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Beauté cachée – por Vítor Steinberg

GvCult - Uol

31/07/2020 07h12

Reprodução: "O Semeador" (1888), Van Gogh.

Por Vítor Steinberg

"Prefiro ser o profano do que o profanador" – Mallarmé, respondendo numa entrevista porquê não quis ser professor.

Uns adoraram, outros acharam que enlouqueci no meu último texto. Senti na pele as épocas de Baudelaire, Oscar Wilde, Rimbaud, Verlaine, Lautreamont, Roberto Piva, Glauco Mattoso. Não é a toa que são uns de meus preferidos. Posso argumentar: não lhe faltam delicadeza, são poetas. Identifico-me, não me falta delicadeza. Deveras meu gelado coração esteve até o âmago na pandemia, mas nunca deixei de lado a temperança do chevalier. Último dândi flanando na cosmópole, interessa-me descobrir almas bonitas. Tenho muito a dizer, mas não quero. Não posso. Décadence avec Élégance. E a Nasa, que fica fazendo travesseiro?

Gaudium et delectato satisfactio

Vou falar só de coisa boa. Olhos sibilinos… mágicos… o que é bonito nas artes e sua multiplicidade de processos e narrativas que coexistem e se tensionam. Compreendendo os diversos períodos, estilos, escolas e movimentos, da antiguidade à contemporaneidade da arte internacional e brasileira. A começar, por favor, pelo cinema. Alguns dos meus filmes preferidos. Copie e cole a lista, imprima e grude um post-it, enalteça e edifique-se com o tesouro que ofereço, oriundo de um garimpeiro que cavou até o centro da Terra, capitão de mares nunca dantes navegados, além do Bojador, Ulisses retornando a Ítaca.

"A beleza desperta a alma para agir"- Dante.

Nos tempos em que não precisávamos medir temperatura em shopping… havia a arte cinematográfica. Fumava-se nas salas de cinema, emocionava ir com uma paquera assistir uma obra de arte. Sozinho ou acompanhado, saía-se da sala com vontade de viver. Restaurantes abriam perto dos cinemas: depois da sessão, a turma geralmente queria viver intensamente, prolongar o prazer do filme, ficava com vontade de cheeseburger com milk-shake.

Tem filme que não tem The End nos créditos finais, continua com você. Glauber Rocha via o poder do cinema como uma substância xamânica, uma experiência artística, bem além das duas horas de entretenimento passageiro resultando num cheeseburger. Há filmes dos quais o espectador não sai incólume, passivo diante da obra de arte. Ele estava certo, o cinema tem o poder do transe, da catarse, de iluminar a psiquê. Em Amor Líquido, meu segundo longa-metragem, uma espectadora comentou que fez terapia depois de se identificar com a protagonista do filme. O polêmico diretor Gaspar Noé diz: "diga a verdade ou alguém a dirá por você".

Toda lista é orgânica, viva, modifica sempre. Não há lista fixa, principalmente de (alguns) filmes preferidos. A minha maior e mais completa, por exemplo, está catalogada em gêneros, países e até estilos de direção. O que virá, portanto, são filmes relevantes e interessantes para o momento. Zero spoilers por aqui!

1 – Aurora (1927), F W Murnau – mudo, é o filme romântico mais emocionante de todos os tempos. Para qualquer filme mudo, coloque uma trilha instrumental de sua preferência, você verá como a obra cresce.

2 – Vampyr (1932), Carl Theodor Dreyer – mudo, um portal para o labirinto de mistérios da nossa mente. Ingmar Bergman e David Lynch sugaram tudo daqui.

3 – La Jetée (1962), Chris Marker – os roteiristas de Os 12 Macacos se inspiraram neste filme para escrever sua versão pop nos anos 90. Diferente na linguagem (só há fotografias), não se encontra melhor mistura entre elegância e assombro.

4 – Gun Crazy (1950), Joseph H Lewis – o noir mais divertido. Quando um casal apaixonado resolve partir para a bandidagem, sem medida para onde o destino os levaria. Não dá para piscar um segundo.

5 – Uma Aventura na Martinica (1944), Howard Hawks – o filme que fez Humphrey Bogart se apaixonar por Lauren Bacall, estreando aos seus 19 anos. Não só Bogart, o público também, eternamente. Bacall é a atriz mais bela e style da história.

6 – Thirst (2009), Park Chan-wook – se você assistir de noite, vai perder o sono. Alerta: você vai ficar sem sono por muitos dias. O roteiro do sul-coreano é tão bom quanto Parasite de Bong Joon-ho.

7 – Hausu (1977), Nobuhiko Obayashi – obrigatório entrar nesta lista. Mas cuidado se você for epilético ou muito sensível. Se até hoje você nunca se espantou com um filme, chegou a hora. É o filme mais louco que já vi. Também é um dos favoritos de Tarantino.

8 – O Raio Verde (1986), Eric Rohmer – preferido de milhares de cinéfilos, acompanhe as férias de Delphine, nem sempre tão bem aproveitadas, espelhando as angústias e insatisfações da vida de maneira muito familiar e moderna.

9 – Feitiço do Tempo (1993), Harold Ramis – com Bill Murray, passou muito na sessão da tarde, mas é um dos melhores roteiros da história do cinema. Um dos filmes preferidos do Fernando Meirelles. Diversão e filosofia!

10 – The Heartbreak Kid (1972), Elaine May – da diretora que deveria aparecer mais e ser lembrada. Uma comédia inteligentíssima, única, nos loucos anos 70. Sentimento de vida pulsante, urgência de viver. Um dos filmes preferidos da Sofia Copolla.

11 – A Idade da Terra (1980), Glauber Rocha – esqueça tudo o que você já viu ou sabe sobre cinema nacional. A sensação que dá é que este é o primeiro filme que você viu na sua vida. Estrupiado pela crítica na época (por mera ignorância), Antonioni considerou "uma lição de cinema moderno". Um filme que te convida a ver de pé, dançando!

Semana que vem indico mais, afinal, pensando como antigamente, quem alugaria 11 filmes numa locadora e teria tempo de ver em uma semana? O medo de ser multado na Blockbuster era atroz – e todo mundo já pagou uma multinha um belo dia.

Res Severa Verum Gaudium – Sêneca.

A alegria é coisa séria.

@steinberg__

Edição final: Guilherme Mazzeo

 

 

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.