Blog GV Cult

Matéria de ficção: o futebol em José Lins do Rego

GVcult

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Mário Filho compra em 1936 um periódico voltado apenas para as modalidades esportivas: o Jornal dos Sports. O Cor de Rosa, como vai ser conhecido popularmente seu jornal, será um grande promotor de espetáculos esportivos…''

“Os caminhos da ficção que nos legou passam

pelo eito dos engenhos de cana da várzea do Paraíba,

da mesma forma que pelos vestiários dos clubes de futebol”.

Edilberto Coutinho

“Reclamando, enfezado, irritando até as traves dos gols,

ainda é ele o melhor. O mais eficiente, o de mais classe,

o mais capaz. Depois que Leônidas se foi, ou melhor,

depois que acabou o futebol de Leônidas, o que existe

por aí é o futebol de Heleno”.

José Lins do Rego

 

A aproximação do escritor José Lins do Rego (1901-1957) com o futebol em muito se deveu à figura de outro nordestino: o pernambucano Mário Rodrigues Filho (1908-1966). A atuação deste na promoção de eventos esportivos e carnavalescos na cidade do Rio de Janeiro foi notável. Em 1932, por exemplo, antes de Zé Lins residir na capital da República, Mário Filho concebeu e promoveu o Desfile das Escolas de Samba, realização que será um grande sucesso na oficialização da música popular no Rio de Janeiro.

Com o crescimento dos investimentos nos esportes, Mário Filho compra em 1936 um periódico voltado apenas para as modalidades esportivas: o Jornal dos Sports. O Cor de Rosa, como vai ser conhecido popularmente seu jornal, será um grande promotor de espetáculos esportivos. Isto porque a implantação do profissionalismo no futebol não deixava também de ser uma forma de expansão dos negócios de Mário Filho. É ele, por exemplo, quem cria a legenda Fla-Flu e quem incentiva o concurso entre torcidas, popularizando ainda mais o ambiente ruidoso dos estádios.

Mário Filho, em 1947, quando José Lins já está radicado na cidade, publica um livro seminal: O negro no futebol brasileiro. O prefácio é de Gilberto Freyre, outro amigo de Zé Lins. Inspirado em imagens literárias, Freyre compara o zagueiro Domingos da Guia ao escritor Machado de Assis. Para o sociólogo pernambucano, Da Guia jogava como Machado escrevia, tinha um estilo “apolíneo”, era ereto, fleumático, como um inglês desgarrado nos trópicos.

Autor da domingada, Da Guia driblava com elegância e frieza dentro da própria área, sem chutar a bola de qualquer maneira, sendo capaz de passar a bola com categoria. Já Leônidas da Silva seria um jogador com um estilo de jogo que classificava de “dionisíaco”, por assim dizer de explosão. Se Domingos era retilíneo corporalmente, Leônidas era curvilíneo, anguloso, lábil. Inflamado, este fazia floreios “barrocos” com a pelota. Suas fintas e seus dribles ludibriavam os adversários no arremate do gol.

O livro traz um argumento até certo ponto polêmico, qual seja, o de que o futebol se popularizou no Brasil graças à entrada de negros nos grandes clubes esportivos do Rio de Janeiro. Estes se originariam dos clubes de remo, que logo se tornariam espaços para a prática do futebol, e não queriam permitir a entrada das classes subalternas, nem nos gramados nem nas suas sedes sociais. O carioca Leônidas da Silva, ídolo-mor de José Lins do Rego, seria um jogador de origem plebeia, nascido no subúrbio da cidade, que contribuiria para romper com essas barreiras impostas pelos amadoristas endinheirados. Tais jogadores passavam a representar o país nos selecionados nacionais, em competições internacionais disputadas na América do Sul e na Europa.

Dois anos depois de publicar esse livro, chamado por muitos de um clássico, Mário Filho ainda lançaria mais um: Romance do futebol (1949). José Lins voltaria a fazer elogios ao jornalista em sua coluna do Jornal dos Sports. Desta vez ele destacava a habilidade de Mario Filho como escritor:

 

“Outro livro que Mário Filho tomou para substância e conteúdo humano o futebol. É que arrancou dessa prática esportiva a sua mais romanesca particularidade. Mário Filho é o homem que tem o dom da narração, de contar o que sabe e o que imagina, como rio que corre para o mar. Os fatos, os incidentes, os choques, as alegrias e as dores dos seus personagens se apresentam ao leitor, como um conto ou história de Trancoso, no mais simples e mais patético narrar.”

 

Não foram apenas o jornal e o livro que aproximaram José Lins do fenômeno futebolístico. Sua aproximação deriva também da popularidade desta modalidade junto ao rádio, principal veículo de comunicação nos anos 1930 e 1940. Na política, por exemplo, a radiodifusão vai permitir a Getúlio Vargas o contato com a população brasileira, então dispersa em território de dimensões continentais, perfazendo mais de oito milhões de quilômetros quadrados. Para tanto, o Departamento de Imprensa e Propaganda do governo, o temido DIP do Estado Novo, criou o hábito de irradiar os seus discursos, conhecidos pelo nacionalismo e pela grandiloquência, a ganhar fama com a habitual exclamação de abertura “– trabalhadores do Brasil!”.

O estádio de São Januário foi um dos palcos preferidos utilizados pelo presidente em datas cívicas, como o Primeiro de Maio, quando se comemorava o Dia do Trabalhador. Estas ocasiões rituais eram retransmitidas pelo rádio para boa parte do país. O rádio, instrumento de sonorização e de captação de sinais eletromagnéticos, permitiu também a Orlando Silva (1915-1978), lançado por Francisco Alves (1898-1952) e cognominado o “cantor das multidões”, ecoar sua voz e emocionar milhares de ouvintes nos diversos quadrantes do Brasil. A música se revelará um notável meio de catalisação de audiência nas estações de rádio e chegará também às telas de cinema, outro grande meio de entretenimento e de unificação do imaginário nacional no período.

Embora a década de 1930 marque a descoberta e o encantamento de José Lins com o fenômeno futebolístico, não se deve presumir que ele tenha deixado de lado o seu interesse pela literatura e pelos amigos literatos. Neste período, ocorre um incidente que chamaríamos de heroico da parte de José Lins: a soltura da cadeia do amigo Graciliano Ramos. Em todo o mundo, vivia-se uma época de radicalização política. No Brasil, em 1935, ano em que Graciliano é preso, havia ocorrido a chamada Intentona Comunista, uma tentativa malograda de tomar de assalto o poder no país, por parte de admiradores do regime em curso na União Soviética.

O próprio José Lins retratara esse ambiente de agitações em O moleque Ricardo, livro em que o personagem principal, um operário envolvido em conspirações políticas, é enviado para o degredo na Ilha de Fernando de Noronha, como o triste personagem Policarpo Quaresma, da ficção de Lima Barreto, também fora enviado para a Ilha das Enxadas. Neste contexto, Graciliano Ramos, simpatizante do Partido Comunista como muitos outros artistas e escritores – Jorge Amado, Cândido Portinari, Ismael Nery, Edison Carneiro, Dalcídio Jurandir e Carlos Drummond de Andrade –, acabou preso em Alagoas.

Graciliano foi enviado para o presídio de Ilha Grande no Rio de Janeiro, onde conheceu a doutora Nise da Silveira (1906-1999), conterrânea alagoana também encarcerada, que se tornaria uma líder na mudança de tratamento clínico em hospitais psiquiátricos no Brasil, além de fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente (1952), em parceria com o crítico de arte trotskista Mário Pedrosa. Como o teórico marxista italiano Antônio Gramsci (1891-1937), Graciliano também se dedicou a escrever no presídio, a fim de suportar o ostracismo do cativeiro. Foi na prisão que redigiu um clássico da literatura brasileira: Memórias do cárcere.

Em 1937, ao lado de José Olympio, que havia lançado no ano anterior o romance de Graciliano, Angústia, José Lins intercedeu no Palácio do Catete e solicitou a intelectuais colaboradores do governo – Almir de Andrade, Lourival Fontes e Herman Lima –, a libertação do escritor. Após uma série de negociações, o pedido foi concedido e Graciliano saiu da prisão.

De início, Graciliano se hospedou na casa de José Lins, situada na Rua Alfredo Chaves, no bairro do Humaitá. Lá conviveu com Dona Naná e com as três filhas de José Lins. De forma anedótica, conta o crítico Silviano Santiago, no livro Em liberdade: uma ficção, que um novo hábito – a veneração de José Lins pelo futebol – causou espanto em Graciliano. Depois de poucos dias na casa, teria concluído perplexo o escritor: “Aqui Leônidas da Silva é mais importante que Dostoievski”.

Em paralelo à ação política em prol de amigos escritores, nestes primeiros anos em que se estabelece no Rio de Janeiro, a veia literária se apresenta fértil como nunca. Seguindo a sugestão de José Olympio – “Você, José Lins, pode fazer um romance em cada ano” – o escritor publica em 1935 o citado O moleque Ricardo. A série continua no ano seguinte, com Usina (1936); em 1937 aparece Pureza, um ano depois Pedra Bonita (1938) e em 1939, Riacho Doce.

A impressionante sequência anual dos livros publicados atendia em parte ao sucesso de vendas, em parte à disposição do autor na reinvenção das suas lembranças do agora distante Nordeste. O pano de fundo podia ser ora o espaço litorâneo e urbano de O moleque Ricardo e Riacho Doce; ora a ligação entre o litoral e o interior nas estações das linhas de trem em Pureza; ora as transformações de sua região de origem em Usina; ora ainda o sertão adusto em Pedra Bonita.

No estado do Rio, a vivência na região praiana das salinas de Cabo Frio e das lagoas de Araruama serve de inspiração para José Lins escrever um romance que será publicado em 1941: Água-mãe. O eixo central da trama gira em torno de mistérios de uma casa mal-assombrada. O livro apresenta, contudo, algumas novidades temáticas, paisagísticas e sociais em relação às obras anteriores: 1) não se filia a nenhum dos seus ciclos de romance – nem o da Cana-de-Açúcar nem o da Seca, do Misticismo e da Fome; 2) não se passa no Nordeste nem explora a paisagem da região nordestina; e 3) tenta retratar na ficção famílias pertencentes às três esferas da sociedade, das classes populares às classes médias e às classes altas do Rio de Janeiro.

Na década de 1950, Glauber Rocha (1939-1981), então um iniciante na crítica cultural, se encantou com a obra de José Lins do Rego. O cineasta baiano leu a obra de José Lins na íntegra, inclusive Água-mãe, e resumiu a parte em que José Lins trata da carreira do jogador. Tratava-se de mais um personagem frustrado, galeria dos demais tipos sociais descritos pelo autor: o senhor de engenho, o bacharel, o cangaceiro, o contador de histórias.

Eis seu comentário:

 

“Joca, o jogador de futebol, é a manifestação em nosso romance desse ídolo nacional. José Lins, grande entusiasta e entendedor desse esporte, exibe seus conhecimento com descrições de pelejas na melhor linha da crônica esportiva. Por outro lado, ultrapassando o devaneio, traça rápida mas profundamente, o roteiro geral do jogador de futebol: sua ascensão, seu auge na seleção nacional, sua queda brusca, sua morte na humildade e no esquecimento de onde veio. Joca morre ali mesmo, sentado na porta de casa, olhando tristemente a lagoa.”

Edição      Enrique Shiguematu

Bernardo-Buarque-de-Hollanda-1024x213