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O pensamento político de Leonel Brizola

GvCult - Uol

21/07/2020 06h52

Leonel Brizola/Reprodução da internet

Por Bernardo Buarque de Hollanda

"A mim nada compromete. Sou planta do deserto.

Quando a seca é forte, me alimento com uma gota de orvalho".

Leonel Brizola

 

"Líder é todo aquele que se sabe mestiço –

Concentrador dos anseios de todos."

Piedade Carvalho

Traçar um perfil das principais ideias do controvertido Brizola implica, antes de tudo, despirmo-nos de sua imagem de político e concentrarmo-nos na abordagem da gênese de seu pensamento. Talvez seja esta a tarefa mais árdua, pois dela derivam todas as posições e perspectivas ulteriores no mundo da práxis política. Entendemos assim porque, se o saber constitui um mistério, o processo de pensar em si remete-nos a um enigma ainda maior, cuja origem esconde-se à percepção do ser humano.

Salta à vista no pensamento de Brizola a capacidade de tratar as questões políticas e sociais por meio de parábolas, alegorias e metáforas. A maneira de enfocar a realidade é característica da condição de homem do campo no Brasil, com as raízes agrárias da infância, que se expressa quase sempre a partir de fenômenos naturais ao seu redor. Segundo o líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião, o camponês é um ser telúrico. A terra, o horizonte, o ambiente campesino são elementos que o facultam imaginar, relacionar, transpor, transcender de um fenômeno a outro, de uma realidade a outra, facilitando assim a comunicação e estendendo a possibilidade de pensar outros aspectos da realidade, no caso, da política.

Aliada a esta questão, que identifica a vida campônia do interior gaúcho um fator preponderante para a fecundidade da imaginação e destreza do espírito, esquadrinhamos outra: o desenvolvimento de um raciocínio intuitivo. Não raro, evidencia-se em seu discurso um tom profético, que delineia o futuro em antevisões, cujo desvendamento afigura-se inaugural e polêmico: " – Este sistema econômico está esgotado, este sistema vai cair!", é o que se ouve de sua verve a respeito do modelo especulativo-financeiro da economia brasileira.

O dom intuitivo, quase místico, aparentemente paradoxal na elaboração do seu raciocínio crítico, gerava muita irritação no meio político, já que foge à previsão mediana do cartesianismo e à parolagem comum. O líder gaúcho opta por desenvolver a interpretação, a sensibilidade, a análise estrutural, enfim, a projeção como medida para a compreensão da conjuntura institucional brasileira.

Ao adentrar nesse tema, percebe-se que as suas análises são antipositivistas por excelência. Ao invés de inferir suas investigações dos fatos tais como se apresentam na superfície, prefere descortinar o que se encontra por trás deles, a que pano de fundo pertencem, quem os comanda sibilinamente, quais os interesses estão em jogo. Como ele próprio assevera: "…nossa diferença está em vermos o sistema de fora e não de dentro dele". Daí provém sua peculiaridade, estabelecendo o diferencial em uma nova ótica, numa nova linguagem, que se distingue das usuais discussões econômicas.

Ainda junto a esse tópico, coaduna-se mais um: a oralidade. O domínio da palavra oral e da própria maneira como é encadeada sua expressão comunicativa revelam que se trata de uma personalidade política singular. "Eu sou um empírico", afirma, pretendendo dizer que a superação das dificuldades de acesso aos estudos formais durante a infância e a juventude pobre identificou-o com a maioria da população e o fez concentrar suas observações na vivência histórica pessoal.

Tal fato propiciou elaborar conceitos distintos dos que são usualmente empregados na política. São de sua autoria expressões como "perdas internacionais", "modelo econômico colonial", "processo social" e "a força do povo é inorgânica", que lhe permitem dialogar em condições de igualdade com intelectuais e não ficar a seu reboque, repetindo esquemas teóricos ou fórmulas prontas à sua mercê.

A concisão e a linearidade de suas ideias proporcionam realizar uma síntese de suas reflexões, posto que seu fio condutor desenrola-se sempre no sentido de esclarecer as prioridades de ação da linha política a seguir. Para isto, é necessário antes apresentar um balanço de sua concepção da história do Brasil.

Na visão histórica de Leonel Brizola, o Brasil seguiu o curso da exclusão social colonial. Sob essa égide, os mais atingidos seriam os negros e os índios. Os primeiros devido à segregação, à escravidão e à discriminação, que perdura até hoje. Os segundos, em razão do genocídio, do ecocídio e da ocupação de suas terras de origem.

Todavia, se é capaz de apontar os infortúnios e malefícios, também trata dos momentos históricos afirmativos da nacionalidade e da autonomia. Em sua prospecção do passado, destaca três episódios que considera cruciais. Sem descurar da tradição insurgente gaúcha, como a Farroupilha, de que é herdeiro, Brizola cita a Guerra de Guararapes, quando portugueses, negros e índios irmanam-se para expulsar os holandeses do Nordeste; a Inconfidência Mineira, no século XVIII, quando Tiradentes prenuncia a independência face ao jugo português; e a Revolução de 1930, a partir de quando o Brasil forja pela primeira vez uma política econômica autóctone.

Feito esse breve balanço, o discurso de Leonel Brizola atinge seu ápice, quando credita à educação o papel de principal agente socializador e único meio de redenção nacional. O carinho, o refinamento e a insistência no assunto constituem sua marca. A educação das massas – primária, básica, popular – está no cerne de sua perspectiva, que a concebe como "prioridade das prioridades".

Para o líder gaúcho, a educação é o investimento presente que significa a salvaguarda do futuro; é a única solução com efeito a longo prazo. Perscrutando, investigando, procurando exemplos em outros países, percebe Brizola que, onde a instrução elementar foi alvo de atenção, não existe pobreza. Infenso, pois, a seduções ideológicas fáceis e engendrando uma visão povocêntrica, pode apontar a educação de horário integral como elemento incorporador, aglutinador e integrador da infância brasileira.

O âmbito da economia constitui matéria importante na apreciação do estadista. Logo em princípio, afirma que a economia brasileira possui um caráter essencialmente colonial. Ao longo de seu curso histórico, ela permanece atada a interesses exógenos e a transações sempre desvantajosas, cujo efeito é o empobrecimento do conjunto da população. Nação com índices e níveis financeiros positivos, sua penúria apenas pode ser explicada por mecanismos sutis e espoliação internacional, que persistem subjacentes a todo processo de inserção do país no contexto mundial.

Ao discurso oficial que impinge às transações comerciais um caráter de igualdade e de liberdade, Brizola contrapõe com a máxima: "é a liberdade da raposa no galinheiro". Ainda assim, logo obtempera com outro ditado: "…mas a raposa que muito vai ao ninho, perde o focinho! ". Segundo o gaúcho de Carazinho, "…os economistas de um modo geral encarregam-se de fazer a contabilidade do sistema…", ou seja, toda prosopopeia que se faz em torno da inflação, dos juros, do câmbio, do déficit comercial, culmina por encobrir o fundamento do sistema econômico: expropriação dos recursos nacionais.

O poder da televisão no Brasil apresenta mais um tema erigido por Leonel Brizola de sua análise. Dissolvida a ditadura militar no início da década de 1980, deixa a classe dominante brasileira seu legado autoritário: a malha televisiva plenamente instalada, a fim de exercer o controle político de maneira qualitativamente distinta. Neste plano, destaca-se a Rede Globo, cuja força ideológica assemelha-se à de um "Partido Único". Detentora de uma tecnologia avançada sobre todo o território nacional, cujos programas de entretenimento têm sucesso em diversos países do mundo, a Rede Globo e os sistemas televisivos são o subterfúgio onde as elites perpetuam seu sistema político e ideológico. Aliado a oligarquias regionais, que detêm as sucursais em seus estados, Roberto Marinho molda a cena política, mesmo sem aparecer, adaptando-a aos interesses de seu grupo.

Não obstante, seu alcance vai além da dimensão meramente política do fenômeno audiovisual. A mídia, para Brizola, possui um controle amplo sobre o homem contemporâneo. Em virtude disto, detectou na programação eletrônica um dos fatores decisivos na explicação do incremento da violência no país. Através do enfoque psicossocial, o líder gaúcho fundamenta seu raciocínio alertando para o clima de histeria que a televisão é capaz de causar sobre a coletividade. Extraída de seu contexto, a propaganda excessiva pode acelerar o processo de escalada da violência, cuja consequência mais comum é a do pânico social.

Mediante pesquisa diária da programação televisiva, Brizola afiançou que os números de cenas violentas a que os indivíduos são submetidos quotidianamente, inclusive as crianças em desenhos infantis, ultrapassam os da vida do dia a dia. Assim a televisão despoja-se de sua função primeira, de educar e transmitir a informação, para seguir rumo inverso: o mundo do consumo, da agressividade, em uma palavra, do hedonismo.

Após esta sumária exposição, cabe dizer que o texto atingiu seu intento. Embora inexaurido e incompleto, seu conteúdo direcionou-se para o pensamento de Leonel Brizola e para a dinâmica de formação das suas ideias. Mas é, antes, uma ode à lucidez, no arco de uma vida em seu último quadrante, falecido em 2004, na "juventude dos seus 78 anos".

Brizola, a meu ver, encarna aquilo que ficou conhecido como a política como vocação. Nestes tempos vespertinos, bem que as palavras do sociólogo alemão Max Weber são ainda valiosas: "Somente quem tem a vocação da política saberá não desmoronar quando o seu ponto de vista for demasiado estúpido ou demasiado mesquinho para o que lhe deseja oferecer. Somente quem, frente a tudo isso, pode dizer 'apesar de tudo', tem a vocação para a política".

Edição Final: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.