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GV CULT - Criatividade e Cultura

As palavras de Guimarães Rosa (V): Grande sertão – veredas

GvCult - Uol

24/11/2020 06h24

"As pessoas não morrem, ficam encantadas" – João Guimarães Rosa. Foto: Pinterest

Por Bernardo Buarque de Hollanda

Encerraremos hoje a série dedicada à exaltação vocabular do reino linguístico de João Guimarães Rosa. Uma pletora de neologismos e de palavras que rescendem a dicção oral povoa seus livros. Para o encerramento, escolhemos neste quinto texto sua obra-prima romanesca, lançada em 1956, dez anos após o lançamento de Sagarana. Este foi um livro de contos de estreia, também contemplado nessa homenagem em publicação anterior. Selecionamos, um tanto ao leu, palavras e frases que nos tocaram no curso da leitura. Mais que um exame da literatura, permitimo-nos aqui tão somente fruir o sentido e o significado das palavras empregadas, volvendo à sua etimologia.

Em "Grande sertão", o foco da narrativa aborda uma miríade de relações, a exemplo daquela entre jagunços e o demônio, numa "fantasiação" em que o diabo prenuncia o invisível e o inefável. Nas Gerais, o "sertão está por toda a parte", pois existir é ver aquilo que está "no meio" das coisas, ou no meio do redemoinho, conforme indica seu subtítulo. A trama também enfoca os perigos do sertão, a "tanger a guerra" com suas lutas, seu vazio, seus enigmas e suas forças sobrenaturais. Para Guimarães Rosa, a religião popular é a forma humana de não enlouquecer e, por isto, não deixa de ter seu espaço na trama.

Seus sertanejos são compostos por toda sorte de adivinhadores, meretrizes, tropeiros, jagunços e clérigos, figuras humanas em sua maioria sem instrução, iletrados. Na travessia, seus temas refletem sobre a coragem e o medo, a lealdade e a traição. Da coadjuvância das personagens, chega-se às duas figuras principais reservadas pelo autor em sua sofisticada técnica de narração: Riobaldo e Diadorim. O âmago do romance se ocupa de sondar os mistérios de uma suposta relação amorosa. A sofisticação da escrita rosiana, o esplendor da narração, todavia, não o impede de ir ao encontro dos temas mais elementares e mais primordiais da existência, como o amor que a misteriosa relação entre Riobaldo e Diadorim encerra.

Passemos, pois, ao étimo das palavras e ao apelo desconcertante de uma antologia de sentenças selecionadas. Veja-se como opera a corruptela das palavras-pensamentos:

– Araticum: árvore do cerrado, da família das anonáceas, cujos frutos, enormes bagas múltiplas, doces, perfumadas e agradáveis ao palavras. Chegam a pesar dois quilos. Suas folhas são amplas e coriáceas.

– Atilado: escrupuloso, discreto, correto, elegante, sagaz, esperto, fino.

– Carnaúba: planta ornamental da família das palmáceas, de estipe ereto, flores amarelas e folhas grandes, a produzir cera muito usada na indústria de graxas para sapatos e assoalho.

– Caroá: do Nordeste. Planta acaul e terrestre, da família das bromileáceas, de poucas folhas, flores variegadas, protegidas por brácteas, e frutos em bagas sucosas, cujas fibras se usam na manufatura de barbante, linhas de pesca e tecidos.

– Esquipar: fugir.

– Ipueira: do Tupi. Lagoeiro formado nos lugares baixos pelo transbordamento dos rios, e onde as águas, em geral piscosas, se conservam meses a fio.

– Jacuba: refresco ou pirão feito com água, farinha de mandioca, e açúcar ou mel, e por vezes temperado com cachaça.

– Mosquete: arma de fogo antiga, com o feitio da espingarda, porém muito mais pesada, a tal ponto que para servir tinha de ser apoiada em uma forquilha.

– Pequi: do Tupi, árvore da família das cariocaráceas, muito grossa e própria dos cerrados. Tem folhas trifoliadas e tomentosas, flores enormes com muitos estames compridos, frutos drupáceos, oleaginosos e aromáticos, estimados como condimento para arroz e para fabricar licor, e madeira amarela, que também poderia ser utilizada.

– Sorrateiro: que faz as coisas manhosamente, pela calada, de sorrate, matreiro, manhoso, astuto.

– Sovela: instrumento de ferro ou de aço, em forma de haste cortante e pontuda, que os sapateiros usam para emprego do couro em seu cozimento.

 "… as pedras do fundo, uma dá na outra, vão-se arredondinhando lisas, que o riachinho rola". P. 16.

"Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando".

Edição Final: Guilherme Mazzeo

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.