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Namoros com a geografia (II)

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29/10/2019 07h02

Mapa da Baía de Todos os Santos em 1625.

Por Bernardo Buarque de Hollanda 

1ª. O estudo da geografia de um país, no caso do Brasil, requer a investigação da dinâmica histórica da formação deste espaço. Além de conhecer as fronteiras e as paisagens do território em questão, é necessário saber sobre o seu passado, a fim de entender por que ele possui determinadas características que os distinguem de outros países do globo. Neste sentido, a identidade econômica, política e cultural de uma nação é incontornável para a apreensão da relação do homem com a terra.

A consulta aos mapas possibilita a visualização de vários aspectos do território brasileiro, como as divisões administrativas, as densidades populacionais ou as influências culturais que cada região recebeu ao longo de sua história.

A identidade nacional foi forjada por Portugal, que desde o século XVI colonizou esta imensa área territorial e estabeleceu os seus limites. Ademais, vários outros países europeus influenciaram o Brasil nos diversos estados da federação. Muitos grupos indígenas, habitantes naturais da terra, legaram seus traços em regiões brasileiras. Povos de procedência africana, cativos escravizados por portugueses, também atuaram na formação da identidade deste país.

2ª. A maioria da população brasileira habita hoje as grandes cidades. Trata-se de fenômeno em certa medida recente, efeito da industrialização acelerada e intensa ocorrida no Brasil a partir da década de 1950. Sem embargo, ao longo da sua história, o país foi marcado pela predominância rural. Inúmeras cidades nasceram, cresceram e pereceram com o decurso econômico. Muitas das cidades sobreviventes do período colonial tornaram-se patrimônio histórico. Por via de consequência, transformaram-se em polo turístico, a exemplo de Ouro Preto, Olinda e Paraty.

Outras expandiram-se com a urbanização, mas preservaram suas marcas pretéritas, como Salvador e Recife. Houve ainda cidades em que a modernização e o incremento tecnológico puseram termo às paisagens antigas, vide a metrópole de São Paulo. Entretanto, algumas urbes brasileiras foram criadas neste século com base em um planejamento prévio, em lugares onde a terra era inexplorada, como Belo Horizonte, Goiânia e Brasília.

Como é o funcionamento das cidades? Estas podem ser portuárias, industriais, comerciais ou turísticas. Em cada uma delas, há uma intrincada rede de relações que envolvem os diversos tipos de trabalho. Os homens inserem-se nesta malha produtiva de diferentes maneiras, onde uns ganham mais e outros menos. As desigualdades sociais provêm dessa estrutura econômica, que afeta as paisagens dos lugares. Além disto, outro fator que amplia a distância entre ricos e pobres é o acesso aos serviços básicos das cidades. Entre eles, destacam-se o abastecimento de água, a coleta de lixo, a rede de esgoto e luz, assim como a moradia, o transporte, a saúde e a educação.

3ª. A diversidade na geografia do campo brasileiro ocorre em grau semelhante à da cidade. Há áreas de maior e de menor concentração humana. Há regiões de elevada e de baixa modernização agrícola ou pecuária. As paisagens do interior brasileiro variam de acordo com o tipo de atividade desempenhada pelo homem e pelos produtos cultivados no local. Logo, os cacaueiros na Bahia caracterizam uma geografia discrepante das pastagens no Rio Grande do Sul. Mas uma das principais questões do campo é o problema da propriedade na terra, o que remete à composição da estrutura fundiária e à sua dinâmica excludente. Desta exclusão, é possível compreender a formação do Movimento Sem Terra, desde fins do século XX e a reivindicação histórica da Reforma Agrária.

4ª. Para entendermos o processo evolutivo das terras brasileiras, convém destacar o habitante autóctone do território: o índio. Divididos em vários grupos étnicos e em muitos troncos linguísticos, os índios possuem culturas próprias, que vêm sendo sistematicamente dilapidadas. Organizam-se segundo valores irredutíveis e estabelecem uma interação distinta com o meio. Determinados grupos resistem, vivem em malocas e aldeias. Na constituição histórica da ocupação do território nacional, os índios foram dizimados, aprisionados e aculturados pelos colonizadores, o que reduziu a influência e a contribuição do seu conhecimento milenar sobre a terra para a sociedade em que vivemos.

5ª. A região norte do Brasil é marcada pela opulência da sua vegetação, da sua floresta amazônica e dos seus bens naturais. Sem embargo, os interesses econômicos da sociedade urbano-industrial vêm rompendo o ciclo humano de relação equilibrada com o meio ambiente. A devastação das áreas verdes para se implantar a agropecuária causa danos à harmonia da selva equatorial. Outro fator prejudicial à localidade é a extração mineral, que contamina e polui os rios, para atender à sanha de modernização dos grandes centros e dos governos.

6ª. O exame da região nordeste e de seu respectivo clima não deve se ater à constatação da pobreza e da seca. Se uma parte de sua extensão territorial é conhecida como sertão árido, boa parcela da região está distribuída por áreas verdes e cultiváveis, como a faixa litorânea da zona da mata. Produz-se cana-de-açúcar, trigo, algodão, sem contar a pecuária e as indústrias de vários ramos, como a têxtil no Rio Grande do Norte. Sendo assim, a explicação para a carência alimentar no Nordeste deve-se a problemas sociais, que estão ligados à existência de latifúndios.

7ª. Analisar a hegemonia da região sudeste no desenvolvimento industrial brasileiro necessita da compreensão histórica dos séculos XIX e XX. Neste período, a importância no café no mercado externo levou à concentração de riquezas no Sudeste, impulsionando a ulterior industrialização da região. A esse processo, seguiu-se a urbanização e a formação das três cidades mais populosas do país: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. A criação de indústrias e a constituição de cidades proporcionam o desenvolvimento de uma gama de atividades paralelas, como o sistema viário e habitacional, além da prestação de serviços e informações.

8ª. A região sul do Brasil possui uma peculiaridade histórica: recebeu a imigração expressiva de europeus, sejam alemães, italianos e eslavos, e estabeleceu parte significativa de sua produção agrícola em pequenas propriedades rurais. Este legado não impede que a área apresente uma diversificação fabril considerável. Como exemplos podemos citar a empresa Sadia, as confecções Hering e a indústria de caminhões Volvo. No sul, ainda vale indicar a presença do carvão mineral, cuja extração se dá nas bacias sedimentares.

9ª. O último tópico dessa segunda série é a região centro-oeste. A diversidade ambiental brasileira faz-se proeminente e varia na área que vai do pantanal ao cerrado. A pecuária, incrementada com práticas modernas de engorda do rebanho, é marca regional. As plantações de soja têm caracterizado a agricultura, que aumenta com a imigração. As condições de trabalho para muitos carvoeiros são precárias e as condições de vida para as tribos indígenas são degradantes. Um dos ápices do centro-oeste foi a construção de Brasília, cidade erguida no Planalto Central em fins dos anos 1950 e inaugurada em 1960 para ser a capital da República, com vistas a levar o progresso ao interior do país.

Edição Final: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.

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