em que abundavam os chamados romances de cavalaria. Estes, junto às canções de gesta e às epopeias, compunham a literatura medievo-popular.

Na novelística de Cervantes, ponto máximo das letras modernas castelhanas, Dom Quixote é um pequeno fidalgo rural que, na altura dos cinquenta anos de idade, depois de ler uma enorme quantidade de romances, perde a razão. Desatinado e valente, elabora um plano absurdo, qual seja, o de fazer renascer a cavalaria andante, então em decadência.

Liberto de seu cotidiano e de sua condição social, Quixote peregrina ao lado de seu fiel escudeiro, Sancho Pança, um camponês da Mancha, província aldeã da região de Castela, na Espanha. Ao traçar o perfil daquele senhor comprido e magro, de armadura rústica e anacrônica, Cervantes inspira-se no gênero aventureiro, com lastro histórico e então muito difundido na Europa, para parodiar comicamente, através de Quixote e Sancho, este tipo de viagem.

As aventuras narradas pelo livro, que no século XIX receberia as clássicas ilustrações do desenhista francês Gustave Doré (1832-1883) – atualizadas no século XX por um Picasso e um Portinari –, tratam da busca um tanto insensata de Quixote por Dulcinéia, a sua dama imaginária, “o protótipo da beleza, o sentido da sua vida”. Arquétipo platônico, amor cortês, como pontua o crítico Erich Auerbach, Dulcinéia del Toboso é “la señora de sus pensamientos, extremo valor que puede desearse, término de la humana gentileza”. Poderia ser, portanto, equiparável à Beatriz de Dante, à Eneida de Virgílio ou à Margarida/Helena de Goethe.

A jornada é entrelaçada todo o tempo pelos fios que ligam a ilusão à realidade, a lucidez à loucura, o trágico ao cômico. Ao longo da trajetória, o herói romanesco da “triste figura” transporta-se para o mundo interno de sua alma – os pensamentos, as divagações e os desvarios. Presa fácil de sua ideia fixa, ele fantasia, de disparate em disparate, histórias de fases áureas e pretéritas, que gostaria de protagonizar ou de ter vivido, mantendo-se fiel ao melhor estilo narrativo cavalheiresco.

Conforme bem descreve o literato brasileiro Viana Moog, originário do Rio Grande do Sul, Dom Quixote torna-se alvo de todo tipo de escárnio:

 

“Sua vida é uma peleja contínua. Luta contra o cura e o barbeiro. Riem dele as meretrizes; apredrejam-no os galeotes por ele libertados; espanca-o o moço  de mulas do mercado de Toledo, quando, caído ao solo, enredado na própria armadura, já se não pode defender, porque, afinal, espancar os que se não podem defender é ação que corresponde aos moços de mula em todos os tempos.”

Outro escritor brasileiro a inspirar-se em Miguel de Cervantes foi o nordestino José Lins do Rego, no romance Fogo morto. Nesta ficção, o recurso à violência contra a personagem inspirada em Quixote pode ser constatado a seguir, em um comentário de outro protagonista, José Passarinho:

 

Encontrei lá embaixo o Capitão Vitorino que ia nos azeites. Pegou um menino de Chico Preto na tabica que quase lhe parte a cabeça. E quando Chico Preto apareceu para ver o que se passava, o capitão lá estava apeado, de punhal na mão, como uma fera. Nunca vi o capitão tão brabo. Eu cheguei e fui aquietando tudo. Também estes moleques fazem diabo com o velho!”

O folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu monumental Sociologia do açúcar, assim o enquadra o personagem quixotesco que, entre outros, Zé Lins reinventou na literatura brasileira: “Perdendo a fortuna, não perdia o direito satírico de diminuir quanto não lhe pertencesse. Acre. Rancoroso. Insubmisso. Pedro do Bom-Tom, pernambucano de Júlio Belo. Vitorino Carneiro da Cunha, paraibano de José Lins.”

Nesse diapasão, Zé Lins gostava de asseverar: “Ou o romancista movimenta os seus personagens com sangue e ideias, dando-lhes existência palpável, ou não passa de mero fabricador de figuras de papelão”.

Com efeito, e aqui ampliamos o debate para o terreno da criação e da inventividade literária, não se pode dizer que a aversão ao status e ao estereótipo do homem de letras seja apenas um dado idiossincrático do autor. A crítica aos artifícios da retórica e às regras da gramática, cultivadas pela tradição bacharelesca brasileira, foi uma marca de geração, uma reação desencadeada por jovens intelectuais que se formaram após a Primeira Guerra mundial, quando se desencanta o universo postiço dos dandys da belle-époque tropical.   Esta se formara entre 1890 e 1914, quando vertiginosas transformações técnico-científicas afetam o mundo e exercem notável influência sobre a fisionomia do Brasil, com novidades que vêm a alterar os hábitos e costumes da população brasileira.

Na virada para o século XX, havia três principais vertentes nas letras e nas artes do país: a geração de 1870, formada por Sílvio Romero, Tobias Barreto e outros expoentes da Escola do Recife, que ainda se fazia influente na vida intelectual da jovem república; a Academia Brasileira de Letras, criada em 1896 por literatos como Machado de Assis, José Veríssimo e João Ribeiro, aos quais logo se agregam políticos e membros da elite que em princípio nada tinham a ver com a literatura e que fazem dos salões literários meros palcos para exibição; o academismo francófono no ambiente das belas-artes, com os pintores e escultores brasileiros a imitar os cânones artísticos europeus, desde que a Missão Francesa, a convite de D. João VI, aqui se instalara no início do século XIX.

Somente depois dessas correntes é que se instaura o moderno regionalismo nordestino, nos anos 1920 e 1930. Com base nela, o crítico Tristão de Athayde irá dizer do personagem mais afamado do universo romanesco zeliniano, reafirmando sua inspiração na personagem de adjetivo quixotesco: “Dom Quixote sertanejo, o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, por alcunha ‘o Papa-Rabo’, seguramente uma das mais acabadas e tocantes figuras do nosso romanceiro nacional.”

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213


As viagens de José Lins do Rego
Comentários Comente

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''José Lins chegou a traduzir um livro sobre a personagem (Eleonora Duse)…''

Na apresentação do livro póstumo O vulcão e a fonte (1958), seleção de crônicas do escritor e amigo José Lins do Rego, o acadêmico Ledo Ivo exprime com sapiência:

 

“O viajar de José Lins do Rego revigora a sua condição de clássico da língua, colocando-o ao lado de outros brasileiros que souberam ver a diversidade do mundo, como Joaquim Nabuco e Oliveira Lima, Eduardo Prado e Alceu Amoroso Lima, Ribeiro Couto e Érico Veríssimo. É o andar e flanar de viajantes que não ficaram encerrados nos quartos de hotéis ou sitiados pela algaravia dos seminários e congressos literários ou científicos, e souberam respirar o ar estrangeiro. E, depois, guardar essa respiração e convertê-la em visões e estampas iluminadas”.

Destarte, mais do que a descrição de um repórter comum ou de um turista passageiros – turistas a quem o romancista chamava de basbaques, como também o fez Graciliano Ramos em seu diário de bordo, publicado no livro Viagem: Tchecoslováquia e URSS (1952) ─, o que se nota é uma série de reflexões livres e de pensamentos esparsos. Estes aproximam as crônicas de viagem de José Lins do Rego ao gênero do ensaio. Gênero que, desenvolvido por Montaigne, encontrou grande receptividade entre ingleses e espanhóis, ensaístas estes muito apreciados por José Lins do Rego, como Miguel de Unamuno, Ganivet e Azorin.

Se as fontes da literatura hispânica e anglo-saxônica foram legadas a José Lins do Rego pela influência de Gilberto Freyre, como propôs a socióloga Elide Rugai Bastos, a afinidade eletiva entre a crônica de viagem e o ensaio é vislumbrada da mesma forma em relação ao romancista paraibano. Novamente é o poeta Ledo Ivo quem observa com acuidade:

 

“A essa visão das coisas e dos seres, José Lins do Rego soube dar o indispensável rendimento criativo, em suas várias matizações, fosse uma cheia do Paraíba ou um templo numa colina ateniense. Bota de sete léguas e Gregos e Troianos, marcados pelo teor do monólogo andejo, dada a condição de livros de viagens, participam também da natureza ensaística, tal como a narrativa que Montaigne fez de sua viagem à Itália e à Suíça, ou as deambulações dos ingleses em geral. Eles iluminam a mais larga etapa de José Lins do Rego, para quem as viagens eram lições, ciclos de aprendizagem, labor humanístico, e mostram como esse espírito ‘terrien’ dispunha de uma sensibilidade porosa ao repertório estrangeiro.”

 No período em que se radica no Rio de Janeiro, entre 1935 e 1957, apogeu da sua maturidade artística e intelectual, José Lins do Rego repisa as suas concepções de arte regional e arte universal, de identidade nacional e alma popular, de tradição e modernidade, de cosmopolitismo e provincianismo. Desfaz-se o provinciano e avulta o viajante cosmopolita. Isto se manifesta no início dos anos 1950 com Bota de sete léguas: o nome da obra é alusivo a uma clássica história infantil, o Pequeno Polegar, personagem folclórico que, para fugir de um ogro, vale-se dos calçados mágicos. As botas o fazem escapar do monstro perseguidor com rapidez, podendo assim partir pelo mundo afora.

Ainda naquele decênio, José Lins publica o opúsculo Roteiro de Israel. O elogio ao povo judeu se dá de duas maneiras: o reconhecimento da presença da História naquelas terras, com todo o peso da tradição; e o reconhecimento de uma nação moderna, e ainda tão jovem, se ajustar rapidamente aos novos ritmos do progresso:

 

“Deixamos o aeroporto nas proximidades de Tel-Aviv para a subida a Jerusalém. O céu é o mais azul que já vi, e as primeiras terras, verdes, cobertas de laranjais. Vamos caminhando para as raízes da nossa fé, para a cidade que fora escolhida para a primeira capital de Deus.

Há mais de dois mil anos que sobre Jerusalém caíram as fúrias do destino. Por aqui passaram os gregos, as legiões romanas de Tito, os exércitos das Cruzadas, as hostes muçulmanas. Até as pedras choraram e de tanto chorar foram ficando em cima da terra como lágrimas cristalizadas. Pedras sobre pedras. Nem um pedaço de solo para o arado das searas de Booz.

 

Mas o homem de 1949 voltou a Jerusalém para corrigir as desgraças dos tempos. Então o gênio agrícola dos mestres agrônomos de Israel pegou da realidade brutal  e se pôs a agir dominando os elementos. Pedras foram arrancadas e, através de plataformas furadas no dorso duro da serra, conseguiram os técnicos restabelecer a fecundação. Vinhais e laranjais se grudam aos rochedos como se fossem acrobatas de circo. E lá ficaram plantadas para o nosso assombro. A água se espalha pelos canos em esguichos que rodam no ar,”

 

Suas viagens também ocorrem em função do futebol, uma vez que era torcedor, cronista e dirigente esportivo. Depois de atuar em pequenas cidades suecas, próximas ao mar Báltico, o time do Flamengo segue para Dinamarca, França e Portugal, acompanhado por Zé Lins, chefe de delegação, a fim de disputar outros amistosos, em um total de dez partidas, das quais vence a maioria. Isto contribui para aumentar ainda mais a fama dos brasileiros, já então conhecidos como os “reis do futebol”, “os maiores do mundo”, com dotes malabarísticos e acrobáticos em seus desempenhos com a bola.

Nesse périplo, que passava por Portugal, aproveitou a passagem para um almoço literário. O escritor lusitano Miguel Torga (1907-1995), por exemplo, foi quem fez o discurso de saudação a José Lins, quando este se encontrava em Coimbra. O autor de Criação do mundo discursou de maneira emocionada e falou do romancista brasileiro como uma forma mais ampla de ressaltar os laços de união afetiva entre Brasil e Portugal:

 

“Temos entre nós, sentado à mesa da pequena casa lusitana, José Lins do Rego, que na companhia de um punhado de jogadores do Flamengo atravessou o Atlântico. Na adulta consciência de um dos seus maiores escritores, e na destreza lúcida da sua mocidade, visita-nos a descomunal grandeza do Brasil, durante séculos a levedar, e finalmente a florir.”

Por fim, cabe pontuar que o escritor também se interessou por personalidades que gostavam de viajar. Foi o caso da atriz italiana Eleonora Duse (1858-1924) que, residente nos Estados Unidos, visitou o Brasil no início do século XX, em uma de suas turnês à América do Sul. José Lins chegou a traduzir um livro sobre a personagem para a editora José Olympio. No prólogo de abertura, discorre sobre a situação trágica da atriz:

 

“Ela, que despertava com tanta veemência amor nos outros, não podia amar. A sua voz, que era de um canto de veludo, era para todos. Teria que se dar, da cabeça aos pés: havia um público, que queria mais. Sofreu muito, abafou com as mãos magras os gemidos que lhe vinham do peito. Foi desprezada, foi cuspida pelo desprezo do poeta cruel, foi ultrajada. Mas tanta miséria não lhe secou a alma, sempre sensível à dor da humanidade. Quando, no palco, representava a dor de uma personagem, era ela mesma que era a dor; ela vivia a sua própria vida”.

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213


A experiência da tradução na literatura brasileira
Comentários Comente

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Ele (Caio Prado Júnior) viajou pela União Soviética e, a partir da experiência, descreveu a viagem no livro: URSS – um novo mundo.''

As informações sobre os mecanismos que decidem pela tradução de uma obra costumam ser dados de bastidor, pouco acessíveis ao grande público, pois envolvem negociações entre editores, autores e tradutores. O que se pode fazer como pesquisador é, aqui e ali, deduzir, inferir por meio de perguntas: como e por que uma determinada obra foi escolhida para ser vertida em outra língua? Ou podemos, ao menos, formular nossas próprias conjecturas, com base no contexto histórico em que ela ocorreu.

Vejamos o caso dos livros brasileiros vertidos para o russo, a partir das viagens de seus escritores. O ditador Joseph Stálin estava à frente do comando da União Soviética, desde que a morte de Lênin em 1924 abriu a luta pelo poder entre ele e seu concorrente Leon Trotski. A URSS vivia em uma franca expansão imperial, em meio à ascensão totalitária no mundo. O Comunismo iria mais tarde se abalroar com a concorrência do Nazismo e do Fascismo, resultando, entre outros elementos, em batalhas inflamadas durante a Segunda Guerra, como a famosa luta libertadora de Stalingrado.

No ano de 1934, o escritor Caio Prado Júnior era jovem, formado em Direito e convertido ao comunismo no início dos anos 1930. Ele viajou pela União Soviética e, a partir da experiência, descreveu a viagem no livro: URSS – um novo mundo. Logo depois o exemplo de Caio foi seguido por Jorge Amado. Já no início da década de 1950, Graciliano Ramos, igualmente adepto do PC, também conheceu a vida nos países da “Cortina de Ferro”. Foi não só à URSS, mas também à Tchecoslováquia.

De maneira direta ou indireta, as viagens possibilitaram desmistificar as visões maniqueístas, além de favorecer as relações pessoais e uma política de tradução dos romances desses escritores nos países “vermelhos”. As obras tiveram grande peso para a difusão da literatura brasileira naquela região do globo, área que cada vez mais se isolava do capitalismo ocidental, com o avanço da Guerra Fria e o acirramento da bipolarização mundial.

Veja-se também o caso dos autores modernistas vertidos para o francês. Os contatos de Blaise Cendrars com o modernismo no Brasil “vinham de longe”. A ligação remontava aos anos 1920, ocasião em que, ciceroneado pelos modernistas no Rio e em São Paulo, Blaise visitou as cidades coloniais mineiras. Lá, maravilhou-se com o barroco de típico corte brasileiro, talhado em madeira e em ouro. Destes, a obra escultórica e arquitetônica do mestiço Aleijadinho tornou-se seu maior exemplo.

Paulo Prado dá testemunho disso na parte integrante da apresentação de Cendrars a L’enfant de la plantation. O título do prefácio é sensorial e emotivo: A voz do sangue. O poeta europeu acentuou a admiração pelo livro. O sabor tropical da novela parece ter um quê de mistério. Identificado por Cendrars como novidade que se assemelha sensorialmente a um frescor, o poeta assim testemunha:

 

“Sinto-me incapaz de contar a vocês como é escrito. Não há frases, quase que não há palavras e as que são usadas são tão correntes e apagadas como pobres vinténs e é difícil acreditar que encerrem um valor suficiente para exprimir o que uma alma de criança tem de mais precioso a dizer e a formar um tesouro. Quase que tudo está coberto por uma terra ardente que irradia tristeza sob a felicidade de viver, de existir. Não sei como acontece isto, mas quando leio estas páginas, passarinhos saltitam de uma linha para outra. Meu sangue bate mais depressa. Todo o Brasil está neste livro transparente.”

 

Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Raymundo Magalhães Júnior, Dinah Silveira de Queiroz, Gastão Cruls, Vinícius de Moraes, Alceu Amoroso Lima, Gustavo Barroso, José Geraldo Vieira, Lúcia Miguel Pereira, Valdemar Cavalcanti, Genolino Amado, Acioli Neto, Adalgisa Nery, Almir de Andrade, Vivaldo Coaracy, Luís Jardim, Clóvis Ramalhete, Guilherme de Almeida, Heman Lima, Brito Broca, Rubem Braga (“Terra dos homens”, de Saint-Éxupery) e Lucio Cardoso (“Orgulho e preconceito”, de Jane Austin) figuraram como tradutores, em um estágio de desenvolvimento literário em que a tradução não cabia a profissionais.

Deve-se ainda ressaltar que muitas vezes o livro, embora fosse escrito originalmente em uma língua, como o russo, não era traduzido diretamente, mas conhecia a versão em língua inglesa ou francesa, as mais comuns no terreno da tradução vinda da Europa.

Mas afinal, o que vem a ser uma tradução? Apenas a conversão de um texto de uma língua estrangeira em uma língua local? Ou o movimento inverso de passar um texto em português para outra língua? Seria tão-somente um procedimento técnico-burocrático de identificar palavras equivalentes em dois idiomas distintos? A nos fiarmos em seu étimo, podemos dizer que tradução vem do latim tradere, que significa trazer, mas também, e de modo ambivalente, trair…

Convido o leitor a refletir mais a fundo sobre o assunto e proponho um sentido mais amplo para a acepção de “tradução”. Por que não pensarmos a passagem de um texto literário para uma adaptação teatral ou cinematográfica como um processo de tradução? O que se ganha e o que se perde neste movimento? Ou, no caso da literatura para o cinema: também poderíamos considerar a mudança de suporte como mecanismos de tradução? Um livro, um filme, uma peça, um programa de televisão são leituras da realidade e qualquer deslocamento de um tipo a outro não implicaria uma “tradução”?

Se estivermos de acordo quanto a isso, podemos continuar a observar as diversas e múltiplas traduções das obras de José Lins ao longo do tempo. No caso do teatro, o romance de José Lins chegou a ser adaptado pelo menos uma vez. A adaptação ocorreu em 1955 e o livro escolhido foi Fogo morto. Em crônica de setembro daquele ano, na sua coluna de jornal “Homens, seres e coisas”, o escritor relatou suas impressões da peça:

 

“Fui ver em São Paulo, levado por um grupo de amadores, a adaptação que fez, para o teatro, José Carlos Cavalcanti Borges, do meu romance Fogo morto. E a impressão que me deixou o esforço e a coragem dos jovens amadores paulistas foi a melhor. Para uma sala cheia o drama de Luís de Holanda Chacon, o Seu Lula, chegou a me empolgar. A doença e o orgulho se encontraram na obsessão pela grandeza defunta. José Carlos conseguiu exprimir em diálogos e monólogos a decadência da família rural destruída pela soberba de um homem no fim de raça. A doença deu a Seu Lula um tom lúgubre de raciocínio. Tudo para ele se resumia na filha que ia se consumindo na esterilidade de uma vida reclusa. O mundo lá de fora não existia para o pai que sonhava com um príncipe para entregar a sua filha. Tudo que não fosse a medida de seu sonho era uma vergonha. E assim o drama cresce em poesia pungente. A figura da mãe sacrificada é uma imagem da dor concentrada nas humilhações da pobreza. A presença de Vitorino Carneiro da Cunha dá à adaptação de José Carlos um triste cômico de teatro espanhol. Vitorino se espalha com a sua loucura como um verdadeiro pé-de-vento. O trágico e o cômico se cruzam na sua personalidade em atitudes e gestos que nos emocionam. Vitorino faz rir e chorar como um chapliniano autêntico. Dou parabéns a José Carlos Cavalcanti Borges. O que ele sentiu de meu livro é bem o comentário doloroso de um fim de época. Há muito de Pernambuco dos últimos senhores arrebatados na vigorosa interpretação do seu drama. Eu mesmo que imaginei os personagens me deixei surpreender pelos achados do escritor que soube arrancar das minhas pobres almas as suas terríveis particularidades.”

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213


Os escritores e os clubes de futebol
Comentários Comente

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Augusto Frederico Schmidt, por exemplo, era torcedor do Botafogo e exerceu cargos no clube.''

“Amo o Flamengo como fosse um pedaço da terra onde nasci.”

José Lins do Rego

“Era povo. Sentia povo. Respirava povo.

E como povo que era, entrou pelo futebol adentro e foi um fã,

desses de chorar ou rir, de matar ou morrer pelo seu clube.”

Carlos Lacerda,

discurso na Câmara dos Deputados (1957)

 

Embora muitos ressaltem as distâncias entre a literatura e o futebol, nem todos os escritores brasileiros foram infensos ao espectro do clubismo. Augusto Frederico Schmidt, por exemplo, era torcedor do Botafogo e exerceu cargos no clube. Além deste poeta e editor, Schmidt foi presidente do Club de Regatas Botafogo, entre 1941 e 1942. Um dos últimos atos de sua gestão foi idealizar a fusão do clube que presidia com o homônimo de futebol, o Botafogo Football Club, criando assim o Botafogo de Futebol e Regatas, como até hoje é conhecido o time da “estrela solitária”.

Caso curioso foi o do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto. Torcedor do América do Rio, como Marques Rebelo, destacou-se por fazer um poema ao clube. Sendo uma agremiação modesta da zona norte da cidade, que contava no entanto com a simpatia dos torcedores de outras equipes cariocas, o América foi alvo de uma poesia pouco comum, em que João Cabral faz uma espécie de elogio da derrota e da abnegação do torcedor americano.

Eis os versos, contido no livro Museu de tudo (1975):

 

“O desábito de vencer

Não cria o calo da vitória;

Não dá à vitória o fio cego

Não lhe cansa as molas nervosas.

Guarda-a sem mofo: coisa fresca,

Pele sensível, núbil, nova,

Ácida à língua qual cajá,

Salto do sol no Cais da Aurora”

 

O tom poético-melancólico de Cabral em tudo destoa do ufanismo clubístico do romancista paraibano José Lins do Rego (1901-1957). A título de exemplo, acompanhe-se mais esta crônica publicada no Jornal dos Sports:

 

“Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengos são brasileiros de todas cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juracy Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos”.

A capacidade de plasmar a pluralidade de características da nação e de condensar os seus polos mais antagônicos fazia do Flamengo, na visão apaixonada de José Lins, um clube diferente. No texto A sucessão no Flamengo, escrito na conjuntura posterior à Segunda Guerra, José Lins explicitava o caráter essencialmente anti-ditatorial do clube: “Somos uma comunidade democrática. Não topamos os ditadores e não nos agradam os que gritam e dão murros na mesa. O clube é cordial. E isto é tudo.”      

Seu ufanismo arrefecia quando passava da escala do clube ao da nação. Embora tivesse pendor patriótico, era capaz de analisar a Seleção Brasileira em chave menos exaltada. Na crônica O caráter do brasileiro, José Lins fez as vezes de sociólogo e se posicionou com as seguintes observações conclusivas sobre o Mundial de 1950, em que o time do Brasil foi derrotado pelos uruguaios:

 

“A Copa do Mundo, que se acabou tão melancolicamente, deu-me a impressão de uma experiência amarga, capaz de completar minhas impressões sobre o caráter do nosso povo. Vimos, no Estádio do Maracanã, uma multidão como raramente se tem aglomerado, em manifestações coletivas, no Brasil. Vimos duzentas mil pessoas comprimidas numa praça de esportes, nas reações mais diversas, ora na gritaria das ovações, no barulho das vaias ou no angustioso silêncio da expectativa de um fracasso. Ali estava todo o povo brasileiro, uma média de homens e mulheres de todas as classes sociais. Não era o Brasil de um grupo, de uma região, de uma classe. Era o Brasil em corpo inteiro. Para o observador social, para os que têm o poder de revelar o que há de mais particular nos povos, o campo era o mais propício. Mas para mim as observações começaram antes dos jogos sensacionais. Tive a oportunidade, como dirigente, de travar conhecimento, mais íntimo, com os que procuravam as acomodações, com os que tinham parcela de mando, com os que se sentiam com o direito de crítica, e mais ainda, com a lama das sarjetas, que queria passar pela água mais lustral deste mundo. E me perguntará o leitor: que impressão lhe deixou o brasileiro? Boa ou má? E diria sem medo de cair no exagero: uma boa impressão. Senti que havia povo na Nação – uma nova gente com capacidade de se congregar para uma causa, para uma obra, para os sofrimentos de um fracasso. Fizemos um estádio ciclópico, em menos de dois anos; organizamos um campeonato mundial, o de mais ordem até hoje realizado; formamos uma equipe perfeita de futebol. E, quando o título nos fugiu das mãos, soubemos perder, dando aos turbulentos sul-americanos uma lição de ética esportiva”.

Recorde-se que a representação do Brasil através do futebol tinha começado a ser construída doze anos antes, na Copa de França de 1938, quando justamente Leônidas da Silva, jogador do Clube de Regatas do Flamengo, se consagrou e conquistou através do rádio a notoriedade popular. A partir daí, e pelo resto da vida, José Lins tornou-se um fã de carteirinha do futebol, em particular do Flamengo. Seja como torcedor inveterado, como cronista diário ou como dirigente esportivo, o certo é que o romancista teve muitas alegrias – e também algumas tristezas – com este esporte.

Apesar dos eventuais dissabores, sua paixão ficou eternizada no “couro mágico” do atacante Leônidas (Diamante Negro), do meio-campista Fausto (A maravilha negra) e do defensor Domingos da Guia. Foram esses atletas negros que deram ao clube, conforme afirmava Mario Filho, a sua “transfusão de popularidade”. Esta se perpetuou nos pés de vários outros craques do time rubro-negro no decorrer dos anos 1940 e 50, graças à floração de Índio, Biguá, Servílio, Rubens, Evaristo, Zagalo, Benítez, Esquerdinha, Babá, Dida, entre tantos outros jogadores de origem popular, procedentes do Nordeste, do Sul e dos rincões mais longínquos do Brasil.

De José Lins do Rego, e sua paixão pelo Flamengo, pode-se dizer o mesmo que a canção de Wilson Baptista, Samba rubro-negro, composta nos anos 50, cujo refrão estribilha: “Pode chover,/ pode o sol me queimar/Que eu vou pra ver,/a Charanga do Jaime tocar/― Flamengo, Flamengo,/ sua glória é lutar/Quando o Mengo perde,/ Eu não quero almoçar, eu não quero jantar…”

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213


José Lins do Rego em família
Comentários Comente

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''… de um lado, uma calorosa passionalidade, que o irmana aos demais seres, aos homens comuns; de outro, uma humildade, por assim dizer, cristã.''

“Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama”.

(Jorge de Lima, A invenção de Orfeu)

 

 

José Lins do Rego foi casado com Philomena Massa, que conheceu de modo fortuito aos dezoito anos de idade (1919), num vagão de trem indo à capital da Paraíba. Philomena era filha de um político nordestino, o senador Antônio Massa. Este, de acordo com prática comum na história brasileira, valeu-se de sua posição e de seu status político para dar proteção ao futuro escritor. Massa conseguiu, para o genro recém-formado, um emprego público no aparelho jurídico do Estado. A seguir, nomeou-o no Ministério da Justiça. Esta nomeação foi seguida no ano de 1925 pela viabilização de uma transferência para a promotoria pública de uma pequena cidade de Minas Gerais, Manhuaçu. Nesta, ficou por pouco tempo, até retornar novamente ao Nordeste, desta vez à capital alagoana, Maceió.

Nessa cidade, viveu uma década, entre 1926 e 1935, onde ganhou projeção como crítico literário e teve três filhas: Maria Elisabeth, Maria da Glória e Maria Christina. Em 1935, Zé Lins foi nomeado para fiscal do imposto de consumo do estado do Rio de Janeiro e na capital do Rio fixou residência. Depois de morar nos bairros de Botafogo e do Humaitá, construiu uma casa no Jardim Botânico, perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, mais precisamente na rua General Garzon.

A casa da zona sul gozava de uma espécie de personalidade própria, todos a tratavam pela alcunha de “o Garzon” e ficava sempre aberta para receber os amigos de José Lins, como Thiago de Melo, Octávio Tarquínio de Souza e os irmãos Condé, em rodas de violão na entrada da casa ou em jantares organizados por Naná, apelido caseiro de Philomena. Isto sem contar as reuniões costumeiras em família, tal como singelamente recorda a filha caçula, também escritora: “… os almoços de domingo, papai sempre servido em primeiro lugar pela minha mãe, que lhe preparava cosidos maravilhosos, galinha gorda com pirão, as famosas fritadas de camarão, e depois a espera da carona do Mario Filho, que vinha sempre buscá-lo para o futebol”.

Assim como a construção, a casa do Jardim Botânico, em frente ao Jockey Club da Lagoa, foi montada e mobiliada aos poucos. Novamente é a filha mais nova, Maria Christina, que considerava a casa ora um castelo ora uma réplica do engenho, com seu cheiro de comida inesquecível, quem conta sobre a decoração do lar, feita pela mãe Naná:

 

“Mamãe tinha um ótimo gosto, mandou buscar o sofá de palhinha com as quatro cadeiras de jacarandá do engenho, mobília remanescente que ficara guardada em casa de parentes — com eles vieram também o lampião de opalina azul com a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do meu pai. Santa Rosa, que ilustrava os livros de meu pai, fora enviado a copiar a sala de jantar que estava na vitrine da Leandro Martins, fez um croqui perfeito, lindo, que mandaram executar pela metade do preço no Catete. Os quadros iam chegando e era papai mesmo quem os pendurava: os Di Cavalcanti, Portinari, Guignard, os Cíceros com a sua fase poética, belíssimos, o menino azul do Dacosta, mas eu adorava ficar olhando a menina no orfanato vestida de uniforme bordeaux segurando uma carta. Aquele quadro do Cícero me tocava profundamente.”

Sobre os afazeres domésticos, e o cotidiano da mãe no dia a dia da Garzon, é também Christina quem narra:

 

“Minha mãe era uma boa católica, não de ir à missa, mas não perdia sua feira dos domingos. Voltava com um carregador levando na cabeça um cesto enorme que vinha cheio de frutas, legumes e flores para enfeitar o Garzon. Quando chegava fazia cestos de frutas e legumes lindos enfeitando a cozinha, na sala colocava sempre no jarro que meu pai trouxera de Portugal, as flores mais bonitas que encontrasse”.

No final da vida, após o falecimento de José Lins, a relação de Naná com a casa do Jardim Botânico se estreitou ainda mais. É ainda a caçula Christina, afilhada de Olívio Montenegro, quem recorda: “Com o desaparecimento do nosso pai, minha mãe continuou firme morando no Garzon. Com o dinheiro que ganhou na Loteria Esportiva, mandou pintar toda a casa. E todo o dinheiro que entrava dos livros de meu pai era para melhorar o Garzon. (…) morreu minha mãe amando o Garzon até os seus últimos momentos de lucidez. E hoje, quando passo pela nossa casa, procuro não olhar nem para a esquina, não consigo sentir mais nada. É como se sua alma tivesse partido com minha mãe”.

Em 1947, aos quarenta e seis anos, José Lins do Rego deu um depoimento a um jornal carioca, logo após a publicação de Eurídice, seu undécimo e penúltimo romance: “Não gosto de trabalhar, não fumo, durmo com muitos sonos e já escrevi 11 romances. Se chove, tenho saudades do sol; se faz calor, tenho saudades da chuva. Temo os poderes de Deus, e fui devoto de Nossa Senhora da Conceição. Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo dos meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Afinal de contas, sou um homem como os outros e Deus permita que assim continue”.

No autorretrato do escritor, já consagrado pela crítica e pelo público, observa-se um traço recorrente nas ocasiões em que fala de si: a ênfase no seu lado humano, terra-a-terra, na sua condição de simples mortal. Queria com isto, parece não muito difícil perceber, afastar-se da tradicional imagem do escritor como um indivíduo frio e esnobe, dotado de “alta” cultura, alguém enfim encastelado nas redomas da arte e nas elucubrações do intelecto, em nome de um culto artificial que dificilmente o faz descer da torre de marfim.

Nas diversas vezes em que aborda a própria personalidade, José Lins do Rego enfatiza, com insistência, sua posição diametralmente oposta à desse tipo de literato de gabinete. Em verdade, trata-se de um duplo acento: de um lado, uma calorosa passionalidade, que o irmana aos demais seres, aos homens comuns; de outro, uma humildade, por assim dizer, cristã. Ambas atravessam de ponta a ponta o espelho idealizado e construído ao longo da vida pelo próprio escritor. É o romancista da palavra direta e espontânea, é o cronista sem papas na língua, que gostava de evocar com frequência a filosofia de Montaigne: “le parler que j’aime c’est un parler simple e naïf, tel sur le papier qu’à la bouche”.

A escrita almeja desse modo se confundir com o tom coloquial mais chão, que advém do contato popular, reproduzindo na letra impressa a voz das ruas, o burburinho das esquinas, o fuzuê dos estádios de futebol. Isto explica talvez o fato de o autor ter assinado durante anos uma coluna de jornal com o nome de “Conversa de Lotação”.  “O estilo é o homem”, dizia Buffon, e José Lins do Rego parece ter querido seguir à risca o aforismo, fazendo da simplicidade franciscana, da comunhão com a natureza e da impressão imediata das coisas a sua profissão de fé.

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213


A literatura estadunidense, a crise financeira de 1929 e o Brasil
Comentários Comente

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''À revelia da doutrina liberal, o novo presidente eleito, Franklin Delano Roosevelt, implantou os “Cem Primeiros Dias”, programa emergencial no auge da Grande Depressão'' Obra de William Sommer. Fonte: goo.gl/Ge5TfN

Até a Grande Guerra (1914-1918), acreditava-se que as potências europeias eram capazes de conduzir o mundo a partir de uma ótica imperial que se expandia desde a Europa. A imposição da supremacia dos Impérios europeus, alguns deles recém-unificados, fazia com que os últimos quadrantes do globo fossem dominados, em uma concorrência crescente por matérias-primas, territórios e mercados consumidores. A eclosão da que passou a ser chamada de Primeira Guerra mundial modificou essa percepção e, sobretudo, esse otimismo.

Depois da experiência bélica traumática, a crítica à racionalidade passou a ser veiculada também entre teorias cientificistas, em especial aquelas referentes à mente e ao comportamento humano, como a formulada por Sigmund Freud. Desde a publicação de A interpretação dos sonhos, em 1900, o fundador da psicanálise colocava em evidência as zonas sombrias da razão e revelava dimensões menos cômodas a respeito do ser humano, como o inconsciente, a histeria e a pulsão de morte.

O psicanalista reconhecia a existência de impulsos eróticos e tanáticos no homem, isto é, aqueles que direcionam o ser tanto para o amor quanto para a morte, tanto para a construção e preservação quanto para a destruição. É ainda no contexto da Primeira Guerra que o mesmo Freud troca correspondências com outro cientista, o físico Albert Einstein, com a pergunta carregada de perplexidade: Por que a guerra?

No decorrer do século passado, essas percepções se estenderam da ciência ao plano das artes. Na Espanha da Guerra Civil, o quadro do pintor espanhol Pablo Picasso, Guernica, talvez seja o mais emblemático dos efeitos perturbadores causados aos sentidos pelo genocídio das guerras.

Nos Estados Unidos, embora as guerras não tenham afetado seu território diretamente, uma crise viria a abalar suas estruturas e representações. O “modo de vida americano” – American way of life – vinha sendo propagado pela popularização de diversas imagens desde o início do século XX: o automóvel e a linha de montagem Ford; as casas de veraneio; a indústria do cinema – os estúdios de Hollywood, na Califórnia; os ídolos do star system – a começar pelo ator Rodolfo Valentino; e o uso de eletrodomésticos. O estilo de vida norte-americano se difundia não apenas na Europa, mas na América Latina, em particular no Brasil.

O discurso liberal dos Estados Unidos não impediu que suas ações internas no imediato pós-guerra fossem protecionistas. Em substituição ao livre-comércio praticado até 1914, o protecionismo foi uma das molas mestras da economia global. A subida de preço dos produtos industrializados – nos anos 1920, os EUA detinham metade da produção industrial no mundo – tentou contrabalançar os desequilíbrios econômicos internacionais, gerados pela permanência de altas taxas de desemprego, pela persistência da inflação e pela desvalorização monetária.

Em 1929, o surpreendente desabamento do valor das ações atingiu em poucos dias todos os bancos dos Estados Unidos, gerou a superprodução nacional, paralisou as vendas e faliu empresas sem discriminação, de pequenos autônomos a grandes magnatas. Seu choque se estendeu à economia como um todo, teve um efeito “dominó” sobre a política econômica mundial e desmantelou o arranjo das finanças no mundo inteiro.

Ato contínuo, a retração da demanda fez diminuir a produção, o que provocou demissões em massa nas fábricas norte-americanas, a ponto de, em 1932, cerca de 25% da população estadunidense se encontrar desempregada. A próspera nação defrontou-se então com as consequências perversas do colapso de seu sistema: fome, extrema pobreza, péssimas condições de moradia e migrações forçadas.

Tal fato afetou a própria literatura estadunidense então propagada e indignou o jovem escritor John Steinbeck (1902-1968). Passada uma década do craque da bolsa, em 1939, o Prêmio Nobel da Literatura publicou As vinhas da ira, ficção que narra a migração de fazendeiros do estado de Oklahoma para a Califórnia, empobrecidos pela crise e pela seca. Eis um trecho da pungente e indignada narrativa:

 

“Um milhão de pessoas famintas, precisando das frutas – e querosene derramado sobre as montanhas douradas. E o cheiro de podre invade o país (…) Há aqui um crime que vai além da denúncia. Há aqui uma dor que o pranto não consegue simbolizar. Há aqui uma derrota que aniquila todas as nossas vitórias. Terra fértil, árvores enfileiradas, troncos sólidos e frutas maduras. E crianças vitimadas pela pelagra devem morrer e cada laranja deve dar lucro. E os legistas devem preencher seus atestados – morte por desnutrição – porque o alimento precisa apodrecer, deve ser forçado a apodrecer. As pessoas chegam com redes para pescar as batatas nos rios e os guardas as impedem; chegam em carros barulhentos para apanhar as laranjas jogadas fora, mas o querosene é pulverizado. E elas ficam paradas vendo boiarem as batatas, ouvindo os guinchos dos porcos sendo mortos numa vala e cobertos com cal virgem, olhando para as montanhas de laranjas transformando-se em lama podre; e nos olhos das pessoas há derrota; e nos olhos dos famintos, há uma ira crescente. Nas almas das pessoas, as vinhas da ira incham e amadurecem, anunciando as próximas colheitas.”

À revelia da doutrina liberal, o novo presidente eleito, Franklin Delano Roosevelt, implantou os “Cem Primeiros Dias”, programa emergencial no auge da Grande Depressão, que concedeu dotação de crédito para os bancos, salário-desemprego e frentes de trabalho. Além disto, instituiu as leis sociais que garantiram a aposentadoria, a indenização de desempregados e a preservação dos sindicatos. As obras de infraestrutura também permitiram o reaquecimento econômico, com reformas feitas, por exemplo, no vale do estado do Tennessee.

No Brasil, também assolado pelo crash da bolsa nova-iorquina, as distâncias entre seu presidente Vargas e o equivalente norte-americano se ampliavam no tocante à configuração institucional dos governos, fruto das grandes diferenças de dinâmica política republicana. Durante os anos 1930 e 1940, o Brasil assiste a um reordenamento do pacto oligárquico estabelecido desde a implantação da República, no final do século XIX. Com o apoio de elites dissidentes, Vargas ascende ao posto máximo da nação em 1930 – o mesmo fora presidente do estado do Rio Grande do Sul anos antes – e nele vai perdurar por quinze anos, até 1945. Durante todo esse tempo, seu mandato conheceu três arranjos institucionais: um processo revolucionário (1930-1934), um governo constitucional (1934-1937) e um regime ditatorial (1937-1945), com um golpe que leva à implantação do Estado Novo.    

Em contraposição aos princípios do federalismo republicano, inspirado no modelo norte-americano e vigente desde o fim da Monarquia, a Era Vargas diminui a autonomia política dos estados e das oligarquias da República Velha. Interventores são nomeados pelo presidente e passam a fazer as vezes de governadores. Por via de consequência, as intervenções reforçam o poder centralizador do chefe da nação. Os laivos ditatoriais do governo Vargas, que se institucionalizaram com a implantação do Estado Novo em 1937, associando-o à imagem totalitária, não deixaram de ter um caráter progressista. Uma série de medidas foi legitimada na constituição, com a garantia dos direitos sociais – jornada de 40 horas, voto feminino, aposentadoria, plano de saúde, legalização dos sindicatos, etc. – até então desconhecidos pelos trabalhadores.             

É do jornalista Barbosa Lima Sobrinho a análise crítica da conjuntura de então e do tradicional posicionamento brasileiro:

“O Brasil sempre acreditou que fosse o centro de um sistema planetário, quando na verdade não estávamos muito longe das contingências de uma economia subsidiária ou dependente, arrastada na cauda de cometas impetuosos. Não chegávamos a ser originais nem mesmo no surto das correntes nacionalistas, que vinham copiadas do estrangeiro, como a reação anti-italiana que surgiu em São Paulo, em oposição aos núcleos das Sociedades Dante Alighieri, mas terminando, paradoxalmente, em apoio ao Fascismo, que iria valorizar esses movimentos de irredentismo italiano. Para se sentir até onde chegou essa agitação nacionalista e como na verdade derivava de tendências espúrias, basta considerar que se polarizou num anti-semitismo de importação e numa guerra ao imperialismo britânico, que a essa época deixa de existir ou passara aos norte-americanos a faixa, de que haviam sido detentores por mais de um século de domínio universal. Um país que chega a importar o nacionalismo está ainda muito longe das soluções que na verdade lhe convêm.”

A turbulência prossegue e, em 1935, ocorre na capital da República a Intentona Comunista, tentativa de tomada do poder através de um golpe, com o plano de tomada de quartéis no Nordeste. A iniciativa vai ser dada por correligionários do capitão Luís Carlos Prestes, líder tenentista, recém-convertido ao comunismo. À direita, no outro extremo ideológico, encontravam-se os integralistas, corrente partidária inspirada nos regimes conservadores que, sob a liderança intelectual de Plínio Salgado, também tentariam, por intermédio de táticas golpistas, a derrubada de Vargas.

Com ambas as sublevações debeladas, o regime varguista sufocou a democracia e impediu as ambições eleitorais de José Américo de Almeida e Armando Sales de Oliveira. Instaurou-se o Estado Novo em 1937, que perduraria oito anos, e só findaria em 1945, com o fim da Segunda Guerra mundial.  

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213


O cangaço e a literatura sertaneja
Comentários Comente

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''A figura do cangaceiro impressionou não apenas personalidades da cultura brasileira. O cangaço se tornaria conhecido em âmbito internacional.'' Obra de Aldemir Martins

“Mas quem podia com o cangaceiro que mandava

por todo o interior do Estado, como um governo?”

Fogo morto, de José Lins do Rego

“Os jagunços lutaram/até o final/

defendendo Canudos/

naquela guerra fatal”

samba-enredo da escola de samba

Em Cima da Hora (1976)

Quando tinha 17 anos, Glauber Rocha, futuro cineasta, leu com afinco o conjunto da obra dos escritores nordestinos. Euclides da Cunha, José Lins do Rego e Graciliano Ramos figuravam entre seus preferido. Anos mais tarde, iria compor a alegoria cinematográfica do sertão-mar: “o sertão vai virar mar/e o mar virar sertão”, prédica milenarista cantada na voz do músico Sérgio Ricardo, ao final do filme. Nele os protagonistas, Manuel e Rosa, batem em retirada do cangaço, para encontrar o litoral, na cena de encerramento, ao som da sinfonia trágica de Villa-Lobos.

A figura do cangaceiro impressionou não apenas personalidades da cultura brasileira. O cangaço se tornaria conhecido em âmbito internacional. Para o historiador inglês Eric Hobsbawm, por exemplo, no livro “Rebeldes primitivos” (1959), os cangaceiros eram afinal “heróis ambíguos”.

Já o sociólogo pernambucano Souza Barros combinava algumas dessas hipóteses na tentativa de esclarecer a realidade social sertaneja. A seu ver, o isolamento e a falta de poder público eram os principais responsáveis por aquele desregramento e anomia:

“O Sertão continuava quase isolado e até mesmo funcionários públicos, nomeados para o oeste do Estado, ainda eram obrigados a viajar pela Bahia e entrar por Petrolina. O banditismo campeava, resultado de uma péssima distribuição de justiça e de um poder de polícia omisso. A ausência de estrutura do Estado gerara o poder dos ‘coronéis’, o arbítrio, a luta entre os próprios ‘coronéis’ e as suas gangues e o uso do cangaceiro como um elemento persuasivo ou mesmo necessário para encobrir a responsabilidade de certos desfechos ou soluções de demandas e de luta entre grandes famílias. (…) No Sertão, as obras contra as Secas faziam os grandes açudes, desapropriando apenas a área de inundação e deixando esses ‘elefantes brancos’ dentro dos latifúndios dos ‘coronéis’, sem serventia maior e quase que destinados à salinização, com o assoreamento das enchentes seguidas de longas estiagens.”

A pesquisadora estadunidense Linda Lewin tem informações mais circunstanciadas da história do cangaço, em particular do período áureo de Antônio Silvino, o cangaceiro que o escritor José Lins do Rego conhecera na infância:

“Tendo se iniciado em 1897, a carreira do mais famoso cangaceiro da Paraíba, Antônio Silvino (Manuel Batista de Morais) coincidiu com a duração da oligarquia Machado-Leal. Seus roubos famosos e a continuada guerra que manteve com a Força Pública do Estado da Paraíba contribuíram acima de tudo para cristalizar a opinião pública a favor de uma posição mais dura do governo estadual contra o banditismo. As façanhas de Silvino deram-lhe, ademais, instantânea celebridade na poesia e no cancioneiro regionais. Os folhetos que por volta da virada do século começaram a ter uma grande circulação no Nordeste converteram-no num respeitável anti-herói. Na Paraíba, esses folhetos redefiniram o banditismo como uma questão política.

Para tornar as coisas piores para as oligarquias no poder, Silvino teve alguma participação na politização da questão do banditismo. A partir de 1904, aproximadamente, ele tornou públicos os seus ressentimentos pessoais com relação à administração do monsenhor Valfredo Leal e seu chefe de polícia, Antônio Massa. Silvino acusou também a Great Western Railway Company, de propriedade britânica, de expropriar terras de sua propriedade em Campina Grande. Um consumado e extemporâneo poeta por si mesmo, Silvino enviou versos politicamente derrisórios e ameaçadores a Valfredo e Massa, numa ‘guerra de telegramas’ que os poetas populares reservaram para o seu público em um número crescente de folhetins. Silvino revelou o que nenhum chefe local jamais fora capaz de demonstrar: que a autoridade pública do governo do estado acabava nos limites da capital. Para o deleite desses poetas populares, a alcunha de ‘Governador do Sertão’ – freqüentemente aposta a seus telegramas ameaçadores – espelhava a sua mobilidade territorial no interior de quatro estados. Ocasionalmente, Silvino até fez discursos em época de eleição para apoiar candidatos a cargos políticos. Suas escolhas recaíam sempre sobre os indivíduos com quem tinha um relacionamento de proteção, para os quais, assim fazendo, prestava um ‘serviço.’”     

Chama a atenção no movimento do cangaço do realce dado à personagem feminina que despertava a curiosidade e a imaginação do cancioneiro popular. Como, por exemplo, na quadra popular: “– Acorda, Maria Bonita/Levanta, vem fazer o café/Que o dia já vem raiando/E a polícia já está de pé”.

O assunto também chamou a atenção do folclorista potiguar Câmara Cascudo. A antologia Flor de romances trágicos (1966) reúne histórias de bandidos e bandoleiros. Como José Lins do Rego, Câmara Cascudo menciona a presença de Jesuíno Brilhante (1844-1879) na fazenda de seu avô, no interior do Rio Grande do Norte.

O sertanejo foi assim um dos tipos humanos mais sujeito a representações ao longo da história literária brasileira. De José de Alencar com O sertanejo (1875), e Euclides da Cunha, com Os sertões (1903), passando pelo próprio José Lins do Rego, com as obras Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953), até Guimarães Rosa, com Grande sertão: veredas (1956) e Ariano Suassuna, com A pedra do reino (1970).

A favor e contra eles se voltaram os coronéis. Vale citar o exemplo do comerciante, fazendeiro e usineiro Othon, codinome de Delmiro Gouveia, que se tornaria proprietário de uma poderosa cadeia de hotéis com seu nome. A impressionante história de ascensão do coronel Delmiro Gouveia chegou a ameaçar um vice-presidente da República, Rosa e Silva. Conta-se que os dois se atracaram pessoalmente no Rio de Janeiro, em 1900. Tal incidente não impediu que, em 1912, com o crescimento de seus negócios, o coronel Gouveia inaugurasse a Companhia Agro Fabril Mercantil e construísse a Vila Operária da Pedra. Seu poder voltou a incomodar outros coronéis do estado e acabou assassinado em 1917.

Nesse sentido, nas brevíssimas linhas deste texto, pode-se concluir dizendo que o coronel e o cangaceiro são duas faces de uma mesma moeda. Isto é, são dois protótipos de um mesmo Nordeste, marcado por conflitos pessoais, por vinganças e por faccionalismos de famílias em busca de hegemonia no poder local.

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213


Regionalismos e modernismos na literatura brasileira
Comentários Comente

GVcult

 

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Antes de escrever Macunaíma, o erudito Mário dedica-se à pesquisa e ao estudo…`'

“Regional, a meu ver, deve ter o sentido do real,

da realidade arraigada, da literatura que precisa do sumo da terra,

do sangue da gente, da força dos elementos para subsistir.”

José Lins do Rego

(entrevista a Aurélio Buarque de Holanda)

“Como na música de Villa-Lobos, a força

de um Lúcio Costa, de um Niemayer, de um Mendlin,

proveio da nossa vida, de nossas próprias entranhas”

José Lins do Rego

A casa e o homem

 

Quando se fala da extensão do território brasileiro, são várias as razões oficiais para apontar a sua grandeza. Do ponto de vista histórico, durante a Colônia, as fronteiras brasileiras foram estendidas pela ação das Entradas e Bandeiras, quando os portugueses e seus descendentes abriram caminho pelo interior, rumo ao Extremo Oeste; durante o Império, o Brasil ficou conhecido mundialmente como a “planta exótica” da América, a manter sua unidade em um momento em que os vizinhos hispânicos se desmembravam em Repúblicas; durante a República, logo após a sua proclamação, o Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, desenvolveu um importante trabalho junto às zonas limítrofes do país, do extremo sul ao extremo norte, culminando com acordos diplomáticos e até mesmo a compra de territórios, como o estado do Acre, em 1903.  

Em função dessa extensão, as latitudes e longitudes perfazem mais de oito milhões e meio de quilômetros quadrados. Todas as mudanças políticas, sociais e econômicas do país têm, pois, de levar em consideração tal ordem de grandeza. Apesar do esforço de centralização do governo nacional, historicamente cada região seguiu um ritmo próprio de adequação à “marcha da civilização”. Natureza, demografia e cultura foram elementos que concorreram para ritmar os avanços e para orientar, em cada caso, as demandas do progresso das cinco regiões oficiais. Hoje em dia, estas são reconhecidas pelo IBGE segundo a divisão entre Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste.   

Dentre estas, uma região merece especial destaque. Trata-se do Nordeste. A recriação paisagística e literária desta, principalmente na capital da República, já vinha sendo empreendida desde meados do século XIX. Na virada para o século seguinte, o país ainda era predominantemente rural, mas caminhava em progressiva mutação na direção da vida dita moderna. A esta altura, o imaginário nacional será marcado pela força da região nordestina, onde se acreditava encontrar uma das fontes populares supostamente mais puras e autênticas.

Com o escritor Sílvio Romero, a busca pela autenticidade popular se torna uma missão programática. Como se fossem antiquaristas à cata de relíquias, Romero e seus pares avançam em estudos sobre poesia popular, cantigas tradicionais, parlendas e tudo aquilo que hoje em dia se chama de patrimônio cultural ou imaterial. Estes coletores dão atenção cada vez mais sistemática aos vestígios das culturas lusitanas, negras e ameríndias. Neste programa, o Nordeste, em particular, passa a ser informado por um espírito científico de pesquisa.

Mas em diversas partes do Brasil, e não apenas no Nordeste, o romance se consolida entre 1870 e 1920, com Aluízio Azevedo, Rodolfo Teófilo, Adolfo Caminha, Papi Júnior, entre outros.

Um primeiro livro a ser destacado nessa safra é Terra de caipiras e tropeiros, de Valdomiro Silveira (1873-1941), considerado um dos pioneiros do regionalismo em São Paulo. Silveira captou o ambiente do interior paulista na obra Os caboclos, publicado em jornais, aparecendo em livro no ano de 1920. Em seguida, vale mencionar outro expoente, sobre o qual José Lins muito comenta em seus ensaios, o sulista João Simões Lopes Neto (1865-1916). Natural de Pelotas, ele tornou-se conhecido como autor dos antológicos Contos gauchescos (1911) e das Lendas do Sul (1912).

O regionalismo foi pródigo no Nordeste, seu principal laboratório literário, próximo da etnografia. À parte a personagem Iracema, ou o sertanejo de José de Alencar, o século XIX se concentrara nos tipos das obras de Franklin Távora (1842-1888) – responsável por separar a “literatura do Norte” da “literatura do Sul” – e de Domingos Olímpio (1851-1906).

Enquanto o primeiro se notabilizara pelo livro O cabeleira (1876), ambientado na Pernambuco setecentista, o segundo é reconhecido pela obra-prima Luzia Homem (1903), ficção com cenário no interior do Ceará, durante uma das secas históricas que assolaram o estado. A obra Luiza Homem foi considerada pelo respeitado médico Afrânio Peixoto como “um modelo de romance regional”. Já para José Lins do Rego, no livro Presença do Nordeste na literatura, foi a mais característica da geração cearense.

Outros regionalistas importantes que despontam nessa época foram o mineiro Afonso Arinos de Melo Franco (1868-1916), escritor dos contos Pelo sertão e Os jagunços, ambos de 1898; Godofredo Rangel (1884-1951), também de Minas Gerais, que descreve a história e a cultura mineiras em Vida ociosa (1920); o paulista Amadeu Amaral (1875-1929) que, embora tenha se restringido a ensaios e poemas, publicou seu Dialeto caipira (1920); e ainda o paulista Juó Bananère, artífice do regionalismo cômico-urbano, inspirado na fala da população migrante italiana, com La Divina Increnca (1924).

A região Norte do Brasil, no limiar do século XX, momento em que vivia o fausto da borracha, também ocupou seu espaço nessa galeria de ficções regionais. Inglês de Souza (1853-1918), natural de Óbidos, tal como o crítico paraense José Veríssimo, foi cedo morar em São Paulo, aos seis anos de idade, em companhia dos pais. É dele o ficcional Cenas da vida amazônica, título geral que abriga os “Contos amazônicos”, “O cacaulista”, “História de um pescador”, “O missionário” e “O coronel Sangrado”. Apoiada nas reminiscências de infância e nos relatos orais que escutou de um tio e do pai, a obra de Inglês de Souza constitui um painel da história sociopolítica do Pará, dimensão cíclica que alcançaria o ápice décadas depois, com Dalcídio Jurandir (1909-1979) e sua série romanesca sobre a Amazônia.

Como se sabe, o decênio de 1920, quando José Lins do Rego conclui seus estudos universitários e inicia carreira no serviço público de um Estado nacional que procura erigir as suas bases institucionais, assistiu à eclosão de um divisor de águas nas letras brasileiras: a Semana de Arte Moderna de 22.

Graça Aranha, em conferência pronunciada em plena Academia Brasileira de Letras, no ano de 1924, sintetizou em O espírito moderno aquela necessidade de renovação que animou os promotores da Semana de 22:

“A nossa literatura está morrendo de academicismo. Não se renova. São os mesmos sonetos, os mesmos romances, os mesmos elogios, as mesmas descomposturas que ouço desde os tempos de fundação da Academia, quando José Veríssimo não queria me deixar entrar e Nabuco forçou a minha entrada. É preciso reformar tudo aquilo. Dar vida àquele cemitério. Vocês são moços. São estudantes. Agitem a escola. Mexam com os seus companheiros. Façam alguma coisa de novo. Façam loucuras. Mas procurem espanar aquelas teias de aranha.”.

 

Seguido por uma plêiade de modernismos – um no Rio Grande do Sul, outro em Minas, um terceiro no Nordeste, um quarto no Rio – o movimento atualizará não apenas as vanguardas artísticas europeias, mas renovará, a partir de 1924, o interesse de seus escritores em “descobrir o Brasil”: seus costumes, sua língua, suas expressões mais singulares.

O paulistano Mário de Andrade será um autor emblemático desse vívido interesse dos homens letrados pela tradição artístico-popular. Antes de escrever Macunaíma, o erudito Mário dedica-se à pesquisa e ao estudo, com consulta a glossários, a vocábulos, a provérbios e a livros de escritores regionalistas. Baseado nestes, elabora um projeto de estruturar uma língua geral, comum às diversas regiões brasileiras, fundada na estilização da linguagem oral e dos seus diferentes falares regionais, com vistas a uma integração cultural do país.

Mário combina erudição com experiência, por meio da viagem. Primeiro embrenha-se pelo interior de São Paulo, em busca das origens do samba rural paulista. Vai mais longe, visita o litoral e o sertão nordestino. Lá conhece o folclorista potiguar Câmara Cascudo e o cantador de coco, Chico Antônio, seu “herói com caráter”. Mário não pára por aí, conhece as populações ribeirinhas do alto Amazonas, depois de já ter visitado as cidades coloniais de Minas Gerais, em companhia do poeta franco-suíço BlaiseCendrars, onde este se encantara com o barroco mestiço de Aleijadinho.

As aludidas viagens de Mário às regiões Norte e Nordeste em 1927, descritas em O turista aprendiz, um ano antes da rapsódia folclórica Macunaíma, que propositadamente embaralha as categorias dicotômicas do rural-urbano para “desgeograficizar” o território, são exemplo desse desejo intelectual de descobrir o Brasil, uno e múltiplo, diferenciado e integrado, nacional e regional.

No início dos anos 20, da mesma maneira que os modernistas de São Paulo, homens de letra das grandes cidades nordestinas – lembre-se de Câmara Cascudo em Natal, de Ascenso Ferreira em Recife e de Gustavo Barroso em Fortaleza –, vão fazer também as suas viagens de reconhecimento da cultura do interior. As incursões ao universo folclórico-popular revelam que a riqueza está em sua mixagem e em sua diversidade, especialmente no Nordeste, onde a presença colonial, confluência de índios, negros e portugueses, deitou fundas raízes no passado.

A materialidade da cultura popular pode ser encontrada às margens do Rio São Francisco, ao redor de cidades comerciais ou no entorno das feiras, centro de reunião de cantadores, com suas músicas de zabumba, divulgadas nos livros de Leonardo Mota (1891-1948): “Violeiros do Norte”, “Sertão alegre”, “No tempo de Lampião”.

As feiras constituíam o empório de legumes, frutas, cereais, raízes e medicamentos populares, à disposição do consumo do matuto. Havia também as feiras de animais: cavalos, jumentos, bois, carneiros, porcos e outras pequenas espécies domésticas. Um terceiro tipo de feira era dedicado às obras artesanais: redes de algodão, instrumentos de couro, louças (cerâmicas), chocalhos, urupemas, balaios, facas de ponta e brinquedos de algodão.

O artesanato foi uma das grandes expressões da cultura material nordestinas, materializadas nas peças de barro como as do Mestre Vitalino (1909-1963). O ceramista de Caruaru era especialmente admirado por José Lins, que guardava exemplares daqueles bonecos em miniatura em seu escritório de casa.

O apreço pelo patrimônio artesanal se manifesta quando aquilo que parecia como o caráter mais puro da nacionalidade – os hábitos e as práticas mais afastadas dos centros urbanos e, por conseguinte, mais próximas da natureza, da selva ou da paisagem do interior rústico – se apresenta em decomposição. Deste processo resulta o sentimento nativista que também influenciou os escritores modernistas, como a corrente do verde-amarelismo, liderada por Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e Plínio Salgado. Da mesma forma que as gerações anteriores, a tarefa de salvaguardar as tradições motivou o modernismo brasileiro a registrar as manifestações populares e folclóricas ameaçadas de desaparecimento.

A captação da fala espontânea do povo e o registro oral de vocábulos em vias de desaparição reapareceram no modernismo dos anos 20. Neste sentido, a plataforma dos modernistas paulistas se aproximava do que queria Gilberto Freyre para o Nordeste, com seu elogio da oralidade. Um e outro visavam romper com o bacharelismo dos salões acadêmicos, com o pastiche da moda parisiense, que desfilava na Rua do Ouvidor, e com a dicção empolada dos nossos bacharéis, pretensamente civilizados, que se valiam de todos os artifícios da retórica como sinal de distinção.

Longe de ser uma particularidade da intelligentsia brasileira, ir ao encontro do povo era uma demanda que se propagava desde a Europa. As correntes artísticas, descontentes com os efeitos niveladores do processo civilizatório, no qual a técnica e a máquina se impunham sobre os saberes manuais e sobre as “artes do fazer”, em meio a um continente combalido pela Grande Guerra, apostam no primitivismo e no exotismo antropológico de civilizações de além-mar, ditas primitivas, em África, Ásia e América.

Dentre esses artistas-viajantes em busca de povos e países com civilizações qualitativamente distintas do Velho Mundo, encontra-se o já citado poeta Blaise Cendrars (1887-1961). Nos anos 20, ele foi recebido no Rio de Janeiro e em São Paulo por uma comitiva de artistas, cujo mecenas era Paulo Prado. O vanguardista suíço visitará as cidades históricas de Ouro Preto, Congonhas e Mariana. Será o próprio, aliás, anos mais tarde, um efusivo leitor e apreciador das paisagens descritas nos romances de José Lins do Rego.

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213


Matéria de ficção: o futebol em José Lins do Rego
Comentários Comente

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Mário Filho compra em 1936 um periódico voltado apenas para as modalidades esportivas: o Jornal dos Sports. O Cor de Rosa, como vai ser conhecido popularmente seu jornal, será um grande promotor de espetáculos esportivos…''

“Os caminhos da ficção que nos legou passam

pelo eito dos engenhos de cana da várzea do Paraíba,

da mesma forma que pelos vestiários dos clubes de futebol”.

Edilberto Coutinho

“Reclamando, enfezado, irritando até as traves dos gols,

ainda é ele o melhor. O mais eficiente, o de mais classe,

o mais capaz. Depois que Leônidas se foi, ou melhor,

depois que acabou o futebol de Leônidas, o que existe

por aí é o futebol de Heleno”.

José Lins do Rego

 

A aproximação do escritor José Lins do Rego (1901-1957) com o futebol em muito se deveu à figura de outro nordestino: o pernambucano Mário Rodrigues Filho (1908-1966). A atuação deste na promoção de eventos esportivos e carnavalescos na cidade do Rio de Janeiro foi notável. Em 1932, por exemplo, antes de Zé Lins residir na capital da República, Mário Filho concebeu e promoveu o Desfile das Escolas de Samba, realização que será um grande sucesso na oficialização da música popular no Rio de Janeiro.

Com o crescimento dos investimentos nos esportes, Mário Filho compra em 1936 um periódico voltado apenas para as modalidades esportivas: o Jornal dos Sports. O Cor de Rosa, como vai ser conhecido popularmente seu jornal, será um grande promotor de espetáculos esportivos. Isto porque a implantação do profissionalismo no futebol não deixava também de ser uma forma de expansão dos negócios de Mário Filho. É ele, por exemplo, quem cria a legenda Fla-Flu e quem incentiva o concurso entre torcidas, popularizando ainda mais o ambiente ruidoso dos estádios.

Mário Filho, em 1947, quando José Lins já está radicado na cidade, publica um livro seminal: O negro no futebol brasileiro. O prefácio é de Gilberto Freyre, outro amigo de Zé Lins. Inspirado em imagens literárias, Freyre compara o zagueiro Domingos da Guia ao escritor Machado de Assis. Para o sociólogo pernambucano, Da Guia jogava como Machado escrevia, tinha um estilo “apolíneo”, era ereto, fleumático, como um inglês desgarrado nos trópicos.

Autor da domingada, Da Guia driblava com elegância e frieza dentro da própria área, sem chutar a bola de qualquer maneira, sendo capaz de passar a bola com categoria. Já Leônidas da Silva seria um jogador com um estilo de jogo que classificava de “dionisíaco”, por assim dizer de explosão. Se Domingos era retilíneo corporalmente, Leônidas era curvilíneo, anguloso, lábil. Inflamado, este fazia floreios “barrocos” com a pelota. Suas fintas e seus dribles ludibriavam os adversários no arremate do gol.

O livro traz um argumento até certo ponto polêmico, qual seja, o de que o futebol se popularizou no Brasil graças à entrada de negros nos grandes clubes esportivos do Rio de Janeiro. Estes se originariam dos clubes de remo, que logo se tornariam espaços para a prática do futebol, e não queriam permitir a entrada das classes subalternas, nem nos gramados nem nas suas sedes sociais. O carioca Leônidas da Silva, ídolo-mor de José Lins do Rego, seria um jogador de origem plebeia, nascido no subúrbio da cidade, que contribuiria para romper com essas barreiras impostas pelos amadoristas endinheirados. Tais jogadores passavam a representar o país nos selecionados nacionais, em competições internacionais disputadas na América do Sul e na Europa.

Dois anos depois de publicar esse livro, chamado por muitos de um clássico, Mário Filho ainda lançaria mais um: Romance do futebol (1949). José Lins voltaria a fazer elogios ao jornalista em sua coluna do Jornal dos Sports. Desta vez ele destacava a habilidade de Mario Filho como escritor:

 

“Outro livro que Mário Filho tomou para substância e conteúdo humano o futebol. É que arrancou dessa prática esportiva a sua mais romanesca particularidade. Mário Filho é o homem que tem o dom da narração, de contar o que sabe e o que imagina, como rio que corre para o mar. Os fatos, os incidentes, os choques, as alegrias e as dores dos seus personagens se apresentam ao leitor, como um conto ou história de Trancoso, no mais simples e mais patético narrar.”

 

Não foram apenas o jornal e o livro que aproximaram José Lins do fenômeno futebolístico. Sua aproximação deriva também da popularidade desta modalidade junto ao rádio, principal veículo de comunicação nos anos 1930 e 1940. Na política, por exemplo, a radiodifusão vai permitir a Getúlio Vargas o contato com a população brasileira, então dispersa em território de dimensões continentais, perfazendo mais de oito milhões de quilômetros quadrados. Para tanto, o Departamento de Imprensa e Propaganda do governo, o temido DIP do Estado Novo, criou o hábito de irradiar os seus discursos, conhecidos pelo nacionalismo e pela grandiloquência, a ganhar fama com a habitual exclamação de abertura “– trabalhadores do Brasil!”.

O estádio de São Januário foi um dos palcos preferidos utilizados pelo presidente em datas cívicas, como o Primeiro de Maio, quando se comemorava o Dia do Trabalhador. Estas ocasiões rituais eram retransmitidas pelo rádio para boa parte do país. O rádio, instrumento de sonorização e de captação de sinais eletromagnéticos, permitiu também a Orlando Silva (1915-1978), lançado por Francisco Alves (1898-1952) e cognominado o “cantor das multidões”, ecoar sua voz e emocionar milhares de ouvintes nos diversos quadrantes do Brasil. A música se revelará um notável meio de catalisação de audiência nas estações de rádio e chegará também às telas de cinema, outro grande meio de entretenimento e de unificação do imaginário nacional no período.

Embora a década de 1930 marque a descoberta e o encantamento de José Lins com o fenômeno futebolístico, não se deve presumir que ele tenha deixado de lado o seu interesse pela literatura e pelos amigos literatos. Neste período, ocorre um incidente que chamaríamos de heroico da parte de José Lins: a soltura da cadeia do amigo Graciliano Ramos. Em todo o mundo, vivia-se uma época de radicalização política. No Brasil, em 1935, ano em que Graciliano é preso, havia ocorrido a chamada Intentona Comunista, uma tentativa malograda de tomar de assalto o poder no país, por parte de admiradores do regime em curso na União Soviética.

O próprio José Lins retratara esse ambiente de agitações em O moleque Ricardo, livro em que o personagem principal, um operário envolvido em conspirações políticas, é enviado para o degredo na Ilha de Fernando de Noronha, como o triste personagem Policarpo Quaresma, da ficção de Lima Barreto, também fora enviado para a Ilha das Enxadas. Neste contexto, Graciliano Ramos, simpatizante do Partido Comunista como muitos outros artistas e escritores – Jorge Amado, Cândido Portinari, Ismael Nery, Edison Carneiro, Dalcídio Jurandir e Carlos Drummond de Andrade –, acabou preso em Alagoas.

Graciliano foi enviado para o presídio de Ilha Grande no Rio de Janeiro, onde conheceu a doutora Nise da Silveira (1906-1999), conterrânea alagoana também encarcerada, que se tornaria uma líder na mudança de tratamento clínico em hospitais psiquiátricos no Brasil, além de fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente (1952), em parceria com o crítico de arte trotskista Mário Pedrosa. Como o teórico marxista italiano Antônio Gramsci (1891-1937), Graciliano também se dedicou a escrever no presídio, a fim de suportar o ostracismo do cativeiro. Foi na prisão que redigiu um clássico da literatura brasileira: Memórias do cárcere.

Em 1937, ao lado de José Olympio, que havia lançado no ano anterior o romance de Graciliano, Angústia, José Lins intercedeu no Palácio do Catete e solicitou a intelectuais colaboradores do governo – Almir de Andrade, Lourival Fontes e Herman Lima –, a libertação do escritor. Após uma série de negociações, o pedido foi concedido e Graciliano saiu da prisão.

De início, Graciliano se hospedou na casa de José Lins, situada na Rua Alfredo Chaves, no bairro do Humaitá. Lá conviveu com Dona Naná e com as três filhas de José Lins. De forma anedótica, conta o crítico Silviano Santiago, no livro Em liberdade: uma ficção, que um novo hábito – a veneração de José Lins pelo futebol – causou espanto em Graciliano. Depois de poucos dias na casa, teria concluído perplexo o escritor: “Aqui Leônidas da Silva é mais importante que Dostoievski”.

Em paralelo à ação política em prol de amigos escritores, nestes primeiros anos em que se estabelece no Rio de Janeiro, a veia literária se apresenta fértil como nunca. Seguindo a sugestão de José Olympio – “Você, José Lins, pode fazer um romance em cada ano” – o escritor publica em 1935 o citado O moleque Ricardo. A série continua no ano seguinte, com Usina (1936); em 1937 aparece Pureza, um ano depois Pedra Bonita (1938) e em 1939, Riacho Doce.

A impressionante sequência anual dos livros publicados atendia em parte ao sucesso de vendas, em parte à disposição do autor na reinvenção das suas lembranças do agora distante Nordeste. O pano de fundo podia ser ora o espaço litorâneo e urbano de O moleque Ricardo e Riacho Doce; ora a ligação entre o litoral e o interior nas estações das linhas de trem em Pureza; ora as transformações de sua região de origem em Usina; ora ainda o sertão adusto em Pedra Bonita.

No estado do Rio, a vivência na região praiana das salinas de Cabo Frio e das lagoas de Araruama serve de inspiração para José Lins escrever um romance que será publicado em 1941: Água-mãe. O eixo central da trama gira em torno de mistérios de uma casa mal-assombrada. O livro apresenta, contudo, algumas novidades temáticas, paisagísticas e sociais em relação às obras anteriores: 1) não se filia a nenhum dos seus ciclos de romance – nem o da Cana-de-Açúcar nem o da Seca, do Misticismo e da Fome; 2) não se passa no Nordeste nem explora a paisagem da região nordestina; e 3) tenta retratar na ficção famílias pertencentes às três esferas da sociedade, das classes populares às classes médias e às classes altas do Rio de Janeiro.

Na década de 1950, Glauber Rocha (1939-1981), então um iniciante na crítica cultural, se encantou com a obra de José Lins do Rego. O cineasta baiano leu a obra de José Lins na íntegra, inclusive Água-mãe, e resumiu a parte em que José Lins trata da carreira do jogador. Tratava-se de mais um personagem frustrado, galeria dos demais tipos sociais descritos pelo autor: o senhor de engenho, o bacharel, o cangaceiro, o contador de histórias.

Eis seu comentário:

 

“Joca, o jogador de futebol, é a manifestação em nosso romance desse ídolo nacional. José Lins, grande entusiasta e entendedor desse esporte, exibe seus conhecimento com descrições de pelejas na melhor linha da crônica esportiva. Por outro lado, ultrapassando o devaneio, traça rápida mas profundamente, o roteiro geral do jogador de futebol: sua ascensão, seu auge na seleção nacional, sua queda brusca, sua morte na humildade e no esquecimento de onde veio. Joca morre ali mesmo, sentado na porta de casa, olhando tristemente a lagoa.”

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213