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Danton – o processo da revolução: um filme de Andrzej Wadja

Guilherme Mazzeo / GvCult - Uol

28/04/2020 07h45

'Danton: o processo da revolução' (1983), de Andrzej Wajda Foto: Reprodução

Por Bernardo Buarque de Hollanda

  "Em tempos de revolução, nada é mais poderoso do que a queda de símbolos"

Erich Hobsbawm

Danton – o processo da revolução é daqueles filmes que fascina a todo historiador ou amante da história. Tematiza um personagem da Revolução Francesa de 1789, guilhotinado cinco anos depois, em 1794, ao ser considerado traidor dos ideais revolucionários pelos adeptos jacobinos do Terror. O filme foi lançado em 1982 e tem mais de duas horas e quinze de duração. À época conquistou o Bafta, mais importante premiação do cinema britânico, espécie de Oscar da Grã-Bretanha.

Seu diretor é um polonês, Andrzej Wadja (1926-2016), cineasta que estudou belas-artes na Cracóvia, em uma das mais importantes universidades de seu país. Apesar da formação artística inicial, o polaco enveredou pelo cinema após a Segunda Guerra mundial e tornou-se diretor profissional na década de 1950, aos trinta anos. Neste período, dirige sua obra-prima, Cinzas e diamantes (1958), que angariou o prêmio de melhor filme no Festival de Veneza.

Crescido em meio à "cortina de ferro" e ao socialismo real no Leste Europeu, suas películas têm um acentuado caráter político. O diretor chegou a visitar o Brasil em 2007, durante o Festival Internacional de cinema do Rio. Pontifica ao lado do conterrâneo Krysztof Kielowski entre os grandes diretores de seu país. Este último diretor teve de se isolar em Paris para conseguir fazer filmes críticos ao comunismo e à sua burocracia. Diga-se a propósito que essa foi uma marca de intelectuais e artistas dos países sob dominação soviética na Guerra Fria, a exemplo do escritor Milan Kundera e de seu admirável romance A insustentável leveza do ser, cujo pano de fundo é a Primavera de Praga, em 1968.

Assim como Wadja, Kielowski dedicou-se ao tema da Revolução Francesa no final dos anos 1980, por ocasião das comemorações do seu bicentenário (1789-1989). É de sua autoria a trilogia A igualdade é branca, A liberdade é azul e A fraternidade é vermelha. Todas as películas discutem em alguma medida a discussão entre arte e revolução, com paralelos e remissões à contemporaneidade.

Wadja faz uma série de transposições políticas entre o passado e o presente de sua nação no filme. Um conjunto de questões narrativas é colocada, com a premissa do diretor de que, em nome da revolução, uma série de arbitrariedades é cometida e, em nome da igualdade e da liberdade, implanta-se, paradoxalmente, um regime tirânico. Assim, o filme investiga se, à maneira do caso Dreyfus na França finissecular, houve ou não traição aos ideais revolucionários da parte do advogado e político Georges Jacques Danton. Indaga sobretudo se, em meio a tanta dissidência e discórdia, quem pode ser considerado contrarrevolucionário?

O diretor traz latente um debate com a natureza do comunismo stalinista imposto pela União Soviética a uma série de países sob sua influência territorial no século XX. A referência ao despotismo só podia ser feita porquanto, no início dos anos 1980, emergia na Polônia o movimento político intitulado Solidariedade, sindicato com ideias católicas e anticomunistas encabeçado pelo ativista dos Direitos Humanos, Lech Walesa. 

Assim, a tematização do embate entre Maximilien Robespierre, de um lado, e Georges Danton, de outro, dramatiza um quadro mais amplo sobre os destinos dos processos revolucionários. Para ficarmos em exemplos do século XX, evoquem-se as disputas entre Stalin e Trotsky pelo controle da Revolução Russa de 1917, ou aquelas entre Fidel Castro e Che Guevara na Revolução Cubana de 1959. Tal qual Danton, é de se lembrar que tanto Trotsky quanto Che foram exilados ou tornaram-se críticos dos rumos da revolução que contribuíram a realizar, optando pela via internacional, o primeiro no México, o segundo na Bolívia.

O duplo sentido da narrativa da película não é só temporal, a escandir um ontem e um hoje na luta de figuras revolucionárias pelo poder. O "processo" aludido no subtítulo do filme refere-se ao julgamento por que passa Danton, personificado na película por Gérard Depardieu, mas também às etapas históricas de concretização da Revolução Francesa, a exemplo da monarquia constitucional, da República Jacobina, da República Girondina, do Império com Napoleão, da Restauração monárquica, etc.

O filme é recheado de ironias sobre as contradições que uma revolução enseja entre seus ideais, sua materialização e sua continuidade. Entre as cenas impactantes, está aquela que apresenta a palmatória e a imposição dos princípios revolucionários às crianças, a quem cabe decorar a Declaração Universal, mesmo sem saber a que se refere plenamente a palavra "cidadão".

A guilhotina é outro símbolo eloquente, porquanto mantém a pena de morte em praça pública, à maneira da Idade Média, embora apareça sob o verniz de um método indolor, "civilizado" portanto, de decapitação de opositores e condenados. No enredo, mais de vinte mil guilhotinados evidenciam, em contrapartida, uma verdadeira carnificina, justificada em nome da fidelidade à revolução.

Sendo o protagonista central da história um grande orador, o filme dá vazão às contendas retóricas entre Robespierre e Danton. Franqueia espaço também aos discursos inflamados na Assembleia Nacional Constituinte, ora à direita (Gironda), ora à esquerda (Montanha ou Jacobinos), ora ao centro (Planície). Explora-se de igual modo as intervenções no Tribunal Revolucionário e mesmo o enlouquecimento padecido por Robespierre.

A seleção de cenas é prolífica. Dentre as que guardo na minha retentiva, quando assisti pela primeira vez o filme, ainda adolescente nos anos 1980, está aquela que focaliza a fome nas ruas de Paris. Enquanto isto, os supostos revolucionários usurpam o poder, destroem tipografias e confiscam carruagens nos espaços públicos. O uso da imagem é um sinal da força resiliente da opinião pública, seja o jornal O Amigo do Povo, liderado pelo companheiro de Danton, Jean-Paul Marat, cujo assassinato em 1793 foi monumentalizado pelo pintor Jacque-Louis David.

A cena derradeira, como não poderia deixar de ser, remete ao ritual da guilhotina, com a cabeça de Danton a ser ceifada em praça pública, em meio à ovação dos presentes. Junto a ele encontra-se Camille Desmoulins, seu companheiro desde os tempos do "velho" distrito de Cordeliers, de onde saíram os sans-culottes. O filme é assim uma aula de representação da história, a mostrar a autonomia relativa dos atores e da esfera decisória nos bastidores e no proscênio do teatro do poder.

Edição Final: Guilherme Mazzeo

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.