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Existencialistas, com toda razão – por Vítor Steinberg

GvCult - Uol

16/10/2020 06h22

Isabelle Adjani lendo, fotografada por Jean-Claude Deutsch.

Por Vítor Steinberg

Deleuze fala que para nos apaixonarmos por alguém, é preciso notar algo de demente na outra pessoa. Algo de louco. No lindo filme "Days of Heaven" (1978), de Terrence Malick, uma garotinha enrola um tabaco e pita deliberadamente enquanto enxava. Um operário interroga: "Ei, por quê você está fumando?" e ela, muito esperta, objeta: "Por quê você usa bota preta?" Não existe mesmo razão para fumar. Não existe razão para muitos acontecimentos. Quem sabe por isso o cigarro é um dos ícones mais famosos do existencialismo.

Existencialistas passariam horas de uma tarde num café fumando e perguntando-se por qual razão se fuma. Pode ser algo xamânico, a fumaça conecta sua alma à terra, aterra seu espírito ao peso carnal. Pode ser um movimento oposto, ao expirar fumaça você libera miasmas calcificados em seu espírito. Nunca se chegará a uma conclusão. O importante é pensar, discutir, amar, agir. Vivemos em um mundo absurdo, cabe a você decidir o que fazer, o que inventar.

Se os existencialistas entrassem em conspirações e cafonas discussões sobre política, seriam os filósofos de buteco. Mas essas besteiras não interessam a eles. Parte-se do pressuposto que o mundo não tem razão, jamais será ajustado, principalmente por opiniões: berros infantis de formiguinhas preocupadas.

O legítimo existencialista dos anos 60 veste gola rulê (turtleneck nos termos norte-americanos) para proteger-se do frio e aquecer sua garganta ao falar para o mundo. Mesmo que nunca mais precisemos usar malhas de lã devido ao calor que só aumenta – e que a gola esteja fora de moda – o foco é usar roupa preta. Como Hamlet, um reflexo externo de sua melancolia. Quase como o uniforme do pensador. Um operário do pensamento. Dolce far niente.

Calça jeans, malha preta, um livro e um cigarro aceso. Sentado num café, sozinho ou não (da menor importância) observando o movimento da rua. O livro é o escudo e o portal, além da elegância latente. O livro é o objeto de uma pessoa que está conectada, está elétrica de vida e esperança. Uma fotografia de uma bela mulher com seu livro é o absoluto da sensualidade. Depois de curtir um expresso, uns tragos e uns parágrafos, muito provável que o existencialista vá ao cinema.

Bote reparo, diretores dos mais extraordinários são totalmente existencialistas: Bresson, Godard, Bergman, Kubrick, Antonioni, Tarkovsky, Khouri. Incluso, não há verbete na Wikipédia sobre filosofia que enumere diretores de cinema. Apenas o existencialismo. Todos eles lidam com o absurdo do mundo seja de forma violenta (Kubrick, Bergman) ou delicada. E se há, quanta delicadeza transmitem. Planos subaquáticos de Tarkovsky, num lento zoom em algas verdes balançando no fundo escuro do oceano.

Após a matinê, o existencialista pode passar um deleitoso pôr-do-sol fotografando o frenesi da cidade, ou passar um tempo ouvindo um vinil de quartetos de corda de Beethoven. Bem comum alguém despercebido estranhar o silêncio de um existencialista, passar por ele e perguntar: "O que você está fazendo?" – ao passo que ele responde: "Ouvindo um disco".  Isso é o bastante para deixar muita gente chocada.

Com a companhia dos amigos num café, talvez dar uma de louco, levantar e dançar, seja tango, sapateado, balé clássico. Correr nos corredores de um museu. Cansado, rir abestalhado. O importante é a potência da vida, referindo aos filósofos existencialistas: o elã… savoir vivre.

Se tiver a oportunidade, leia Merleau-Ponty, meu filósofo favorito de todos os tempos. Como ele não curtia que um filósofo se reduzisse a uma mera citação, não darei exemplos de suas reflexões.

Os anos 60 trouxeram o charme da liberdade, da ousadia, do ócio criativo. Pessoalmente qualifico que têm bem mais bom-tom do que o radicalismo psicodélico dos hippies, posteriormente. Os hippies são divertidos, mas sou mais a finura sutil de um metropolitano e seu livro.

Os hippies e os anos 70 permitiram abertura para tudo, todavia ultrapassaram o contorno do encanto pessoal, abertos demais, a qualquer custo. A continência e adequação são o glamour do existencialista. Sou mais a bossa dos beatniks do que a guitarrada do Pink Floyd.

Literatura, cinema, fotografia, poesia, música. Saudade do que nunca foi. Só fazer, muito responsável e docemente, o que manda o seu coração.

"Um homem com uma dor é muito mais elegante" – Itamar Assumpção

 

Instagram do autor @steinberg__

Edição Final: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.