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GV CULT - Criatividade e Cultura

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Três variações sobre o modernismo de Mário de Andrade

GV CULT

05/02/2019 06h01

Macunaíma de Mário de Andrade ganhou cores e imagens por "Angelo Abu" e "Dan X" no livro: "Macunaíma em quadrinhos".

Por Bernardo Buarque de Hollanda

I.

Mário de Andrade (1893-1945), intelectual paulista da primeira metade do século XX, notadamente do período entreguerras, teve sua formação voltada para a música e as letras. Polígrafo, suas atividades abrangeram a poesia, o conto, o folclore, a crítica de artes plásticas e a cultura popular, além da curadoria do patrimônio histórico nacional.

Desde cedo, inspirou-se nas correntes de vanguarda europeia, como o futurismo do italiano Marinetti e o dadaísmo do romano Tristan Tzara, enturmando-se no Brasil junto a intelectuais de diversas regiões do país. Entre eles, destaquem-se: Anita Malfatti (São Paulo), Villa-Lobos (Rio de Janeiro), Câmara Cascudo (Rio Grande do Norte), Manuel Bandeira (Pernambuco), Pedro Nava (Minas Gerais), Raul Bopp (Rio Grande do Sul). Com esta rede, logrou dar corpo ao modernismo, movimento cultural e estético cujo marco inaugural foi a Semana de Arte Moderna de 1922.

As concepções modernistas configuraram uma ruptura artístico-literária com o legado e a tradição beletrista brasileira, desbaratando a ideia da arte pela arte, principalmente com relação às formas poéticas contemporâneas de sua época, como o parnasianismo. Olavo Bilac, um dos artífices parnasianos, é alvo de críticas e sátiras, em razão do formalismo excessivo, de rimas rebuscadas, de métricas perfeitas e de um vocabulário pernóstico.

Dando vazão a padrões estilísticos pouco convencionais, Mário de Andrade e os núcleos modernistas adensados em vários estados do país introduzem uma outra sorte de questões e princípios a serem debatidos. Entre estes tópicos, destacam-se a relação entre arte e sociedade, a aproximação entre saber erudito e popular, além de respostas a indagações axiais: existe uma identidade brasileira? Se sim, como construí-la? Quem é afinal o homem brasileiro? Qual sua singularidade no "concerto das nações"? Como interpretar antropologicamente a história do Brasil?

Ao longo da obra marioandradina, encontram-se, aqui e ali, pistas a estas perguntas, como no prefácio aos seus poemas juvenis Pauliceia desvairada, nos relatos fragmentares de O turista aprendiz ou de forma mais sistêmica na sua Pequena história da música. Mas o livro que melhor sintetiza seus ideais estéticos e temáticos, alinhavando material etnográfico e criação literária, é a rapsódia Macunaíma (1928), sua obra-prima.

Dotado de alta consciência inventiva, cujo estilo incorpora elementos sinópticos, pictóricos e rítmicos à trama narrativa, Mário de Andrade, em pouco mais de cem páginas,

apresenta algumas características corrosivas do suposto modo de ser nacional. Transfigurado e fundido em tempo e espaço, simbolizado por um herói em busca de identidade e caráter, o brasileiro é um ser híbrido, lúdico e avesso à rotina de trabalho. Confrontando-se com valores caros à civilização e à racionalidade europeias, o enigma da personagem principal assenta na sua congênita ambiguidade e visa integrar inocência e perspicácia, malícia e pureza, astúcia e ingenuidade.

No tocante à representação do Brasil, depreende-se da urdidura do enredo o cenário de um país cuja língua é própria e original, uma terra cujas raízes são nacionais – isto é, dissolvem sincreticamente as diferenças nacionais –, um povo cuja fala é brasileira – ou seja, descendente, porém diferente da portuguesa – e cujo saber abrange tanto a mitologia indígena quanto o folclore negro. Doravante, as peripécias do herói criado por Mário de Andrade permitem que se caracteriza a nação como uma totalidade integrada aos trópicos e expressa "caleidoscopicamente" na dicotomia entre a muiraquitã, amuleto sagrado selvagem, e o carro, instrumento mecânico motorizado civilizado.

II.

O movimento modernista brasileiro, cujo marco histórico foi a Semana de Arte Moderna de 1922, representou uma ruptura com as formas até então vigentes de criação artística. Valendo-se de manifestos, revistas e exposições, os modernistas aglutinaram-se em círculos literários nas principais capitais brasileiras e propuseram uma nova sorte de relações entre o artista, sua obra e a sociedade. Neste sentido, o modernismo no Brasil acompanhou uma série de transformações econômicas, sociais e políticas que se processavam na primeira metade do século XX.

Do ponto de vista internacional, o movimento modernista foi consequência do fim da Primeira Guerra mundial (1914-1918), quando, além da destruição dos países beligerantes, esboroaram-se no Velho Mundo as ilusões acerca da onipotência da razão e do progresso. Outro fator que concorreu para o impulso do modernismo no país foi o surgimento de diversas vanguardas artísticas na Europa, como o Cubismo, o Futurismo e o Surrealismo, que chocavam os padrões estéticos tradicionais com uma linguagem inovadora, surpreendente e radical.

Já no ambiente nacional, o modernismo situa-se no contexto turbulento da Primeira República, em que os vícios eleitorais das oligarquias insuflavam jovens tenentes contra o sistema político-econômico decadente. No plano da cultura, os modernistas têm sua gênese

motivada pelo repúdio das novas elites culturais aos critérios convencionais de criação e de cultivo das letras, considerados excessivamente acadêmicos, a exemplo do parnasianismo de Olavo Bilac e da oratória de Rui Barbosa.

Afastando-se das formas usuais de composição na poesia, como as regras da rima e as imposições da métrica, e aproximando-se das questões mais amplas da sociedade brasileira, como o seu legado histórico, folclórico e multiétnico, o modernismo inspirou-se nas fontes primitivas da cultura popular e do folclore, a fim de plasmar a sua identidade nacional não exclusivamente europeia. Para tanto, utilizou-se muitas vezes da sátira contra a geração anterior, como os versos de Os sapos, de Manuel Bandeira, ou o romance A escrava que não é Isaura, de Mário de Andrade.

Mário de Andrade, intelectual paulistano, polígrafo e musicólogo, foi, ao lado de Oswald de Andrade, o principal mentor e realizador do ideário modernista no país. Como crítico literário, poeta, escritor, contista e folclorista, Mário de Andrade assinou inúmeras obras, entre dicionários, livros e artigos, além de estabelecer correspondência com os mais diversos intelectuais e artistas do período, a exemplo de Tarsila do Amaral e de Câmara Cascudo, em debates sobre questões por demais relevantes para a compreensão das concepções nacionalistas da sua geração.

Macunaíma, de 1928, ilustrada por Cícero Dias, é considerada a obra mais importante do autor. Escrito após desbravadoras viagens feitas às regiões norte e nordeste do país na década de 1920, e inspirado na leitura de Koch-Grünberg, o livro narra as peripécias de um herói indígena que atravessa todo o território nacional em busca de uma muiraquitã, talismã que traz felicidade, e em fuga do gigante antropófago estrangeiro, Piaimã. No final da história, vendo-se sozinho na terra, Macunaíma resolve juntar-se no céu aos amigos da tribo e se transforma em uma estrela da constelação da Ursa Maior.

Lançando mão de um estilo original na prosa brasileira, a rapsódia, na qual incorpora elementos rítmicos e pictóricos ao longo da narrativa, Mário de Andrade embaralha de modo surreal a geografia cartesiana do país, bem como a mitologia oriunda dos índios e dos negros. Mas o que chama a atenção de imediato é o proposital desrespeito às normas cultas da língua portuguesa, corrompida em nome de uma maior espontaneidade da fala brasileira. Não refreando o fluxo da linguagem, o autor libera todo o seu cabedal de conhecimentos etnológicos e filológicos acerca dos vocábulos e dos ditos populares registrados nos diferentes rincões do território.

Eivado de sarcasmo, Macunaíma protagoniza um herói às avessas, uma espécie de marginal ingênuo – sem caráter, não mau-caráter –, destituído de qualidades e de atributos

morais. Ao contrário de outros povos, como o mexicano ou o francês, o povo brasileiro constituiria uma civilização ainda indefinida, sem identidade, em que a configuração nacional estaria por ser fundida e sedimentada. Daí a imaturidade do jocoso e selvagem herói, guiado tão-somente por impulsos egoístas e por instintos de satisfação sexual. Capaz de se metamorfosear ao seu bel-prazer em branco, negro ou índio, o ambíguo personagem de Mário de Andrade reflete a hibridez da composição étnica nacional, antecipando-se na literatura às formulações antropológicas e às interpretações histórico-sociais de Gilberto Freyre (1900-1987), na década de 1930, com seu ensaio Casa-grande & senzala.

Nesse sentido, o herói do modernismo opõe-se de maneira cabal aos tipos locais idealizados pelo romantismo no século anterior. Em um cotejo do Macunaíma de Mário com o Guarani de José de Alencar, avultam enormes diferenças contrastivas. Se o autor romântico condensou no índio puro e casto toda uma simbologia do modo de ser brasileiro, o escritor modernista perverteu esse mesmo indígena, timbrando-lhe a malícia, incutindo-lhe a aversão pelo trabalho, atribuindo-lhe o hedonismo desenfreado.

Mário de Andrade retirou a discussão sobre o Brasil da sua superfície epidérmica, sem complacência com o ufanismo. Com isto, o modernismo teve o mérito de refletir de maneira mais aprofundada a temática da identidade coletiva destituído de estereótipos fáceis. Ao forcejar respostas para os dilemas da cultura brasileira de seu tempo, por meio da valorização das matrizes culturais e da tradição oral da população, Mario de Andrade ensejou a percepção de que decifrar a nação era não só uma missão, como um desafio complexo e instigante.

III.

O modernismo brasileiro constituiu um movimento artístico de ruptura com as formas tradicionais de criação na primeira metade do século XX. O seu marco histórico foi a Semana de Arte Moderna de 1922, que reuniu jovens intelectuais descontentes com os rumos culturais e sociais da nação. Manifestando-se através de exposições, revistas, teses e polêmicas, os círculos literários do modernismo aglutinaram-se nas principais capitais do Brasil. Os integrantes do movimento propugnavam o fim do academicismo, expresso nas letras pelos parnasianos, e defendiam a arte de vanguarda, expressa na poesia pelo verso livre.

A adoção de novas propostas estéticas no país dialogava com importantes acontecimentos no mundo, em especial na Europa. Com o término da Primeira Guerra mundial (1914-1918), o continente europeu estava em ruínas. Muitos de seus ideais, como o de civilização, progresso e razão, caiam por terra. Em contrapartida, no âmbito cultural,

diversas correntes ganhavam corpo, entre elas o dadaísmo, o cubismo e o futurismo. Tanto do ponto de vista programático quanto do ponto de vista estilístico, os movimentos emergentes alteravam as representações pictóricas da realidade.

As vanguardas europeias eram recebidas no Brasil dentro de um cenário político-econômico turbulento. O país assistia a uma incipiente industrialização. As oligarquias da Primeira República mantinham-se atadas a estruturas agrárias e o sistema eleitoral era caracterizado pela fraude. As classes médias das cidades e os jovens tenentes do Exército indispunham-se contra as hostes do governo. Ocorriam greves operárias e surgia o Partido Comunista Brasileiro. Todos esses fatores concorreram para a Revolução de 1930, que vai instituir um novo ciclo na vida nacional.

Os modernistas brasileiros, sensíveis às inovações artísticas da Europa e atentos às mudanças sociais do país, tinham o objetivo de afirmar a originalidade cultural da nação. Neste sentido, a figura de Mário de Andrade é uma das mais proeminentes. Atuando nas décadas de 1910 a 1940, Mário foi escritor, folclorista, poeta, musicólogo e homem público, ligado ao Ministério da Educação e Saúde (MES), durante o governo Vargas.

O projeto modernista marioandradino abrangia a inserção do país no contexto internacional, a partir da definição de um caráter singular e unitário do Brasil. No intuito de se contrapor à sociedade utilitária e padronizada da Europa, o escritor paulista vai buscar nos elementos primitivos, extraídos do manancial da cultura popular, as fontes para a reiteração da nacionalidade. À margem do trabalho serial, que condiciona o homem mecanicamente, o autor mostra um país de pujança tropical e de matriz étnica híbrida.

O estilo do escritor fustiga as convenções usuais dos beletristas e abole diversas regras gramaticais da língua portuguesa. Com vistas a captar a fluência e a dinâmica do linguajar popular, Mário elide pontuações, contorna vírgulas e imprime outro ritmo à dicção narrativa. Ademais, transfigura a ortografia, privilegiando a oralidade e as expressões coloquiais.

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter é uma das obras-primas do modernismo. Nesta fábula amoral, Mário de Andrade sintetiza um ideário estético e temático sobre o Brasil. Trata-se de um personagem sarcástico e astuto, infenso à rotina e ao labor, que salta por sobre as regiões brasileiras na procura da muiraquitã, uma pedra preciosa e objeto mágico. Em sua perseguição, o excêntrico protagonista deixa as selvas do interior do país e vai até São Paulo, principal centro urbano-industrial, onde tudo se apresenta exótico aos olhos de um interiorano.

No rastro de um gigante antropófago, que lhe furtara a muiraquitã, Macunaíma se depara com uma outra sociedade, em que as máquinas substituem a fauna, a flora e o próprio

ser humano. Quando do resgate da pedra mágica, o herói regressa à tribo de origem. Verificando uma série de transformações no lugar, Macunaíma constata que a sua vida carece de sentido. Como nas lendas indígenas, o herói transmuta-se da terra e vira uma constelação estelar.

O confronto entre duas realidades divergentes coloca em questão a identidade brasileira, transposta para a criação literária, em uma época de crescente avanço da urbanização e da industrialização. Uma realidade apresenta-se como primitiva, selvagem e indígena; outra, como desenvolvida, civilizada e branca. A presença destes elementos permite a diferenciação entre São Paulo, que incorporou um modo de vida artificial, posto que transplantado da Europa, e o restante do país, que assistiu à originalidade da fusão de aspectos folclóricos e antropológicos. A identidade nacional, segundo o autor, assentava suas bases na cultura popular e na miscigenação étnica.

Edição: Guilherme Mazzeo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.

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