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O futebol como objeto acadêmico

Guilherme Mazzeo / GvCult - Uol

24/12/2019 07h20

Foto: Visualhunt.

Por Bernardo Buarque de Hollanda

O texto da coluna de hoje baseia-se em duas experiências de pesquisa que tiveram por foco o futebol. De tema menor na Historiografia e nas Ciências Sociais, o fenômeno futebolístico tem sido reconhecido academicamente nos últimos anos, uma vez que se mostra um poderoso instrumento de análise da realidade social, em suas mais diversas dimensões: econômica, política, cultural, racial, geográfica, histórica, identitária, etc. Ao contrário da visão de senso-comum, que entende o esporte como um elemento alienante e à parte da sociedade, a teoria antropológica tem demonstrado de que maneira os ritos, os mitos e os símbolos criados pela dinâmica esportiva são capazes de revelar traços fundamentais da identidade nacional e da complexidade do mundo moderno-contemporâneo.

Gostaria de compartilhar com os leitores de UOL-Educação sobre a minha agenda de pesquisa nessa área. Grosso modo, minha formação acadêmica compreendeu dois estudos sobre futebol, um no mestrado e outro no doutorado, ambos no Departamento de História da PUC-Rio, no primeiro decênio do século XXI.Durante muito tempo, futebol foi visto como um tema não-sério e, portanto, indigno para a pesquisa acadêmica. Até o final dos anos 1970, seria inimaginável uma pesquisa em História ou Ciências Sociais que tratasse do assunto. No entanto, a importância do fenômeno na vida moderna é tal que a Academia teve de se render aos fatos.

Para falar bem resumidamente, no mestrado eu estudei uma série de crônicas esportivas, escritas pelo romancista José Lins do Rego (1901-1957), durante as décadas de 1940 e 1950. O escritor faleceu em 1957 e, portanto, não chegou a ver o Brasil campeão do mundo na Suécia em 1958. No entanto, viveu numa época em que o futebol já era bem popular no país. Ao lado do jornalista Mário Filho – irmão de Nelson Rodrigues –, e do sociólogo Gilberto Freyre, foi um intelectual defensor dos esportes, o que é algo até certo ponto raro, uma vez que muitos homens de letras costumam desprezar o futebol. Consideram algo banal, vulgar, inferior.

No entanto, em meados do século XX, escritores como José Lins ajudaram a construir a ideia, que prevalece até hoje, do Brasil como "país do futebol". O futebol seria o meio de expressão das qualidades nacionais, fruto de sua história e de suas características sociais singulares. Elas se traduzem na habilidade individual e em um estilo próprio de jogar, por assim dizer "artístico", distinto dos europeus, visto como "científico".

Se isso parece hoje para nós um truísmo, um lugar comum na voz dos locutores esportivos, minha pesquisa em jornais permitiu descobrir como essa ideia de "país do futebol" surgiu historicamente. Ela aparece originalmente no ano 1938, quando o Brasil vai à França disputar a terceira Copa FIFA da história, jogando contra poloneses e tchecoslovacos. A partir do contraste com o futebol praticado em países do Leste Europeu, como Polônia e Tchecoslováquia, Gilberto Freyre criou a expressão futebol-arte, em contraposição ao futebol-científico dos europeus. O futebol era um instrumento de tradução das identidades nacionais. No primeiro prevalecia a improvisação técnica e a individualidade; no segundo, a disciplina tática e a coletividade.

O que é interessante salientar nisso é que naturalizamos a tal ponto a ideia de "país do futebol" que esquecemos que ela foi inventada, em uma determinada data, por escritores e intelectuais, e depois difundida pelos jornalistas. Se estudamos mais a fundo, no entanto, vemos que havia outras razões menos explícitas para exaltarmos a exibição, os dribles e as acrobacias, em detrimento da eficiência, da competição e dos resultados.

Se olharmos a história veremos ainda que até os anos 1930 admirávamos e tínhamos como espelho as seleções do Rio Prata, isto é, o Uruguai e a Argentina, onde o futebol tinha primeiro se implantado por meio da imigração europeia. A primeira bicampeã olímpica (1924-1928) e campeã do mundo em 1930 foi a equipe Celeste. E até pelo menos a década de 1950 havia o sentimento de inferioridade em relação aos países platinos.

Sentimento que não deixava de ter discussões sobre a nossa composição étnica, uma vez que, quando o Brasil jogava em competições sul-americanas, era chamado pela imprensa local (Chile, Argentina, Uruguai) de macaquitos. De todo modo, é interessante mostrar de que maneira não existe uma essência brasileira no jogo do futebol, mas uma construção de um estilo, que muda ao longo do tempo.

No doutorado, meu tema de pesquisa foram as torcidas organizadas. Desde garoto, eu frequentei o Maracanã. O espetáculo das torcidas sempre me interessou. Decidi fazer uma tese na área de História porque, quando cursei graduação em Ciências Sociais, acompanhei alguns amigos que fizeram trabalhos na área de Sociologia e de Antropologia sobre as torcidas: estudavam os comportamentos dos indivíduos nos grupos, tentavam entender por que eles agiam de maneira violenta, seus rituais de iniciação entre jovens, o significado de seus símbolos, categorias como "perigo", "aventura", "risco", etc. Como historiador, senti-me desafiado a entender o fenômeno a partir de um distanciamento histórico: quando surgiram as torcidas, como surgiram, por quê?

Aí mais uma vez é interessante observar o quanto a pesquisa histórica e sociológica contribui para derrubar mitos e ideias arraigadas. Uma das conclusões interessantes a que cheguei, na tese, foi o fato de que as torcidas organizadas, ao contrário da associação que se faz hoje, surgiram como mantenedoras da ordem nos estádios. Elas apareceram ligadas ao discurso esportivo de educação e controle das massas. Têm ideia de quando isso aconteceu?  Nos anos 1940, quando são construídos os grandes estádios públicos, como o do Pacaembu. Para abafar as brigas e inibir os palavrões, as associações de torcedores foram criadas. Tratava-se ainda de grupos ordeiros de apoio aos times, para animar positivamente o jogo, transformando-o em uma festa com confetes, serpentinas e música, com o torcedor portando o uniforme do clube. Donde os termos torcida "uniformizada" e "organizada".

Quem o inventou? É muito interessante a origem das torcidas em São Paulo. Elas surgiram tendo como modelo as plateias de esportes norte-americanos. Isso acontecia porque estudantes de Direito do Largo do São Francisco, filhos das elites e sócios dos clubes da alta sociedade paulistana, o Palestra Itália e o São Paulo Futebol Clube, por exemplo, iam para os EUA, assistiam àquilo e traziam para cá a novidade. A torcida uniformizada era o espaço de construção de uma animação organizada e controlada do espetáculo, com base no exemplo americano.Para isso, ela tinha um "chefe", responsável na arquibancada por manter a ordem, assim como chamava-se então o "chefe" de polícia. Elas eram formadas por sócios dos clubes, filhos das elites e das classes médias. Para contrastar com os dias atuais, as torcidas uniformizadas temiam os torcedores comuns, que arremessavam objetos neles. Conforme anunciavam os jornais, as torcidas não iam aos estádiossob medo das ameaças…

Digo isso para frisar como não há uma essência violenta nas torcidas organizadas ou no comportamento torcedor. É claro, hoje há uma cultura de violência que se disseminou e que estigmatiza esses grupos, majoritariamente periféricos. O estigma tende a reforçar a imagem e a fazer com que pessoas que visam atos violentos procurem esses grupos. Mas sublinho que não há uma essência, uma natureza; há, em contrapartida, um contexto e um conjunto de forças sociais que levam a isso.O olhar sociológico que ajuda a relativizar os fenômenos sociais, bem como a desmistificá-los. Posso lançar mão de exemplos de pesquisas históricas que têm contribuído para desfazer certos mitos ou ideias do senso-comum.

Primeiro exemplo: quando o futebol se tornou popular no Brasil? Existe uma explicação esquemática. Ela diz que o futebol começou como um esporte estrangeiro, na última década do século XIX. Logo depois, ainda no início do século XX, tornou-se uma prática de elite, dos estudantes ricos, filhos da aristocracia e da burguesia. Somente nos anos 1930, quando o amadorismo cedeu lugar ao profissionalismo, momento em que negros e trabalhadores pobres puderam entrar nos grandes clubes. Embora grosso modo esse esquema não esteja errado, ele pressupõe que o futebol só se configurou popular na década de 1930, quando Vargas estava no poder e o futebol se tornou um elemento da identidade nacional.

Um historiador da Unicamp, hoje professor da PUC-Rio, fez uma tese de doutorado onde ele mostra que,para além dos clubes de elites, havia em 1910, em 1920 centenas de ligas de pequenos clubes suburbanos e operários, divididos segundo a profissão, que praticavam o futebol. A tese mostra como, mais do que uma concessão do Estado Novo, o futebol profissional foi uma conquista das classes trabalhadoras em cidades como Rio e São Paulo.

Segundo exemplo: a conquista do tricampeonato da Copa de 1970 foi a expressão máxima do futebol-arte brasileiro, com o Brasil encantando o mundo a partir do México. Se a memória jornalista deixou isso gravado na memória coletiva essa imagem da arte e da improvisação, a pesquisa histórica também permitiu rever essa ideia. Um pesquisador do Rio, debruçando-se nos jornais da época mostrou como, ao contrário das Copas anteriores, o Mundial de 1970 foi aquele que teve uma maior preocupação com a preparação física, com a adaptação à altitude e com o planejamento tático.

Depois da confusão com a demissão de João Saldanha, a comissão técnica foi assumida por Carlos Alberto Parreira, AdmildoChirol e o capitão Cláudio Coutinho, treinadores que vinham da Escola de Educação Física do Exército – lembre-se que estávamos em pleno regime militar. Eles implantaram novos métodos e exercícios para uma geração de jogadores que vivia seu apogeu, indo para o México com um mês de antecedência. Com isto, fica claro que não foi apenas a ginga nem a improvisação a responsável pela vitória, mas a sua combinação com o futebol-força, visto no senso-comum como exclusivo dos europeus.

Terceiro e último exemplo: costuma-se dizer que futebol é uma "válvula de escape", gera alienação e, portanto, afasta o povo da política. O exemplo da Copa de 1970 ainda é o mais lembrado. Enquanto se praticava a tortura nos porões da ditadura, o povo comemorava a vitória da seleção brasileira… A História mostra que não há uma relação direta nem automática entre futebol e alienação, ele pode gerar tanto isto quanto conscientização. Lembre-se a experiência da Democracia Corintiana ou uma torcida como a Gaviões da Fiel. Ela foi fundada em 1969, por jovens estudantes corinthianos. Um deles chamava-se Flávio, cursava Direito na USP e participara das manifestações estudantis contra a Ditadura Militar em 1868. Durante os anos 1970, os Gaviões adotaram um procedimento para a filiação ao grupo. Era necessário assistir a uma reunião onde se contava a história e a "ideologia" do grupo.

Assim, em 1977 a diretoria dos Gaviões estendeu a primeira faixa pedindo "Anistia Ampla Geral e Irrestrita", no Morumbi em uma partida contra o Santos, com mais de cem mil pessoas. Os Gaviões participaram das passeatas pelas Diretas Já nos anos 1980 e foram a favor do impeachment do presidente Collor em 1992. Uma pesquisa interessante a se fazer em relação às torcidas seria tentar entender por que em São Paulo elas se tornaram Escolas de Samba e, no Rio de Janeiro, onde há uma tradição de desfiles bem mais antiga o mesmo não aconteceu. Mais uma vez temos de ir na história e na sociologia para entendermos isso.

Há, doravante, uma série de pesquisas que poderiam ser feitas: a) Como entender a nova economia do futebol após a transformação dos clubes em empresas?; b) Qual o impacto do novo fluxo de jogadores a mercado externo? (se antes os jogadores só iam transferidos para a Europa quando eram ídolos já consagrados, hoje os jogadores são recrutados precocemente, com 7, 10 ou 12 anos); c) Como entender o microcosmo econômico do futebol brasileiro, e sua estrutura exportadora de "pés-de-obra", com a história da macroeconomia do país, e sua relação exportação de matéria-prima e importação de produtos industrializados?; d) Qual o montante financeiro acionado nos dias de hoje para a organização de um megaevento esportivo como uma Copa do Mundo no que diz respeito a patrocínio e a direitos de transmissão televisivos? (Lembre-se do poder político-econômico da FIFA, entidade responsável pela organização das Copas do Mundo, com mais países afiliados que a ONU; e lembre-se que esse sistema começou a ser implementado à época em que o presidente brasileiro da FIFA, João Havelange, chegou ao poder, em 1974).

Enfim, esses são alguns dos inúmeros exemplos de pesquisa histórica que podem ser feitos a partir do futebol, o que revela sua presença crescente no cotidiano e na vida política do século XX. Com base nele, pode-se compreender questões ligadas à migração, à política internacional e à integração racial, entre inúmeros outros. O mais importante é perceber que o olhar sociológico e histórico está aí para desfazer crenças do senso-comum e mitos que são construídos socialmente através das gerações.

Edição Final: Guilherme Mazzeo

 

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.