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O poder oligárquico e a ficção de José Lins do Rego

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

O trem, fruto da Revolução Industrial na Inglaterra e símbolo articulador entre o campo e a cidade

“Cadê meu país do Nordeste

Que eu não vi nessa Usina Central Leão de minha terra?

Ah! Usina, você engoliu os bangüezinhos do país das Alagoas!”

Jorge de Lima, O mundo do menino impossível

“Dos brutos guindastes/de vultos enormes/

ainda maiores/nessa escuridão…/

os braços de ferro/pesados e longos/

parece quererem/sustar-me do chão/

– Ai!/eu tenho medo dos guindastes/

por causa daquele bicão”

(poema ‘Noturno”, de Ascenso Ferreira)

Para compreender a visão de mundo de José Lins do Rego, e a ordem de grandeza das transformações que ficcionaliza em sua literatura, é preciso situar o leitor com uma pergunta básica: qual é o contexto histórico de aparecimento do Ciclo da Cana de Açúcar, composto pelos primeiros cinco livros publicados, numa sequência de cinco anos, de Menino de engenho, de 1932, a Usina, de 1936?

Em outras palavras, como entender o fenômeno do ponto de vista histórico? O pesquisador pernambucano Souza Barros informa que as usinas datam de 1875, com a introdução de técnicas novas e um maior índice de produtividade, mediante o emprego em alguns casos de energia elétrica. Trata-se de um processo paulatino. Em números, contabilize-se que no ano de 1901 havia em Pernambuco 1.500 engenhos e apenas 40 usinas. Não obstante, os velhos fidalgos, proprietários de antigas casas-grandes, cujos pais conheceram o fausto, vão assistir doravante à sua própria, e lenta, decadência.

A Enciclopédia Nosso Século (1910/1930), da Editora Abril, postula na reportagem O açúcar dos canaviais traz as indústrias que o predomínio das usinas sobre os engenhos de banguê ganha contornos definitivos entre 1910 e 1920. Os engenhos passam a fornecer matéria-prima às usinas, que têm sua própria produção agrícola. Em 1910, contam-se exatas 46 usinas em Pernambuco. A produção duplica ao longo do decênio, embora a média salarial seja inferior à dos trabalhadores do sul do país. As exportações decrescem e cai a venda. Esta produção atendia ao mercado brasileiro do centro-sul, mostrando, segundo o economista Paul Singer, como o Nordeste se desvinculava da divisão internacional do trabalho e se integrava à divisão nacional do mesmo.

É a brasilianista Linda Lewin, em seu livro Política e parentela na Paraíba, quem se debruça com mais profundidade na parte histórica da região, ensejando uma apropriada contextualização da obra zeliniana. Segundo a autora, o repórter Antônio Botto de Menezes descreve como o coronel José Lins de Albuquerque, avô de José Lins do Rego, era um rico plantador de cana-de-açúcar e expulsou um vizinho modesto em Pilar através da manipulação do processo legal. Ainda neste livro, Lewin fornece a informação segundo a qual a revista Veja observara em 1980 que, graças à manipulação do sistema legal, “em nenhum país do mundo titulou-se tantas vezes o mesmo pedaço de terra. A julgar pelas escrituras registradas nos cartórios, a extensão territorial do Brasil está muito acima dos oito milhões de quilômetros quadrados estabelecidos pelos acordos internacionais desde os tempos da colônia”.

Também de acordo com a pesquisa da brasilianista supracitada, a sólida rede de base familiar de Cunha Pedrosa na Paraíba começou a crescer politicamente quando Abiaí o nomeou juiz municipal em Pilar, em 1887, tornando-se amigo do coronel José Lins de Albuquerque. No município de Souza, Pedrosa favoreceu o bloco familiar Antigo-Conservador liderado pelo coronel José Gomes de Sá, mas cultivou também a boa vontade do chefe oposicionista, o Dr. Antônio Marques da Silva Mariz.

Quando consultado para indicar um político de Souza para a Assembleia Constituinte, ele diplomaticamente indicou os nomes de ambos os chefes políticos. Quarenta e três anos mais tarde, ele permanecia em contato com os Gomes de Sá. E o coronel José Lins, de Pilar, por mais de trinta anos, enviou telegramas de congratulações a Pedrosa pelo dia de seu santo.

Embora diretamente associada com a chamada República Velha, a oligarquia nordestina constituiu-se no decurso do Segundo Reinado. Como percebeu corretamente Oliveira Viana, em Instituições políticas do Brasil, o pacto oligárquico resultou do casamento de um sistema eleitoral nacional com o que ele chamou de “clãs parentais”, a saber, clãs familiares extensos, os quais, por volta do final do período colonial, expandiram-se energicamente “à maneira de mancha de azeite”, absorvendo as grandes propriedades fundiárias da sociedade rural e as populações dela dependentes.

O surgimento de partidos políticos, na década de 1840, impeliu para a esfera pública do município as famílias extensas poderosas, transformando “clãs parentais” em “clãs eleitorais”. Os Lins na Várzea Paraibana, mais precisamente de Pilar, são um exemplo. Deste modo, as grandes famílias começaram a abranger municípios inteiros e tornaram-se, em nível local, “os mais importantes segmentos” dos partidos políticos nacionais. A mescla de poder público e poder privado, devido à expansão tanto de cargos eletivos como de serviço público, levou ao fenômeno disseminado de “empreguismo”, ou do nepotismo no controle de cargos e empregos públicos pelas famílias de elite.

As facções consistiam em pelo menos vários grupos de base familiar. A facção de Epitácio Pessoa, por exemplo, futuro presidente da República no início dos anos 1920, contava com os Pessoa e seus amigos políticos de Umbuzeiro, como os Lucena, os Cavalcanti de Albuquerque, os Barbosa, os Neiva e os Pereira, que tinham um parentesco mais distante com ele e entre si.

A lista padrão das oligarquias familiares durante a Primeira República incluía as do Rio Grande do Norte (Pedro Velho), de Alagoas (os Malta), da Paraíba (os Neiva-Pessoa e os Machado), do Maranhão (os Leite), do Pará (os Lemos ou os Montenegro), do Ceará (os Acioli), do Amazonas (os Nery), de Mato Grosso (os Ponce) e, numa situação mais intermediária), as da Bahia (os Vianna). O Piauí (barão de Parnaíba) e Sergipe (os Almeida Botto) são mencionados por Oliveira Vianna como as primeiras oligarquias do Brasil.

É tal âmbito histórico que informa a imaginação ficcional da obra de José Lins do Rego, em especial aquela que trata da passagem dos engenhos às usinas. Estas, decerto, travestem-se da ambição, do arbítrio, da prepotência, da usura e da ganância desmedida, encarnada em personagens como o dr. Luís e o dr. Juca no romance Usina: “A verdade é que as usinas estavam ali para humilhar os banguês do meu avô”, afirmava o menino de apelido Doidinho, no romance de 1933.

As máquinas que participam da chegada da usina entrosam-se num mesmo sistema. Em termos tanto simbólicos quanto materiais, a locomotiva está ao lado e de mãos dadas com a usina. O trem, fruto da Revolução Industrial na Inglaterra e símbolo articulador entre o campo e a cidade, atende às demandas de escoamento da produção do sertão para o seu consumo e exportação no litoral.

A função econômica encobre os efeitos colaterais da usina e de seu subsidiário, o trem. No limite, a visão zeliniana sustenta que a usina é danosa para a cultura nordestina, sendo corruptora em sua essência. Os meios de comunicação e os meios de transporte são devastadores no sentido de que descaracterizam a integridade da natureza, comprometem a autenticidade do modo de vida dos habitantes e invadem o isolamento protetor das regiões mais distantes da civilização.

A usina e a locomotiva condenam o futuro de um personagem literário como José Passarinho, saído da vida real, de quem se diz em Fogo morto: “… cantava porque era feliz, porque o mundo para ele não tinha mágoa para lhe dar. Bebia e cantava”.

Em contraposição aos cantares e beberes mais singelos dos filhos da terra, os usineiros eram seres desconhecidos e estranhos. Representavam uma plutocracia emergente, em vias de formação no Brasil. O engenho passava, mas a monocultura açucareira ficava. Agora o açúcar não seria mais purgado artesanalmente, mas refinado de maneira artificial, em processadores dotados de esteiras mecânicas, prenúncio de uma nova era técnica, mantenedora, contudo, de um status quo concentrador de renda e excludente.

Edição      Enrique Shiguematu

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