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O Galileu Galilei de Bertolt Brecht

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Denise Fraga interpretando Galileu em uma versão contemporânea da peça.

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

“Eu sou o nevoeiro, e deve contar comigo

Todo aquele que viaja sobre as águas.

1000 anos e nunca se viu

Quem pretendesse atravessar os ares.

Afinal, quem é você?

(Brecht, O voo sobre o oceano)

“Como um artefato alegórico, Galileu contém pelo menos duas mensagens distintas, além da ‘literal’: a da revolução política como um tipo de nível anagógico, e a da revolução estética como um nível moral”.

(Fredric Jameson, Brecht e a questão do método)

Uma das leituras escolares de que ainda guardo boas lembranças é a peça A vida de Galileu, de autoria do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). A edição a que tive acesso em 1989, ano em que li o texto para a escola, era a primeira publicada em português e datava de junho de 1977. Tratava-se de uma versão da Editora Abril e fora traduzida por Roberto Schwarz, um dos argutos intérpretes da obra brechtiana no Brasil, a exemplo de sua análise de Santa Joana dos Matadouros.

O elenco da peça é extenso, há pelo menos 20 personagens que aparecem no decurso dos quinze capítulos da dramaturgia brechtiana. Além do próprio Galileu, avultam nos diálogos: Andrea Sarti, Dona Sarti, Ludovico Marsili, o procurador da Universidade de Pádua, o senhor Priuli, Sagredo, Vírginia, Federzoni, o Doge, Cosmo Medicis, o pequeno monge, o cardeal inquisidor, os cardeais Barberini e Bellarmino, Filippo Mucio, o senhor Gaffone, o teólogo, o filósofo e o matemático, entre outros.   

Escrito entre o final dos anos 1930 e o início da década de 1940, o texto reconstitui a vida do professor de matemática, residente inicialmente em Pádua, que almeja demonstrar o funcionamento do universo sob bases distintas das então aceitas. Reproduzo a seguir, em breves linhas, o fio condutor da narrativa brechtiana.

De seu quarto de estudo, quer provar que a terra gira em torno do sol e, para tanto, entabula conversas com Andrea, filho da governanta, dona Sarti, a quem afirma: “– Há dois mil anos a humanidade acreditou que o sol e as estrelas do céu giram em torno dela. O papa, os cardeais, os príncipes, os sábios, capitães, comerciantes, peixeiras e crianças de escola. Todos achando que estão imóveis nessa bola de cristal…”.

Dona Sarti, por seu turno, não gosta do teor do assunto, embora relembre suas observações taxativas no diálogo com Galileu: “– Ontem à noite, ele me provou que a terra dá volta no sol. Está convencido de que isso foi calculado por um tal de Copérnico… ele fala essas coisas na escola e os padres vêm me procurar, porque ele fica dizendo coisas que são contra a religião”.

Galileu dá aulas particulares, pois a universidade o remunera mal. Um procurador universitário vai à sua casa, mas nega o pedido de aumento solicitado pelo docente: “– Eu vim tratar do seu pedido de aumento; o senhor quer ganhar mil escudos. Infelizmente, o meu parecer não será favorável”.

A despeito da negativa, Galileu apresenta a sua versão do telescópio ao procurador, que por sua vez o leva aos veneráveis conselheiros da República de Veneza. Estes veem o potencial comercial do tubo com lentes, o que desagrada o astrônomo italiano: “– Pensam que estão ganhando um brinquedo lucrativo, mas é muito mais. Ontem eu apontei o tubo para a lua. Ele não tem luz própria. A astronomia parou há mil anos, porque não havia telescópio”.

A 10 de janeiro de 1610, servindo-se do telescópio, Galileu observa fenômenos celestes e deslinda o sistema copernicano. Mesmo com a advertência do amigo Sagredo quanto a possíveis consequências de sua pesquisa da rotação dos astros, Galileu endossa a força da razão humana. Em seu quarto de estudos, Galileu conclui com base em suas observações que a lua é um corpo celeste como outro qualquer.

Sagredo o dissuade: “– A lua não pode ser uma terra, com montanhas e vales, assim como a Terra não pode ser uma estrela” … “– Isto contradiz a astronomia inteira de dois mil anos”. Ao que Galileu retorque: “O que você vê é que não há diferença entre o céu e a terra. Hoje, dez de janeiro de 1610, a humanidade registra em seu diário: aboliu-se o céu”.   

Para ter mais tempo para estudar, o personagem cogita mudar-se para Florença, pois: “– Lá me dispensam de enfiar Ptolomeu na cabeça de alunos particulares e terei tempo para elaborar as minhas provas, porque o que tenho agora não basta”.

Galileu troca afinal a república de Veneza pela corte florentina, cujos sábios, entretanto, não dão créditos às suas descobertas feitas por telescópio. Membros da corte vão à residência de Galileu para ver o objeto polêmico. Ao final uma discordância de opiniões se deflagra no encontro: “Mestre-sala: – A corte está ansiosíssima, esperando a opinião da ilustre universidade a respeito do extraordinário instrumento do senhor Galileu e das suas maravilhosas estrelas novas”. Ao que o matemático obtempera: “– É duvidoso um telescópio no qual se vê o que não pode existir?”.

A peste invade as ruas de Florença. Mesmo assim, Galileu prossegue em suas pesquisas. Dona Sarti observa: “– Seu Galileu! Venha comigo! Você está louco”. O matemático responde: “– Agora eu reuni todas as provas. Sabe, quando passar a peste, vou para Roma, e aí eles vão ver…”.

No ano de 1616, o Colégio Romano ironiza as descobertas e afirmações de Galileu. Um monge sentencia em tom irônico: “– Ui, a terra está virando muito, estou tonto.”. Já um dos cardeais observa: “– Dizem que o tal do Galileu transferiu o homem do centro do universo para algum lugar na periferia. Está claro, portanto, que ele é um inimigo da humanidade”.

Na casa do cardeal Bellarmino, em Roma, há um baile. Entrementes, Galileu conversa com Barberini e Bellarmino. Afirma que acredita apenas na razão, mas ambos a acham insuficiente. Virgínia, filha de Galileu, está noiva de Ludovico, rapaz bem apessoado, de família rica. Bellarmino pondera: “– Senhor Galileu, o Santo Ofício decidiu esta noite que a doutrina de Copérnico, segundo a qual o sol é o centro do universo, e permanece inamovível, enquanto a Terra não é o centro universal, e é móvel, é tola, absurda e herética na fé. O senhor, Galileu, abjure essa opinião”.

No palácio do embaixador florentino em Roma, Galileu conversa com o pequeno monge, a quem diz: “– Se Vênus ficar sem fazer no meu quadro do universo! Nós não saberemos inventar máquinas para bombear água dos rios, se não pudermos estudar a máquina que está diante de nossos olhos, a maior de todas, a dos corpos celestes”.

Em sua casa, em Florença, Galileu estuda com seus alunos sobre a flutuação dos corpos e sobre as manchas solares. Andréa comenta: “– Quanto à flutuação, nós supomos que ela não depende da forma do corpo, mas de seu peso, comparado ao da água: se for mais leve, o corpo flutua; se for mais pesado…”.

Galileu exclama: “– Barberini será o papa! O saber será uma paixão e a pesquisa, uma volúpia. Cláudio tem razão, essas manchas solares me interessam”.

Em 1632, durante a terça-feira de carnaval, divulga-se: “– Prezados habitantes, vejam a fenomenal descoberta de Galileu Galilei: a Terra gira em torno do sol!”.

Em Florença, no Palácio dos Médicis, Galileu e a filha esperam que o grão-duque os receba. Este demora, mas os atende. Galileu não entrega o livro. Vanni, um amigo de Galileu, confidencia: “– Lá em cima falavam na sua pessoa. Dizem que o senhor é responsável pelos panfletos contra a Bíblia que estão à venda em toda a parte”.

Enquanto isso, um alto funcionário se dirige a Galileu: “Estou encarregado de informá-lo de que a corte florentina não tem mais condições de opor resistência ao desejo da sagrada Inquisição de inquirir o senhor em Roma”.

Em uma conversa, o inquisidor quer que o papa faça com que Galileu pare de falar certas coisas: “– No livro dele argumentam dois homens, um estúpido, que naturalmente defende as ideias de Aristóteles, e um inteligente, que também naturalmente defende as ideias do senhor Galileu; e a palavra final está na boca de quem, sua Santidade?” O Papa assevera que se trata de uma impertinência e considera aquele estado de coisas uma balbúrdia.        

 No clímax da peça de Brecht, à altura do capítulo XIII, Galileu é obrigado pela Igreja a negar todas as suas assertivas científicas, caso não queira morrer. O pequeno monge comenta: “– Ele passou vinte e três dias na cela. O interrogatório foi ontem. Hoje foi a sessão”. Na Inquisição, a expectativa é que Galileu renegue suas afirmações às cinco da tarde, durante a sessão inquisitorial.

Eis que, no horário esperado, a voz do arauto se manifesta: “– Eu, Galileu Galilei, professor de matemática e física na Universidade de Florença, abjuro o que ensinei: que o sol seja o centro do mundo, imóvel em seu lugar, e que a Terra não seja central nem estática. De coração sincero e fé não fingida, eu abjuro, detesto e maldigo todos estes enganos e estas heresias, assim como quaisquer outros enganos e pensamentos contrários à Santa Igreja”.

Passados muitos anos, já envelhecido, Galileu vive em uma choupana no campo, onde conclui seu livro “Os discursos”. Andréa, já um moço, vai à residência campestre de Galileu despedir-se, uma vez que viaja para as terras da Holanda. Galileu, por seu turno, entrega-lhe os Discorsi. Nesse ínterim, Galileu, semicego, observa cuidadosamente o curso de uma pequena esfera de madeira.

Na conversa, Andréa diz que, para trabalhar com ciência, resolveu-se mudar para os Países Baixos: “– Não permitem ao boi o que Júpiter não se permitia”. Galileu pondera que a responsabilidade é toda de Andréa caso queira levar a obra em sua viagem. Andréa decide levar o livro consigo, atravessando a fronteira da Itália. Junto ao cocheiro, que carrega o caixote da mudança, está Andréa, com o manuscrito de Galileu escondido na bolsa de viagem.

Fecham-se as cortinas, cai o pano. 

Edição      Enrique Shiguematu

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