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Walter Benjamin e Paul Zumthor (I): um grão de contrassenso

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Os apontamentos ensaísticos do autor alemão concentravam-se na análise da dissolução da experiência comunicativa interpessoal deflagrada na vida moderna

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

“… todo conhecimento deve conter um grão de contrassenso…

Dito de outro modo, o decisivo não é a progressão

de conhecimento em conhecimento,

mas a rachadura no interior de cada um deles”.

Walter Benjamin

 

Iniciaremos nossa coluna em 2017 com uma série de quatro textos dedicados a dois autores que consideramos instigantes: o alemão Walter Benjamin (1892-1940) e o suíço Paul Zumthor (1915-1995).

Ambos se interessaram por acompanhar as variações da relação entre a tradição oral e a tradição escrita, ao longo de pelo menos três momentos da história do Ocidente: do século XII ao XV; do século XVI ao XIX; e durante o decurso do século XX. Tendo como fio condutor o desenvolvimento de um gênero literário, o romance, e de uma revolução tecnológica, a imprensa, Benjamin e Zumthor procuram fisgar o sentido histórico da literatura ocidental. As alternâncias da correlação entre oralidade e escrita no decorrer da história servem de base para uma reunião das interpretações feitas pelos dois autores acerca do fenômeno.

Meu interesse pelo assunto foi despertado em meio à leitura do famoso ensaio de Benjamin, escrito em 1936: “O narrador – considerações sobre a obra de Nicolai Leskov”. Os apontamentos ensaísticos do autor alemão concentravam-se na análise da dissolução da experiência comunicativa interpessoal deflagrada na vida moderna, com implicações comprometedoras ao porvir das narrativas coletivas tradicionais. Por seu turno, a busca por mais subsídios para a compreensão do declínio do narrador e da emergência do romancista na Europa, algo apenas apontado no ensaio benjaminiano, fez com que chegasse à obra do medievalista Zumthor, nascido em Genebra e falecido no Quebec.

Se Benjamin é hoje bastante conhecido nas universidades brasileiras, e pelo público em geral, sobretudo seus conceitos de rastro, aura e história, o mesmo não ocorre com Zumthor. Este começou a ser traduzido no Brasil apenas no final dos anos 1980. Naquela ocasião, seu primeiro livro aqui aparecido intitulava-se “A Holanda no tempo de Rembrandt” e descortinava os costumes da vida cotidiana naquela região setentrional da Europa, em meio à unificação das suas províncias, durante o período histórico do século XVII.

O contraponto Benjamin-Zumthor possibilita a abordagem da questão em um horizonte temporal mais lato. As contribuições teóricas do autor genebrino propiciam um complemento ao filósofo berlinense, na medida em que os períodos tratados se situam em um momento anterior e em um momento posterior à época moderna. O recuo dá-se com o exame minucioso de Zumthor da relação entre o texto escrito e a expressão vocal, durante uma fase significativa da Idade Média. Já o avanço ocorre com a sinalização positiva do suíço, no desfecho de seu livro A letra e a voz, para a valorização da imagem, da fala e da audição no âmbito da cultura de massas, tal como constituída no correr do século passado.

A nossa indagação central, a ser acompanhada nas próximas semanas, procura dar sequência à discussão levantada por Benjamin em seu notável ensaio sobre o narrador e a narrativa, incorporando as reflexões contemporâneas que identificam a tipografia como um suporte também em vias de extinção. Para isto, terminaremos essa série com a revisão das controvertidas postulações de Marshall McLuhan (1911-1980), teórico da comunicação cujas ideias são, até certo ponto, convergentes com as de Zumthor. Tal procedimento permitirá, nos limites deste espaço online, uma visada mais panorâmica sobre a trajetória e o destino da literatura, em meio às vicissitudes e aos intercâmbios do par oral-escrito na história ocidental.

Edição      Enrique Shiguematu

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