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Caçadores da Arca Perdida – por Vítor Steinberg

GvCult - Uol

14/08/2020 07h21

Miles Johnston s/t 2018.

Por Vítor Steinberg

I

Melancolia, nobre e corrupto sentimento do poeta, do outono, do pôr-do-sol. Tem disco de compositor japonês feito só para o pôr-do-sol. Descubra Hiroshi Yoshimura no seu Spotify. E a nostalgia de uma gymnopedie ao piano de Eric Satie. É quando ficamos contentes com música triste. Música triste faz bem! Tem playlist só de adagio, eu mesmo tenho a minha, em desenvolvimento, há anos. Yoshimura e Satie conversam. E existe mesmo uma conexão entre a arte francesa e a japonesa.

O impressionismo (francês) tem por característica e pesquisa o japonismo. O próprio termo japonismo foi inventado pelos impressionistas nos séculos XIX e XX para designar a adoção do estilo japonês à pintura francesa. Até Van Gogh participou! O sentimento de pôr-do-sol em Paris e nos telhados de Kyoto são muito parecidos mesmo. A melancolia é a mesma. Universal. Sincretismo da vida sem destino…

Nesta embarcação da vida sem destino, ao melhor estilo E La Nave Va, o coronavírus não tem agenda, é sine die (sem dia). O sistema, totalmente subordinado a cronogramas, fica patinando sem rumo…

Zygmunt Bauman (o filósofo ainda está em vigor, é claro!): se você não permanecer em movimento, patinando na pista de gelo, você congela. A obrigação em patinar (ser produtivo) num mundo escorregadio é um esporte definitivamente radical.

Estamos num mundo sem mundo…

Interessante! Viver na carne um momento histórico da civilização é no mínimo intrigante. Este é sem dúvida meu lado Indiana Jones, não entro em pânico quando a história aparece. Quero ver tudo de frente.

Indy sempre se joga na aventura tomado de medo. Na manif de 2013, por exemplo, filmei de perto imagens incríveis, ousadas, sem saber se uma bomba de efeito moral explodiria ao meu lado. Nunca se vê Indy falando que tem mais coragem do que alguém – ele nunca é tolo, é sempre humilde, faz as coisas apavorado… (para Aristóteles, verdadeira qualidade do corajoso: sentir medo e fazer mesmo assim).

Indy também tem um elã, uma potência de vida sem fim, não resiste à novidade de uma nova aventura, mesmo quando está cansado.

Depois de ser perseguido por caminhões e tanques atirando mísseis, tendo que se rastejar debaixo do motor de uma jamanta e cair num precipício, Indy vai parar em algum covil de transatlântico (geralmente acompanhando de alguma parceira amorosa).

Quando pretende descansar e baixa o chapéu sobre seu rosto, alguma coisa apita, soa um alarme, invadem um museu, chega alguém, roubam algum artefato. Em trinta segundos Indy já está preparado, vestindo sua jaqueta de couro, banho tomado, escapando de avalanches e partindo pra outra!

Como é entusiasmante viver experiências fortes, uma seguida da outra, sem precisar descansar, talvez somente no fim do filme, quando todos fazem festinha na conclusão merecida das peripécias.

Ativismo? Só se for cultural! Quero ser o antropófago comendo no batuque do prato do Moreno Veloso. Explico: a revista Rolling Stone criticou a live do Caetano alegando que seu filho, Moreno, não tinha instrumento para tocar e improvisou o batuque do samba num "prato e faca". Nova aventura, inspirado naquela famosa cena da pedra rolando em cima do herói: Indiana Jones e a Rolling Stone desavisada!

Etimologias: a palavra coragem vem de coeur (coração) e agir, portanto, agir com o coração. A palavra entusiasmo vem de en-Theo-siasmus, Theo, significando Teo, de teologia, de 'Deuses'. Então en-Teo-siasmus é quando os deuses se manifestam na sua alma.

Melancolia origina-se de Melanos (escuridão, trevas) e Kolia (bílis, fígado, cólica) – portanto é um humor das trevas, antigamente conhecido como bílis negra.

 

II

Nesta série de curtas literários em produção semanária, prossigamos editando o discurso sobre o mundo.

Semana passada escrevi um pouco sobre a Polônia e não me param de vir referências ótimas de lá: estão significantes na qualidade de filmes, séries, manifestações e também na indústria criativa dos games.

Refiro-me a realização de The Witcher 3, da produtora CD Projekt Red. Para PS4, foi o único jogo que encarei do começo ao fim – e relato: a experiência é das intensas, o jogo é uma loucura e a dublagem em português faz você aprender várias palavras esquecidas desde as eras medievais. A mesma produtora, que começou bem pequena em Varsóvia e agora tem mil funcionários, vai lançar um game de distopia "futurista" com Keanu Reeves.

No filme polaco citado semana passada – Rede de Ódio – a cena game aparece com bastante ênfase. O país vai muito além de ser berço de Chopin, que nasceu na cidadezinha de Zelazowa wola!

 

III

Já imaginou um drama histórico narrado por beatbox? Acaso tenha o streaming Disney+, assista ao musical Hamilton, filmado ao vivo na Broadway. Com protagonismo do divertido e talentoso Lin-Manuel Miranda, o enredo traz luz a um revolucionário momento na história dos EUA, em plano século XVIII, ao fino som do hip-hop!

 

IV

Toda vez que ligo um pouco de Globo Esporte no almoço, anunciam que é aniversário do Zagalo. Estranhisses de uma quarentena.

 

V

Outro poema, para revitalizar nossa poética e seus cafundós:

Balada, de Mário Faustino

(Em memória de uma poeta suicida)

Não conseguiu firmar o nobre pacto

Entre o cosmos sangrento e a alma pura.

Porém, não se dobrou perante o fato

Da vitória do caos sobre a vontade

Augusta de ordenar a criatura

Ao menos: luz ao sul da tempestade.

Gladiador defunto mas intacto

 

(Tanta violência, mas tanta ternura),

 

Jogou-se contra um mar de sofrimentos

Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim

Para afirmar-se além de seus tormentos

De monstros cegos contra um só delfim,

Frágil porém vidente, morto ao som

De vagas de verdade e de loucura.

 

Bateu-se delicado e fino, com

Tanta violência, mas tanta ternura!

Cruel foi teu triunfo, torpe mar.

Celebrara-te tanto, te adorava

Do fundo atroz à superfície, altar

De seus deuses solares – tanto amava

Teu dorso cavalgado de tortura!

 

Com que fervor enfim te penetrou

No mergulho fatal com que mostrou

Tanta violência, mas tanta ternura!

Envoi

Senhor, que perdão tem o meu amigo

Por tão clara aventura, mas tão dura?

Não está mais comigo.

Nem contigo: Tanta violência. Mas tanta ternura.

 

@steinberg__

Edição Final: Guilherme Mazzeo

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.