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A literatura e o conceito de memória (I)

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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

A importância da memória na literatura clássica é de tal ordem que ela aparece também na Odisséia, de Homero.

Mnemósine era como os gregos chamavam a memória em sua mitologia. Na Grécia antiga, os homens, inspirados nos doze deuses do Olimpo, compartilhavam um conjunto de histórias sobre a origem e o destino do universo. Muitas dessas crenças mitológicas tinham um sentido trágico, desde que, segundo Hesíodo, o Caos gerou o Céu (Urano) e a Terra (Gaia). Um exemplo desta tragicidade foi o titã Cronos, deus do Tempo. Era uma divindade ambígua, com feições aterrorizadoras: pai dos homens, provedor de suas necessidades, mas inevitável destruidor de seus próprios filhos. O Tempo é assim um voraz tirano, deus monstruoso, provido de três cabeças (passado, presente, futuro), quatro asas (as estações do ano) e doze plumas (os meses).  

Nem só de tragédias viviam as lendas. Com suas ambivalências, os deuses engendravam também a proteção contra as situações trágicas, através de feitos igualmente maravilhosos. É o caso do poder de Mnemósine, a deusa da memória, que resgata as lembranças e impede o ser humano do esquecimento. A ameaça da perda da memória era representada na cosmogonia grega através de um rio, o Lethe, cuja travessia era, por assim dizer, “letal” para o homem.

Além da capacidade de lembrar, a deusa era capaz de outras façanhas, como a criação de uma encantadora prole. Seu encontro com o sábio Zeus, durante noves noites, resultou no surgimento das nove musas do conhecimento. Encarnação das artes liberais, as Musas – uma delas é a História (Clio) – têm o dom de fazer o homem afastar-se de suas origens e de tornar-se ele próprio um imitador dos deuses, um deus em miniatura.

A importância da memória na literatura clássica é de tal ordem que ela aparece também na Odisséia, de Homero. Nas peripécias de seu retorno a Ítaca, Ulisses vê-se sempre em tensão com o inumano e com o mítico, territórios tão amedrontadores quanto sedutores, por cuja provação tem de passar o herói a fim de alcançar a sua própria humanidade. O errante personagem, que aspira reencontrar Penélope em sua terra natal, tem de atravessar ilhas fabulosas, onde são desconhecidos os mortais e para onde ele é arrastado à sua revelia.

Nessas misteriosas paragens, a luta principal travada por Ulisses é pela manutenção da memória contra a grande sedução do esquecimento do regresso, sua “feliz embriaguez” no rio Letes, que ocorre também com a ingestão da flor de lótus, droga “doce como mel”. Esquecer significa aqui deixar de cantar e de contar histórias, significa deixar de ser humano, olvidando-se do passado, do presente e do futuro, qual um animal ou um ente atemporal divino.

Durante a fase helênica, os homens da Grécia fizeram um grande esforço para desvencilhar-se do mito. Eles almejavam chegar ao conhecimento efetivo da natureza, através de novos domínios como a filosofia e a ciência. Aquilo que se contava de boca em boca, com o poder sugestivo das fabulações e com o baixo nível de certeza com relação à verdade, passou a ser contrastado com aquilo que se comprovava empiricamente por meio da observação da realidade. Quanto ao passado, sua veracidade dependia dos registros escritos, confirmada por aquele que viu, não por aquele que ouviu.

Na fase medieval, o saber mítico foi relegado ao segundo plano, com o predomínio da metafísica e da escolástica. Neste campo, Santo Agostinho (354-430) chegou a dedicar um belo capítulo de suas Confissões aos “palácios da memória”, onde descreve, de maneira caprichosa, a complexidade da mente em meio aos escaninhos das recordações. É o próprio bispo de Hipona, nascido no norte da África, quem indaga sobre a natureza do tempo: “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pede, não sei.”

Depois de séculos de Idade Média, o panteísmo da mitologia greco-romana conheceria ainda uma sobrevida, com o Renascimento artístico na Itália e em parte da Europa, quando pintores, escultores e arquitetos voltariam a retratar aquelas divindades, dentre elas Mnemósine.

O avanço das ciências experimentais durante a história moderna acentuou mais uma vez a importância do conhecimento fidedigno da realidade, em lugar das fantasias do mito. O mundo da imaginação não deixou de ter o seu espaço, com a invenção da literatura e com os seus gêneros mais importantes: a novela, o conto, o romance. Foi a literatura que deu o primeiro passo para a fixação das línguas nacionais, derivadas por sua vez do latim falado em cada região da Europa ocidental. Foi assim que Dante Alighieri escreveu A divina comédia em italiano, Luís de Camões Os lusíadas em português, Miguel de Cervantes Dom Quixote em espanhol e William Shakespeare as suas peças em inglês.

O professor Domício Proença Filho reconstitui a origem e o significado da palavra literatura até o Setecentos:

“Literatura é termo erudito. Corresponde em latim a litteratura, por sua vez calcada no grego grammatiké: grammaem grego tem como correspondente latino o termo littera, e ambos significam “letra”. Na língua latina, “literatura” queria dizer instrução, saber relativo à arte de escrever e ler, ou ainda, gramática, alfabeto, erudição. Esse é basicamente o resultado que acompanhará o termo, com pequenas variações, até o século XVII e a primeira metade da centúria seguinte.”

De que maneira, perguntará o leitor, o conceito de memória saiu da imaginação mítica e se reinseriu no imaginário da literatura? Para ser mais preciso, como o ato de recordar marcou seu lugar nos quadros do romance moderno?

Proust pode ser um bom começo.

O vasto painel proustiano, Em busca do tempo perdido, foi publicado no decorrer de catorze anos, entre 1913 e 1927, como se cada livro fosse um capítulo de uma sequência maior, série sempre em vias de ser complementada, para afinal compor uma grande unidade narrativa. A novidade consistiu na forma inusitada de descrição da experiência subjetiva da personagem principal. Marcel, o narrador, se deixa levar, de lembrança em lembrança, até o “paraíso perdido” de sua infância. Chega a este não de modo voluntário, mas casual.

A casualidade é geradora de reminiscências, que ocorrem em ocasiões imprevistas, das quais a mais conhecida é a ingestão da madeleine, o biscoito que acompanha a chávena de chá. De maneira imprevista e espontânea, seu sabor desencadeia uma espécie de viagem no “túnel do tempo”. É aquele gosto que desata a lembrança dos domingos matinais, passados na casa da tia-avó em Combray, segundo o relato do volume “No caminho de Swann”. Depois de comer o pedaço da madalena, o cenário é reconstituído em filigranas, formando uma totalidade.    

A literatura descobre a capacidade introspectiva de rememorar por meio dos sentidos, cujo acionamento é feito de maneira fortuita. As sensações são despertas através de detalhes ou de situações em princípio banais do cotidiano. O olfato, o tato ou o paladar têm o poder súbito de reenviar o homem do presente para o passado, e deste para aquele, como se ambos fossem um só. Tal fusão recobra os momentos fugidios, as imagens embaçadas e as cenas longínquas, que são novamente chamadas à mente.

A imersão na literatura seria, então, uma maneira de aprofundar a própria persona do autor, que faz da memória a sua fonte principal, o seu primeiro repertório de histórias. Uma das novidades proustianas é a desconstrução da estrutura da ação romanesca, com o encadeamento dramático elementar, dividido em um início, um meio e um fim, com a expectativa de um clímax ao final. Álvaro Lins foi um dos primeiros críticos brasileiros a estudar a fundo a obra do escritor francês.

Ele assim explica essa ausência estrutural na passagem do livro A técnica do romance em Marcel Proust, escrito para um concurso de cátedra no Colégio Pedro II, do qual saiu vitorioso:            

 

“Enredo de romance é a ação das personagens numa ambiência. Ação, no entanto, nem sempre quer dizer uma sucessão de episódios desdobrados no feitio de uma intriga, regular e objetiva. A ação de um romance pode verificar-se exclusivamente como uma projeção da psicologia das personagens em movimento. A essa espécie pertence A la recherche du temps perdu, cuja ação é principalmente uma decorrência da situação psicológica das personagens em cena. Enredo uniforme e sistemático, com toda a urdidura do episódio que atrai outro episódio até um final contundente, não o tem o romance de Proust, nada preocupado com o ‘heróico’ ou com o ato fulminante para valorizar emocionalmente o desenvolvimento das situações ou os caracteres das personagens. Dado o espírito de narração, que é o de reconstituí-los por uma operação de memória no mesmo plano do passado, grande parte da ação é não raro indireta, não se produz aos olhos do leitor, e dela só tomamos conhecimento por diálogos rememorativos.”

Edição      Enrique Shiguematu

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