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GV CULT - Criatividade e Cultura

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Regionalismos e modernismos na literatura brasileira

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20/02/2018 01h11

 

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

"Antes de escrever Macunaíma, o erudito Mário dedica-se à pesquisa e ao estudo…`'

"Regional, a meu ver, deve ter o sentido do real,

da realidade arraigada, da literatura que precisa do sumo da terra,

do sangue da gente, da força dos elementos para subsistir."

José Lins do Rego

(entrevista a Aurélio Buarque de Holanda)

"Como na música de Villa-Lobos, a força

de um Lúcio Costa, de um Niemayer, de um Mendlin,

proveio da nossa vida, de nossas próprias entranhas"

José Lins do Rego

A casa e o homem

 

Quando se fala da extensão do território brasileiro, são várias as razões oficiais para apontar a sua grandeza. Do ponto de vista histórico, durante a Colônia, as fronteiras brasileiras foram estendidas pela ação das Entradas e Bandeiras, quando os portugueses e seus descendentes abriram caminho pelo interior, rumo ao Extremo Oeste; durante o Império, o Brasil ficou conhecido mundialmente como a "planta exótica" da América, a manter sua unidade em um momento em que os vizinhos hispânicos se desmembravam em Repúblicas; durante a República, logo após a sua proclamação, o Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, desenvolveu um importante trabalho junto às zonas limítrofes do país, do extremo sul ao extremo norte, culminando com acordos diplomáticos e até mesmo a compra de territórios, como o estado do Acre, em 1903.  

Em função dessa extensão, as latitudes e longitudes perfazem mais de oito milhões e meio de quilômetros quadrados. Todas as mudanças políticas, sociais e econômicas do país têm, pois, de levar em consideração tal ordem de grandeza. Apesar do esforço de centralização do governo nacional, historicamente cada região seguiu um ritmo próprio de adequação à "marcha da civilização". Natureza, demografia e cultura foram elementos que concorreram para ritmar os avanços e para orientar, em cada caso, as demandas do progresso das cinco regiões oficiais. Hoje em dia, estas são reconhecidas pelo IBGE segundo a divisão entre Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste.   

Dentre estas, uma região merece especial destaque. Trata-se do Nordeste. A recriação paisagística e literária desta, principalmente na capital da República, já vinha sendo empreendida desde meados do século XIX. Na virada para o século seguinte, o país ainda era predominantemente rural, mas caminhava em progressiva mutação na direção da vida dita moderna. A esta altura, o imaginário nacional será marcado pela força da região nordestina, onde se acreditava encontrar uma das fontes populares supostamente mais puras e autênticas.

Com o escritor Sílvio Romero, a busca pela autenticidade popular se torna uma missão programática. Como se fossem antiquaristas à cata de relíquias, Romero e seus pares avançam em estudos sobre poesia popular, cantigas tradicionais, parlendas e tudo aquilo que hoje em dia se chama de patrimônio cultural ou imaterial. Estes coletores dão atenção cada vez mais sistemática aos vestígios das culturas lusitanas, negras e ameríndias. Neste programa, o Nordeste, em particular, passa a ser informado por um espírito científico de pesquisa.

Mas em diversas partes do Brasil, e não apenas no Nordeste, o romance se consolida entre 1870 e 1920, com Aluízio Azevedo, Rodolfo Teófilo, Adolfo Caminha, Papi Júnior, entre outros.

Um primeiro livro a ser destacado nessa safra é Terra de caipiras e tropeiros, de Valdomiro Silveira (1873-1941), considerado um dos pioneiros do regionalismo em São Paulo. Silveira captou o ambiente do interior paulista na obra Os caboclos, publicado em jornais, aparecendo em livro no ano de 1920. Em seguida, vale mencionar outro expoente, sobre o qual José Lins muito comenta em seus ensaios, o sulista João Simões Lopes Neto (1865-1916). Natural de Pelotas, ele tornou-se conhecido como autor dos antológicos Contos gauchescos (1911) e das Lendas do Sul (1912).

O regionalismo foi pródigo no Nordeste, seu principal laboratório literário, próximo da etnografia. À parte a personagem Iracema, ou o sertanejo de José de Alencar, o século XIX se concentrara nos tipos das obras de Franklin Távora (1842-1888) – responsável por separar a "literatura do Norte" da "literatura do Sul" – e de Domingos Olímpio (1851-1906).

Enquanto o primeiro se notabilizara pelo livro O cabeleira (1876), ambientado na Pernambuco setecentista, o segundo é reconhecido pela obra-prima Luzia Homem (1903), ficção com cenário no interior do Ceará, durante uma das secas históricas que assolaram o estado. A obra Luiza Homem foi considerada pelo respeitado médico Afrânio Peixoto como "um modelo de romance regional". Já para José Lins do Rego, no livro Presença do Nordeste na literatura, foi a mais característica da geração cearense.

Outros regionalistas importantes que despontam nessa época foram o mineiro Afonso Arinos de Melo Franco (1868-1916), escritor dos contos Pelo sertão e Os jagunços, ambos de 1898; Godofredo Rangel (1884-1951), também de Minas Gerais, que descreve a história e a cultura mineiras em Vida ociosa (1920); o paulista Amadeu Amaral (1875-1929) que, embora tenha se restringido a ensaios e poemas, publicou seu Dialeto caipira (1920); e ainda o paulista Juó Bananère, artífice do regionalismo cômico-urbano, inspirado na fala da população migrante italiana, com La Divina Increnca (1924).

A região Norte do Brasil, no limiar do século XX, momento em que vivia o fausto da borracha, também ocupou seu espaço nessa galeria de ficções regionais. Inglês de Souza (1853-1918), natural de Óbidos, tal como o crítico paraense José Veríssimo, foi cedo morar em São Paulo, aos seis anos de idade, em companhia dos pais. É dele o ficcional Cenas da vida amazônica, título geral que abriga os "Contos amazônicos", "O cacaulista", "História de um pescador", "O missionário" e "O coronel Sangrado". Apoiada nas reminiscências de infância e nos relatos orais que escutou de um tio e do pai, a obra de Inglês de Souza constitui um painel da história sociopolítica do Pará, dimensão cíclica que alcançaria o ápice décadas depois, com Dalcídio Jurandir (1909-1979) e sua série romanesca sobre a Amazônia.

Como se sabe, o decênio de 1920, quando José Lins do Rego conclui seus estudos universitários e inicia carreira no serviço público de um Estado nacional que procura erigir as suas bases institucionais, assistiu à eclosão de um divisor de águas nas letras brasileiras: a Semana de Arte Moderna de 22.

Graça Aranha, em conferência pronunciada em plena Academia Brasileira de Letras, no ano de 1924, sintetizou em O espírito moderno aquela necessidade de renovação que animou os promotores da Semana de 22:

"A nossa literatura está morrendo de academicismo. Não se renova. São os mesmos sonetos, os mesmos romances, os mesmos elogios, as mesmas descomposturas que ouço desde os tempos de fundação da Academia, quando José Veríssimo não queria me deixar entrar e Nabuco forçou a minha entrada. É preciso reformar tudo aquilo. Dar vida àquele cemitério. Vocês são moços. São estudantes. Agitem a escola. Mexam com os seus companheiros. Façam alguma coisa de novo. Façam loucuras. Mas procurem espanar aquelas teias de aranha.".

 

Seguido por uma plêiade de modernismos – um no Rio Grande do Sul, outro em Minas, um terceiro no Nordeste, um quarto no Rio – o movimento atualizará não apenas as vanguardas artísticas europeias, mas renovará, a partir de 1924, o interesse de seus escritores em "descobrir o Brasil": seus costumes, sua língua, suas expressões mais singulares.

O paulistano Mário de Andrade será um autor emblemático desse vívido interesse dos homens letrados pela tradição artístico-popular. Antes de escrever Macunaíma, o erudito Mário dedica-se à pesquisa e ao estudo, com consulta a glossários, a vocábulos, a provérbios e a livros de escritores regionalistas. Baseado nestes, elabora um projeto de estruturar uma língua geral, comum às diversas regiões brasileiras, fundada na estilização da linguagem oral e dos seus diferentes falares regionais, com vistas a uma integração cultural do país.

Mário combina erudição com experiência, por meio da viagem. Primeiro embrenha-se pelo interior de São Paulo, em busca das origens do samba rural paulista. Vai mais longe, visita o litoral e o sertão nordestino. Lá conhece o folclorista potiguar Câmara Cascudo e o cantador de coco, Chico Antônio, seu "herói com caráter". Mário não pára por aí, conhece as populações ribeirinhas do alto Amazonas, depois de já ter visitado as cidades coloniais de Minas Gerais, em companhia do poeta franco-suíço BlaiseCendrars, onde este se encantara com o barroco mestiço de Aleijadinho.

As aludidas viagens de Mário às regiões Norte e Nordeste em 1927, descritas em O turista aprendiz, um ano antes da rapsódia folclórica Macunaíma, que propositadamente embaralha as categorias dicotômicas do rural-urbano para "desgeograficizar" o território, são exemplo desse desejo intelectual de descobrir o Brasil, uno e múltiplo, diferenciado e integrado, nacional e regional.

No início dos anos 20, da mesma maneira que os modernistas de São Paulo, homens de letra das grandes cidades nordestinas – lembre-se de Câmara Cascudo em Natal, de Ascenso Ferreira em Recife e de Gustavo Barroso em Fortaleza –, vão fazer também as suas viagens de reconhecimento da cultura do interior. As incursões ao universo folclórico-popular revelam que a riqueza está em sua mixagem e em sua diversidade, especialmente no Nordeste, onde a presença colonial, confluência de índios, negros e portugueses, deitou fundas raízes no passado.

A materialidade da cultura popular pode ser encontrada às margens do Rio São Francisco, ao redor de cidades comerciais ou no entorno das feiras, centro de reunião de cantadores, com suas músicas de zabumba, divulgadas nos livros de Leonardo Mota (1891-1948): "Violeiros do Norte", "Sertão alegre", "No tempo de Lampião".

As feiras constituíam o empório de legumes, frutas, cereais, raízes e medicamentos populares, à disposição do consumo do matuto. Havia também as feiras de animais: cavalos, jumentos, bois, carneiros, porcos e outras pequenas espécies domésticas. Um terceiro tipo de feira era dedicado às obras artesanais: redes de algodão, instrumentos de couro, louças (cerâmicas), chocalhos, urupemas, balaios, facas de ponta e brinquedos de algodão.

O artesanato foi uma das grandes expressões da cultura material nordestinas, materializadas nas peças de barro como as do Mestre Vitalino (1909-1963). O ceramista de Caruaru era especialmente admirado por José Lins, que guardava exemplares daqueles bonecos em miniatura em seu escritório de casa.

O apreço pelo patrimônio artesanal se manifesta quando aquilo que parecia como o caráter mais puro da nacionalidade – os hábitos e as práticas mais afastadas dos centros urbanos e, por conseguinte, mais próximas da natureza, da selva ou da paisagem do interior rústico – se apresenta em decomposição. Deste processo resulta o sentimento nativista que também influenciou os escritores modernistas, como a corrente do verde-amarelismo, liderada por Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e Plínio Salgado. Da mesma forma que as gerações anteriores, a tarefa de salvaguardar as tradições motivou o modernismo brasileiro a registrar as manifestações populares e folclóricas ameaçadas de desaparecimento.

A captação da fala espontânea do povo e o registro oral de vocábulos em vias de desaparição reapareceram no modernismo dos anos 20. Neste sentido, a plataforma dos modernistas paulistas se aproximava do que queria Gilberto Freyre para o Nordeste, com seu elogio da oralidade. Um e outro visavam romper com o bacharelismo dos salões acadêmicos, com o pastiche da moda parisiense, que desfilava na Rua do Ouvidor, e com a dicção empolada dos nossos bacharéis, pretensamente civilizados, que se valiam de todos os artifícios da retórica como sinal de distinção.

Longe de ser uma particularidade da intelligentsia brasileira, ir ao encontro do povo era uma demanda que se propagava desde a Europa. As correntes artísticas, descontentes com os efeitos niveladores do processo civilizatório, no qual a técnica e a máquina se impunham sobre os saberes manuais e sobre as "artes do fazer", em meio a um continente combalido pela Grande Guerra, apostam no primitivismo e no exotismo antropológico de civilizações de além-mar, ditas primitivas, em África, Ásia e América.

Dentre esses artistas-viajantes em busca de povos e países com civilizações qualitativamente distintas do Velho Mundo, encontra-se o já citado poeta Blaise Cendrars (1887-1961). Nos anos 20, ele foi recebido no Rio de Janeiro e em São Paulo por uma comitiva de artistas, cujo mecenas era Paulo Prado. O vanguardista suíço visitará as cidades históricas de Ouro Preto, Congonhas e Mariana. Será o próprio, aliás, anos mais tarde, um efusivo leitor e apreciador das paisagens descritas nos romances de José Lins do Rego.

Edição      Enrique Shiguematu

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Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.