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Almôndegas – por Vítor Steinberg

GvCult - Uol

24/07/2020 12h28

Banksy tubo de rato./Reprodução da internet.

Por Vítor Steinberg

De carona no tema da última semana, a Igreja do Monstro do Spaghetti Voador, uma turma assustada me enviou mensagens e torpedos de áudio preocupados com minha inscrição na facção universal. Minha carteirinha já chegou, num lindo envelope, com a congratulação de milhões de membros anonimamente espalhados pelo mundo. Estou muito mais seco, frio e ríspido, talvez a pandemia tenha fechado meus sentimentos irracionais, mas respondo a todos: Por que? Qual é o problema? Você é um católico bolorento, eu sou um judeu agnóstico. O lance é que as pessoas têm medinho do novo. E se o outro faz o novo, ela vêm querer tirar satisfação, porque não têm coragem de fazê-lo. "Os que pulam no abismo não devem explicação aos que ficam assistindo" – Godard.

Meu coração de gelo também não tem mais papas na língua para aplicativos de relacionamento. Um errinho de português, um vacilo esquisito já bloqueia todas as minhas veias, repelindo qualquer interação social virtual. Uma candidata do Happn exibiu num nude uma tatuagem de ET submerso numa áurea em espiral em seu ombro direito. Ombros são partes distintas do corpo, no misticismo emanam luz, entendo a mensagem da figura alienígena, porém… que tatuagem horrorosa, medonha, com aqueles traços grossos e borrados de verde, como tattoos feitas por colegiais em viagens de formatura a Porto Seguro. A enaltação aos ET's, a tatuagem, não me permitiram mais ser o prestador de amor num aplicativo, simpático, transformando-me no humanóide nervoso, cansado, descontinuei a conversa.

Houve exigência para que a simpatia voltasse. Se eu fosse realmente um funcionário do Happn, pediria para ser pago se quisessem que minha simpatia voltasse. E olha que uso Happn porque fui denunciado e banido do Tinder. Tentei Badoo, o pior de todos, não fiquei nem 24h, um mar de gente feia pra dedéu.

E por qual razão fui banido do Tinder? Perdi em absoluto minha simpatia com a moça que queria forçar que eu bebesse vinho numa live com ela. Eu não bebo, ela não queria saber, queria que o "funcionário do aplicativo" funcionasse bem, queria que eu comprasse uma garrafa de vinho, bebesse e ficasse pelado para ela. Perguntou o tamanho exato de minha genital, queria o envio de uma foto com régua provando a matemática. Como havia um ser-humano livre atrás, no caso eu mesmo, não atendi à expectativa dela. Por vingança, ela me denunciou.

Os e-mails que mandei para obter minha conta de volta foram duramente recusados, em poucas palavras, justificam que não li termos e condutas – e minha conta será banida até minha morte. Além do mais, fui denunciado por uma mulher, portanto, perdi feio e fui considerado mal perdedor numa resposta do empregado Thomas, o americano que me respondeu aos e-mails. Tinder! Ficaste imbecil! Pirou? Banido, bano-te em banimento, te conjuro aonde irei, ad infinitum.

Juíz que martela o confinante por conta própria é exatamente o princípio do fascismo. No Império Romano, juízes autorizados a andar pela cidade – carregando nas costas uma trouxa com machados enfaixados (daí o termo fascismo, de "enfaixado"), tinham permissão para julgar e matar qualquer um, só porque não simpatizavam com isso ou aquilo. Justiça feita pelas próprias mãos, sem o menor escrúpulo de ética ou noção de violência.

Exigir e atrapalhar a vida de um sujeito há centenas de quilômetros de distância, simplesmente usar a coerção para me remover do app, utilitarismo social da pior espécie. Mais moderno, o termo é engenharia social, mas sou contra. Desejo que a moça carbonize no inferno, ad infinitum de novo!, no nono andar do Malebolgia, enterrada de ponta-cabeça com as pernas soltas pra cima. Diabinhos queimando sua sola dos pés com saliva ácida. E que um dia ela seja feliz.

Tenha a oportunidade de enrijecer seu coração nestes momentos em que a pandemia veio bem durante o esmorecimento da simpatia social. O que era para ser retomado, não foi. Tipo a simpatia mesmo. Procure ser grosso, irônico, cancele seus compromissos, mude de ideia a todo tempo. Nada devemos a ninguém, toda a sua construção psico-social não tem mais o mínimo valor. Ser desconstruidão vai além da decoração do apartamento da Bruna Linzmeyer. A falta de valor não só desconstrói, quanto emana aberrações. A violência policial é só um reflexo disso, você de farda poderia fazer até pior, pense na inocência de sua cidadania. Isso não te blinda de ser um fascistóide mandando marreta pra cima dos seus subalternos lícitos.

Ao entrar num Uber, você não é uma pessoa, é um reduto de vírus, um perigo ao andamento dos planos de vida do motorista. Antes, ao entrar num Uber, você não era uma pessoa, era um inimigo estranho que poderia reclamar a qualquer momento do ar-condicionado ou da forma como o motorista conduz – e ser apedrejado internamente na fabulosa mente do cicrano. Depois, sua nota dimunui na avaliação do app.

Na verdade, hoje em dia, você é um saco de vírus e um inimigo social. Na vida privada, tenha plantas, video-game e animais. Esqueça que um dia você foi uma pessoa. Esqueça dates. Não tem como um outro enxergar você como uma pessoa, mas sim como um louco saco de vírus querendo encostar a boca na boca dela. Depois, você perde vinte seguidores no instagram.

Talvez você tenha a sorte de um amor tranquilo, mais sorte ainda se este amor vier durante estes tempos trevosos, mas desfaça qualquer laço de bobagem e superficialidade que te cerca. Pare de perder tempo, você vai cair no abismo. Não seja egoísta a ponto de querer amar alguém. Amar? Longe disso, que seja uma ficadinha passageira. Você vai encontrar mais felicidade indo para a Disney sem filas (Orlando está aberta e com 78% menos turistas nos parques).

Desfaça laços de amizade sem o menor pudor, jogue tudo fora, faça realmente o fresh start, atitude em voga nos Estados Unidos (dita para decoração de interior, estico-a para a vida em si). Perdoe-se a ponto de revolucionar tudo, ser um anarquista coroado.

O Anarquista Coroado, Heliogabalo, foi um controverso imperador que entrou em Roma montado em cima de um gigantesco phalus. Depois, foi assassinado numa latrina pública. Heliogabalo seria banido pelo Tinder. Cultura do cancelamento: "supervisão da sociedade para que o indivíduo ande na linha (…), caso contrário pedem publicamente que o demitam ou que a rede social o bloqueie" (Fernando Schüler). Nunca encontrariam seu corpo. Revirando nessa vala pública que o aplicativo me jogou, não encontrei Heliogabalo, mas sim, Artaud.

Vou adiantar, com o risco de levar bronca da minha editora. Estou escrevendo um novo best-seller internacional, Como Chupar Seu Próprio Pau – Um Verdadeiro Guia de Auto-Ajuda Para as Gerações X, Y e Z.

Vocês, jovens lobotomizados, são preguiçosas múmias putrefatas. São mais velhas que múmias putrefatas. São as pessoas mais chatas e horrorosas que já pisaram na Terra. Nada índigo, nada superdotados. Oportunistas, genéricos, marqueteiros, automáticos, ignóbeis, engessados, caricatos, frágeis, ridiculamente frágeis. Degradantes aporrinhadores, jumentos hediondos e boçais, rasteiros pernósticos, estorvos, ralo de tudo-que-foi-bom-um-dia, toda poética do charme profundo, toda loucura das danças delicadas, o elã da sedução, o ímpeto da vida inteligente. Num todo, é a sociedade em geral que está cronicamente infantilizada. Peçam desculpas! E lavem a louça!

@steinberg__

Edição Final: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.