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GV CULT - Criatividade e Cultura

ONDE PESSOAS SÃO NÚMEROS EM PLACAS, A FÁBRICA É QUEM RESPIRA COMO UM CORPO

GvCult - Uol

08/10/2020 06h23

ONDE PESSOAS SÃO NÚMEROS EM PLACAS,

A FÁBRICA É QUEM RESPIRA COMO UM CORPO VIVO

Reprodção Internet: Cena do filme "Chapeleiros", de Adrian Coope.

Por Bruna Ayres Machado e Gabriela Kucuruza

"Que fabricas tu?
Fabrico chapéu
feito de indaiá.

[…] Que fabricas tu?
Não fabrico. Assisto
às fabricações."

Carlos Drummond de Andrade

Introdução

Segundo a jornalista Shcolnik (2014), em um filme sem entrevistas, Chapeleiros (COOPER, 1983) não hesita em buscar a visualidade estética, focando na materialidade, com trilha sonora de música e ruídos. Ao longo de vinte e cinco minutos, então, é possível acompanhar o interior de uma fábrica de chapéus em Campinas (SP). Na medida em que dois autores clássicos – Karl Marx e Émile Durkheim – orientarão a nossa apreensão do curta, é preciso considerar, antes de adentrar no audiovisual, o contexto da fábrica retratada.

Filmada em 1983, a Fábrica de Chapéus Cury possuía um modelo de produção aparentemente deslocado de seu tempo. Quando o curta foi gravado na década de 80, o toyotismo já se espalhava pelo mundo, com diversificação de produtos, flexibilidade, operários, em menor número, controlando máquinas e produção por demanda. Isso pouco ressoa no retrato da fábrica observada. Como apontou o professor Carlos Augusto Calil, em comentário sobre o filme, "a velha fábrica resiste, pois o trabalho artesanal ainda tem vez na economia industrial", mas a composição é inquietante. Outro ponto relevante para a compreensão da fábrica em Campinas é o entrelaçamento entre poder econômico e político. Miguel Vicente Cury, um de seus fundadores, foi prefeito duas vezes – em 1948 e 1960.

O curta, dessa forma, no aparente silêncio da repetição maquínica dos operários, decompõe-se em camadas que extrapolam tanto o audiovisual, como as histórias que o atravessam. Da cooperação entre trabalhadores à sua exploração, dos contramestres em fundo de cena à tabela de regras, percebem-se os múltiplos planos que se abrem para dialogar com as abordagens de Karl Marx e Émile Durkheim. Na próxima seção, portanto, nos dedicaremos às relações do curta com as abordagens desses autores.

Trabalhadores como máquinas – o olhar de Marx sobre a fábrica de chapéus 

Karl Marx, junto de Friedrich Engels, preocupou-se com a consolidação de uma teoria político-econômica informada pela materialidade e comprometida com a transformação da realidade. O seu método de análise, o materialismo histórico, parte do entendimento da história como processo dialético, em que o conflito entre classes é o seu motor. "A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes." (MARX; ENGELS, 2005, p.40).

A partir da era moderna, o antagonismo entre a burguesia, detentora dos meios de produção, e os trabalhadores assalariados é o fio condutor da história. Na fábrica de Chapeleiros, a figura do burguês não está presente, mas a luta de classes segue dada pela opressão do ambiente desumano e insalubre, pelo olhar dos contramestres, pelo quadro de regulamento e por todos os mecanismos que a classe opressora lança mão para a sua dominação. Os trabalhadores, aparentando resignação ao menos em cena, não dão pistas sobre a consciência de classe necessária para organização da luta classista.

Se de fato não a possuem, Marx, através de alguns conceitos elaborados durante a Primeira Revolução Industrial, nos possibilita entender a questão. A exploração dos trabalhadores, que possibilita a acumulação de capital pela burguesia, depende da alienação dos sujeitos. Segundo Giddens e Sutton (2016, p.75), para Marx, os proletários são alienados do seu poder de trabalho, dos produtos de seu trabalho e uns dos outros (pela competição por vagas presente no capitalismo). Dessa forma, a alienação impede que trabalhadores dimensionem o seu valor, permanecendo inertes diante da expropriação.

Na fábrica de chapéus, através do olhar cinematográfico, vemos o espelho quebrado que fragmenta o gesto repetitivo do empregado. A lente nos mostra também o quadro de regulamento interno da fábrica, no qual destaca: "não deve abandonar o seu logar emquanto não dér o signal de sahida, continuando sempre a trabalhar (sic)." Essa é a tônica da exploração capitalista: um ciclo infindável de fragmentação e repetição.

A partir do pensamento marxiano, compreendemos que os chapeleiros, que executam sempre as mesmas tarefas durante toda a jornada, estão completamente alienados do produto de seu trabalho. Primeiro porque, executando somente uma parte da atividade produtiva, o empregado não domina o processo integral de fabricação e, portanto, não reconhece sua essência no chapéu finalizado. Além disso, embora sejam responsáveis pela produção, os chapeleiros recebem somente por uma pequena parcela do que produzem, tendo parte de seu trabalho expropriado pelo empregador que o acumula na forma de capital, processo chamado pelo autor de mais-valia.

Desse modo, percebemos que a divisão do trabalho dentro do sistema capitalista, que segmenta não apenas o labor fabril mas também a relações sociais, contribui para exploração do trabalhador que perde a consciência do valor de seu trabalho. Adicionalmente, para o trabalhador, exausto de suas funções maquinais, há pouco espaço para experimentar outras possibilidades de estar no mundo através de seu intelecto e criatividade. Como nos informa Marx e Engels, "[…] com a divisão do trabalho, fica dada a possibilidade, mais ainda, a realidade, de que a atividade espiritual e a material – a fruição e trabalho, a produção e o consumo – caibam a indivíduos diferentes […]" (MARX, ENGELS, 1986, p. 45).

A fábrica como corpo: Durkheim e Chapeleiros

Émile Durkheim é notório por seu empenho para estabelecer a sociologia como ciência. O sociólogo francês foi o grande responsável pela consolidação de um método científico que embasasse esse campo de estudo e pela sua conformação enquanto disciplina universitária. Contudo, para fins dessa análise, nos interessa entender suas reflexões sobre o mundo moderno e sua complexidade.

Segundo Durkheim (1926 apud DE CASTRO e DIAS, 1974, p.80), sociedades complexas se formam com o desenvolvimento da divisão do trabalho, que implica em especialização de funções. Em sua análise da transformação da sociedade, a solidariedade é elementar para determinar os vínculos que reúnem indivíduos em grupos, conjugando formas consensuais de sentimento e de pensamento. Ela é um fato social: exterior, coercitiva e geral. Os homens, para Durkheim, não têm necessariamente consciência dos fatos sociais, mas sentem-se obrigados a agir segundo sua imposição, mantendo a coesão social.

A solidariedade foi trabalhada pelo sociólogo a partir da comparação entre sociedades pequenas – então chamadas primitivas – e sociedades densas. Em grupos menores, observa-se a solidariedade mecânica, com vínculos estabelecidos por meio de valores rígidos, compartilhados por todos. Assim sendo, quando um indivíduo fere um valor moral, ele é severamente punido pela comunidade. Já em sociedades complexas, com territórios mais extensos e a população mais densa, há diversas formas de vidas que não necessariamente partilham do mesmo conjunto de valores morais. Embora haja mais liberdade para exercer a individualidade, os vínculos não se desfazem. Nesse caso, o que explica a coesão social é a forma como as sociedades modernas organizam o mundo do trabalho.

A divisão social do trabalho, assim, é uma fonte da organização social. A solidariedade orgânica, percebida em Chapeleiros, deriva de uma divisão em que a unidade do organismo social cresce proporcionalmente à individualização das partes. A integridade social é mantida pela dependência entre elas. Dessa forma, se para Durkheim, a sociedade é como um sistema de órgãos, a Fábrica Cury, pode ser percebida como um órgão em si mesma, ou mesmo um corpo

Nesse sentido, Cooper, diretor do curta, produz sequências em que a ação especializada e repetitiva dos operários é intercalada com o movimento repetitivo do próprio maquinário com trabalham. As cenas, então, exprimem de forma excepcional a solidariedade orgânica. Os operários, como pode-se atestar nas cenas em que eles entram e saem na fábrica, são diversos: um grupo heterogêneo que opera segundo "a natureza particular da atividade social a que se dedicam" (DURKHEIM, 1926 apud DE CASTRO e DIAS, 1974, p.80).

Além disso, para produção do chapéu Cury, os chapeleiros dividem-se em suas muitas funções, cada qual altamente especializada. De acordo a análise durkheiminiana, a especialização permitiria o desenvolvimento das personalidades individuais, longe de sufocá-las. Nesse ponto, o retrato pode ser contraposto à teoria: o silêncio escolhido pelo diretor, que exalta muito mais o caráter opressivo e cansativo do trabalho naquela fábrica, abre pouco espaço para um entendimento sobre desenvolvimento pessoal dos operários. Em paralelo, o sociólogo traz que, através da divisão de trabalho, os indivíduos tomariam a consciência da sua dependência da sociedade. Se essa suposta consciência ocorreu para os trabalhadores retratados, é outro mistério.

Por outro lado, a fábrica de Chapeleiros, em seus ciclos de atividade-descanso, atua como o órgão-corpo apontado pelo autor. O curta começa com trabalhadores estirados em descanso, segue para o fluxo do trabalho, a pausa do almoço, o fim do expediente e o retorno à fábrica: ciclos orgânicos. Em certos pontos, a fábrica parece ter vida em si mesma.

É preciso ressaltar, também, que a divisão social em Durkheim produz a solidariedade observada, pois gera um sistema de direitos e deveres. As regras assegurariam o fluxo desimpedido de sangue no órgão, com pacificidade e regularidade das funções divididas (DURKHEIM, 1926 apud DE CASTRO e DIAS, 1974, p.80). O pacote de regras impostas a todos é essencial para a sua existência. Ele pode ser observado, então, na placa de regras da Cury e na presença de mestres e contramestres na fábrica, sempre relegados ao funda cena.

Nota-se, também, uma regra sobre a vestimenta: não é permitido trabalhar sem camisa, e só é admitido um tipo de bermuda específica. Nas imagens, entretanto, observam-se homens com poucas roupas, sempre sem camisas. As bermudas usadas também não se adequam às regras. Os únicos com camiseta são os contramestres e mestres, que se diferenciam da massa trabalhadora pelas vestes. A partir dessa constatação, portanto, pode-se elucubrar sobre a formação de acordos entre operários e mestres, com regras não-oficiais, mas que garantem o funcionamento da Cury.

Conclusão

Nos parece aceitável imaginar que tanto Marx quanto Durkheim ficariam chocados diante da insalubridade da fábrica apresentada por Cooper em Chapeleiros. Marx, possivelmente, entenderia como uma questão inerente ao próprio processo de exploração do trabalho. Já Durkheim veria a questão como uma patologia social gerada por um desacerto entre indivíduos, instituições e normas, porém passível de correção.

As coincidências de opiniões, entretanto, acabariam aí. Dentro da estrutura de fábrica, que em certo limite representa um microcosmo da sociedade, o que se apresenta como problemático para um pensador, é parte de um processo desejável para outro. Enquanto Marx via a divisão do trabalho como um empecilho à emancipação humana, Durkheim entendia-a como um fato gerador de coesão social e prosperidade.

Diante de visões irreconciliáveis de mundo, Adrian Cooper reitera sua posição. Ainda que toda angústia da repetição maquinal e opressão de um ambiente tomado pelo vapor não permita dúvidas, o epílogo reforça: onde pessoas são números em placas, a fábrica é quem respira como um corpo vivo. No plano final, a câmera que tenta enquadrar a chaminé nos diz mais uma vez: não há nesse mundo mais lugar para tal modo de vida.

Bruna Ayres Machado e Gabriela Kucuruza são graduandas na Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro – FGV CPDOC.

Trabalho da disciplina Sociologia 1, ministrada pelo professor Bernardo Buarque de Holanda.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CHAPELEIROS. Direção: Adrian Cooper. Brasil, 25 min, 1983. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=KCat4SuNPmU&feature=youtu.be&ab_channel=JUAREZ78>. Acesso em: 23 de set. de 2020.

DE CASTRO, A; DIAS, E. Introdução ao pensamento sociológico. Rio de Janeiro. Eldorado, 1974.

GIDDENS, A; SUTTON, P. W. Conceitos essenciais da sociologia. São Paulo: Editora UNESP, 2017.

MARX, K; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Hucitec, 1986

___________________. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005.

SCHOLNIK, A. IMS lança DVD com os filmes Libertários e Chapeleiros, que abordam o movimento operário no Brasil. Rota Cult. 2014. Disponível em: https://rotacult.com.br/2014/10/ims-lanca-dvd-com-os-filmes-libertarios-e-chapeleiros-que-abordam-o-movimento-operario-no-brasil/. Acesso em: 23 de set. de 2020.

Edição Final: Guilherme Mazzeo.

 

 

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.