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Panorama Pandêmico

GvCult - Uol

17/07/2020 06h21

Reprodução de imagem da internet, igreja de espaguete-voador.

Por Vítor Steinberg

Vamos começar pela pizza do Subway. Nem as desvalidas restaurações de pinturas sacras na Espanha (estragaram o rosto de outra santa!) competem com troço mais esquisito. A Subway deveria pagar uma indenização vitalícia ao consumidor que pediu o delivery. O iFood deveria abonar delivery gratuito por um ano a vítima de horror tão mefisto. Muito se mostra naquele disco de farinha suspeita com a gororoba em cima. Não há cor. Nem pastel. Muito menos pizza. Os italianos deviam processar pela traição, o destampatório. O novo normal está aí. Os idosos duvidam disso. Acham que tudo vai voltar como 1999. Ou 1989, reerguido o muro de Berlim.

Os da geração Z vão tuitar, postar, apostar o ensinamento do que não sabem. É o que mais fazem, pobres jovens do século XXI. Azarados e pequenos jovens do século XXI, dizendo-se desconstruídos. Nada sabem e fazem vídeos – técnica que demanda tempo, pois se filma, não se fotografa – para vomitar conteúdos, sendo no fim só anseio por exibir imagens emergentes de seus corpos púberes. A importância dada a isso é alarmante. Tem que lançar conteúdo, então alguma xucra informação desesperada está valendo, qualquer coisa para postar e mostrar, bater cartão no ritmo de postagens diárias.

O cinema é diametralmente contrário, não se mostra qualquer coisa. Filma-se exatamente o que você precisa transmitir. O diretor polonês Krzysztof Kieslowski diz numa entrevista: "o maior pecado que um diretor pode cometer: fazer um filme só porque quer fazer um filme". Blogueiros youtubers não querem dizer nada, não desejam dizer, desejam ser fotografados e se mostrar! Se nada sei, o outro que sabe é um inimigo. Aí abriram a caixa de Pandora, surgem as inverdades, estabelecendo a desconfiança a todo custo das verdades. Aí surgem os cloroquinistas, ivermectistas e terraplanistas.

Meu sobrinho de 5 anos (com máscara estampada de Hulk) me apresentou o Luccas Neto e a Mileninha. Nos vídeos de Luccas, no começo achei tosca a fotografia, não existe fotografia. Mas aí ele me conta que o cara posta vídeos todos os dias no mesmo horário. Dando trégua porque entendo como é fazer um vídeo muito rápido, passei de crítico a admirador, a equipe se dedica demais, equipe de criança, atrizes e atores mais velhos, cenografia, figurino, roteiro.

Nada deve a um ótimo Castelo Rá-Tim-Bum, apesar de ser mais ousado, transformando um pet de refrigerante num monstro em fullHD. Além dos variados tópicos, ele tem longas-metragens (sem nenhuma fotografia) agraciado com milhões de views na Netflix. A irmãzinha fictícia Gi, com seus 10 ou 11 anos, é uma atriz mirim competente, esperta, não erra o timming, tem dicção, diferente de criança em comercial de televisão que de regra precisa ser dublada.

Disso fomos para a casa na Disney da Mileninha. Há não sei quantos anos online, a garota ficou milionária, cada suíte da mansão em Orlando tem um tema de um filme diferente. Fiquei emputecido quando ela chamou o Kylo Ren de Darth Vader! Várias vezes! Ainda bem que meu sobrinho não sacou ainda a diferença.

Com o pequeno dormindo, pela noite vi no iPhone uma live da Luisa Sonza num drive-in adaptado para a quarentena.

Sobre os drive-ins: melhor atividade ressurgida das cinzas devido a pandemia. É um pouco cansativo ir muitas vezes, antigamente os carros eram mais "barcas", era mais confortável ficar duas horas parado. Os de hoje são mais quentes e compactos, a indústria não imaginaria que o drive-ins voltariam.

Voltado à Luisa… uau! Tive uma taquicardia de groupie do Elvis,  nunca a tinha visto, nem por foto, então meu primeiro impacto foi não só vê-la, como vê-la cantando. Sereiou-me num só golpe. Disseminou-se no meu consciente um brilhinho de crush. Acenando para automóveis buzinando e piscando o farol, ela solta no fim de uma canção: "Que experiência louca!" Isso é tudo que um artista ou um museu espera trocar com o público. Ela disse a frase das frases. Se falasse em alemão, filósofa! Elevei-a à enésima potência, vi o show inteiro, quase chorei com a música composta para a mãe.

Na rebolação segura e embasbacante da coreografia, não vi nada que pudesse ser alvo de ódio, ela canta demais e é maravilhosa, de perder o fôlego. Chega a ser pouco humana, no sentido de mediocridade? Senti-me salvo pela jovem heroína, talvez semi-deusa? Meu sobrinho diz: Alice no país da Mulher-Maravilha. Fiquei mini apaixonado. Exageradamente erótica, barroca na sedução e empoderamento nível Olimpo, só pude humildemente sonhar que ela fosse minha Dominatrix. Quero fazer um longa-metragem com ela, sem dúvida ela arrasa como atriz. Medinho, ela parece ser onipotente. Dirigi-la seria decifrar o enigma da esfinge.

Em casa, outro dia, assinei a Folha. Primeira matéria que leio na Ilustrada: Casa de ópera reabre na Espanha com concerto para público formado de plantas. Foi ideia do rei? Com a frequencia sonora da madeira e dos metais, música clássica ao vivo deixa plantas e animais felizes, há comprovação científica. Tudo a ver, porque nos preocupar em deixar nós humanos felizes? Outros seres também almejam a felicidade. E ainda tocar para um público que não tosse, espirra ou deixa o smartphone ligado, que orquestra não sonharia? Garanto que os músicos serão recompensados para sempre no código constituinte da fotossíntese.

Muitos amigos ficaram velhos cedo e entendem tudo de plantas agora. Não só entendem como só falam nisso: olha a minha babosa, olha meus abacates orgânicos, olha meus cactos, como se fossem bebês em um berçário. Querem voltar cedo para casa, para cuidar das samambaias.

Por falar em plantas, revalorizou-se a Igreja do Monstro do Espaguete Voador, a que mais aderiu fiéis nos últimos meses. É a religião que mais cresce no mundo. Já pedi minha carteirinha. O Pastafarianismo da santidade espaguética exige que o fiel coloque um escorredor de macarrão na cabeça, do qual os furos do recipiente configuram um código quântico no córtex central. Os oito condimentos (mandamentos) da crença são justíssimos, exigindo a você tomar cuidado para não ser um fanático de estômago vazio, química que pode gerar ódio. E que abaixem o preço da televisão a cabo.

Quando os teatrólogos Brecht e Beckett tornam-se os grandes frasistas dos nossos tempos, improvise e express yourself o máximo possível, perdoando-se por tudo, nesse absorto planeta, palco em chamas.

 

Instagram do autor – steinberg__

Edição Final: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.