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As cosmococas de Hélio Oiticica

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Gabriela Fernandes e Igor Baran

Defensor da arte não só como mero objeto, mas como agente de interferência na sociedade, o carioca Hélio Oiticica (1937-1980) traçou seu caminho no mundo artístico pautado na experimentação de diferentes formas de tirar a arte do plano das telas e trazê-la para a concretude. Sua obra se divide em duas fases: uma mais visual, que vai de 1954 até 1968, com obras como Invenção da cor, uma série de placas geométricas em formato de quadro pintadas a tinta e dispostas no ambiente de forma a mudar a imagem vista do espectador em relação ao conjunto, dependendo de sua posição; e uma fase mais sensorial, composta por obras que propunham uma interação com o espectador, envolvendo uma gama mais ampla de sentidos de seu corpo, como a obra Cosmococa.

Ao longo de sua obra, mesmo com a forte presença de formas geométricas, o artista conseguiu transcender esse lugar comum do geometrismo puro, sem abandonar tais formas, o que pode ser atribuído a uma filiação ao movimento neoconcreto.  Segundo Ferreira Gullar, em 1959, como forma de fazer frente ao Concretismo, esse movimento cunhou a expressão neoconcreto como: “(…) uma tomada de posição em face da arte não-figurativa “geométrica” (neoplasticismo, construtivismo, suprematismo, Escola de Ulm) e particularmente em face da arte concreta levada a uma perigosa exacerbação racionalista”.

De forma geral, observa-se que o caminho artístico por ele traçado foi o da experimentação e inovação, usando do público para a concretização da arte. Esse caráter inovador se mostra em passagem de Wally Salomão: “Só existe o que é novo, o que é igual não interessa, porque é mera repetição. Antes havia o que o poeta Ezra Pound classificava de inventores, mestres e diluidores. Agora só têm razão de existir os inventores”.

Pertencente à fase sensorial de sua obra, Cosmococa é uma galeria idealizada por Oiticica e o cineasta Neville d’Almeida, em 1973. Ela é descrita por muitos como interativa, na qual o ambiente dita sensações que são absorvidas pelo indivíduo presente de variadas formas, o que remete à ideia de que a arte se concretiza pelo público. A galeria localizada em Inhotim é um contraste por si só em seu ambiente externo: o cinza das pedras de sua parede se chocam com o verde exuberante do jardim. No hall de entrada, o piso frio, a luminosidade baixa e a presença de lixas de unhas, que para alguns podem passar despercebidas, convidam o público a entrar em cinco salas diferentes.

Comococa vista de fora

A primeira delas, CC1 TRASHISCAPES, é um local com paredes brancas e pé alto. Colchões espalhados no chão convidam o público a se deitar e observar as projeções feitas na parede. Nessas projeções, as imagens formadas fazem alusão a corpos de pessoas aparentemente mortas, pedaços de carne cortada e algumas figuras geométricas com presença de objetos cortantes em ambos casos, como canivetes, navalhas e facas. Canudos de dólar presentes nos slides dão ao espectador pistas do que aquelas imagens fazem menção. Outro elemento presente na sala é a trilha sonora, composta por rock e alguns trechos de música nordestina. O ar gélido do ambiente não é coincidência e, junto com os elementos internos, passa a mensagem que se deseja transmitir: a solidão é a sensação despertada.

CC1 TRASHISCAPES

CC2 ON OBJECT é o segundo espaço. O chão de espuma e a dificuldade que ele impõe a quem quer ficar de pé parado convida o público ao movimento. Formas geométricas de espuma lembram do traço geométrico da obra de Oiticica e compõem o espaço. Na projeção da parede, rostos aparecem e desaparecem eventualmente com suas formas contornadas por um pó branco. Na trilha sonora, Fly de Yoko Ono. A sensação: euforia.

CC2 ON OBJECT

O nome da próxima sala enuncia a figura famosa que irá aparecer, Marilyn Monroe. CC3 MAILERYN projeta o rosto da artista diversas vezes na parede, sendo que na maioria delas suas feições são contornadas por linhas brancas, que já são perceptíveis ao público: pó de cocaína. Esse contorno vai-se alterando, conforme o passar do tempo e as linhas ficam ora mais finas, ora mais grossas. O chão é irregular e cheio de bexigas laranjas e amarelas. A sensação desses elementos, combinados ao som, remete a uma tradição andina, provocando angústia e enjoo.

CC3 MAILERYN

A sala de maior conhecimento prévio da obra é a CC4 NOCAGIONS. Trata-se de uma piscina. Em uma das paredes é projetada a capa do livro Notations, de John Cage. Na água fria, luzes de led verde são projetadas de forma sequenciada. A sensação ao entrar na piscina é o pânico. Dependendo do dia de visitação, a turbidez da água é tamanha que não é possível enxergar o fundo da piscina. O ambiente é pouco iluminado, como toda galeria e a música oscila de intensidade e volume, colaborando para a sensação de temor de quem está na piscina.

CC4 NOCAGIONS

Redes coloridas em tons fortes são espalhadas pela sala CC5 HENDRIX-WAR. O disco War Heroes presente na trilha sonora e nos slides dão tons de descanso a sala. A sensação de relaxamento é uma constante e transforma a sala num local tranquilo com outra atmosfera em relação aos outros ambientes.

CC5 HENDRIX-WAR

A reunião dessas sensações – solidão, euforia, angústia, pânico e relaxamento – são a grande obra que Oiticica traz em Cosmococa. Vivenciá-las é o legado dessa obra, o que retoma a ideia de usar o público para concretizar a arte. Ao separar os efeitos da droga por ambiente, ele cria uma fragmentação necessária para que depois o público consiga juntar as sensações numa experiência única.

Ao analisar o contexto de criação da obra e na intenção do autor ao fazê-la, outros pontos sobre Cosmococa podem ser trazidos para o debate. Na época de criação da galeria, as drogas eram uma forte marca de um movimento que começou nos Estados Unidos na década de 50: a contracultura.

Define-se contracultura como o conjunto de manifestações particulares ou coletivas que contestam a ordem vigente, isto é, aquilo que tende a ser considerado normal e aceitável nos padrões da comunidade. Vale ressaltar as correntes de pensamento que deram base ao surgimento da contracultura, e uma delas foi a obra de Jean-Paul Sartre.

O existencialismo sartreano parte do pressuposto de que primeiramente existimos e somente depois tornamo-nos alguma coisa, de modo que o indivíduo é o único responsável em dar significado à sua vida. É nesse contexto do existencialismo originado nos anos 1940 que, em 1960, a contracultura emerge com força e representa uma manifestação alternativa e questionadora dos valores ocidentais.

Dessa forma, olha-se para essa obra como transgressora, na qual os horizontes tradicionais da arte foram ampliados para abarcar novos assuntos:

 

“Há de se destacar que o alargamento de perspectivas a partir das quais se fala do presente e, consequentemente, do que foi e do que pode vir a ser (a arte, a política, a ética, a ciência e a própria natureza humana) não significa que aceitamos uma relativização que nos desobrigar de escolher e criar – como se tudo fosse igual e nada mais pudesse ser inventado. Multiplicar as perspectivas de compreensão do fenômeno artístico é produzir diferenças onde o relativismo só enxerga o mesmo – a indiferença”. (OSORIO, 2011. p. 58)

 

Por mais que o debate acerca do uso de substâncias entorpecentes tenha avançado muito desde a década de 1950, quando a contracultura começou, ainda se observa na sociedade ocidental a chamada “guerra às drogas” como modelo hegemônico para lidar com a questão. Isso acarreta, dentre muitos aspectos, a marginalização do usuário, mesmo quando pertencente a uma classe social privilegiada como era o artista.

Desse modo, considerando que um dos muitos papéis que a arte assume é o da reflexão, ter uma obra cujo foco se dá em transmitir sensorialmente as experiências trazidas pela cocaína pode ter como impacto positivo da mesma a humanização do usuário pelo público ao mostrar o que se procura no uso de entorpecentes em geral. Essa ideia de não entender o ser humano apenas pela razão e sim pela arte aparece salientada por Gláucia Villas Boas: “Advertia-se que a criação artística estava relacionada com a imaginação, a intuição, a sensibilidade, desvinculando-se cada vez mais dos cânones convencionais”.

Hélio Oiticica teve a influência de diversas correntes do pensamento, além do existencialismo sartreano em sua contracultura. É notável citar a importância de Friedrich Nietzsche nos trabalhos do artista, pois a reflexão do filósofo de que “o homem é algo a ser superado” foi essencial para o combate ao conformismo e à negação das formas e convenções, seja no âmbito social, político ou religioso.

É importante relacionar o trabalho artístico com a administração pública, pois sendo a Arte o campo das criações infinitas e com objetivos muitas vezes críticos a determinados dogmas sociais, sua existência pode ser um mero retrato das diferentes demandas da população e a forma com a qual ela enxerga o mundo. Estar atento às manifestações artísticas é de mesmo modo e por consequência direta, estar vigilante ao momento social, político e econômico do país, pois tanto arte quanto fatores externos não estão desvinculados, mas sim fortemente conectados.

Sejam as obras artísticas de um Victor Brecheret, sejam as de um Hélio Oiticica, o fato é que não há separação entre o que o artista faz e o mundo em que ele se encontra, de modo que a Cosmococa representa a contracultura não por motivos isolados, mas sim porque havia forte movimento contestatório a valores sociais tidos como norma.

Ao administrador público convém analisar o mundo artístico em sua especificidade, pois este último é extremamente sensível às mudanças.  Espera-se que o profissional de políticas públicas perceba como a Arte pode lhe ser útil para atuar com maior serenidade e precisão, pois só assim haverá maior desempenho em suas funcionalidades, garantindo a participação popular no processo e compreensão efetiva dos demasiados problemas da sociedade contemporânea.

Edição: Enrique Shiguematu

Ensaio apresentado à disciplina Sociedade & representação: o Brasil através das artes, ministrado pelo professor Bernardo Buarque, para alunos de primeiro período de Administração Pública, da EAESP/FGV, São Paulo