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As formas elementares do futebol

Guilherme Mazzeo / GvCult - Uol

10/12/2019 08h00

A famosa bicicleta de Péle: foto de Alberto Ferreira.

Por Bernardo Buarque de Hollanda

"Mesmo quando os espectadores não intervêm fisicamente, eles tentam

influenciar o jogo, torcendo pelo seu lado e importunando os jogadores

adversários com vaias e insultos. O esporte sério não tem nada a ver com o

jogo justo. Está relacionado à antipatia, à inveja, à arrogância, à desconsideração

de todas as regras e prazer sádico em testemunhar violência:

em outras palavras, é uma guerra sem tiros" (George Orwell, 1945)

O futebol constitui um dos fenômenos de comunicação de maior expressão na contemporaneidade. Seu alcance comunicativo decorre do fato de que, segundo os termos de José Miguel Wisnik, a "mundialização do futebol" vem de par com a "futebolização do mundo" (2008). A capacidade de exprimir as formas de ser e de estar na cultura contemporânea faz deste esporte uma linguagem a ser decifrada a todo instante, nos mais diversos territórios e nas mais variadas situações cotidianas.

O desenvolvimento dos recursos técnicos tem permitido a difusão exponencial e a integração comunicacional por meio do futebol. No século XXI, a tecnologia mostra-se ainda mais promissora em suas potencialidades de mimetizar e de mediatizar o espetáculo futebolístico, a exemplo dos jogos eletrônicos, que tanto interesse despertam entre jovens e adolescentes do sexo masculino. As redes virtuais constituem, da mesma maneira, universos potenciais abertos às novas formas de representação, de experimentação e de codificação do jogo com bola.

Enquanto aguardamos as surpresas e novidades reservadas pelos incrementos tecnológicos à dinâmica espetacular dos esportes, cabe um olhar retrospectivo sobre a maneira pela qual a linguagem do futebol se desenvolveu ao longo do século XX. Por mais que os desenvolvimentos tecnológicos sejam exponenciados, é sempre oportuno identificar as formas elementares de comunicação e as suas referências fundamentais. No caso, trata-se da integração entre emissores e receptores que, como se sabe, variam em escala conforme o seu suporte.

O jornal, o rádio e a televisão constituem os três suportes comunicativos que tiveram influência direta na moldagem do imaginário do futebol, a ponto de fazer ele próprio também uma expressão das "comunidades imaginadas", descritas com acurácia por Benedict Anderson. Desde o advento da prática dos esportes modernos no Brasil, em fins do século XIX, e da constituição de um público espectador ao redor dos campos e das praças esportivas, a presença das reportagens jornalísticas, bem como das transmissões radiofônicas e televisivas, influiu decisivamente para a transformação do futebol em fenômeno linguístico e comunicativo.

A massificação e profissionalização do futebol atenderam a demandas progressivas de autonomização do campo esportivo, conforme os termos do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1983), com a subsequente criação de atores configurados e delimitados por essa nova dimensão alcançada pelo futebol. Ao lado dos profissionais (jogadores) e dos amadores (torcedores), identifica-se um terceiro personagem constitutivo deste universo, a saber, o especialista, responsável pela mediação entre os dois polos, a fiarmo-nos no antropólogo Luiz Henrique de Toledo (2000).

Narradores e comentaristas esportivos passaram a especializar-se cada vez mais e, com o tempo, legitimaram-se pela detenção de um saber exclusivo, ligado a um variado repertório de informações técnicas sobre o acompanhamento constante do que se passa antes, durante e depois dos jogos: a história dos clubes, a carreira dos jogadores, a preparação dos times, a análise tática das partidas, etc. À parte específica relativa ao futebol, agregam-se juízos de valor e lições de pedagogia esportiva sobre o comportamento dos jogadores fora do campo. Estes assim também configuram domínio das atividades sobre as quais versam os cronistas, os radialistas e os comentadores de TV.

Além da tarefa especializada de decodificação do jogo e de valoração moral da conduta de jogadores e, eventualmente, de torcedores, cabe a repórteres, locutores e toda sorte de comentadores a missão de arrebatar "corações e mentes" dos espectadores, mediante estratégias de consumo e de audiência que tencionam monopolizar os interesses do futebol. Neste âmbito, a categoria "emoção" tem um papel de destaque, uma vez que se apresenta capaz de galvanizar os públicos futebolísticos gerados pela "intensidade da concentração", tal como cunhada pelo filósofo e teórico da literatura alemão Hans Ulrich Gumbrecht (2006).

Tal intensidade emocional, com atributos de epifania, mobilizada pela partida e catalisada pelos modos de locução/narração, depende das disputas entre times partícipes de um mesmo "ritual disjuntivo" – termo do antropólogo Lévi-Strauss, adaptado ao futebol por Arlei Damo (2008), com base em forças e pré-condições que se afiguram equânimes em princípio, consoante regras e direitos universais válidos para as duas equipes concorrentes, segundo a sociologia configuracional de Norbert Elias e Eric Dunning (1994).

Podemos, por fim, pensar a categoria "emoção", a partir do que o sociólogo francês Roger Caillois (1995). Este considera que há quatro propriedades intrínsecas do jogo, quais sejam: o combate (agôn), o acaso (alea), a vertigem (ilinx) e o simulacro (mimicry). No esporte, estas quatro dimensões são exploradas pelos narradores da mídia escrita, falada e televisada, a fim de que se obtenha a busca da excitação (quest for excitement) de que falam Norbert Elias e Eric Dunning, na obra acima citada, publicada originalmente em inglês no ano de 1986.

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.