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Namoros com a geografia (I)

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15/10/2019 06h31

Por Bernardo Buarque de Hollanda

Na década de 1930, o escritor modernista Mário de Andrade (1893-1945) fez conferências sobre um tema inusitado para suas preocupações intelectuais: a medicina. Postumamente, estas intervenções orais foram publicadas em um volume intitulado Namoros com a medicina.

Inspiro-me nesse título para glosar Mário e propor nesta coluna uma série sobre geografia. Esta disciplina foi uma paixão dos meus bancos escolares no ensino fundamental. Tenho pra mim que vim a cursar Ciências Sociais pelo gosto cultivado na escola por essa disciplina, em especial os conhecimentos relacionados à geografia humana e à geopolítica internacional.

Por coincidência, depois de me bacharelar e de me licenciar na UFRJ, meu primeiro emprego docente foi como professor de geografia no ensino fundamental, numa cidade do interior do Rio de Janeiro. A seguir, pois, minha pequena homenagem à matéria, com uma síntese, sob a forma de tópicos, de seus saberes e sabores.

*

1ª. Uma das características básicas da geografia é a identificação e a localização dos lugares. Saber determinar um local e diferenciá-lo de outros é a tarefa precípua dos estudos geográficos. Uma escola, uma casa, uma floresta ou uma cidade são lugares distintos, onde o homem se comporta de maneira diversa. A geografia procura entender os limites de cada paisagem. Além disto, investiga como as ações humanas e sociais interferem sobre determinado meio.

 

2ª. Após reconhecer um lugar e sua respectiva paisagem, é importante ponderar que os lugares não são simplesmente unidades autônomas, mas são interdependentes entre si. Locais distintos possuem relações importantes, como a cidade e o campo, como os elementos naturais da floresta e os produtos industriais da área urbana. Esta associação entre paisagens diversas une também homens diferentes, que desempenham atividades sociais específicas, complementares ou desiguais. A ação do tempo modifica um determinado local. Logo, toda e qualquer geografia possui uma história, conferindo à região uma singularidade própria.

 

3ª. Se a geografia consiste na localização dos espaços e no reconhecimento das suas funções primordiais, é fundamental que o estudante possa visualizar tais lugares. Desenhos, ilustrações, fotos – todos estes expedientes contribuem para a compreensão de uma paisagem. O meio mais frequente utilizado pelos geógrafos é o mapa. Este consiste em uma representação simbólica de um estado, de um país ou de um continente. A linguagem dos mapas dá acesso a informações sobre um específico local em seus múltiplos aspectos: altitude, densidade demográfica, distritos, centros comerciais, etc. Tais dados, por seu turno, são dispostos em escalas.

 

4ª. Todas as paisagens têm a sua história. Qual seria, então, a história da Terra? Vários povos explicam a origem deste planeta à sua maneira. A sociedade ocidental, estribada na ciência, postula que a Terra nasceu de uma explosão no universo há cinco bilhões de anos, o Big Bag. Ao longo de todo esse tempo, a Terra foi-se resfriando e se transformando. Em torno do sol, agruparam-se nove planetas: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. A Terra é composta de cinco camadas: atmosfera, litosfera, hidrosfera, atmosfera e manto. Desde remotos tempos até a era atual, nosso planeta continua a metamorfosear-se de maneira incessante.

 

5ª. As primeiras formas de vida vegetal e anima surgiram há quinhentos milhões de anos e, provavelmente, tiveram origem na água. De maneira ininterrupta, desde as algas até os dinossauros e os seres humanos, a vida na Terra vem mudando. Há um milhão de anos, o fenômeno da glaciação – processo abrupto de resfriamento da crosta terrestre – também alterou as feições da vida e da paisagem no planeta. O aparecimento do ser humano significou uma nova fase e afetou a geografia da Terra. Se inicialmente a sua intervenção no meio foi reduzida, com o passar dos tempos o homem começou a intervir de modo sistemático sobre o espaço ao seu redor. Construir habitações, cultivar plantas e domesticar animais foram os primeiros passos dos povos antigos. Progressivamente, a capacidade inventiva do homem foi-se ampliando. De 10 mil anos até os dias de hoje, os meios naturais, sociais e culturais vêm sendo modificados de maneira profunda, como atesta o advento das indústrias, dos meios de transporte e da tecnologia.

 

6ª. A fim de entender como as sociedades humanas atuam sobre os elementos da natureza, é mister conhecer os principais componentes da paisagem. O primeiro deles é o relevo. Muitas forças agem na constituição das elevações da superfície terrestre. Os fatores internos são os vulcões, os terremotos e as placas da litosfera. Os fatores externos na formação do relevo são os ventos, as águas e as mudanças de temperatura, que contribuem para a erosão das montanhas e dão origem aos planaltos e às planícies. A dinâmica de formação e de destruição dos relevos tem sido mudada pela ação humana. Sua atividade de manipulação do solo, como a extração de ferro ou a plantação de café, interfere no ritmo de um terreno.

 

7ª. Depois de estudar o relevo, vamos nos deter na atmosfera. Dentre as camadas atmosféricas, a troposfera é aquela em que ocorrem os fenômenos da meteorologia, como as chuvas, as nuvens e os ventos. A luz solar incide de maneira mais acentuada na zona equatorial. Nos polos norte e sul, a incidência de luminosidade é menor. Em razão da translação – movimento da Terra em torno do sol no período de um ano –, as estações climáticas variam de um hemisfério para outro. A energia solar irradiada é absorvida pela terra e, em parte, refletida de volta ao espaço. As diferenças na temperatura ocasionam a existência dos ventos, como a brisa marinha e a continental. A concentração urbana e a aglomeração humana provocam o aquecimento terrestre, bem como a poluição do ar e o efeito estufa no globo. Ademais, outro grave acontecimento tem-se processado: a destruição da camada de ozônio. Esta protege o meio-ambiente da ação nociva dos raios do sol.

 

8ª. A água é um elemento fundamental para a Terra. Ela obedece a um ciclo: evapora do mar ou da terra, condensa-se nas nuvens e volta a se infiltrar na superfície terrestre. Não obstante, o ciclo hidrológico é afetado pelo homem. O desmatamento e os poluentes quebram o processo original, atingindo a cidade e o campo. Na zona urbana, os detritos e o esgoto desregulam a qualidade das águas. Na zona rural, a utilização de agrotóxicos no combate às pragas da lavoura compromete a terra e seus lençóis subterrâneos.

 

9ª. Last but not least, o último apontamento que iremos mencionar na coluna de hoje é a biosfera. Esta diz respeito à presença da vida vegetal e animal na crosta terrestre. Como as plantas e os bichos fazem para se alimentar e reproduzir? Verifica-se entre estas espécies um elo complementar que liga uns elementos aos outros. É a chamada cadeia alimentar, de reprodução dos seres vivos e da natureza. O homem, mais uma vez, inscreve-se nesse encadeamento à medida que o transforma. Na sociedade industrial do mundo moderno, há uma nova cadeia alimentar criada pelo consumo das grandes cidades. A produção agrícola e pastoril é sistematizada, padronizada e escalonada para atender o cidadão das metrópoles. A rede intrincada de fabricação de alimentos através da técnica é cada vez mais intensa e acelerada.

Edição Final: Guilherme Mazzeo

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.

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