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Manic Pixie Dream Girl

Ana Vidal

Por          Vítor Steinberg

Emma Stone e Colin Firth em ''Magic in the Moonlight'' (2014), de Woody Allen. Fonte: imdb.com

Exprema-nos, somos azeitonas!” falou um dia James Joyce. O autor quis dizer que ao artista sempre vai sair um elixir sagrado de sua alma, não importa o nível de tortura por qual ele deva transitar. É o azeite, óleo abençoado do prazer, reluzente como ouro. Os crânios, as azeitonas. Exemplos crassos são Dostoievski, que no dia de ser fuzilado foi milagrosamente liberto, ou até mesmo Goya – que ficou surdo como Beethoven – e embarcou no reino de sua própria treva para nos trazer a beleza incomparável. Muitos aprenderam a amar a vida pela marra. Talvez aprendemos a amar um completo desastre?

Aquela menina da primeira série que aprendemos a amar, desde quando saía do Vectra 95 de sua mãe e entrava na escola em pleno slow motion. Parecia que tocava a trilha sonora do Twin Peaks enquanto ela simplesmente chegava na escola. Se se sentava mais a frente na classe, era como observar o céu estrelado nas pintas de sua nuca. A qualidade do nó de seu cadarço, o impacto de ver pela primeira vez o tipo de letra manuscrita num bilhete enviado às escondidas debaixo da mesa. Hoje ela é ortodontista e casada com um empresário dono de um lava-rápido a seco no andar “Hortênsias” do estacionamento do Shopping Iguatemi.

O instagram conta tudo, quase uma fofoca desapercebida, você pode pulverizar corações, mas também pode ser uma grande decepção ver o ângulo que as pessoas escolhem, o tipo de abordagem que tratam suas imagens, as besteiras filtradas e – acima de tudo – o estado de suas vidas. Tem um lado sombrio seguir alguém que estudava com você há 15 anos. Ver o filho da pessoa, ligar os pontos e ver o que puxou do mãe e quanto puxou do pai, mini apostas babacas, perdas de tempo. Temos que sorrir diante da morte, afinal ela sorri o tempo todo para nós – talvez um Gim Tônica ajude aos desesperados sorrirem.

Sem dúvida aprendemos a amar muito mal. Somos muito mal-educados. Nem respirar sabemos direito. O encanto trovadoresco que temos pelas meninas? Categorizado, destruído, obra de dementes. E agora surgiu um quase-novo termo (nasceu em 2005 por um crítico de cinema norte-americano) – The Manic Pixie Dream Girl. Do século XXI já nascerem muitos neologismos, ainda em inglês (quando virão em chinês? Ou será hindu?) – um deles é este a qual daqui leva o título. Posso imaginar que seja o nome de uma das principais razões de sofrimento dos homens solteiros, os verdadeiros, não os do cinema, nem os dos seriados, sua derrocada punição histórica, um sadismo mental de infinitas proporções.

Explicando: Manic Pixie Dream Girl é aquela garota inventada por um roteirista ou diretor de cinema da qual no filme sempre acaba ficando com o cara mais inteligente, mais sensível, mais genial. É a garota mais linda do planeta terra, perfeita, gostosa, porém ama Bach, lê Schopenhauer e tem surtos de beatitude quando discute cinema, Godard, Dreyer.

É garota-problema-fetiche da ilusão perdida, sempre perdida, mas sempre dançando, descalça, onde for. Parece que a leptospirose ou o chikungunya jamais atingirão aquele algodão-doce de fofura e delicadeza comendo cachorro-quente de madrugada como se fosse o gang-bang que todo homem sonha, mas nunca perdendo a estirpe da lindeza de porcelana. Por isso “Pixie” – além de “maníaca” (a louca virada na pomba-gira) é fada, semi-deusa, quanto mais erra, mais bela fica, quanto mais se acidenta, mais poderosa, quanto mais atropela todo mundo como uma Valquíria nas nuvens, mais créditos, mais tatoos, mais seguidores.

Quanto mais louca, mais embriagada, mais livre de todas as burocracias e necessidades latentes do dia-a-dia, quanto mais deprê e junkie, se dança, está salva. Ela sempre faz tudo errado, tudo é uma merda, mas até irritada pê-da-vida vai ter alguém com um isqueiro no bolso pronto para acender o último cigarro quebrado na bolsa.

Lembrando Emma Stone no último filme de Woody Allen. Ruiva, gata, jovem, estudante. E toca Bach como Glenn Gould? Aham, sei sei, querido Woody. A garota cool que você encontra 06h30 da manhã numa loja de conveniências de um posto da Petrobrás, tomando um Nescafé maquinado e comprando um Free Ultra Lights, para diminuir sua culpa.

Provavelmente ela estará com o rímel escorrendo as maçãs da face, usando um par de havaianas colorido, nas unhas o esmalte roído. Sem dúvida ela vai puxar papo e, em casa, usar um moletom do Mickey comprado em 1998. A menina de boina e cigarro na frente da cinemateca francesa, a menina tocando violão com voz de rouxinol em frente a estação de metrô, com alguns discos impressos na gráfica do irmão estendidos pelo tapete embolorado.        

Manic – “mania, maníaca” e Pixie – fadinha estilo Sininho de Peter Pan, menina cool estilosa, original, armário e sapatos (até as havaianas) fazendo jus a paleta de cores de Wes Anderson, chá servido em objetos fofos comprados numa feira artsy do MIS (evidentemente a feira do MUBE, bem ao lado, nunca frequentada – público velho?). Anna Karina em Pierrot Le Fou, Eva Green em Os Sonhadores, Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo. Aí temos Kate Winslet em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Ela pega na sua mão e te leva para o show mais cool do ano no Cine Joia. Provavelmente de uma banda que você nunca ouviu falar enquanto ela sabe todas as letras e canta como uma taquara rachada.

Ela é sempre irônica e raivosa, tudo o que ela fala é imediatamente seguido por comentários de alta pesquisa filosófica e auto-flagelamento – ou pequenas piadas que transformam o que poderia ser levado a sério num parque de diversões agradável, um passeio de sábado a tarde nas ruas de Paris.

A Manic Pixie não deixa nada virar sério demais. A começar pelo relacionamento. Experimento perguntar: “estamos namorando”? Melhor dizendo, foge do que é sério. Morena de Angola com os chocalhos na canela, dança cigana dos sete véus, foge dos planos, rasga projetos, rasga corações, amizades e sai da curva para morar no matinho perto da estrada. Tudo, se houver lágrimas, vai ter pipoca num baldão lindo adquirido na 49a. Mostra.

Essa inquietação com paletas de cores e fofuras espalhadas como pózinho de pirlimpimpim de uma fadinha: ela sente prazer em ver o outro sentindo prazer. O mais importante é ver o outro sentindo prazer. Não ela. O gozo dela é ok, conquanto histérico ou misterioso, mas ela vai pegar na mão do “loser” e levar numa exposição estimulante no MAM. Para ver ele viver. Claro que lá no museu ela vai dar uma causada, falar com todo mundo, mas o lado palhaça é a necessidade de ver o coitadinho-companheiro ao mesmo tempo sofrer por ela e… rir.

Nada é muito sério, tudo é colorido, a amizade é colorida (às vezes só para ver um filme juntos, sem sexo), tudo tem brilho. E, diferente da realidade em que elas de fato escolhem o mais rico ou o mais bonito, no cinema os diretores e roteiristas fazem elas ficarem com o inteligente.

Pior: o inteligente-plágio. O diretorzinho hollywoodiano tímido, trêmulo, sem bolas. Aquele que coleciona livros da Taschen e nunca leu o conteúdo. Aquele que tem coleções da Cosac&Naify e nunca tirou o livro da estante. Aquele que não vê em “Açaí” de Djavan uma poesia impossível de decifrar. Aquele que ouviu a quinta de Beethoven, mas nunca a quinta de Mahler. Aquele que anda de Bike com a paleta de cores do Wes Anderson.    

Faz um mês que tem um ou dois glitters-pink de purpurina na minha carteira preta. Não saem nem com Veja Poder Oxigênio Ativo. Foi uma atriz do mundo real que jogou em mim no carnaval. Tenho certeza que ela estava fantasiada de fada.   

Por essas e outras é pungente dar uma olhada no seriado “Love” (2016), de Judd Apatow, na Netflix.  

Edição        Ana Vidal 

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