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GV CULT - Criatividade e Cultura

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Peter Burke: o relativismo cultural na historiografia contemporânea

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25/09/2018 06h16

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

 

Com sua capacidade didática de síntese e visão panorâmica, o historiador inglês Peter Burke oferece em A escrita da história: novas perspectivas, publicado pela editora da UNESP em 1991, mais um balanço crítico da historiografia contemporânea, mais precisamente aquela que compreende as décadas de 1970 e 1980. Tendo como horizonte de análise e como termo de comparação o paradigma positivista fundador da história enquanto disciplina e atividade profissional, a saber, o paradigma rankeano da segunda metade do século XIX, Burke procura elencar as mutações por que passou a historiografia ao longo do século XX, a fim de prognosticar quais serão seus desafios no século XXI. O fio condutor e a pergunta que encetam a reflexão do historiador inglês se direcionam no sentido da indagação quanto à própria definição da identidade que a história parece deixar em aberto no limiar do terceiro milênio.

No livro, é possível detectar o temor do autor com a perda de referências em que a atividade do historiador, ao procurar refutar seu antigo paradigma, ao expandir suas fronteiras de uma maneira desenfreada e ao acompanhar as inovações temáticas das áreas de conhecimento que lhe são vicinais, se encontra. Há aqui a constatação de que o relativismo cultural que tanto orientou as ciências humanas e sociais na segunda metade do século XX, mormente a antropologia, possui um dúbio valor para a historiografia: por um lado, libertou-a dos limites formais, oficiais e tradicionais a que se via confinada; por outro, semeou o problema do crescimento excessivo de seu campo de abrangência, de forma tal que dissolveu a demarcação de um território comum aos historiadores e deixou vaga aos seus próprios agentes quais seriam os pontos consensuais de seu ofício.

Se Leopold Von Ranke (1795-1886), o pai da historiografia moderna, ou científica, havia fornecido todos os princípios, procedimentos e mecanismos necessários à tarefa de dar a conhecer o passado tal como ele havia realmente ocorrido, o questionamento a estes pressupostos fez com que muitos historiadores sentissem-se órfãos de uma teoria ou de um paradigma um pouco mais preciso.  

Imprecisão e concisão são, pois, dois dos sintomas e corolários principais da historiografia contemporânea. A contraposição aos critérios de objetividade, de verdade e de factualidade, no sentido destacado pelo positivismo, desencadeou uma série de novos problemas ao profissional da história, para os quais Peter Burke não crê ter sido capaz de responder ainda o seu agente. A introdução da subjetividade, por exemplo, ao mesmo tempo em que teve o mérito de admitir as limitações e as contingências epistemológicas na abordagem de uma época, colocando-a sempre em conformidade com uma perspectiva e com um ponto de vista determinado, foi exacerbada de tal modo por alguns teóricos que determinados autores aventaram até mesmo a ideia da ausência de passado concreto e da inexistência de realidade objetiva.

A passagem da esfera da história política para o plano da história econômica, social e cultural, outro exemplo, da mesma maneira que propiciou ao historiador um diálogo com a economia, a sociologia e a antropologia, deixou-a tão dependente das teorias destas disciplinas que ela própria viu-se restrita a uma atividade instrumental e menor sob o ponto de vista da reflexão teórica, metodológica e conceitual. A especialização da área em subáreas, último exemplo, tanto atendeu à demanda de novos conhecimentos e de assuntos então inexplorados, quanto provocou uma fragmentação e uma compartimentação do saber que obliterou uma visão conjuntural do passado histórico.

A avaliação sumária feita pelo historiador inglês faz-nos pensar que há dois tipos de dificuldade na construção da identidade da historiografia atual. Estes tipos podem ser apontados esquematicamente como problemas de ordem interna e problemas de ordem externa.

A nosso juízo, os problemas de ordem externa sugeridos por Peter Burke deixam um pouco a desejar, porquanto não são suficientemente desenvolvidos pelo historiador inglês. Verifica-se tão somente o entendimento de que questões como a especialização da disciplina eram inevitáveis às transformações por que passavam a sociedade e a comunidade científica como um todo no século XX. Com tal destino inexorável, cabia ao historiador uma posição de passividade frente a estas mudanças mais envolventes e a absorção do relativismo cultural foi uma delas. Mas cabe-nos, entretanto, questionar se esta postura se justifica em relação ao intercâmbio com as demais disciplinas das Ciências Sociais e a posição submissa em que a História em certo sentido se colocou perante aquelas.

Os problemas de ordem interna remetem ao próprio diálogo com a tradição e com as antigas gerações de historiadores. Para Peter Burke, a historiografia configurada a partir da Escola dos Anais procurou com todo o seu empenho intelectual negar e se contrapor às premissas do positivismo. Invertendo e colocando de ponta-cabeça a lógica interna rankeana, suas três principais gerações conseguiram chegar ao extremo oposto do projeto da carreira de historiador desenvolvido entre o último quartel do século XIX e o primeiro quartel do século XX.

Entre os dois extremos, Peter Burke insinua a ideia de que há um vácuo que quer ser preenchido. Orientando-se por um prisma dialético, tem-se a sensação de que existiria potencialmente uma síntese a ser alcançada neste processo interno de definição da identidade do historiador, observando-se para tanto suas dicotomias fundamentais, tais como acontecimento e estrutura, agência e instituição, objetividade e subjetividade, explicação e compreensão. Ao tratar novamente, no fecho do seu texto, da história total como horizonte utópico comum a todos os historiadores, Peter Burke parece terminar por acreditar que ainda há algo de congruente que possa reunificar e voltar a aproximar os membros dessa comunidade científica.    

Edição      Enrique Shiguematu

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

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O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.