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GV CULT - Criatividade e Cultura

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Dom Quixote na literatura brasileira

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29/05/2018 06h15

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Dom Quixote por Portinari

 

Os tipos quixotescos são recorrentes na literatura brasileira. Lembre-se que o Major Quaresma, personagem central do romance homônimo de Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma, costumava ser chamado de um Dom Quixote nacional, tamanho o seu otimismo visionário e tamanho o seu senso de justiça para extirpar os males sociais, proteger os fracos, aplacar os sofrimentos humanos.  

Como se sabe, as peripécias e pelejas do "engenhoso fidalgo" – um "apólogo da alma ocidental", como definiu o político San Thiago Dantas (1911-1964), em conferência de 1947, comemorativa do quarto centenário de Miguel de Cervantes – provêm de um tempo bem preciso: aquele dos nobres cavaleiros andantes do final da Idade Média, período em que abundavam os chamados romances de cavalaria. Estes, junto às canções de gesta e às epopeias, compunham a literatura medievo-popular.

Na novelística de Cervantes, ponto máximo das letras modernas castelhanas, Dom Quixote é um pequeno fidalgo rural que, na altura dos cinquenta anos de idade, depois de ler uma enorme quantidade de romances, perde a razão. Desatinado e valente, elabora um plano absurdo, qual seja, o de fazer renascer a cavalaria andante, então em decadência.

Liberto de seu cotidiano e de sua condição social, Quixote peregrina ao lado de seu fiel escudeiro, Sancho Pança, um camponês da Mancha, província aldeã da região de Castela, na Espanha. Ao traçar o perfil daquele senhor comprido e magro, de armadura rústica e anacrônica, Cervantes inspira-se no gênero aventureiro, com lastro histórico e então muito difundido na Europa, para parodiar comicamente, através de Quixote e Sancho, este tipo de viagem.

As aventuras narradas pelo livro, que no século XIX receberia as clássicas ilustrações do desenhista francês Gustave Doré (1832-1883) – atualizadas no século XX por um Picasso e um Portinari –, tratam da busca um tanto insensata de Quixote por Dulcinéia, a sua dama imaginária, "o protótipo da beleza, o sentido da sua vida". Arquétipo platônico, amor cortês, como pontua o crítico Erich Auerbach, Dulcinéia del Toboso é "la señora de sus pensamientos, extremo valor que puede desearse, término de la humana gentileza". Poderia ser, portanto, equiparável à Beatriz de Dante, à Eneida de Virgílio ou à Margarida/Helena de Goethe.

A jornada é entrelaçada todo o tempo pelos fios que ligam a ilusão à realidade, a lucidez à loucura, o trágico ao cômico. Ao longo da trajetória, o herói romanesco da "triste figura" transporta-se para o mundo interno de sua alma – os pensamentos, as divagações e os desvarios. Presa fácil de sua ideia fixa, ele fantasia, de disparate em disparate, histórias de fases áureas e pretéritas, que gostaria de protagonizar ou de ter vivido, mantendo-se fiel ao melhor estilo narrativo cavalheiresco.

Conforme bem descreve o literato brasileiro Viana Moog, originário do Rio Grande do Sul, Dom Quixote torna-se alvo de todo tipo de escárnio:

 

"Sua vida é uma peleja contínua. Luta contra o cura e o barbeiro. Riem dele as meretrizes; apredrejam-no os galeotes por ele libertados; espanca-o o moço  de mulas do mercado de Toledo, quando, caído ao solo, enredado na própria armadura, já se não pode defender, porque, afinal, espancar os que se não podem defender é ação que corresponde aos moços de mula em todos os tempos."

Outro escritor brasileiro a inspirar-se em Miguel de Cervantes foi o nordestino José Lins do Rego, no romance Fogo morto. Nesta ficção, o recurso à violência contra a personagem inspirada em Quixote pode ser constatado a seguir, em um comentário de outro protagonista, José Passarinho:

 

" Encontrei lá embaixo o Capitão Vitorino que ia nos azeites. Pegou um menino de Chico Preto na tabica que quase lhe parte a cabeça. E quando Chico Preto apareceu para ver o que se passava, o capitão lá estava apeado, de punhal na mão, como uma fera. Nunca vi o capitão tão brabo. Eu cheguei e fui aquietando tudo. Também estes moleques fazem diabo com o velho!"

O folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu monumental Sociologia do açúcar, assim o enquadra o personagem quixotesco que, entre outros, Zé Lins reinventou na literatura brasileira: "Perdendo a fortuna, não perdia o direito satírico de diminuir quanto não lhe pertencesse. Acre. Rancoroso. Insubmisso. Pedro do Bom-Tom, pernambucano de Júlio Belo. Vitorino Carneiro da Cunha, paraibano de José Lins."

Nesse diapasão, Zé Lins gostava de asseverar: "Ou o romancista movimenta os seus personagens com sangue e ideias, dando-lhes existência palpável, ou não passa de mero fabricador de figuras de papelão".

Com efeito, e aqui ampliamos o debate para o terreno da criação e da inventividade literária, não se pode dizer que a aversão ao status e ao estereótipo do homem de letras seja apenas um dado idiossincrático do autor. A crítica aos artifícios da retórica e às regras da gramática, cultivadas pela tradição bacharelesca brasileira, foi uma marca de geração, uma reação desencadeada por jovens intelectuais que se formaram após a Primeira Guerra mundial, quando se desencanta o universo postiço dos dandys da belle-époque tropical.   Esta se formara entre 1890 e 1914, quando vertiginosas transformações técnico-científicas afetam o mundo e exercem notável influência sobre a fisionomia do Brasil, com novidades que vêm a alterar os hábitos e costumes da população brasileira.

Na virada para o século XX, havia três principais vertentes nas letras e nas artes do país: a geração de 1870, formada por Sílvio Romero, Tobias Barreto e outros expoentes da Escola do Recife, que ainda se fazia influente na vida intelectual da jovem república; a Academia Brasileira de Letras, criada em 1896 por literatos como Machado de Assis, José Veríssimo e João Ribeiro, aos quais logo se agregam políticos e membros da elite que em princípio nada tinham a ver com a literatura e que fazem dos salões literários meros palcos para exibição; o academismo francófono no ambiente das belas-artes, com os pintores e escultores brasileiros a imitar os cânones artísticos europeus, desde que a Missão Francesa, a convite de D. João VI, aqui se instalara no início do século XIX.

Somente depois dessas correntes é que se instaura o moderno regionalismo nordestino, nos anos 1920 e 1930. Com base nela, o crítico Tristão de Athayde irá dizer do personagem mais afamado do universo romanesco zeliniano, reafirmando sua inspiração na personagem de adjetivo quixotesco: "Dom Quixote sertanejo, o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, por alcunha 'o Papa-Rabo', seguramente uma das mais acabadas e tocantes figuras do nosso romanceiro nacional."

Edição      Enrique Shiguematu

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.