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Post Tenebras Lux – por Vítor Steinberg

GvCult - Uol

04/09/2020 05h46

Pintura de Gerard van Honthorst (1592 – 1656) – Smiling Girl, a Courtesan, Holding an Obscene Image (1625)

Por Vítor Steinberg

Post Tenebras Lux é uma frase em latim traduzida como "depois da escuridão vem a luz". Um mantra, em grande número tatuado nas peles jovens por aí. Uns julgam a frase por demais católica, embate entre o bem e o mal, aderem ao pagão Carpe diem. É menos culposo. Assim como o yin-yang oriental (que na verdade diz a mesma coisa).

No Buzzfield tem o divertido "21 tattoos que todo mundo fez nos anos 90". Entre motivos celtas, golfinhos e o fantástico tribal, Carpe diem é a frase mais cicatrizada.

Vontade de sair do lugar-comum católico, quanto mais ateu e pagão, mais cool naquela época. Ouvir Enya, curtir Brida do Paulo Coelho, fazer uns feitiços wiccas, depois ver Jovens Bruxas no cinema. Nos anos 90 macumba europeia virou marketing, charme e moda burguesa de consumo. Meninas de gargantilha e batom preto, eu amava. Novela Vamp, a melhor da Globo. Madonna bruxona em Frozen, melhor clipe dela. Tem uns desfiles da Versace inspirados na heresia das inquisições, depois temos Alexander McQueen que absorvia tudo da estética gótica invernal.

Noites do terror do Playcenter não era brincadeira, além do que, se o ator fantasiado de vampiro sexy quisesse dar uns pegas com a turista-crush, podia rolar sem pudor nenhum. Uma amiga casou com um ator que fazia o Lestat da Entrevista com o Vampiro. Esse resgate a espiritualidade pagã nos anos 90 rendeu muito caldo. Paulo Coelho, douto mago da Ordem de RAM, entrou nessa e o embalo foi muito acertado.

Por mais que formos cada vez mais céticos e nada do que é cientificamente provado for real, não vamos nunca conseguir viver sem o oculto, a magia, a astrologia. É profundamente charmoso, nos causa uma conexão, uma identificação com o mistério, nos sentimos parte de alguma coisa. A realidade extremada nos larga num deserto frio e cadavérico, é um saco. Ilusão e feitiço não têm nada de ruim ou perda de tempo, são nortes, são ideias sedutoras e místicas, como quando somos atravessados por uma grande obra de arte.

Poderia ser radicalmente incrédulo, mas não cedo à ciência totalmente. Tenho sensibilidade aflorada, leio o mundo no movimento dos pássaros, jogo tarô e leio mapa astral há anos e nunca vi nos olhos de alguém qualquer coisa que não seja emoção, identificação e brilho sibilino de maravilhamento. Sou alquimista, falo com a linguagem do mundo, vejo os sinais, que são chamados de Anima mundi. Recebi a espada do mago.

Quando você testemunha a magia, o mundo testemunha magia em você, tudo fica deveras mágico. Escrevo sob a enorme lua cheia em Peixes, a lua da sensibilidade, da imaginação, sem dúvida ela me trouxe aqui, neste texto, nestas palavras, nesta poesia, neste momento de expressão. Expressar-se é lidar com você mesmo, frear em definitivo a auto sabotagem. Magia é lembrar quem você é.

O processo, o movimento processual de existir, estar consciente dentro de si, isso sempre me fascinou. A consciência do bem que é: nos desprender das amarras sociais, que nos impedem de crescer. A retirada das amarras. Na construção do meu eu, dentro desta vivência como Vítor, neste meu espaço-tempo, ela é intrinsicamente conectada com o cinema e a literatura.

Isso cresceu comigo. Encontrei meu verdadeiro eu através do cinema e da escrita. Como uma pessoa pode se encontrar e ter tempo de escrever? Encontrei este tempo dentro da minha realidade. Fui para uma ilha só para escrever e me reconectar. Então pensei: porque não publicar o livro? O processo é o desejo de encontrar o seu verdadeiro eu, a busca pelo fim da auto sabotagem, o processo é libertação. Trocar. Viabilizar diversas trocas dentro da minha realidade como Vítor. Meu livro é a minha percepção do mundo, a devolução de tudo que vivi desde a escrita até a publicação.

A direção cinematográfica chegou como um composto entre todas as minhas paixões, fotografia, filosofia, arte, teatro, ópera, música, poesia, beleza feminina. Leonardo Da Vinci em sua época era chamado de diletante.  É aquele que não pode ser outra coisa a não ser artista. Nas Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke diz a mesma coisa ao seu neófito:

Se você todos os dias não enxergar em si mesmo a mensagem: não posso ser outra coisa senão artista, não seja.

Clarice Lispector:

"Se eu não escrevo, estou morta".

Ser um artista não é uma escolha facultativa de teste vocacional. Está tudo errado. É uma questão bem mais ontológica, fenomenológica, muito mais do irracional, percebo agora, impossível descrever. Quem entendeu, entendeu. E digo: nós temos que impor cultura, não ficar flertando com a falta de cultura, ou então vamos ser grosseiramente devorados, muito diferente da antropofagia de Oswald de Andrade.

Este novo filme do Cristopher Nolan, Tenet, é todo baseado em mistérios da ciência que não se resolvem. Eu gosto muito de Inception, Batman Begins, The Dark Knight, Memento. Mas às vezes a preocupação demais em ser realista do Nolan atrapalha as coisas. E o filme fica um pouco chato. Afinal ele usa a ferramenta mágica do cinema. Não dá pra ser assim tão seco.

Até o título do filme, quem sabe sem querer, vem de uma inscrição mágica, um palíndromo encontrado em Cirencester, em Gloucestershire na Inglaterra, gravado numa parede de velha construção romana.

Pode-se lê-lo em qualquer sentido.

Essas palavras, pronunciadas de certa maneira ou gravadas num objeto, mobilizam forças desconhecidas da natureza. Não têm tradução. Ideia para uma tattoo estilo anos 90. Ou a decifração da criptografia do Código Da Vinci.

S A T O R
A R E P O
T E N E T
O P E R A
R O T A S

Instagram do autor @steinberg__

Edição Final: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.