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GV CULT - Criatividade e Cultura

A agonia das palavras – por Vítor Steinberg

GvCult - Uol

23/10/2020 06h52

Mira Schendel, Untitled from Graphic Objects,1967.

Por Vítor Steinberg

O grego comum, há cinco mil anos, cumprimentava seus concidadãos por: "Mortal", muito antes do nosso célebre "Oi". Ao invés do simples aceno melodioso, a palavra designava um lembrete para você não esquecer: sua vida é finita, abaixo dos caprichos dos Deuses.

Então você acordava desejando "bom dia, mortal" ágora afora.

Confiante no valor das pessoas no mundo, o grego pagão era apaixonado pela ideia de amizade, fraternidade. O homem tinha um lugar no Universo. Esse lugar é o Cosmos: a beleza, o círculo perfeito. Por isso temos a cosmética: produzir formas belas ao Caos que não tem forma. Simplesmente Caos é algo sem forma e Cosmos, seu oposto, a forma das coisas.

Livre e com fôlego para embelezar o mundo, o grego encrustou no vocabulário humano um oceano repleto de joias alumiadas. Por onde quer que você pesquise, as palavras gregas trazem consigo o máximo da criatividade e conexão com o sentido do Universo em nossas vidas. Godard, muito perspicaz, promoveu uma solução para os problemas econômicos da Grécia contemporânea: o planeta pagaria um imposto para cada palavra dita ou escrita com etimologia helênica. Não há dúvida, devemos nossa saúde mental e física às criações do povo mediterrâneo.

Em nosso século, um alto grau de problemas parece não ter solução. E olha que "solução" é um termo dos antigos alquimistas, representa dissolver, solver, tornar solúvel, amolecer uma estrutura química para torná-la uma outra. Indague: não querem que ninguém conheça alquimia e astrologia. Acadêmicos fazem chacota para proteger a interpretação das novas gerações como ciências sem sentido. Não são.

Aliás, este não é o único exemplo de manipulação da realidade (através da linguagem). A arte de arranjar letras num espaço e dar um sentido a elas, assim formando símbolos e palavras, é a tipografia. "Pensar com tipos", como diz Ellen Lupton. Observa-se um desarranjo tipográfico em andamento, promovendo sentidos a vilipêndios (desrespeitos), elaborando ódio, a segregação, a fragmentação e a perda dos valores.

Parênteses: "segregação" é se-gregatio (sair dos conformes dos modos gregos). O egrégio é alguém que se destaca no grupo, o agregado quem entra no grupo e congregação, o grupo por si só.

Não são maravilhosas as dinâmicas dos símbolos, a luminescência das palavras? Diga-me uma ideia tal qual inspiradora nos nossos tempos. Apenas uma! Desafio.

O lugar em que mais podemos encontrar desarranjos tipográficos são nos críticos de cinema, ou seja, qualquer pessoa com twitter. Antes de lançar um filme no mercado há uma fiscalização moral, espécie de polícia de valores da arte, pronta para analisar se a obra não está, por exemplo, recebendo um whitewashing. E se o protagonista não seria um white savior. Deepfake. Já não é bastante colonizador o anglicismo desenfreado? Assim promovem as startups, com o cara que fez marketing na internet. Emily em Paris, a gênia das redes, marqueteira que salva os arrogantes e bobões franceses fazendo um update cerebral e sexual na vida deles.

Onde já se viu uma americana com cara de princesa da Disney educar sexualmente uma francesa? É a Disney que sugou tudo da Europa. Youtuber millenium criticando cinema é pior que comentário de leitor da Folha de São Paulo. Que loucura! Tentam achar pormenores do tipo: "este ângulo poderia ter mais dominância, este corte é mal executado, este plano não foi bem elaborado: comprem meu livro! Um livro que nunca escrevi!"

Fazer um meio de vida monetizado é tudo que todo mundo quer. E logo que todo mundo do mundo parecer multimilionário, o que acontece? O burguês conseguirá entrar nos moldes de um remoto aristocrata? Restará um museu, um jardim, um livro, um oásis para desfrutar o ócio do seu lucro passivo?

 

Instagram do autor @steinberg__

Edição Final: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.