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Anjos de Wim Wenders no Céu sobre Berlim

GvCult - Uol

27/07/2020 07h06

 

Cena do filme Der Himmel Uber Berlin (Alemanha, 1987, Direção de Wim Wenders): o anjo Damiel sentado na Coluna da Vitória (Siegsäulle), monumento representativo da cidade de Berlim / Foto: Divulgação|Site Imdb

Por Hélio Rainho

Assim se começa, quando queremos fazer um filme, ou escrever um livro, ou pintar um quadro, ou compor uma música, ou, de resto, inventar alguma coisa.

Temos um desejo.

Desejamos que pudesse haver alguma coisa e depois trabalhamos até que isso exista. Desejamos acrescentar alguma coisa ao mundo, alguma coisa mais bonita, ou mais verdadeira, ou mais exata, ou mais útil, ou simplesmente alguma coisa diferente de tudo aquilo que já há. […] Berlim é um "lugar histórico da verdade".

Nenhuma outra cidade é tanto um símbolo, tão lugar de sobrevivência,

tão exemplar do nosso século.

Berlim está tão dividida como o nosso mundo, como o nosso tempo,

como homens e mulheres,

como jovens e velhos,

como pobres e ricos,

como cada uma das nossas experiências.

Berlim estaria "destruída", dizem muitos.

Eu digo: Berlim é mais real do que todas as outras cidades

(Wim Wenders em "A Lógica das Imagens")

Em 1987, ainda sob os rigores do pós-guerra em uma Berlim ocupada pelas forças aliadas que haviam derrubado o Terceiro Reich em 1945, o cineasta alemão Wim Wenders concebeu aquela que vem a ser a maior de suas obras-primas. O filme Der Himmel Uber Berlin (em alemão, "O céu sobre Berlim" – estranhamente traduzido em outros países como Wings of Desire/Asas de Desejo) é um sublime relato denso e poético de toda a contundência das transformações sociopolíticas ocorridas em uma cidade "fatiada" entre quatro países – a então União Soviética representando o bloco comunista; a França, o Reino Unido e os Estados Unidos representando o bloco capitalista. A concepção do filme apareceu em um dos capítulos do livro A Lógica das Imagens, publicado pelo cineasta um ano antes das filmagens. No texto, ao afirmar que a cidade é "tão dividida como homens e mulheres / jovens e velhos / pobres e ricos", uma figura de linguagem – a prosopopeia – atribui a um território geográfico as mesmas características dos seres viventes que nele habitam.

A trama de Der Himmel Über Berlin começa com a saga dos anjos Damiel e Cassiel, filmada em preto e branco para uma ilustração do ar melancólico conferido a seus personagens. Com aparência humana, esses anjos observam, do alto dos monumentos, a imponência da cidade, que nem mesmo as ruínas da guerra ou os vazios incidentais conseguem obscurecer. É dado a esses anjos o dom de ouvir o que pensam os angustiados transeuntes. Toda essa narrativa é pontuada por uma revisitação histórica das memórias de guerra e de segregação da Berlim então  dividida pelo "muro da vergonha": os dramas existenciais de cada personagem atingem a empatia imediata dos anjos, revelando feridas e fraturas decorrentes dos horrores da segunda guerra que ainda hoje atormentam os cidadãos berlinenses.

No texto Os Vazios de Berlim, publicado em sua obra Seduzidos pela Memória, o pensador alemão Andreas Huyssen faz uma importante  reflexão:

Talvez não haja outra grande cidade industrial que suporte as marcas da história do século XX tão intensamente e de forma tão autoconsciente como Berlim. A cidade-texto tem sido escrita, apagada e reescrita ao longo deste século violento, e sua legitimidade se deve tanto mais às marcas visíveis do espaço construído quanto às imagens e memórias reprimidas e rompidas pelos eventos traumáticos.

O filme de Wenders – espécie de "leitura" dessa "cidade-texto" – acontece dois anos antes da queda do muro e da unificação da Alemanha. A cidade ainda vivia a indefinição e as ruínas de alguns de seus monumentos e praças históricas, e o que resta a seus habitantes é vagar por algumas "zonas do nada", lamentando os vazios que a cidade possuía. É o que acontece, por exemplo, com um suicida que olha para si mesmo e pensa:

Berlim não significa nada para mim. Spree…é um rio ou um lago? O meu bairro é aquele? No leste? O leste está em todo o lugar!

A sensação de perda e desorientação geográfica é um reflexo da desterritorialização psicológica do berlinense, que via-se expatriado em sua própria pátria, estrangeiro de sua própria terra.

O anjo Damiel e o suicida | frame do filme Der Himmel Über Berlin

N'outra cena emblemática do filme, um velho que se autodenomina um Erzähler – um storyteller ou contador de histórias – está a procurar a Postdamer Platz, o lugar de frenesi e epicentro cultural da vida berlinense antes dos bombardeios da guerra. Angustiado, ele caminha pelo imenso vazio do que a praça se tornou, ressentido da perda de referência de seu lugar. Abatido, ele olha para tudo e assim diz:

"Aqui, não pode ser. O café Josti ficava na Potsdamer Platz, ia lá às tardes conversar, tomar café e observar as pessoas. Fumar um charuto no Loese & Wolf, tabacaria de renome…bem aqui. Não pode ser a Potsdamer Platz! Ninguém por perto a quem perguntar. Era um lugar cheio de vida. Bondes, ônibus puxados por cavalos, e dois carros: o meu e o da loja de chocolates. A loja Wertheim também era aqui […] Não encontro a Potsdamer Platz!"

O anjo Cassiel e o Erzähler no vazio da Potsdamer Platz | frame do filme Der Himmel Über Berlin

Mas o filme de Wenders não se limita às dores e desterritorializações humanas: nele, os anjos com aparência e trajes de homens de repente decidem ser humanos de verdade. O lamento de Damiel, quando anseia tornar-se humano, é bastante sintomático:

"Mas às vezes farto-me desta existência de espírito. Gostaria de sentir um peso que anulasse a infinidade e me segurasse à terra. Sentir o agora, jogar cartas, ser cumprimentado, nem que fosse com um aceno, chegar a casa cansado, ter febre, ficar com os dedos sujos de ler o jornal. Supor em vez de saber sempre tudo. Comer borrego assado e beber vinho, sentir os pés descalços. Poder dizer "ah"…"

Há uma dualidade lúdica do filme com ele mesmo: de início, o espectador precisa "ver-se" nos anjos; depois ele precisa ver um dos anjos tornar-se humano. Parece nos sugerir que cada um de nós também pode estar "encantado", e devesse, por empatia ao drama das vítimas da guerra fria, "desencantar-se".

Esse anseio de humanidade do anjo torna-se ainda mais evidente quando, após contemplar a trapezista Marion ensaiando para a última apresentação do circo Alekan, Damiel se encanta com os movimentos sincrônicos da beldade em sua quase dança no ar – os quais simulam, de certa forma, o voo de um anjo sem asas e sem céu. Então ocorre a magia, o nonsense do poema: o anjo se apaixona pela trapezista! O divino funde-se ao humano, o lírico funde-se ao real, a poesia funde-se à prosa.

A trapezista Marion encanta o anjo Damiel | frame do filme Der Himmel Über Berlin

Para além do cinema, a narrativa do anjo que quer ser humano nos remete a uma mensagem quase subliminar de que, a exemplo de Damiel e Cassiel, estamos todos cientes das marcas e das dores da história, conhecemos até de forma profunda e imersiva o drama  alheio de vítimas e sobreviventes dos holocaustos e tragédias históricas (como a pandemia que hoje atravessamos)…mas ainda nos falta abrir mão das consciências herméticas, encerradas apenas em nossa própria sabedoria ou ciência dos fatos, para vivenciarmos de forma real e efetivamente próxima a dor daqueles que, por uma racionalização da alteridade, tornamos "tão longe, tão perto" (eis o título do filme seguinte a esse, uma continuação da obra) de nós.

O filme de Wenders é como um poema onde começamos nos identificando com os anjos e terminamos nos identificando com os mortais. Um poema que parece nos convencer de que só Berlim, com seus anjos e sua gente, possuem esse poder de transfiguração.

É um recado poético. Porém tão real como o céu que está sobre cada um de nós.

Edição Final: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.