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Literatura de cordel: da França ao Nordeste

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Literatura de Cordel é vendida na Feira. RJ, 01/08/2010. Foto: Wilton Junior/AE

A literatura de cordel tem sua origem na França, transladando-se para o Brasil como resiliência medieval, já sob o influxo da cultura portuguesa. Chamada de littérature de colportage, foi reconhecida pelo historiador francês Robert Mandrou, que pesquisou os milhares de livrinhos reunidos na Bibliothèque Bleue entre os séculos XVII e XIX.

A história das edições e das práticas de leitura de tal gênero foi desenvolvida por outro historiador, Roger Chartier, que demonstraria a complexidade das suas origens literárias. Ele mostrou, sobretudo, uma intrincada teia de relações, que envolviam a elaboração, a edição, a impressão, a difusão e a recepção entre o público ouvinte e leitor da França rural e das vilas normandas dos séculos XVIII e XIX.

Chartier acentua ainda que, longe de serem apenas espontâneas, as criações populares reuniam em si um caleidoscópio de influências, incidindo na fabricação dos textos, desde os manuais, os romances, os contos de fada até a alta literatura e os escritos religiosos. Da mesma maneira, o autor sustentava que a suposta originalidade e espontaneidade do texto devia ser relativizada, haja vista o elevado grau de intervenção editorial, que incluía as ilustrações e a parte gráfica. O trabalho de adaptação dos editores visava tanto o controle do que vinha expresso nos folhetos quanto a modificação do discurso, a fim de que as histórias se tornassem mais atraentes e mais acessíveis ao grande público.

As referências visuais e os artifícios mnemônicos tinham por finalidade atingir um número maior de leitores que, ao contrário das formas de leitura impostas pela norma culta, estavam acostumadas às descontinuidades e à fragmentação da narrativa. Assim, a classificação em gênero dos cordéis era uma codificação feita a posteriori, pela ação direta dos editores, o que criava expectativas e gerava demandas de interpretação, propiciando a ampliação do número de vendas e de leitores, fomentando o consumo da literatura popular.

No caso brasileiro, as historietas e as anedotas de fundo mítico, sagrado ou histórico ─ o rei Carlos Magno, os doze Pares de França, a imperadora Teodora, o Lunário Perpétuo ─ incorporaram-se ao imaginário social nordestino, com seu folclore e com suas crendices próprias. À medida que se aclimatou em imagens, poemas e músicas nesta região, o cordel passou a divulgar seus folhetos através das rústicas casas tipográficas.

Leandro Gomes de Barros (1868-1918), por exemplo, foi muito admirado por Carlos Drummond de Andrade, que lhe dedicou uma crônica no Jornal do Brasil em 1976, na qual elevou o poeta popular a uma posição maior que Olavo Bilac nas letras brasileiras.

Os cordelistas, no entanto, não teriam o mesmo impacto se suas composições não viessem acompanhadas das imagens, sobretudo as xilogravuras de gravuristas como Newton Cavalcanti, Abraão Batista, José Costa Leite, Amaro Francisco, José Lourenço e Gilvan Samico. Havia figuras incontestes como J. Borges, aclamado por Ariano Suassuna e pelo Movimento Armorial, que eram ao mesmo tempo gravadores, xilógrafos e repentistas. De modo geral, porém, um servia-se do trabalho do outro, em uma atividade artesanal de reciprocidade.

No Nordeste, o cordel andava de par com o artesanato. Fazedor de bonecos de barros em sua cidade natal, Caruaru (PE), mestre Vitalino vendia seus utensílios de cerâmica em feiras dos arredores. Além de reproduzir animais em miniatura – boizinhos, bezerros, cabritos e jegues –, modelava também personagens típicos da cultura do Nordeste, como cangaceiros, retirantes e soldados, e temas festivos da vida local – reisados, pastoris, vaquejadas, entre outros.

Edição      Enrique Shiguematu

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