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José Lins do Rego, a pintura e os ilustradores de livro

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Fayga Ostrower (1920-2001), ilustradora do livro O cortiço, de Aluísio de Azevedo, entre outros. Ostrower foi aluna de Artes Gráficas na Fundação Getúlio Vargas em 1947, onde estudou xilogravura

O escritor José Lins do Rego (1901-1957) foi um grande admirador de quadros. Quando residia no Rio de Janeiro, nas décadas de 1940 e 1950, tinha por hábito frequentar museus e visitar exposições. Comentava sobre estas em seus artigos de jornal, como n’O Globo. Escreveu crônicas sobre o pintor italiano Ticiano, quando esteve em viagem a Veneza, e sobre Rufino Tamayo, pintor mexicano, menos conhecido, mas referencial em seu país. Além de contemplar, refletiu sobre as telas do pintor carioca Di Cavalcanti, com considerações relativas ao problema do engajamento social na pintura brasileira.

A admiração de José Lins do Rego por Cândido Portinari era antiga e a cultivava de há muito. Os dois se aproximariam nos anos 1950, quando Portinari fez desenhos ilustrativos, publicados na revista O Cruzeiro. Estes serviriam de base para o romance folhetinesco O cangaceiro, do romancista paraibano. Por sua vez, já em ensaio do início dos anos 1940, o romancista falava do “Brasil grande, robusto, caboclo, branco, mestiço, que Portinari exprimiu para todos os tempos”. Mais adiante, prosseguia:

“Portinari nos deu um Brasil são, com as características de seu povo, de sua gente de mãos calejadas, de resistência hercúlea. Os gaúchos, os nordestinos, os paulistas, os negros, os índios, os meninos, os padres, de seus painéis, são elementos de uma pátria que quer viver. E tudo isso sem falsa demagogia e falso patriotismo. O conteúdo de sua obra poderia ter tudo isso, e a sua pintura fracassar. Mas é que para felicidade nossa o pintor é grande, e grande também o seu amor à terra e ao homem de seu país”.

 

Um de seus pintores preferidos foi o conterrâneo Pedro Américo (1843-1905), sobre quem editou um livro, publicado na década de 1940 pela Casa do Estudante do Brasil. O livro se baseava na conferência sobre o pintor paraibano, proferida no salão da Sociedade dos Amigos de Alberto Torres, a dez de maio de 1943.

Nascido na cidade de Areia, o mesmo município natal de José Américo de Almeida, Pedro Américo foi desenhista e um dos maiores pintores brasileiros do século XIX, ao lado de Victor Meireles, Pedro Alexandrino e Eliseu Visconti, entre outros. Formado na Academia Imperial de Belas-Artes e patrocinado sob os auspícios do monarca D. Pedro II, Américo viajou à França, conheceu artistas de renome e realizou exposições na capital parisiense. Foi professor de pintura e autor de telas históricas monumentais, como O grito do Ipiranga e A batalha do Avaí, alusões à Independência do Brasil e à Guerra do Paraguai, entre outros episódios marcantes da história nacional.

Mas, apesar do apreço por quadros históricos, José Lins não cultuava a pintura oficial. Antes, valorizava, para além das telas, as capas de livros como objetos igualmente artísticos. A importância não estava no suporte, mas no talento expressivo do criador. Lembre-se por exemplo do capista Santa Rosa, que ilustrou muitos de seus romances. Ambos faleceram no mesmo ano, 1957, Santa Rosa em Nova Déli, na Índia, onde representava o Brasil em uma conferência da UNESCO. A importância de Santa Rosa é destacada pelo brasilianista Laurence Hallewell, autor do monumental O livro no Brasil (1982):

 

“Embora ele provavelmente vá ser lembrado sobretudo por sua obra teatral, tem sido considerado o maior produtor gráfico de livros do Brasil, responsável, quase sozinho, pela transformação estética do livro brasileiro nos anos 30 e 40. Sua influência foi tríplice. Em primeiro lugar, houve sua contribuição como produtor gráfico e ilustrador para editoras comerciais, principalmente a Schmidt e a José Olympio.

Em que pese sua afeição pelas artes gráfico-pictóricas, José Lins do Rego não teve o frontispício de suas obras pintadas e assinadas por Oswaldo Goeldi, um dos grandes nomes da xilogravura brasileira. Goeldi foi estilizador de vários livros importantes. Menino amazônico, filho do cientista suíço Emílio Goeldi, formou-se em Belém, na região norte do país. No início dos anos 1920, participou da Semana de Arte Moderna e estudou em escolas de artes na Europa.

Ilustrador de revistas no Rio de Janeiro, junto com Di Cavalcanti, a iniciação de Goeldi na ilustração de livros, baseados em xilogravuras, ocorreu em 1937, com Cobra Norato, de autoria do poeta gaúcho e diplomata Raul Bopp. Em 1941, ilustrou as obras completas de Dostoievski, para a Editora José Olympio. Entre outros desenhos de sua lavra, destaque-se a esmerada edição do clássico livro de Cassiano Ricardo, Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis, com capa aveludada e tamanho ampliado. Nos anos 1950, foi professor de xilogravura na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA).

Outro nome que merece menção na ilustração de livros é a judia polonesa, radicada no Brasil, Fayga Ostrower (1920-2001), ilustradora do livro O cortiço, de Aluísio de Azevedo, entre outros. Ostrower foi aluna de Artes Gráficas na Fundação Getúlio Vargas em 1947, onde estudou xilogravura com o austríaco Axl Leskoscheck, capista da Editora José Olympio. Fayga foi ainda professora de Lygia Pape (1927-2004), escultora, pintora e gravadora, filiada ao movimento neoconcreto, que nos anos 1960 faria desenhos, não para livros, mas para cartazes de filmes do movimento Cinema Novo.  

Edição      Enrique Shiguematu

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