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GV CULT - Criatividade e Cultura

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Mini glossário de sambistas cariocas.

GV CULT

05/03/2019 06h12

Resistência. No final dos anos 10 e início dos anos 20, o número 119 da Rua Visconde Itaúna, na Praça Onze, abrigou a casa de Tia Ciata, onde sambistas se escondiam da polícia: no local, nasceu "Pelo telefone", marco fundador do samba.  Fonte: ARQUIVO DA CIDADE DO RJ.

Por: "Bernardo Buarque de Hollanda"

Aniceto do Império – Estivador, porte físico de rei negro, fundador da escola de samba Império Serrano, frequentador da tradicional festa da Penha. Raiz rural: batuque e caxambu. Partido alto, versejar improvisado, estrutura de interpelação e resposta, canto coletivo. Possuía o dom da oralidade e foi o orador oficial do seu grêmio carnavalesco. Nasceu no morro do Estácio, no centro do Rio, mas foi criado em bairros do subúrbio carioca, com sua paisagem rural: Engenho de Dentro, Piedade, Encantado, Oswaldo Cruz e Campinho. Detentor de um português castiço, esmerado, e de uma pronúncia genuína, tinha vocabulário enigmático, próprio de um jongueiro: "vou envergar a indumentária no carnaval"; "sou um ouriço sem bandas"; "no meu tacanho modo de pensar, eu não me arrojo que ratifico nem retifico". Personalidade forte, indagadora, grandiloquente. No cais do porto, pertenceu ao Sindicato dos Arrumadores, o antigo Resistência, liderado por Mano Elói, sendo responsável por organizar uma greve histórica, no ano de 1941. Na umbanda, foi Ogã. Cursou até o ginásio e aprendia com espantosa facilidade. Tem anotado em um caderno escolar suas mais de 500 composições, com caprichada caligrafia. Eis um exemplo de composições de sua lavra:

 

Partideiro famoso

Sou partideiro famoso,

Inspiração me irradia,

Busco temas variados,

Que não causam hipocondria.

O oposto da noite?

O dia.

A loucura do cão?

Hidrofobia.

Virgem mãe do senhor?

Tereza.

Virgem mãe do senhor?

Maria.

Veja, meu bem, o meu tema provoca alegria…

Onde é feito o batismo?

Na pia.

A concórdia de um grupo?

Harmonia.

Amor demasiado?

Idolatria.

O fingido possui?

Hipocrisia.

Aniceto é cheio?

De filosofia.

Agir de contrassenso?

Heresia.

Hotel ou pensão?

Hospedaria.

Partideiros são muitos?

E com hierarquia.

O irmão da tristeza?

Melancolia.

Acredito que provei, inspiração me irradia…

 

Figuras lendárias do universo sambístico que Aniceto conheceu: Paulo da Portela, João da Gente, Aço Humano, João Alabar, Molequinho, Fuleiro, Antônio Papo, Comprido, Zé da Grota, João Gradim, Tia Eulália, Tia Tereza, Hugo Mocorongo, Silas de Oliveira, José Geraldino, Sinoca, Hilário Jovino (Lalu de Ouro), Sabata, Veríssimo, João da Baiana, Donga, Bernardo Sapateiro, Claudionor e Tatu Bamba.

Por arrematar, mais um estribilho que Aniceto gostava de cantar:

 

Rio das pedras

 

No tempo do bonde de burro,

Rio das pedras e Oswaldo Cruz,

A crioula mais faceira foi…

Clementina de Jesus.

 

Babaú da Mangueira – Vou vivendo na floresta é um de seus sambas mais tocantes. Já Tenha pena de mim foi interpretado por Aracy de Almeida e é sua autoria mais conhecida. Fundador da escola de samba Unidos do Cabuçu, considerada o partido alto a tradição e o gênero mais valoroso do samba.

 

Carlos Cachaça – Ferroviário da Central do Brasil, precursor do Bloco dos Arengueiros em 1925, semente da frondosa e futura Estação Primeira de Mangueira, é autor do portentoso samba-enredo Ciência e arte. Do silvo dos trens, do leito dos trilhos, deixou a composição Lacrimário, de rude beleza.

 

Cartola – Frui da natureza as palavras mais simples, puras e sinceras. Samba e poesia entrelaçam-se nas linhas de sua inspiração, reverenciada por Carlos Drummond de Andrade. Do samba, extrai a pulsação, a melodia, o ritmo; da poesia, sorve o amor, a ternura, os tempos idos da infância e da mocidade. Guarda em suas imagens criadoras a geografia do morro da Mangueira e os símbolos cromáticos de sua agremiação carnavalesca. Ainda menino, na década de 1920, ouvia do avô materno, o campista Luiz Cipriano Gomes, então nos seus 70 anos de idade, um canto de trabalho doméstico que, em verdade, era um insistente refrão de lundu: "Ensaboa, mulata/Ensaboa/Ensaboa, tô ensaboando…".

 

Cristina Buarque – Intérprete dos clássicos do samba carioca, a cantora resgata tanto compositores muito pouco conhecidos como músicas desconhecidas de renomados sambistas. Vai ao sumo da tradição musical da década de 1930, com letras em forma de crônicas, capazes de narrar o cotidiano de malandros e trabalhadores, recriando-o com sua voz lúgubre, aveludada e sempiterna. Prato & faca é o primeiro de seus 8 discos. Em seu elenco, figuram músicas de João da Baiana, Wilson Baptista e Noel Rosa. Morro do sossego, Agradeço a Deus e Carro de bois são algumas preciosidades gravadas em seu repertório. O compositor Hermínio Bello de Carvalho a chama de "cabrocha loura". Já o produtor musial de seus LPs, Fernando Faro, a descreve com singeleza. Foi Mauro Duarte quem a envolveu no manto azul-e-branco da Portela, onde forrou ninho e, como o rouxinol mavioso da letra de Argemiro, passou a cantarolar as belas composições dos irmãos Manacéa, Aniceto e Mijinha, além dos cânticos da Velha Guarda cor de anil.

 

Manacéa – Primoroso compositor portelense. Diz-se que era tímido. Em seus temas, decanta a miudeza do ser humano ante a grandeza divina do Criador, bem como a devoção amorosa do homem pela mulher. Sambas ingênuos, envoltos de candura. Pequenas obras-primas: Sempre teu amor; Quantas lágrimas; Nascer e florescer; Amor proibido.

 

Nílton Campolino – Frequentador das antigas rodas de samba na Ilha de Paquetá, mais tarde proibidas, onde conheceu Élton Medeiros. Partideiro e calangueiro de primeira categoria, publicou LP em parceria com Aniceto do Império, gravado pelo Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro (MIS-Rio), nos anos 1970. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente há vinte anos atrás, para ser mais preciso no dia 11 de abril de 1999. O encontro ocorreu na Portelinha, diminutivo da antiga sede da escola de samba homônima, em Oswaldo Cruz. Na ocasião, cantou diversos partidos como Indesejável mulher, Mocinho cantador e Maria Sara. Esta última, Maria Sara, era uma senhora que "brincava" jongo, dava pernada no samba duro e amarrada de frente nos batuques. Gráfico de profissão, conta-se que Campolino derrubou com seus versos, nas rodas do GRAN (Grêmio Recreativo de Arte Negra) Quilombo, escola fundada por Candeia, gente do porte de um Martinho da Vila e Paulinho da Viola.

 

Padeirinho – Pelas firulas do miudinho, passo característico da dança de partido alto, pelas gírias matreira e malandra que lhe são peculiares, destaca-se esse humilde filho de padeiro, que trouxe para a música a linguagem libérrima, descontraída e informal dos morros cariocas. De sua fornada musical, temos o samba-enredo O grande presidente, homenagem póstuma a Getúlio Vargas, de quem era fã, e que Jamelão gravou com sua voz imponente. Quem mandou duvidar? é uma das joias raras do samba de improviso. Nasceu em Laranjeiras, zona sul do Rio, mas morou entre Chalé, Vacaria e Pindura Saia, conjunto de montanhas da zona norte que conformam hoje a comunidade Mangueira, sua "verdadeira aquarela". Em seu louvor, compôs Favela:

 

Numa vasta extensão/

Onde não há plantação/

Nem ninguém morando lá/

Cada um pobre que passa por ali/

Só pensa em construir seu lar…

É aí que o lugar/

Então passa a se chamar/

Favela…

Xangô da Mangueira – Velho batuqueiro, sucedeu Cartola na direção de harmonia da verde-e-rosa Mangueira. Filho de pais de origem africana banto, foi muito afeito à tradição de jongueiros, calangueiros e pagodeiros. Piso na barra da saia, O namoro de Maria e Eu moro na roça são sambas de sonoridade, cadência e malemolência incontestes. 

Edição: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.