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Historiografia da opulência e da decadência

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''… Edward Gibbon (…) narrou esse processo gradual que resultou na desagregação da Roma antiga…''

 

“O engenho de Maçangana

Há três anos que não mói.

Ainda ontem plantei cana.

Há três anos que não mói.”

Fogo morto

José Lins do Rego

 

A díade opulência/decadência acompanha o homem e a história ocidental. O primeiro polo tende a ser visto de maneira idealizada, sendo tão antigo quanto o mito da Idade do Ouro. Já o segundo é visto de modo realista. Quem nunca ouviu o nostálgico “vivia-se melhor antigamente…”? Ou ainda aquela expressão “no meu tempo…”?

Do ponto de vista moral, a corrupção pode levar o homem à decadência, pois é um indício de fragilidade de caráter daquele indivíduo incapaz de assimilar os valores de virtude e justiça. O jogo também traz um componente de risco decadente para o homem. O vício pelas apostas é uma maneira de arruinar o jogador, conforme retratou com maestria o romancista russo Dostoievski em uma de suas novelas.

Em termos econômicos, os indivíduos perdulários também são passíveis de decadência, efeito do empobrecimento e dos gastos excessivos descontrolados. Estes se deixam levar pelo bel-prazer, pelo hedonismo e pelo consumo. Não é à toa que o pensador alemão Max Weber associou as origens do capitalismo à ética protestante. Em seu livro clássico, o sociólogo alemão mostra de que maneira a austeridade no modo de vida pregado pelos reformadores do protestantismo levaria a uma nova conduta econômica, que culminaria na ascensão social via acumulação e na racionalização do capital.  

O processo de formação, seguido pelo de deterioração, pode ser visto também em termos de metáforas orgânicas. O declínio físico do corpo e da mente humana evoca sentimentos de perigo, com a consciência da aproximação do fim. É um caminho ameaçador, rumo ao desconhecido, ante a iminência da morte. Depois de atingir o suposto ápice na juventude, o ser humano experimenta o ocaso da velhice, seja ela corporal ou mental. Esta simboliza a tendência universal do homem a decair, a perder seu tônus, sua vitalidade.

A inspiração para esse percurso de ascensão e queda vem da própria observação dos fenômenos da natureza, tão presente na ciência oitocentista. Seria o caso de evocar o sistema astronômico do Universo e de observar o ciclo solar, com a rotação terrestre que proporciona o crepúsculo e a alvorada.

A analogia cíclica liga-se ainda, em última instância, à biologia e se refere ao sistema biológico dos seres vivos, sendo que o organismo humano não difere muito do que se observa na fauna e na flora. Assim como as plantas e os animais, as fases da vida humana incluem, entre suas etapas principais, o nascimento, o crescimento e a morte.

Nesse arco temporal de uma vida, as imagens naturais podem se reportar a várias matrizes inspiradoras. A observação do comportamento dos corpos celestes, além da transformação dos vegetais ou dos animais, serviu de base para as teorias científicas modernas, instituídas ao longo do século XIX, da Engenharia à Sociologia.

As metamorfoses por que passa o homem ao longo do tempo iluminam por fim o sentido maior da História, a chamada “marcha das civilizações”. Os regimes políticos seriam tal e qual organismos vivos e passariam por três fases impreteríveis: nascimento, maturidade e morte.

A consciência da mortalidade de um ciclo histórico possibilitou, a vários historiadores, a narrativa do esgotamento de grandes impérios. Outrora pujantes, civilizações milenares assistiram à ruína em determinadas conjunturas. Roma, por exemplo, foi da primeira infância, em 753 a.C., com seu fundador Rômulo a alimentar-se de uma loba, até o envelhecimento, quando o último imperador foi deposto (476 d.C).

No clássico, escrito em seis volumes, o historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794) narrou esse processo gradual que resultou na desagregação da Roma antiga. Após um longo período de expansão militar e de domínio territorial sobre boa parte do continente europeu, o colapso de Roma se deu por razões de ordem bélica, econômica, cultural e demográfica. Seu poder imperial foi afinal incapaz de conter a dilapidação decorrente da onda de invasões bárbaras de povos germânicos e eslavos – Godos, Visigodos e Vândalos, entre outros.

Outra época histórica em declínio foi retratada no monumental O Outono da Idade Média (1919). Escrito pelo neerlandês Johan Huizinga (1872-1945), o título significativo do livro alude à estação do ano caracterizada pelo amarelar das folhas das árvores. Da mesma maneira que a folhagem cai da copa e dos galhos e aterrissa lentamente sobre o chão, o historiador holandês ilustrou o fim do ciclo medieval, em particular o cenário outonal de Flandres e do norte da França, nos séculos XIV e XV. Pôs-se fim à “idade das trevas”, como era conhecida a época medieval, e despontaram as luzes mediterrâneas, com o alvorecer da Renascença italiana.

Por vezes, o determinismo da História, como se fosse uma seta em direção a um alvo preciso e pré-determinado, chegou a ganhar conotações fatalistas. Foi o caso do filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), que se tornou célebre e polêmico no início do século XX, em meio à Grande Guerra, ao publicar A decadência do Ocidente (1918). Na obra, o autor defendia um argumento determinista, claramente inspirado em analogias biológicas, segundo as quais todas as sociedades, em quaisquer épocas, têm o mesmo sentido: vicejam, florescem e amadurecem, para depois fenecer.

O fundamento dessa ideia é uma diferença de fundo entre cultura e civilização. Spengler sustenta que, de início, toda etapa histórica é cultural, ou seja, é marcada pela ascensão e pela criatividade de um povo. Depois, vem a sua contrapartida negativa: ela é sucedida por uma etapa civilizatória. Nesta, prevalece a queda e a imitação empobrecedora, como ocorreu na Antiguidade, com a passagem da florescente cultura grega para a decadente civilização romana.

No Brasil, Gilberto Freyre mostrou de que maneira o sistema econômico – primeiramente hegemônico, depois decadente – no Nordeste teve vários desdobramentos ao longo dos séculos de colonização, dando origem a uma estrutura social e mental específica. A aproximação entre a casa-grande, onde moravam os senhores com suas famílias, e a senzala, onde viva a massa escrava, foi decisiva a seu juízo para criar uma cultura comum, miscigenada e híbrida. Mais do que um dado arquitetônico ou físico-estrutural, a proximidade de senhores e escravos levou à formação original da sociedade brasileira, com uma mentalidade própria, instituída mediante trocas culturais entre negros e brancos.

O apogeu de pelo menos três séculos desse sistema deixou raízes profundas em nossa cultura. Sem negar a violência do colonizador, expressa por meio de abusos sexuais no exercício da poligamia, Freyre procurou mostrar como essa herança dos engenhos marcou as gerações posteriores, mesmo nas cidades, com a perpetuação de seus valores mestiços e hierárquicos. Na literatura, tal parece ser o caso de José Lins do Rego em sua descrição da ascensão e queda da civilização açucareira.

De acordo com a perspectiva cíclica da economia, depois da vigência da cana-de-açúcar, a descoberta de ouro nas minas gerais, durante o século XVIII, marcou o início de outra fase significativa na História do Brasil. A exploração aurífera representou um novo marco, pois iniciou o deslocamento do eixo geográfico e econômico, que passou do Nordeste para região do centro-sul do Brasil. Novas levas de escravos, oriundas de outras áreas do continente africano, foram trazidas pelo tráfico negreiro.

Um dos relatos mais importantes sobre as relações sociais nessa paisagem mineral não foi o de um economista, mas o de um padre de origem italiana, o jesuíta André João Antonil, autor de Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas (1711). Além de descrever as atividades econômicas da lavoura, da pecuária e do tabaco, o livro narra a cobiça do ouro e consagra a polêmica observação de que a vida na colônia era “o inferno dos negros, o purgatório dos brancos e o paraíso dos mulatos”…                 

O conceito de decadência é relativizado pelo ensaísta gaúcho Viana Moog. Autor hoje pouco mencionado, foi ele quem trouxe o argumento de que todo fechamento de um ciclo é concomitante à inauguração de uma nova era. Toda decadência contém, pois, um germe, um sinal, um anúncio de renovação:

“Em determinadas épocas haverá desagregação e declínio para certa ordem de instituições, ao passo que florescimento de outras. O primeiro século, fora de qualquer restrição, já foi de decadência para os romanos do paganismo. Ao contrário, para os romanos da cristandade que nascia, ele será o maior século do cristianismo. De decadência para o feudalismo e os costumes medievais, foi o XVI o século da Renascença. Da mesma forma, os dias que correm assinalam a ruína das instituições para todo o Ocidente, ao mesmo tempo que representam em setores conhecidos um renascer de energias e esperanças.”.

 

Edição      Enrique Shiguematu

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