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GV CULT - Criatividade e Cultura

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Apontamentos sobre a historiografia da revolução industrial

GVcult

04/12/2018 06h05

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Fonte: https://www.tate.org.uk/art/artworks/lowry-industrial-landscape-t00111

O que é a Revolução Industrial? Segundo Braudel, é a passagem de uma civilização da madeira e do carvão vegetal para uma civilização do ferro e do carvão mineral. Por que a maquinaria foi introduzida na indústria do algodão no século XVIII? Porque o primeiro produtor de têxteis é a Índia. Na Inglaterra, os trabalhadores lutam contra a baixa dos salários, que são relativamente muito elevados. Logo a única maneira que tem a Inglaterra de enfrentar a concorrência é introduzir as máquinas.

Segundo os historiadores, são três mutações maiores a que assiste o homem: a aparição do sistema da cidade grega; a queda do Império Romano ocidental e as origens do sistema capitalista. Nosso problema coloca-se sobre essa terceira grande mutação e observa as razões da aparição do capitalismo no Ocidente. Para tanto faz-se o encadeamento das 5 seguintes proposições:

1) o caráter específico do capitalismo é a procura privilegiada pela eficácia econômica;

2) a condição primeira da maximização da eficácia econômica é a liberação da sociedade civil em relação ao Estado;

3) esta condição é possível na medida em que uma atmosfera cultural se divide em várias unidades políticas soberanas;

4) para que essas virtualidades tenham todas as suas consequências, é necessário também que o sistema de valores se modifique em relação aos valores religiosos, militares e políticos e que suas necessidades sejam liberadas;

5) só o Ocidente conheceu uma evolução que preencheu todas essas condições – a ordem feudal saída da decadência das províncias ocidentais do Império Romano ignorava as trocas; quando estas apareceram, produziu-se um ser original: o burguês, com taxas econômicas e sem legitimidade. A ausência de uma ordem política europeia levou à anarquia do mercado e à impossibilidade de criar uma ordem econômica.

A destruição dos antigos modos de vida liberou as necessidades e produziu o consumidor moderno. O mesmo raciocínio permite explicar por que a mutação industrial ocorreu na Inglaterra do fim do século XVIII. Até o presente, contenta-se com certas particularidades do fenômeno, como, por exemplo, o crescimento da demanda de algodão gerou um aumento do tecido. Donde a adoção do trabalho de tecer. E assim por diante. A hipótese de Baechler é a de que o sistema pluralista inglês se coloca em definitivo no século XVIII; de que a Europa alcança, após séculos de guerras internas e externas, uma estabilidade política; de que os Estados se unificam com uma administração eficaz; de que o espírito científico faz um progresso decisivo na Inglaterra a partir de Newton; de que a elite inglesa se ocupa da economia.

Isso mostra que o avanço inglês não foi um milagre. Além disto, o conjunto do sistema europeu era favorável à eclosão do sistema industrial. Desta maneira não houve nenhuma séria para se estender à França, aos Países Baixos, à Bélgica, à Alemanha, à Itália do Norte e à Boêmia. Se o século XVIII realiza pela primeira vez este conjunto de condições colocadas em meu raciocínio, é necessário remontar ao século XI para entender a gênese progressiva dessas condições.  

O capitalismo ganha uma contribuição explicativa decisiva com Hobsbawm, autor de um tríptico de Eras: Revoluções (1789-1848), Capital (1848-1870) e Impérios (1870-1914). A Era das Revoluções foi publicada pela primeira vez em 1959, constituindo sessenta anos da maior transformação social que a humanidade conheceu desde a Antiguidade, com descrição da queda do ancien régime e do início da ascensão do capitalismo industrial; predomínio da Europa ocidental sobre o resto do mundo; relato histórico das transformações de classes como a aristocracia, a burguesia e o campesinato; novos caminhos das ciências, da filosofia, da religião, da literatura e das artes. São domínios circunscritos pelo livro: história, economia e sociologia. Já a Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1989) foi sua versão mais recente. O molde histórico deste último século deriva da revolução política francesa e da revolução industrial inglesa.

No que tange ao século XVIII, o ponto de partido do historiador são as condições específicas para a explosão da revolução industrial: retirada dos grilhões do poder produtivo, com a multiplicação de homens, serviços e mercadorias. Por que na Inglaterra? Porque as Américas estavam encerradas na escravidão; a Ásia, ou estava colonizada ou seus antigos impérios do extremo oriente estavam fechados a qualquer ocidentalização; o leste europeu, pulverizado em pequenos principados, ainda estava muito próximo dos mecanismos servis do feudalismo, além de servir a Europa com seus alimentos, assim como a Europa latina, Espanha e Itália.

Trata-se então de uma história regional, a do noroeste da Europa, a do eixo franco-britânico, que vai protagonizar esse acontecimento decisivo para a história do mundo, graças à força de seu impacto internacional após a dupla revolução. Assiste-se à expansão e propagação europeia, mediante a descrição dos aspectos demográficos, técnicos e estruturais na região inglesa, bem como a construção do primeiro sistema fabril em Lancashire. As guerras, como a dos Sete Anos, opõem duas potências que querem tomar a frente no mesmo processo de expansão europeia.

Revolução industrial remete, evidentemente, à cidade e à fábrica. Mas não deixa de ter continuidade com as transformações rurais, com a evolução da agricultura e das instituições políticas, como a monarquia constitucional. A revolução industrial foi então um desdobramento das relações agrárias, que se davam no campo, nas Ilhas Britânicas, passando-se do sistema doméstico de produção ao sistema mecanizado, com a especialização dos processos e das funções, o que está na origem da ideia marxista de alienação.

Trata-se de explorar a relação entre mestre e artesão. O camponês típico dessa época é o servo, que realiza trabalhos forçados na fazenda do senhor, um nobre proprietário de vastas extensões de terra. Só em 1851, na Inglaterra, a população urbana ultrapassa a rural. Enquanto Londres tem 1 milhão de habitantes, Paris possui 500 mil e apenas outras 20 cidades alcançam 100 mil, dentre elas dezenas da Itália, berço das cidades renascentistas.                             

Uma boa parte da Europa rural ocidental, entretanto, tinha abandonado sua condição servil e entrado em um sistema em que o camponês era o lavrador típico, com pequenos e médios camponeses vivendo não como arrendatários, mas como produtores mais ou menos autossuficientes. A Inglaterra conseguiu dar origem a uma classe de empresários agrícolas, os fazendeiros, e um enorme proletariado rural. A questão está em saber por que a riqueza, até então assentada na terra e na propriedade da terra, vai-se deslocar das amarras rurais e se voltar para uma produção baseada na mercadoria, na manufatura. A posse da terra conferia distinção – ser nobre era ter terras – e privilégios.

Ou seja, como até então tinha-se um modo de produção local que abastecia as regiões circunvizinhas, passa-se logo depois à articulação de um sistema interligado voltado exclusivamente para o abastecimento e provimento das populações que habitam as cidades. A grande força do capitalismo é criar uma cadeia de produção entre o rural e o urbano, de modo que o que antes era isolamento e autonomia torna-se, pouco a pouco, ligação e interdependência.

Para Paul Mantoux (1877-1956), historiador de uma geração anterior à de Hobsbawm, o significado da revolução industrial na história da humanidade é algo só equiparável à invenção da agricultura, à escrita e à metalurgia na pré-história e na antiguidade. São profundas transformações em pouquíssimo tempo, com a sensação da aceleração, de revolução, de explosão, a exemplo das metáforas do vulcão, em erupção ou da enchente. Ademais, são palavras introduzidas no vocabulário da humanidade: indústria, sociologia, ideologia, esquerda e direita, liberal e conservador, socialismo e capitalismo.

Ao contrário do império espanhol no século XVI, que passou a depender apenas do ouro e da prata das suas possessões americanas, tornando-se vulnerável à oscilação do valor dos metais no mercado europeu, a Inglaterra baseou-se em uma solidez agrícola, que lhe permitiu uma prosperidade econômica mesmo após a perda de colônias importantíssimas como os EUA, que declararam independência em 1776, no mesmo ano em que Adam Smith publica A riqueza das nações, onde se descola o valor da riqueza, da terra para a produtividade sem as amarras do Estado.

A fábrica passa a ser o lócus da produção de riqueza, com solidez interna inglesa, articulada a uma prosperidade comercial. Neste sentido, a revolução industrial não precisou de uma revolução política como a Francesa, pois seu antigo regime econômico vai fazer a agricultura triunfar por si própria, favorecida é claro pelas concepções de Locke acerca da propriedade privada no século XVII.

Imaginar a Inglaterra até 1750 é pensar uma ilha pontilhada de inúmeras aldeias, paróquias, condados, comarcas, vilas e pequenos burgos, é pensar o homem disperso pelas diversas regiões britânicas. Um século depois, cidades industriais e portuárias encontram-se adensadas de indivíduos. Basta lembrar os portos de Bristol e Liverpool, que opõe o mundo "lerdo" ao "dinâmico". Veja-se a imagem rural da Inglaterra: vastas extensões de pastagem com o rebanho de ovelhas e carneiros, que fornecem a principal matéria-prima para as famílias, com a extração da lã. Depois da lã, sucede o algodão.

A produção dá-se em nível rudimentar e familiar, a economia serve à subsistência da casa (oikos), mediante uma divisão social do trabalho do fiador que visa pisar, fiar e cardar. Pouco a pouco, agregados familiares e operários. O trabalho varia em conformidade com as estações do ano, com os ciclos da natureza. Vale dizer que o tear pouco mudara desde a Idade Média: tosar, pisar, cardar, fiar, moinhos d'água, força hidráulica. Assim, o produto da lã caseira é entregue inacabado a um tecelão, que dá um acabamento em seu tear à mercadoria vendendo-a ao comércio local.

A compra e a venda do produto são repassadas a um mercador, que se incumbe de levá-lo às feiras, às vilas e aos burgos. Este o repassa a um comerciante ou um burguês, capaz de alojá-lo e de oferecê-lo à venda em forma de roupa, calçado, pano, seda, flanela e outras vestimentas em cidades como Manchester e Glasgow. Mantoux recomenda a leitura de Daniel Defoe, "Viagem através da Grã-Bretanha", obra em que a descrição idílica desse mundo se esboroa, se esfacela.  Em seu lugar, pinta um sistema de produção, organização, circulação e distribuição imperante nas ilhas britânicas durante séculos. Especialização crescente e poder cada vez maior às figuras intermediárias, ou seja, mercadores e burgueses, comprometendo a independência e autossuficiência camponesa.

A revolução industrial demorou a ser sentida e assim percebida fora da Inglaterra. Ela se manifestou na literatura europeia, sobretudo com Balzac, após a década de 1830. Como fenômeno, ela despontou na década de 1840 através de seu rebento e de seu espectro em negativo – o comunismo. Os socialistas inventaram-no por volta de 1820, como uma analogia à Revolução Francesa.

Para Mantoux, são duas as razões para se iniciar com a revolução industrial: 1ª. Ela de fato ocorreu antes da queda da Bastilha; 2ª. Sem ela não se entende o que aconteceu com os homens nem com seu ritmo desigual de desenvolvimento.

A explosão revolucionária significou a retirada de todas as amarras para a produção, com a multiplicação de homens, mercadorias e serviços. A imagem não quer dizer apenas surpresa inesperada. Suas origens podem ser datadas conforme o interesse do historiador. No entanto, em meados do século XVIII houve uma acumulação de transformações que propiciaram sua explosão na década de 1780.

O autor procura precisar os contornos da revolução industrial, suas balizas históricas de início e fim. Afirma que não é possível precisar um fim, posto que seus desdobramentos ainda estão presentes ainda hoje. Por outro lado, a industrialização em seu período inicial se estende até meados do século XIX, quando do término da construção das ferrovias e da indústria pesada. Já seu ponto de partida se situa nas três últimas décadas de século XVIII.

 A revolução industrial está entre os acontecimentos de maior magnitude em termos históricos, equiparável na história da humanidade à agricultura e às cidades. Ocorreu na Grã-Bretanha e teve equivalentes entre Portugal e Rússia com os servidores das monarquias iluminadas da Europa. Mas estas foram muito pontuais, sem o alcance internacional dos complexos britânicos.

A revolução industrial não deve ser atribuída a qualquer superioridade inglesa em termos tecnológicos e científicos, acadêmicos e escolares. A França e a Escócia possuíam instituições e inventos mais adiantados, e a Inglaterra passou a apostar em seu exclusivismo na produção econômica. Tal processo foi feito com base no conhecimento técnico ao alcance de artesãos, carpinteiros, moleiros e serralheiros, acumulado por gerações de trabalhadores ingleses. Mesmo o invento técnico maior – a máquina a vapor rotativa, de James Watt (1784) – se fez com base nas máquinas já existentes nas minas.

 As condições econômicas, políticas e sociais já estavam sendo preparadas para a revolução industrial. Um espírito comercial já permeava o ambiente agrário, de modo que já não se podia falar em campesinato na Grã-Bretanha. A agricultura se dirigia para o mercado e as manufaturas circulavam no interior. Três funções fundamentais do campo: aumentar a produção para atender a uma população não-rural; excedente populacional para as cidades; acúmulo de capital para modernizar a economia. Concomitante a isto, ocorreu a construção de uma frota mercante e de uma malha ferroviária; economia e política articuladas.

Embora o século XVIII tenha sido marcado pela prosperidade econômica, a revolução industrial pode ser explicada menos em função de tal conjuntura e mais como a implantação de um sistema fabril mecanizado, com produção crescente e em custo decrescente, capaz de não depender da demanda e, ao invés, de criar o próprio mercado. As indústrias de objetos domésticos de pequeno porte cresceram, mas continuaram dependentes da demanda. A questão não é, pois, a expansão da produção, mas a da escala da produtividade.

 A revolução industrial resulta de um acúmulo de decisões de empresários, que se orientavam pelo princípio da compra no mercado mais barato e da venda no mercado mais caro. Eles buscavam recompensas excepcionais, com inovações simples e baratas, e mercado mundial com monopólio de uma única nação produtora.

O crescimento industrial podia ser obtido em certas áreas, como a têxtil, em todos os países já existentes, onde a expansão era mais viável. Havia itens, todavia, em que apenas a Grã-Bretanha se destacava, tornando-se modelo a ser imitado por outros países. Os inventos técnicos e a maquinaria, como a algodoeira, espalharam-se assim pela Europa e pela América. A Grã-Bretanha não dispunha de tais máquinas, mas possuía economia e política sólida para a conquista de mercados, após vencerem seu principal rival, a França.

O autor comenta ainda a indústria algodoeira e lanífera da Inglaterra e sua relação com o comércio da Companhia das Índias Orientais, na tentativa de ampliação do mercado ultramarino, decorrente da relação constitutiva entre exportação e importação.

 A indústria de algodão estava articulada assim ao comércio colonial. Na Grã-Bretanha, três portos coloniais se destacavam: Bristol, Glasgow e Liverpool, um centro de comércio de escravos. Algodão e escravidão andavam pari passu. Os escravos africanos eram comprados com os produtos de algodão indianos. A região de Lancashire veio a alimentar a escravidão sulista nos Estados Unidos, com sua demanda por matéria-prima. A revolução industrial pode ser descrita, em termos de venda, como o triunfo do mercado exportador sobre o doméstico. Foram a América, a África e a Ásia que sustentaram as fábricas britânicas.    

A dependência internacional dos produtos manufaturados britânicos foi especialmente importante em duas regiões: a América Latina e a Índia. A primeira, desde a independência política de Portugal e Espanha, não parou de crescer, enquanto a segunda, tradicionalmente exportadora de matéria-prima, passou a importar em maior quantidade, invertendo um quadro histórico.

Um dos aspectos que favoreceu a revolução industrial foi a possibilidade de empresários fazerem seus negócios com um investimento relativamente modesto. A conquista de novos mercados somada à inflação de preços permitia tal condição. A relação da indústria algodoeira com os métodos de trabalho escravista potencializou sua expansão. A escassez de mão-de-obra barata e eficiente levou à sua mecanização, no setor da fiação. Durante o século XVIII, a fiação mecanizada foi antecedida pela expansão do sistema doméstico, onde as matérias-primas eram trabalhadas em casa, com vistas a atender aos mercadores, prestes a se tornarem patrões. Com a mecanização da fiação, os teares manuais foram desaparecendo.

Depois de abordar passagens das obras de Hobsbawm e Mantoux, façamos apontamentos finais com remissão à obra de Edward Palmer Thompson. Este defende nos três volumes de um livro clássico, de 1963, que a classe não está de antemão dada porque existe segmentação de classe. A unidade da classe é feita, construída, à medida que indivíduos estabelecem relações numa certa conjuntura e experiência histórica. A classe é um fenômeno, um acontecimento, não uma estrutura.

A discussão, pois, versa sobre a primeira geração de trabalhadores industriais nas cidades fabris, suas primeiras associações e organizações sindicais. O autor considera a dupla coação que sofreram com a exploração econômica e a repressão política, como precaução dos industriais e proprietários agrícolas em função da influência perniciosa da Revolução Francesa. A formação da identidade da classe trabalhadora é analisada no momento das Guerras Napoleônicas, quando o Terror jacobino difunde sua ideologia revolucionária na Europa. O autor defende também que a cultura operária não data apenas da Revolução Industrial e que já havia uma cultura popular plebeia no campo que influenciou os proletários urbanos. O traço mais marcante dessa tradição era a resistência, a oposição às mudanças da estrutura rural para a urbana, com seus protestos contra o aumento do preço do pão, que não foram surtos irracionais, mas julgamentos coletivos morais das injustiças que sofriam.

Mas, cabe perguntar, quem foi Thompson? O historiador britânico nasceu em Oxford, em 1924 e faleceu 1993. Pertenceu ao círculo do grupo de estudos com Eric Hobsbawm e Christopher Hill, criado em 1946. Lutou na Segunda Guerra mundial contra a Itália fascista e lecionou em universidades na Inglaterra, no Canadá e nos Estados Unidos. Marxista, rompeu em 1956 com o stalinismo após as denúncias de Khrushchev. Foi líder pacifista e militou contra a bomba nuclear na década de 1980. Sua obra traz para o proscênio a classe trabalhadora, mediante a construção histórica da experiência coletiva. Em sua abordagem, os termos econômicos são considerados em equidade aos termos culturais. Mostra-se especialmente atento à compreensão dos conflitos e dos processos de transformação na releitura do passado, à consciência de classe e como tal experiência determina as relações produtivas.

Desenvolve temas que se tornariam canônicos da história social do trabalho: sindicalismo, partidos, movimentos sociais, campesinato, escravidão, crimes, motins. Colaborou na New Left Review e Past and Present; sendo autor dos livros: "A miséria da teoria", "Costumes em comum" e "Senhores e caçadores". No primeiro deles, salienta divergência com Lévi-Strauss e Louis Althusser, em prol de um marxismo de vezo culturalista. A seu juízo, classe é um fenômeno social, não uma estrutura nem uma categoria analítica tampouco um modelo estático. Ela se faz, se constrói, mediante a ação. Está em jogo a construção de uma identidade entre indivíduos, grupos e coletividades. Neste sentido, considera que Althusser pratica uma história sem sujeito.

A formação da classe trabalhadora na Inglaterra foi publicado originalmente em 1963, em 3 volumes: I. A árvore da liberdade; II. A maldição de Adão; III. A força dos trabalhadores. O livro saiu pela coleção Oficinas da História, da editora Paz e Terra, com tradução no Brasil quase 25 anos depois da publicação original, 1987, e tem apresentação de Edgar Salvadori de Decca, professor da Unicamp e doutor pela USP em 1979, sob a orientação de Carlos Guilherme Mota. Em sua epígrafe, evoca o livro sagrado Gênesis, para fazer referência ao homem, ao pão e a terra, enfatizando o ciclo da vida e da morte.

Desde então, considera-se o trabalho do pós-guerra mais criativo da história social inglesa, com fontes e objetos inovadores. É um relato da sociedade de artesãos e da classe operária entre 1780 e 1832. Thompson recusa a estatística e a compreensão da classe trabalhadora como vítima da repressão política e da alienação industrial; em contrapartida, compreende-a como parte ativa em sua formação.

O primeiro volume traz a contundência dos parágrafos iniciais de um Thompson como intérprete da história a salientar a presença ameaçadora da fábrica, mediante, mediante uma quantidade impressionante de documentos e argumentos da trama; a fábrica, símbolo de energias sociais, a mudar o curso da natureza; a Revolução Industrial foi para o autor uma catástrofe, com a exploração econômica e opressão política sobre o povo;

No segundo volume, Thompson, como Engels, traça um quadro sombrio da vida operária entre 1790 e 1830, critica o otimismo do crescimento econômico, a reconstrução minuciosa das condições de vida dos trabalhadores, o metodismo como seita que articula a esperança e a solidariedade entre os trabalhadores. No terceiro e último volume, Thompson recupera a experiência da cultura operária dentro e fora das fábricas, descrevendo jogos, festas, associações e comemorações.

 

Referências consultadas:

 

BRAUDEL, Ferdinand. (Org.). « O capitalismo ». In: Uma lição de História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989.

 

BAECHLER, Jean. Les origines du capitalisme. Paris : Gallimard, 1971.

Edição      Enrique Shiguematu

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Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.