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Emergir do azul não-dito

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Análise da obra Celacanto provoca maremoto, de Adriana Varejão

Dominique do Vale de Mattos e Gisele Campos Batista

Dentro de uma floresta artificialmente preservada, incrustada num prédio de arquitetura edificada, encontra-se uma miríade de azulejos. Impressionantemente monocromáticos, viscerais e intensos, os azulejos de Adriana Varejão (1964-) revelam em sua personalidade o paradoxo dos processos históricos na sociedade brasileira. Subvertem o uso do barroco no azulejo português, como uma forma de expressão e de reformulação de uma narrativa histórica colonial contrastante, além de discutir a metalinguagem da história.

Varejão iniciou sua carreira profissional fora do universo da arte, no curso de Engenharia da PUC-RJ em 1981, mas o abandona para entrar no mundo acadêmico artístico em 1983. É possível mesmo perceber um caráter bastante racional em suas obras de arte e a forma como elas são pensadas para ser. A artista entra em contato com as propostas do barroco e com a cidade de Ouro Preto por meio do livro Escrito sobre un cuerpo, do escritor cubano Severo Sarduy.. Em 2008, algumas de suas obras, já reconhecidas internacionalmente, foram incorporadas ao Museu de Arte Contemporânea, em Inhotim. Entretanto, ainda não há uma corrente artística específica na qual se enquadra o estilo da artista, em função da sua junção entre elementos culturais diversos, além de sua obra articular pintura, escultura e arquitetura.

A obra “Celacanto provoca maremoto” traz um misto de sensações que convergiam à desordem: o contraste entre o branco, o azul, o craquelado e o excesso de signos. Trata-se de uma reinterpretação do chiaroscuro barroco do século XVI, misturado ao mundo português imperial. Por sinal, a artista imprime um sentido questionador ao uso do barroco português em termos históricos: o barroco em si é um movimento literário e artístico que discute o contraste, o disforme, o religioso, o profano. Na obra, Varejão explora o contraste historiográfico entre a memória que se produziu oficialmente e aquela contra hegemônica.

É possível notar blocos de azulejos brancos craquelados, pincelados por vários tons de azul em imagens que dão a sensação de que existe o mar em tempos ora calmos, ora revoltosos. A presença de rostos que se assemelham a querubins traz um teor quase profético para a composição da obra, que de fato se assemelha às obras barrocas que descrevem o mundo religioso, mítico, que se estende além do humano. O fato da obra praticamente “fechar” o andar em que ela se insere coloca o sujeito dentro de um momento de imersão e encanto, dando o espaço à contemplação e reflexão.

Conforme discute Luís Camilo Osório no seu artigo “Arte contemporânea brasileira: multiplicidade poética e inserção internacional”, há um movimento de preocupação dos artistas a partir de 1980 com a historicidade de suas obras, “em que convivem diversas temporalidades, em que múltiplas formas de afirmação do presente redefinem modos de apropriação do passado e possibilidades do futuro”. A disposição proposital dos azulejos provoca desconforto de quem os vê a partir do sentimento de incompletude e desordem, que é justamente a interpretação de Varejão acerca da história brasileira:

No que diz respeito a essa retomada da imagem e da história, uma artista importante é Adriana Varejão, seja pela exaltação sensorial, seja pela pulsação matérica, um diálogo transversal com o legado barroco e as cicatrizes e singularidades do passado colonial.

A começar pelo curioso título, que traz à tona a discussão de legados e contrastes de visões: “Celacanto provoca maremoto” era uma frase que aparecia em inúmeras pichações Brasil afora durante os “Anos de Chumbo”, o período mais opressivo em termos de liberdade de expressão na ditadura militar brasileira. Na época, muitas pessoas acreditavam ser uma frase de cunho revolucionário, algo “criptografado” para grupos considerados subversivos, e essa foi a memória histórica que se criou em torno dos dizeres. Varejão vivenciou esse movimento e incorporou esse modo de ver à construção da mensagem em sua obra. O título, portanto, não realiza uma função de descrição ou “resumo” da obra – geralmente se espera que o título dê luz à discussão da arte exposta -, mas ele faz parte da obra em si.

Para além da concepção antropofágica do estilo e das inspirações da artista, passando pelo Oriente, Ocidente e Brasil, aos olhos da crítica Louise Neri as obras da Adriana Varejão têm a capacidade de subverter o papel das imagens do Brasil colonial e dos azulejos portugueses para colocar juntos tanto a discussão sobre assimilação cultural quanto a arcaicidade em contraposição ao contemporâneo. Por meio das ondas e das imagens que não terminam, o interlocutor pode-se perguntar se há uma narrativa a ser construída, afinal. No entanto, até onde se estende a discussão filosófica?

Para Pierre Bourdieu, o “espectador desarmado não pode ver outra coisa senão as significações primárias”. Estabelece-se, portanto, uma relação estreita entre bagagem artística e cultural e interpretação de obras artísticas. Pensando nas obras da Varejão como conversas sensoriais mas também intelectuais, indaga-se: é possível ter a completude do que Celacanto provoca maremoto significa sem um conhecimento anterior a ele? Para sentir a confusão no mar disforme, é apenas necessário observar e mergulhar na construção em que a instalação se encontra.

No entanto, a discussão não se concretiza sem a compreensão não apenas do que é barroco pela simples identificação – é necessário entender a sua filosofia e o que se busca representar através de suas técnicas. A dupla, por exemplo, não conseguiu reconhecer na obra traços da filosofia e da arte chinesa durante a observação em Inhotim. Se a intenção da artista para o público maior não consiste somente em uma interação visual, sem a literatura necessária, a sua discussão pode cair por terra para apenas uma percepção de revitalização intensa de formas do passado por simples assimilação.

Por trás de uma obra tão barroca em seu fundamento e tão antropofágica em sua interpretação, esconde-se um processo de criação intenso e que é difícil de ser desvendado através da simples observação. A obra de Adriana Varejão se perpetuará como uma obra complexa no sentido filosófico e historiográfico ou como um ícone estético da arte contemporânea brasileira? Resta a nós – e a ela – decidir qual narrativa sobressairá.

 

Edição: Enrique Shiguematu

Ensaio apresentado à disciplina Sociedade & representação: o Brasil através das artes, ministrado pelo professor Bernardo Buarque, para alunos de primeiro período de Administração Pública, da EAESP/FGV, São Paulo