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Trilogia Literatura e Isolamento Social

GvCult - Uol

25/08/2020 02h47

Gravura artística sobre a obra literária Oblómov – Fonte: Pinterest

Por Hélio Rainho

Tomo II – Oblomov – Ivan Goncharov (1859)

"Na rua Gorókhovaia, num daqueles casarões cujo número de habitantes equivale à população de todo um povoado da zona rural, Iliá Ilitch Oblómov estava deitado na cama de seu quarto, pela manhã."

Assim se abrem as páginas do clássico que apresenta um dos mais brilhantes personagens da literatura russa. Por essa simbólica ambientação de confinamento – um homem deitado na cama de um quarto – começa a saga de Oblomóv, descrito como alguém de "uns trinta e dois anos, estatura mediana, aspecto simpático, olhos cinzentos e escuros, mas com o rosto privado de qualquer ideia definida e sem nenhum traço de concentração".

Oblomóv é o protagonista do Tomo IIdesta trilogia sobre Literatura e Isolamento Social.

Ocioso, indolente, abastado em sua confortável casa, sob os cuidados do sensível e devotado servo Zakhar, Iliá Oblomóv estava ali senão para representar toda uma verve revolucionária de seu criador, o escritor Ivan Gontcharóv (1812-1891). A Rússia de meados do século XIX vivenciava os novos ares do capitalismo que subjugava a essência de uma aristocracia rural, esta francamente decadente frente a uma nova ordem urbana. Gontcharóv, nas palavras do tradutor Rubens Figueiredo, buscava com sua obra "traçar uma vasta pintura pastoral do mundo patriarcal dos senhores de terra". Se em 1861 a Rússia findaria com o regime de servidão, o que também alteraria sensivelmente a vida e a economia do país, o livro de Gontcharóv publicado em 1859 expõe, na pessoa do seu protagonista-título, um contexto mais humano e até psicológico envolvendo a questão social de seu tempo.

Trabalho versus ócio. O quase "manifesto do não-nada" criado por Gontcharóv expressava-se no aceno reverso de Oblómov ao fascínio da industrialização e dos homens-máquina imbuídos do signo do trabalho. Na contramão do fluxo dos novos trabalhadores que, de alguma forma, deveriam nutrir-se de esperanças pelo ímpeto de produtividade e ascensão, o herói destila nas páginas de sua saga uma lenta e transversa apologia à arritmia.

Se espera-se dos heróis que tenham atitude, empenho, movimentem-se dinamicamente pelas paginas dos livros, esse Oblómov o faz diferente. Ele se lança sobre o sofá e a cama, internalizado em seus aposentos, em isolamento social, indiferente aos apelos de todos os que estão à sua volta, imerso na alienação que o alimenta, sem com isso parecer deprimido ou tristonho. Ao contrário: de sua apatia, escorre um certo humor, uma ironia fina, um protesto de quem se convence de que não está no empenho a essência da vida.

Ilustração da casa de Oblómov – capa para edição da obra pela Editora Alba (EUA, 2016).

A casa dos Oblómov, naquele tempo, era rica e famosa em sua região, mas depois, Deus sabe por quê, empobreceu sem parar, perdeu importância e por fim, de maneira imperceptível, desapareceu em meio a novas famílias da nobreza. Só os criados mais grisalhos da família guardavam e transmitiam uns aos outros a memória fiel do passado, cara a eles como algo sagrado.

O velho aristocrata não se empenhava em disputar pelo trabalho a velha postura de ascendência que sempre conservara como proprietário de terras. Seus dias passavam com o planejar e abandonar ideias e ações: tudo o que Oblómov almejava era dissuadir a si mesmo de todo o ímpeto produtivo que parecia tornar-se mola-mestra da nova ordem daqueles tempos. Como consequência, é claro, perdia dinheiro. Não importava: era isso uma nova filosofia de vida – o devir – contrária ao que a todos seduzia naqueles tempos – o dever.

Retrato de Oblómov para edição da obra criada pela Createspace Independent Publishing Platform (EUA, 2016)

E como as roupas domésticas de Oblómov casavam bem com as feições tranquilas do rosto e com o corpo afeminado! Vestia um roupão de tecido persa, uma autêntica túnica oriental, sem a menor alusão à Europa, sem franjas, sem arremates de veludo, sem cintura, muito folgado, a tal ponto que mesmo Oblómov poderia se enrolar duas vezes no roupão. As mangas, de perfeita feição asiática, subiam dos dedos até os ombros cada vez mais largas. Embora o roupão tivesse perdido seu frescor original e em certos pontos houvesse trocado seu lustro primitivo e natural por um outro, artificial, ainda conservava no todo o brilho de uma beleza oriental e a resistência do tecido.

A obra de Ivan Gontcharóv era muito clara quanto a um aspecto peculiar da personalidade de Oblómov: tratava-se de um dândi, um homem cuja concepção de vida era estetizada. A descrição detalhada dos trajes do personagem apontava para uma preocupação com o desfrute pessoal, um hedonismo consciente desarraigado do ideal dos engajados de sua época: ainda que o tempo consumisse e acabasse com suas riquezas, sua escolha pessoal era renunciar a todos os impulsos ao trabalho e ao acúmulo de capital: Oblómov queria apenas viver e consumir o que possuía! A referência a um "corpo afeminado" era cara aos estetas de seu tempo, prenúncio da metrossexualidade do século XX: era um corpo cuidado, perfumado, tratado com zelo e apuro.

Iliá Ilitch parecia viver sua vida numa moldura dourada, na qual, como num diorama, só mudavam as fases habituais do dia e da noite e das estações do ano; outras mudanças, sobretudo os incidentes graves que levantam do fundo da vida todos os sedimentos, não raro amargos e turvos, isso não havia.

Que mais importava a esse anti-herói retórico, um estranho às loas do próprio heroísmo? Mais uma vez, seu apego ao isolamento!

Fazer da própria vida uma moldura dourada, um exílio do mundo que o rodeava, em um ímpeto de não-contaminação!Emoldurado em seus sonhos nunca realizados, em sua promessas nunca cumpridas…sei lá, sabe-se lá…o que queria esse estranho homem, senão ignorar que a sobrevivência está ligada sempre à conexão com os outros ou com as ideias de seu tempo?

Mais uma vez a literatura nos ensina que o fato de estar só ou confinado pode significar muito mais do que simplesmente sentir-se aprisionado ou limitado a um universo angustiante e prisional. Oblómov protegeu-se da infecção de sua época: o ativismo do novo capitalismo que chegava e chacoalhava as ideias do velho aristocrata rural que ainda habitava dentro dele.

Cabe a nós olhar para a saga de Oblómov e pensar que, ao contrário desta pandemia que hoje vivemos, aquela por ele negada (o capitalismo) atingiu a todos, expandiu-se pelo mundo e não teve fim. Não é doença: é regra.

E, se isso nos servir de algum consolo, que nos conforte a ideia de que os medos da literatura podem ser mais perenes do que os da vida que vivemos.

P.S. Os excertos da obra usados neste texto são da obra "Oblómov", Editora Companhia das Letras, tradução do russo e apresentação de Rubens Figueiredo. A não-referência das passagens faz parte de um convite à viagem pelo quarto do autor…

Edição Final: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.