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Através: Análise da obra de Cildo Meireles

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Júlia Miranda e Marcella França

                                                                                  

Dentre as 23 galerias, localizada no ponto G5 do mapa disponível a todos os visitantes deste que é o maior museu de arte contemporânea a céu aberto, o Inhotim, está situada a exposição “Através”, do artista plástico de 68 anos, Cildo Meireles. Toda a arquitetura do espaço instiga outro sentido humano além da visão: o tato é explorado pelos pés, que ora estão descalços e hora calçados para proteção do corpo do observador. Os olhos se acostumam com luzes e com ausência dela também. Todavia, a exposição-foco de nossa pesquisa tem uma relação visual mais forte com a luz perpendicular, que atravessa as barreiras que são impostas por Cildo, entre os presentes e o núcleo da obra.

Ainda falando do olhar, este salta ao observar o brilho que reluz dos estilhaços de vidro dispostos ao chão. O primeiro sentimento é o de confusão: os materiais parecem estar totalmente desordenados, mas de alguma forma organizados, e esse sentimento não é casual. Há ali, posto de maneira simétrica, materiais diversos feitos desde a madeira, passando pelo aço e o arame, e chegando ao plástico por meio de cortinas de banheiro. No centro, encontra-se uma enorme bola, grotesca, desleixada e extremamente simples.

A sensação seguinte é de agonia: o barulho do solado dos sapatos que exploram o recinto ecoa em todo o amplo ambiente, solados estes que de maneira inconsciente atravessam cada vez mais barreiras. O tipo de barreira que este está atravessando pode ser as moldadas por Cildo ou as impostas pelas instituições. O movimento através da obra é frustrado, não importa o quanto tentamos não existe um ponto da onde tem-se uma visão total dela. Talvez para cada espectador as partes que não podem ser observadas tenham uma interpretação diferente, as barreiras pessoais de cada um.  

De maneira mais explícita, a exposição selecionada tem como o objetivo explorar e demonstrar os limites e barreiras dispostos na trajetória de todos, usando como ferramenta as artes plásticas. Sejam barreiras físicas, institucionais ou auto impostas, todas são exploradas por meio de materiais organizados de maneira simétrica, ordenadas sobre um chão de vidro estilhaçado por onde o observador caminha.

Associando a obra ao contexto no qual foi idealizada, é possível explorar de perspectiva mais histórica seu significado. A década de 1980 foi marcada pela esperança e apreensão diante da redemocratização do país. Por um lado, deixava-se para trás um passado sombrio; por outro, adentrava-se então em um futuro ainda indefinido. Das diversas mazelas deixadas pelo regime ditatorial, ainda havia muito a ser feito no país para que de fato este se tornasse uma democracia estruturada e desenvolvida. Essa situação gerava na população um sentimento de superação, mas ao mesmo tempo de incapacidade de lidar com os novos desafios por vir. “Através” explícita de melhor forma esse conflito.

Os estilhaços espalhados pelo chão podem representar o fim do regime militar, uma das barreiras vencidas, enquanto ainda há outras barreiras que destacam as dificuldades que o Brasil ainda terá de enfrentar, problemas sociais como o analfabetismo, as intolerâncias, as desigualdades, entre outros. Estes cacos podem oferecer o risco de cortar-se ao pisar neles. Mesmo uma barreira já ultrapassada deixa suas marcas e machuca, como o regime militar que ainda mancha a história do país.  A bola no centro simboliza o ideário de um país melhor que existe em cada brasileiro, de plástico, sem cor, dando a possibilidade de ser moldada de acordo com as expectativas de cada um. Todas as barreiras presentes na obra são objetos vazados, reticulados ou translúcidos, o que demonstra a esperança dos brasileiros que, mesmo com todas as dificuldades, visualizavam um futuro melhor.

Essa análise é baseada no objetivo de Meireles ao construir essa exposição. O vidro ao chão significa as barreiras que quebramos. O núcleo é a representação do sonho de todos aqueles que caminham por sua obra. Cada barreira disposta é uma barreira imposta na vida destes que os impedem de alcançar este sonho. As barreiras mais próximas do núcleo dificilmente são ultrapassadas pelos presentes, o que condiz com o significado delas: são as barreiras auto impostas. O que nos impede de conquistar nossos objetivos é, principalmente, nossos medos. Entretanto, quando chegamos ao sonho – seja este o sonho de Cildo ou mesmo o de cada um de nós – há um estranhamento e uma ligeira decepção: não é nada semelhante ao que idealizamos.

Como aponta o crítico de arte Luiz Camillo Osório, o relativismo é frequentemente associado à arte contemporânea e, quando a historicidade da obra não é considerada, há maior risco de que isso aconteça. Pensar na obra e em sua contextualização, garante maior sentido e entendimento ao trabalho do(a) artista. Presenciar a obra de Cildo proporciona um tipo de sensação, mas unir a obra à sua historicidade pode aumentar exponencialmente seu significado e as sensações em relação a ela.

“É imprescindível recuperar a inserção histórica daquelas obras, o modo pelo qual elas redefinem a inserção da arte na cultura contemporânea, de forma a não se cair no relativismo que suspende qualquer possibilidade de criação e ajuizamento”, determina o crítico em referência às obras produzidas na década de 1980.

A partir da análise, conclui-se que a obra é capaz de gerar um conflito no espectador. Proporciona sentimentos que se contrariam, como o de superação e apreensão, otimismo e dificuldade. Gera esperança, anseio e decepção. Decepção pensada principalmente no fato de que o Brasil, melhor para uns, não é o Brasil melhor para todos. A pluralidade de ideias, ideais, opiniões e sonhos garante que jamais todos os brasileiros estarão completamente felizes com o rumo político que o país possa tomar, seja ele qual for. O que não impede, e não vai nos impedir, de lutar, cada dia mais, pelo nosso ideal de melhoria.

Edição: Enrique Shiguematu

Ensaio apresentado à disciplina Sociedade & representação: o Brasil através das artes, ministrado pelo professor Bernardo Buarque, para alunos de primeiro período de Administração Pública, da EAESP/FGV, São Paulo