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GV CULT - Criatividade e Cultura

Contos oníricos (I)

GvCult - Uol

07/09/2021 06h03

O vinhedo vermelho (1888) – Vincent Van Gogh

Por Bernardo Buarque de Hollanda

À frente de um homem jaz uma sala, completamente alva, imponente, pé direito alto. Nela, há uma exposição de quadros. Encontra-se esse homem a um passo do recinto, quando uma tela ao fundo prende sua atenção e o atrai para o interior do espaço. O visitante, ainda contido e teso, domado pela alvura do ambiente formal, vai-se aproximando da imagem vagarosamente. O quadro, de matiz impressionista, difere dos demais pelo amarelo ouro dos seus girassóis.

Súbito, em meio às pinturas dependuradas na parede, avista o visitante um outro homem, que se posta rente à moldura alvejada. Com efeito, esse último, estático, mãos cruzadas e inamovíveis, fardado de preto e de polícia, assemelha-se a mais uma figura suspensa, em exposição aos passantes.

Os olhares de ambos se entrecruzam, mas ato contínuo se despistam. Cada um parece querer dizer algo ao outro. Todavia, a formalidade silente do espaço absorve e emudece. Os dois se sentem constrangidos em emitir palavra, como se estivessem acuados pela situação inefável. A mudez impõe-se, mas aflige-os, dilacera a um e ao outro. Tanto o visitante quanto o segurança do museu incumbem-se de fugir com os olhos: o primeiro fita o chão, o segundo o teto.

Até que, a passos esquivos, o observador alcança o quadro e consegue apreciá-lo. Contudo, incapaz de se concentrar, o visitante dissimula. Faltam-lhe frases, palavras, gestos, mesmo uma monossílaba não encontra. Embarga-se a voz, pervade o silêncio.

Em um esforço final, procura contemplar a obra. Lê o título apenso à direita, no canto inferior da moldura. Em seguida, informa-se na legenda a autoria do pintor. Mira e admira por mais alguns instantes o quadro. É de Van Gogh. Tenso, sentindo-se vigiado, volve o corpo e o mais rapidamente possível evade-se do lugar. Vira as costas ao guarda, que ali permanece, estanque, enquadrado em sua função de salvaguardar obras de arte. Incapazes de comunicação, ambos frustram a liberdade, emudecidos. Negam um dom humano, negam a si mesmos.

Edição Final: Guilherme Mazzeo

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.