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Uma historiografia do Iluminismo (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

''Este assim se encontra apesar de toda a modernização produzida pelos déspotas esclarecidos…''

Para além dos homens e das sociedades ideais projetadas pelos grandes pensadores iluministas, o que dizer da realidade dos grupos e da massa anônima que vivia à época do Iluminismo? É esta a questão de fundo que perpassa a obra coletiva organizada por Michel Vovelle (1996), na qual o historiador francês periodiza o Iluminismo como o momento que se interpõe entre a ruptura do Barroco na era pós-tridentina e os efeitos paroxísticos produzidos pela Revolução francesa, com sua “pá de cal” no que se passa a denominar de estrutura política do Antigo Regime.

Apesar dessa periodização preliminar e desse vínculo social, a obra coordenada por Vovelle não se constitui à maneira, dir-se-ia um tanto apelativa, de uma “história vista de baixo”, oferecendo um perfil de personagens em sua maioria pertencentes à elite, em lista que inclui o nobre, o guerreiro, o homem de negócios, o homem de letras, o homem de ciência, o artista, o explorador, o funcionário, o padre e a mulher.

Junto ao quadro humano e social, seria o caso também de se colocar a polêmica questão proposta por Roland Mousnier na década de 1950, acerca da natureza da sociedade setecentista. Afinal, pergunta o historiador francês, num diálogo com teorias marxistas e weberianas, trata-se de uma organização social baseada ainda em estamentos/ordens ou já estruturada em classes?

Não se trata, portanto, em nenhum dos dois autores, de interrogar o homem das Luzes em sua formulação ideal. Mais do que o homem abstrato e geral definido e fixado pelo Iluminismo na Enciclopédia, mais do que prescrever valores e virtudes, do que postular a liberdade do direito natural, busca-se o homem concreto e particular de uma Europa dividida entre campo e cidade, entre letrados e analfabetos, entre hierarquias de nobreza e desejos de ascensão social, entre sistemas políticos monárquicos e aspirações republicanas, entre defensores da fisiocracia e da economia política, entre guerras e epidemias.

Para compreender a realidade e a nova configuração da ordem social, é preciso fornecer um quadro demográfico da Europa do Setecentos, o que é possível aferir graças aos estudos quantitativos de um Labrousse, de um Mandrou (1988), de um Mousnier (1980). O crescimento demográfico, sobretudo na segunda metade do século XVIII, conforme sintetiza com clareza Hobsbawm em sua era revolucionária (2006), se mostra sensível na Inglaterra e na França, que passa de 20 para 28 milhões de habitantes, e alcança a Europa central e oriental – a Hungria, por exemplo, assiste a uma explosão populacional. As causas deste crescimento, segundo Vovelle, se encontram menos no controle das doenças e no avanço da medicina e das vacinas, e mais no recuo das epidemias, com a superação das taxas de natalidade sobre a mortalidade, o que vem a relativizar a ideia de uma consequência direta da política voluntarista dos agentes das Luzes.

Nas regiões urbanas consideradas mais evoluídas e prósperas da Europa, as atitudes coletivas face ao nascimento, à vida, à sexualidade e à morte começam a mudar. Para além da história quantitativa, é Phillipe Ariès (1975) quem estuda a figura da criança no seio da família burguesa e sua mudança de papel, adquirindo cada vez mais importância como uma idade especial e autônoma frente à vida adulta. A estrutura familiar se transforma pouco a pouco nessas regiões centrais, onde práticas como a contracepção são adotadas, notadamente a partir da década de 1770.

Contudo, deve-se assinalar que, por ocasião da Revolução Francesa, cerca de 85% da população se encontra concentrada ainda no campo. Embora já seja objeto de idealização por autores como Jules Michelet e Restif de la Bretonne, o que se pode constatar de maneira concreta é o crescimento da população e a ampliação de áreas cultiváveis. Em determinados lugares da Europa, chega a se falar em Revolução Agrícola: da Inglaterra aos Flandres, de certas áreas da França até o Rio Pó. Na Europa oriental, o cultivo de cereais também alcança vastos domínios.

A condição camponesa não acompanha no mesmo ritmo as conquistas técnicas agrícolas do mundo rural. Na França da segunda metade do século XVIII, o salário encontra-se estagnado. Os quadros senhoriais tradicionais permanecem inalterados. A Inglaterra, contudo, é quem começa a sinalizar para um sistema feudal em desagregação e já moribundo. Enquanto isto, o leste europeu conhece a época de sua “segunda servidão”, com o reforço dos laços de servidão.

Assim, a Revolução Industrial já está em curso nas ilhas britânicas, com formas de protoindustrialização sendo introduzidas na Europa ocidental. As inovações são mais notáveis no campo do que na cidade. Esta assiste a novos processos de dependência, com a decomposição de antigas solidariedades corporativas, cada vez mais influenciadas pelo progresso comercial e fabril. Por outro lado, para Pierre Chaunu, nem o campo nem a cidade conhecem ainda uma verdadeira revolução. Fazendo eco a este historiador, Labrousse considera que, apesar da entrada da máquina no mundo industrial do têxtil e da metalurgia, o século das Luzes é ainda movido pelo sistema de produção antigo. É certo, de todo modo, que a nova era já apresenta seus sinais no mundo urbano de Londres ou Paris, nas grandes cidades portuárias, bem como no comércio transoceânico.

A imagem da cidade entre os contemporâneos é ambígua. Ela é vista como lugar de perdição, da mesma maneira que espetáculo de luxo e miséria, corrompida sob diversos aspectos, com seu vapor poluente. Lugar de residência da aristocracia e da burguesia, ela apenas pouco a pouco se afirma na Europa ocidental, com novos hábitos, novas maneiras de ser e aparecer, tal como estudadas por Daniel Roche e Arlette Farge. A despeito das estruturas que permanecem imutáveis, como as guildas e as corporações, a modernidade pavimenta seu caminho.

Em relação a um dos símbolos do século das Luzes, a difusão da cultura letrada, Michel Vovelle contrapõe um noroeste da Europa majoritariamente letrado, fronteira que se estende da França setentrional até Genebra, a uma Europa meridional e, progressivamente menos letrada, do oeste ao leste europeu. Este assim se encontra apesar de toda a modernização produzida pelos déspotas esclarecidos na Rússia (Catarina), na Prússia (Frederico II) e no Império Austro-Húngaro (José II).

A grande extensão territorial que resta à margem do movimento das Luzes não deixa de conhecer transformações, conforme sustenta Maurice Agulhon, com uma evolução interna no sentido da secularização, em áreas onde predominavam as penitências e as confrarias religiosas. O terreno religioso é, aliás, um dos principais campos de batalha dos iluministas e incide mais sobre homens do que sobre mulheres, mais nas cidades do que no campo.

Ainda de acordo com Vovelle, o contraste de realidades europeias permite afirmar que a estabilidade das estruturas religiosas profundas coexiste com um mundo mais povoado, mais movimentado, onde a modernidade abre seu caminho através de novas maneiras de produzir, de ser e de parecer, mobilidade refletida nas atitudes e nas representações coletivas. No domínio cultural, como na economia e na sociedade, os polos de difusão das novidades se esboçam, em meio a zonas de sombra. Assim, uma cidade nova a ser criada, unificada segundo normas inéditas, se oferece à iniciativa voluntarista dos novos atores da transformação social e intelectual.

Esses, os homens das Luzes, trazem à cena uma temática que se divide entre o antigo e o novo, a liberdade e a opressão, a natureza e a história, a razão e o despotismo, a virtude e a libertinagem, o mérito e o ócio.

Edição      Enrique Shiguematu

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Uma historiografia do iluminismo (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

O século XVIII é conhecido pela historiografia tradicional por ter colocado o homem no centro de sua visão de mundo e organizado em torno dele a sua reflexão. A centúria retoma assim, à sua maneira, um dos princípios preconizados pelo classicismo no século XVI, depois de ter assistido, com o advento do Barroco àquilo que o historiador francês Paul Hazard (1961) chamou de “crise da consciência europeia”, entre 1680 e 1715. O Iluminismo representaria, portanto, a culminância de um movimento artístico-intelectual iniciado com o Renascimento, o que, todavia, não constitui um consenso, conforme pontua o professor Francisco Falcon (2004), em livro introdutório e homônimo: “Iluminismo” (Editora Ática).

Enquanto o historiador francês Pierre Chaunu (1971) vê o século das Luzes como ponto de chegada, como prolongamento da Idade clássica, outros postulam o “glorioso século XVIII” como ponto de partida para aquilo que se convencionou chamar modernidade. Esta consistiria no esvaziamento da plenitude metafísica de tempo e espaço, na invenção da ideia de progresso e na construção de uma ordem social que procura imitar as leis da ordem natural.

Mas, como se sabe, essa imitação só seria possível através do conhecimento da perfeição das leis da natureza, conforme já fizera a Revolução Científica do século XVII – Copérnico, Bacon, Descartes, Galileu, Brahe – o que reenvia à ligação com o passado assinalado por Chaunu. Em seu projeto de edificação social, os philosophes acreditaram ser possível conhecer as leis da sociedade e dotar o mundo urbano da mesma inteligibilidade racional própria e inerente ao mundo natural.

Antes dos iluministas franceses, os teóricos do liberalismo inglês vão considerar a natureza humana como a base dos direitos e das liberdades do indivíduo e como o ponto de partida da construção de uma nova ordem social em oposição ao mundo feudal, à ordem teocrática medieval e à monarquia absoluta.

Já a filosofia francesa, mais do que a reflexão transcendental, buscava reunir e sistematizar todo o conjunto de saberes e ensinamentos universais adquiridos e produzidos pela humanidade até o século XVIII. Visava, a partir deste saber, irradiá-lo para todo o globo e transmiti-lo sob a forma da universalização da proporcionada pela pedagogia e pela educação. Isto se concretizaria através da Enciclopédia, série de 30 volumes publicados a partir de 1751 por Diderot e D’Alembert.

Quer como continuidade quer como ruptura, o encadeamento temporal do século das Luzes na História moderna suscita polêmica. Em relação à ideia de continuidade, é o sociólogo inglês Geoffrey Hawthorn (1982), no livro “Iluminismo e dúvida”, quem aponta para um certo esquematismo presente na historiografia que convencionou apresentar a Revolução Científica, e aquilo que aconteceu entre os séculos XV e XVIII, como um progressivo embate entre Fé, de um lado, e Razão, de outro. A seu juízo, nada mais esquemático e simplificador.  De fato, segue ele, o Iluminismo lutou com todas as suas forças contra a superstição e o obscurantismo, mas é preciso frisar o quanto, desde a Renascença, a lei natural e a lei divina estão separadas, porém integradas.

O argumento central de Hawthorn é o de que há um deslocamento sutil no discurso que equaciona Deus, Natureza e Razão, de maneira que o primeiro elemento, antes separado, superior e anterior ao segundo, passa pouco a pouco a ser expressão deste, o que justifica e autoriza o conhecimento divino por intermédio do conhecimento natural.

Foi observado também que não é possível pensar numa homogeneidade exclusiva francesa em relação ao Iluminismo, posto que há inúmeras variáveis histórico-culturais importantes a serem consideradas, sobretudo três: a) O privilégio no racionalismo, com a elaboração de quadro conceituais e sistemáticos dedutivos, versus o privilégio no empirismo, em que a realidade empírica permite a indução e a generalização de teorias; b) as diferenças religiosas na Europa, entre católicos e protestantes, e suas especificidades na relação com o saber; c) as tradições políticas e a base social de cada país, com o predomínio seja da nobreza no caso francês, seja da burguesia no caso inglês.

Dito isso, o autor busca pensar as teorias sociais formuladas pelos autores ligados ao Iluminismo, como Montesquieu e Rousseau, que fornecem respostas a uma pergunta fundamental: se a natureza é uma expressão divina e se cabe ao homem conhecer a natureza, qual o lugar do Homem na Natureza, aqui no caso extensível ao que se concebe por Sociedade?

A indagação de Hawthorn implica uma antiga questão moral, junto a uma questão científica. Montesquieu, nobre barão de uma província francesa, em O Espírito das Leis (1748), se propõe a pensar na existência de uma lei e de uma justiça universais, mas percebe que as variações locais implicam em leis e justiças particulares. As variantes locais derivam de diferenças manifestadas no temperamento entre os homens, por sua vez originadas das oscilações naturais, em fatores como o clima. Tem-se aí esboçada uma distinção entre o universal e o relativo, ainda que escorada no determinismo climático.

Já o lugar do homem na natureza, segundo o sistema rousseauniano, está relacionado à ideia de um contrato social e de uma liberdade civil, que entende não ser mais possível um refúgio na natureza primitiva do homem selvagem. Embora seja o homem corrompido pela sociedade, enquanto um “bom selvagem” vive à margem dela, sem seus vícios, a humanidade passou por 4 estágios, a partir dos quais conheceu a moral, o bem e o mal. Sendo assim, não cabe regredir a um passado idílico, nem é possível simplesmente abolir o mal.

A relação do homem com a natureza, por abrir mão de suas vontades meramente instintivas e individualistas, tem de fundar uma ordem social em que o ser humano seja consciente de seus direitos e deveres para com o outro e para consigo mesmo. Esta necessidade enseja o surgimento da democracia representativa e do sistema parlamentar, através do estabelecimento de constituições e de cartas de direitos civis.

Edição      Enrique Shiguematu

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As cidades europeias na Época Moderna (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

A alfabetização é diretamente superior em cidades onde aparece uma geografia mais urbanizada.

Entre as múltiplas funções das cidades, emerge na Europa moderna uma tripla hierarquia – religiosa, judiciária e administrativa. Esta hierarquização compreendia as instituições de comando, ocupada por intendentes, oficiais de justiça e de finanças, até escrivães de polícia. Por volta de 1715, o reinado da França compreendia 128 sedes episcopais, treze parlamentos, dez câmaras de contas, quatro cortes de ajuda, duas cortes de moeda, 31 intendências, dezessete universidades, cem tribunais de justiça e quatrocentas sedes administrativas.

A título de exemplo, a comuna francesa Le Puy, com população em torno de quinze mil habitantes, que compreende um artesanato numeroso e múltiplas atividades de fraca envergadura, é dominada pelo padre, pelo tribunal de justiça e por alguns negociantes. As cidades de fronteira têm com frequência uma função militar, supervisionadas em geral pelo arquiteto francês Vauban (1633-1707), enquanto as cidades portuárias tinham uma vocação comercial que vinha do período medieval, como as várias cidades atravessadas por rios – Orléans, Tours (cidade têxtil) e Lyon, por exemplo. A atividade industrial permanece na esteira do comércio, como em Amiens e Beauvais.

Os limites da paisagem urbana explicam o pequeno número de criações nas cidades, concentradas na segunda metade do século XVII. Trata-se de praças bem demarcadas, como um tabuleiro de xadrez, em fronteiras como a Lorena, a Alsácia, os Alpes e os Pireneus. Nenhuma dessas cidades-casernas conheceu um desenvolvimento demográfico. Novos portos, no entanto, são criados: Brest, Lorient, Rochefort e Sète. Mas as únicas cidades realmente prósperas são Versalhes, com 25 mil habitantes em 1715, e dois portos na Bretanha: Brest, uma base militar, e Lorient, um entreposto.

Todos os dois são cidades coloniais, pela justaposição de bairros baixos bretões, habitados por camponeses e analfabetos, e de bairros franceses, com sua elite dirigente e citadina vinda de longe. Nas cidades antigas, os muros fortificados permitem apenas uma remodelagem mais ou menos importante. Mas, se durante o primeiro terço do século XVII numerosos trabalhos foram feitos para consolidar o entorno das cidades, em Paris Vauban empreendeu um trabalho de derrubada de seus muros de pedra. As mudanças são possíveis pelo loteamento de grandes partes e pela construção a partir de então em vertical.

Mas os intendentes limitam a autonomia de decisão dos magistrados em relação ao traçado das ruas, à definição da arquitetura e à estética dos edifícios. O alargamento era às vezes decidido pelo próprio poder monárquico, as ampliações mais importantes sendo aquelas ocorridas em Lille e Marselha, onde as cartografias de 1666 previam a duplicação da superfície pela extensão a leste e a sul. Estas decisões permitiam a abertura do tecido urbano, mas somente uma minoria de privilegiados se instalava na nova zona: mercadores, oficiais, entre outros. Assiste-se à incorporação dos subúrbios em Tours e Aix-en-Provence, e à extensão do espaço aplainado em Grenoble e Toulon.

De maneira geral, essa política visa a reforçar as fortificações, a defender a cidade contra as epidemias e a conferir mais dignidade à ordem urbana. Enfim, a estreiteza da praça disponível impedia edifícios altos, com um máximo de quatro andares, e a construção de casas novas. Uma das mudanças arquitetônicas do Seiscentos é a substituição da madeira pela pedra, por causas econômicas e psicológicas que decorrem do prestígio do modelo parisiense. Em Paris, uma das inovações é a criação da Praça Real – atual Praça de Voges – construída como um lugar de habitação para a elite e como um espaço ritual para a celebração da monarquia. Antes de construir a praça, algumas cidades fazem a estátua de Luís XIV. Duas ordens sociais têm papel ativo na arquitetura urbana: o clero e a nobreza.

A Reforma Católica influencia uma construção religiosa ativa, com seu tempo forte situado entre 1600 e 1650. A atividade se traduz, sobretudo, na criação de numerosas casas religiosas, que modificam a decoração da cidade e alteram os modos de ocupação de terrenos próximos. Já o habitat aristocrático conhece uma significativa mutação: isolamento das construções vizinhas, sendo que o domicílio sobre a rua é substituído por um muro e um portão, no interior do qual se localiza a casa.

Os corpos oficiais municipais se caracterizam no século XVII pela intervenção crescente do poder central e por um aprofundamento das diferenças sociais. As instituições se organizam segundo formas diversas. Um pouco por toda a parte, o poder urbano é distribuído de maneira desigual entre um corpo restrito de cônsules e de magistrados e um conselho submetido ao poder central. O assento eleitoral dos cônsules e dos magistrados é reduzido em todas as províncias francesas. Entre as competências municipais, a preocupação fiscal é obsessiva. Os outros setores dizem respeito à assistência, aos fiscais das vias de ligação entre cidades e aos fiscais de impostos. Em algumas cidades, as funções administrativas são enobrecidas, com a formação de uma nobreza municipal.

A tutela monárquica se traduz na modificação autoritária de numerosas constituições urbanas, seja no momento seguinte à Liga católica, seja nas cidades rebeladas após da guerra civil da Fronde (1648-1653), como Marselha, seja nas cidades anexadas ao Reinado, como Lille e Besançon. O poder Real aproveitava-se também das discórdias frequentes e dos endividamentos para reforçar seu controle. O século XVII assiste a uma degradação das liberdades municipais por etapas: pela redução do número de eleitores, depois pelo decréscimo de magistrados, enfim pela criação em 1692 de oficiais municipais estreitamente ligados à monarquia, o que deslegitima todos os antigos mecanismos de nomeação local.

Face à perda de poder das províncias, os magistrados reagem às vezes com uma afirmação simbólica da cidade, passando a valorizar a sede da prefeitura (o Hôtel de Ville), por exemplo. No século XVII, são construídos novos e numerosos prédios, que possuem em geral três novas características da ordem municipal: os sinos, os relógios e as decorações das salas interiores. Ao mesmo tempo, valoriza-se a memória e a história é percebida como cimento da consciência urbana, capaz de afirmar a ancestralidade da cidade e projetá-la como monumental.

No curso do século XVII, assiste-se a uma repressão progressiva a práticas de sociabilidade da juventude, com a reprovação das confrarias festivas e das sociedades báquicas. Uma nova prática social urbana surge nas camadas mais intelectualizadas: livrarias, salões, o cultivo da erudição e da amizade. Estas reuniões intelectuais fervilham no final do século com a criação das Academias, pontos de encontro e de socialização, onde inclusive as mulheres têm espaço, que se tornam espaços de distinção da elite francesa frente aos meios populares e que continuam presos à língua regional de origem.

A Igreja tridentina, por sua parte, esforça-se por controlar e frear os lazeres, multiplicando as procissões que dão ritmo às festividades e lutando contra a dança e a máscara carnavalesca. A festa urbana evolui da participação comunitária ao espetáculo consentido. As cerimônias, como as entradas reais, tendem a ser reduzidas a um fogo de artifício e a instituir uma ordem urbana em separado. O povo, que tinha um papel ativo nos jogos e nos espetáculos, passa a ser um simples espectador.

As elites começam a cultivar lazeres próprios, como o teatro de Molière, Racine e Corneille. As trupes itinerantes chamam a atenção da burguesia letrada e bem aquinhoada. Em contrapartida, os meios populares, segundo descrevem os célebres estudos de Mikhail Bakhtin (2002) e Peter Burke (1999), cultivavam de há muito a “cultura da praça”, em particular nos dias de feira, com as mostras de animais, com os malabaristas e com os teatros populares.

Uma das especificidades do século XVII é a forte progressão da cultura letrada no meio urbano, sob a forma de escolas e de livros, na sequência do advento da imprensa. Durante os primeiros decênios, coloca-se em ação uma rede de estabelecimentos de ensino religioso que privilegiam as cidades segundo as funções administrativas e eclesiásticas. Somente pequenos institutos são criados em cidades entre três e cinco mil habitantes. Nestes, o essencial da rede é constituído por jesuítas.

Os Colégios – lembre-se a criação do afamado Collège de France – tornam-se um privilégio urbano, pois o recrutamento é limitado e os alunos dos meios modestos são proporcionalmente menos numerosos, sobretudo depois de 1660. O ensino elementar assiste a uma notável impulsão nas cidades da Reforma Católica, que multiplicam as pequenas escolas, instituem o ensino caritativo gratuito para crianças pobres e beneficiam também, em 1700, as escolas de irmãos cristãos, em cerca de vinte cidades francesas. Surge também o ensino feminino assegurado por congregações para os meios modestos, as escolas ursulinas voltadas para a alta burguesia em uma centena de cidades.

A alfabetização é diretamente superior em cidades onde aparece uma geografia mais urbanizada. Em Amiens, os bairros de mercadores são mais alfabetizados que os bairros de trabalhadores. Em Rouen, percebe-se um decrescimento das taxas de alfabetização a partir do centro que assume a direção religiosa, administrativa e comercial.

Na França do Norte, menos de 50 a 75% da população urbana masculina é alfabetizada em 1700. A alfabetização favorece a imprensa, presente em 132 cidades em 1700, a circulação de livros de catecismo e de almanaques, as livrarias que se tornam espaço de sociabilidade e as bibliotecas no mundo da escrita e dos ofícios. Nos estratos mais largos, circulam livros populares difundidos sob a forma de folhetos – os “colportage” estudados por Robert Mandrou na chamada Bibliothèque Bleue de Troyes, conforme estudado por Jacques Revel – de maneira que, em 1700, o chamado processo de aculturação escrita é largamente adotado nas cidades.

Tal processo contribui para ampliar a dominação sobre o campo. A imigração rural torna-se uma necessidade que tende a manter o equilíbrio demográfico. O aumento da demografia acentua o problema da distribuição socioeconômica, regulada por um mercado mal organizado e frágil. O menor desregramento na produção é suscetível de gerar a carestia e a ausência de alimentos. As transferências urbanas são pesadas: em 1700, a cidade se atribui dois terços da renda fundiária, com vinte por cento da renda agrícola aos proprietários e detentores de direitos senhoriais e eclesiásticos. Numerosos citadinos compram títulos senhoriais, enquanto nobres tendem a se instalar na cidade que concentra o essencial dos meios de pagamento.

Segundo Roger Chartier, no século XVII a cidade é a sede de um poder de comando temporal e espiritual, com funções tanto econômicas quanto políticas, tanto psicológicas quanto culturais. Mais do que na produção, o ideal urbano assenta no aluguel da propriedade, na administração e na mercadoria, fonte de poder citadino.

Edição      Enrique Shiguematu

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O dia de ser feliz é hoje!
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Por Marcio Samia

No dia 20 de março, apesar de não ser amplamente divulgado, comemorou-se o dia mundial da felicidade. Como tenho escrito por aqui sobre vida criativa achei que poderia ser interessante abordar esse tema, especialmente porque no mesmo dia mundial da felicidade também se comemora um outro dia muito curioso: o dia nacional do contador de histórias.

Por esse motivo, peço licença para reproduzir aqui uma das histórias que meu avô contava, e que ouvi quando ainda era criança, lá em Minas Gerais na pequena cidade de Delfim Moreira, um vale encantado e habitado por lendas e causos que povoavam a imaginação das crianças daquele pedacinho esquecido de terra.

Ele contava que muito antigamente, lá quando Deus criou o homem, Ele o fez completamente à sua imagem e semelhança. Mas quando havia quase concluído sua tarefa, percebeu que tendo um corpo, força e inteligência semelhantes ao Seu, estaria na realidade criando deuses e, portanto, seria necessário retirar algo dessa divina criação, para que a obra se diferenciasse do Criador.

Resolveu então tirar a felicidade daquela criatura, mas restava agora decidir onde esconder aquele dom tão precioso, já que com a força e a vontade que deu ao homem, este poderia escalar até a mais alta das montanhas. Com a inteligência poderia criar alguma máquina que navegasse até os mais longínquos oceanos e até mesmo esconder em outro planeta seria inútil, pois a curiosidade e a ambição faria com certeza com que os seres humanos buscassem incessantemente a felicidade, onde quer que ela se encontrasse.

Após muito pensar, Deus sabiamente decidiu colocar a felicidade no único lugar onde o ser humano demoraria a encontrar – isso se encontrasse.

Buscando pelo dom em todos os lugares existentes (e até mesmo nos objetos), certamente demoraria muito até pensar que o único lugar onde de fato a felicidade poderia estar era dentro de si mesmo.

E desde então tem sido assim: o homem passa a vida toda buscando a felicidade em vários lugares / coisas / pessoas e se esquece de olhar para dentro de si, onde Deus guardou o dom de ser feliz.

.   .   .

Essa pequena história (e muitas outras que ouvíamos sentados ao lado do fogão a lenha ardendo em brasas), servia muito para que nossas noites sem energia elétrica ganhassem um pouco de iluminação. Assim iríamos deitar para dormir pensando em como era mais importante descobrir a felicidade em pequenas coisas, como subir num pé de jabuticaba ou na graça que tinha a risada sem dentes do vizinho ao lado, do que na frustração incessante de querer o brinquedo mais moderno que existisse no momento, já que não teríamos condições de adquiri-lo.

O tempo passou e a vida na cidade grande de São Paulo me fez entender o que é que meu avô estava preocupado em nos explicar naquelas palavras tão simples. Muitas vezes a vida e nosso meio nos cobram tanto que para “parecer” que estamos nos dando bem nos preocupamos demais com o que temos, mas aí acabamos deixando de lado o que somos. E junto com isso deixamos de nos alegrar com a incrível imagem de um pôr do sol na estrada porque estamos preocupados demais com outras coisas que temos que fazer depois, e aí não percebemos que depois pode ser tarde demais para um abraço, um beijo, um carinho… que o único dia que temos é hoje. E o único momento de ser feliz, é agora!

Edição: Enrique Shiguematu


As Cidades Européias na Época Moderna (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Londres, a propósito, contava quase seiscentos mil habitantes, ultrapassando Paris com 530 mil.

Segundo o historiador francês Bernard Vogler, a Europa de 1700 possuía dois agrupamentos urbanos principais: Flandres e o norte da Itália, este último acompanhado por índices de urbanização importantes. Na Europa central e oriental, em razão da presença germânica na direção leste, é possível assinalar a existência de um número elevado de grandes cidades – Praga, Viena, Breslau, Moscou, Belgrado –, com pelo menos mais de quarenta mil habitantes. No extremo oposto, nas ilhas britânicas e na Escandinávia, a rede urbana encontrava-se ainda pouco desenvolvida, à exceção de Londres, Dublin, Estocolmo e Copenhague.

Londres, a propósito, contava quase seiscentos mil habitantes, ultrapassando Paris com 530 mil. A terceira cidade europeia é Nápoles, com cerca de trezentos mil habitantes, seguida de várias cidades italianas com uma população em torno de cem mil, como Veneza, Milão, Roma e Palermo, todas cidades importantes do ponto de vista econômico. Sublinhem-se ainda cidades holandesas como Amsterdã, Leiden, Roterdã, Haarlem, Haia e Delft que, juntas, somam mais de quatrocentos mil habitantes, o que põe em evidência o importante papel urbano-comercial ocupado pelas Províncias Unidas à época.

As estruturas sociais, muito variáveis segundo as cidades e suas funções, se caracterizam por uma dupla natureza. Uma estrutura vertical, que tende a se diluir do topo à base, reúne os ofícios e as diversas corporações de trabalhadores, nos quais cada uma mantém seus próprios ritos, suas reuniões e suas festividades, que favorecem uma forte endogamia.

Na estrutura horizontal, existe uma divisão tripartite fundamental, que tende a se reforçar no decorrer do século. No topo, uma oligarquia urbana, principalmente composta de proprietários de terras, de negociantes e de oficiais, que constitui em geral menos de 10% da população. Esta minoria oligárquica é às vezes enfraquecida por rivalidades internas, como aquelas que dividiram negociantes na cidade portuária de Bordeaux, no sudoeste da França. Esta oligarquia obtém seus dividendos, domina o mundo intelectual e artístico e participa, por extensão, do poder real. Nas cidades parlamentares, o meio judiciário, que constitui entre 7 e 8% da população, detém entre um terço e a metade da riqueza.

Já as classes médias são representadas pelo artesanato e pelo pequeno comércio, enquanto os estratos inferiores, compostos por diaristas, empregados domésticos – muito numerosos e com frequência solteiros – e pobres, representando às vezes 50% da população. Estes se submetem ao subemprego, que atinge de 25 a 50% da dependência econômica, tendo de confrontar-se ainda às incertezas do futuro.

Segundo Vogler, esse é o quadro mais geral político-econômica que estrutura a sociedade urbana europeia do Ancien Régime. Numa palavra de síntese, o século XVII conhece uma consolidação da oligarquia – a despeito da crise aristocrática britânica estudada por Lawrence Stone (1965) –, um enfraquecimento da plebe e uma fragilização da classe média, sendo esta duramente atingida pelo incremento do fisco, levado a cabo pelo ministro francês, o Cardinal de Richelieu nos anos 1630. Em virtude disto, a tensão se acirra e as insurreições urbanas tornam-se numerosas. Face à pauperização, várias cidades colocam em prática o cercamento dos pobres, com êxitos diversos: trata-se de uma ação tripla, com vistas a isolá-los, a submetê-los ao trabalho e a evangelizá-los.

No caso específico das cidades francesas do Ancien Régime e de sua organização social, sobre as quais iremos nos deter nesta resposta, a importância de sua rede urbana provincial é evidenciada na medida em que 43 cidades, à exceção de Paris, ultrapassam a escala das dez mil pessoas. Em termos demográficos, o grupo mais importante aglutina entre 15 e 25 mil habitantes e, destes, a maioria não passa de vinte mil. As grandes capitais provinciais são em número de nove, sendo que apenas Lyon se aproxima da escala dos cem mil.

Na historiografia corrente, o século XVII aparece à primeira vista como um período de imobilidade. Apesar disto, é possível afirmar que as cidades conhecem mudanças consideráveis. Na França, em particular, sua população passa de 14% – aquela do reinado em 1600 –, para 17%, no fim da mesma centúria. Na base desta estrutura demográfica, encontra-se uma multidão de pequenos mercadores enraizados no meio rural, com um artesanato ativo. Estes mercados constituem dois níveis, um primeiro entre mil e dois mil habitantes e um segundo em torno de cinco mil habitantes. Tais cidades serviam tanto de residência para as elites quanto de mercado de troca entre produtos agrícolas e artesanais, que mais tarde vão dinamizar os primórdios no processo industrial na Grã-Bretanha.

Em nível de adensamento urbano superior, havia em 1700 cerca de sessenta cidades com mais de dez mil habitantes. Elas eram numerosas ao noroeste da França, ao longo dos grandes rios, assim como no lado do litoral mediterrâneo, como Marselha. A rede urbana geral variava segundo a região, sendo fraca em regiões montanhosas, mas forte no Languedoque, na Aquitânia, no corredor de rios como o Rhône e Saône, na bacia parisiense, na região de Flandres e na Alsácia. Na Bretanha, as cidades se caracterizavam por um policentrismo vigoroso.

As cidades em expansão eram grandes praças portuárias e comerciais do Atlântico, como Nantes e Marselha, e cidades com atribuições políticas, o que confirma o papel crescente do político. Neste ponto, entretanto, há uma divergência entre os historiadores franceses. Para Jean-Pierre Poussou (1983), que estudou a estrutura das cidades nas ilhas britânicas do século XVIII, a atividade urbana tem, primeiramente, um papel econômico, mesmo se Londres exerça uma função política de destaque. Poussou se opõe, desta maneira, ao pressuposto de Georges Duby (1980), para quem o papel primordial da cidade não é econômico, mas político. Para o organizador do compêndio História da França urbana, a cidade se distingue na paisagem e no meio que a circunda como um ponto de enraizamento do poder. O Estado assim engendra a cidade.

Não obstante, ainda em relação à França, seguindo o raciocínio de Vogler, que endossa a perspectiva de Duby, algumas localidades tornam-se centros regionais graças a funções políticas, como Grenoble e Brest. A hierarquia das grandes cidades se modifica ligeiramente com o recuo de Rouen e de Toulouse, e a subida de duas cidades recentemente anexadas, Lille e Estrasburgo, transformadas em capitais administrativas, mantenedoras da fronteira.

Após ter conhecido um ritmo de crescimento rápido no século XVI, as cidades francesas assistem a uma evolução mais diversificada e contrastada no século seguinte. A grande maioria das urbes da França se beneficia do desenvolvimento econômico na primeira metade do século, seguida de uma inflexão na segunda metade. A taxa de crescimento anual médio cai de 0,53% em 1600 para 0,19% na segunda metade do século. Entre as causas da redução, figuram as crises populacionais provocadas pela fome e pelas epidemias, mais mortais nas cidades que no campo. Cada crise atinge de 10 a 20% da população e interrompe seu dinamismo durante vários decênios.

De 1640 a 1700, a população de Rouen, por exemplo, cai de 75 para 60 mil e aquela de Angers assiste a uma redução de 34 para 30 mil entre 1650 e 1680. Uma das hipóteses para o recuo se liga à revogação do Édito de Nantes, em 1685, que provoca o êxodo massivo em certas cidades devido à presença huguenote e às guerras de Luís XIV.

As ameaças navais britânicas sobre as regiões costeiras da Picardia, da Normandia e da Bretanha, e as ameaças militares sobre as fronteiras de Lille a Berfort, provocam um esvaziamento dessas cidades. Dois comportamentos majoritários se esboçam: as cidades que tiveram um grande desenvolvimento no século XVI vão diminuir seu ritmo de crescimento, como no caso de Nantes, de Saint-Malo e de Grenoble, enquanto aquelas que tiveram apenas uma progressão lenta irão conhecer a estagnação. Algumas cidades antes dinâmicas tornam-se inativas, como Toulouse.

Edição      Enrique Shiguematu

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Walter Benjamin e Paul Zumthor (IV): ocaso da civilização escrita?
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

McLuhan aponta para o estágio atual de transição de uma Era Mecânica, assentada no livro, a uma Era Eletrônica, alicerçada na televisão.

“… as relações de comunicação constituem

a estrutura de sustentação e desenvolvimento

de todo o processo da história”.

In: Civilização escrita e cultura de massas

Emmanuel Carneiro Leão

A conclusão da série sobre a oralidade e a escrita no mundo moderno será feita na coluna de hoje com apoio nas ideias de Marshall McLuhan (1911-1980). A leitura do canadense suscitou-nos a identificação de alguns pontos de contato das teses do autor com os textos de Benjamin e Zumthor. McLuhan aponta para o estágio atual de transição de uma Era Mecânica, assentada no livro, a uma Era Eletrônica, alicerçada na televisão.

Segundo sua formulação, divulgada nos anos 1960 com “A galáxia de Gutenberg”, o alfabeto e a imprensa foram os dois instrumentos principais para o desenvolvimento da escrita na história ocidental. O influxo de uma nova revolução tecnológica no século XX coloca em xeque os fundamentos da civilização calcada na leitura.

O alfabeto foi responsável não apenas pela promoção do ato de ler em nossa sociedade, mas também pela hipertrofia do olhar em detrimento dos demais órgãos dos sentidos. Estes até então se integravam em um conjunto harmônico de percepção do mundo, sem noção de perspectiva. O desequilíbrio sensorial acarretou o fim da vivência totalizadora e instaurou uma visão, por assim dizer, unidimensional. A separação entre realidade e palavra estabeleceu a necessidade de um grande esforço do ser humano na decodificação e na decifração da linguagem alfabética.

Já a imprensa substituiu o papiro e o pergaminho, típicos do Império Romano e da Idade Média, pelo livro e pelo papel. Estes possibilitaram o alargamento do alcance de uma mensagem, ao mesmo tempo em que fundou uma relação interpessoal entre autor e público, entre remetente e destinatário. Como veículo abstrato, a obra impressa dispõe informações, baseadas na relação cognitiva olho-cérebro. Mas de forma paralela acentua o individualismo, isolando o homem da participação e da convivência interpessoal.

O aparecimento da noção mcluhiana de aldeia global permite ao homem contemporâneo a recuperação da ideia de uma unidade comunitária, de uma totalidade vital e de um novo equilíbrio entre os órgãos dos sentidos. Diante da televisão, a civilização escrita vê-se reduzida em razão de seu caráter linear e fragmentário, causal e sequencial. Os laços globais do ser humano procuram ser refeitos em meio a uma mutação radical no universo da comunicação.

O ponto de convergência dessa tese com o pensamento de Benjamin diz respeito à suposição de que a imprensa segregou o convívio direto de pessoa a pessoa, ante a dissolução dos vínculos comunitários. A comunicação oral tornou-se qualitativamente distinta de um mundo embotado de informações.

De acordo com o filósofo Carneiro Leão: “Mesmo quando uma conversação é aparentemente menos carregada de informação, o simples fato de falar em grupo, de se estabelecer um encontro, mobiliza uma participação do todo. A palavra escrita só tem uma forma. O livro é uma forma para todos. Um interlocutor, ao contrário, é uma totalidade, dando e tomando parte num conjunto”. (Aprendendo a pensar I, Petrópolis: Vozes, 1991, p. 160).

Quanto a Zumthor, as semelhanças com as perspectivas de McLuhan dão-se na ênfase da literatura como um fenômeno pontual e transitório na história do Ocidente. Neste sentido, a volta do predomínio da fala e da audição na cultura de massas, através das séries radiofônicas e televisivas, por exemplo, possibilita uma projeção mais auspiciosa para a tradição oral e menos alvissareira para a tradição escrita em nossa sociedade, no limiar da humanidade do terceiro milênio.

Edição      Enrique Shiguematu

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Quer algo pós-moderno? Latte Art!
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Por Enrique Shiguematu

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No desespero de sair da situação de desempregado. Cogitei oportunidades de virar barista, um profissional especializado em bebidas baseadas em café. Curiosamente as vagas de barista, diferente de quase todo o resto do mercado trabalho, não exigem inglês, nem excel, nem ''cabeça de dono'', nada disso. Nem precisava comprovar experiência! Para virar barista, bem, a única coisa que precisava era curso de barista. Eu não tenho curso de barista. É. Grande novidade.

Mas não me desanimei. Assim como aprendi fotografia com os infinitos tutoriais do Youtube, poderia aprender a arte do barista, certo?

Nunca estive mais enganado.

Sim, você encontra bons vídeos que lhe mostram os passos corretos de como fazer um espresso, como esquentar o leite no vapor, qual é a diferença de um capuccino para um latte… Um mundo à parte. A atenção perfeccionista para os pequenos detalhes e procedimentos e opiniões de paladar que ficam próximos à pedância dos sommeliers definitivamente me indicaram para não mergulhar de cabeça no mundo café, por mais ''romântico'' que seja trabalhar numa cafeteria. Definitivamente não sou um cara dos detalhes e se você encontrou um erro de ortografia, vire barista. O mundo precisa de mais pessoas atentas ao seu café.

Por que digo isso? Já viu Latte Art? É uma técnica super-difícil na qual o barista ''desenha'' com leite no seu café. Quando digo super-difícil, eu quero dizer realmente difícil, como encostar a sua testa na ponta do seu pé. Bem, talvez eu esteja exagerando, mas não achei nada na internet que me indicasse que é algo trivial.

É tão não-trivial,que chega a ser uma experiência que vale mais que o café em si. Um pingado de padaria, mesmo com teoricamente mais leite e mais café, não vale, nem de longe, o mesmo que uma xícara bem executada de latte art. Se você fotografa um pingado e joga no instagram, provavelmente vai colocar de legenda #segundafeira #sono. Mas se você lançar nas redes sociais uma xícara com latte art, vai escrever uma mensagem que pode ser traduzida em #souchique #sourico #nãotomocafédeplebeu.

A experiência de saber que seu café foi feito com todo o ritual da máquina de espresso. De saber que um sujeito treinou anos e anos para fazer aquela xícara de ''café com leite'' vale mais que a bebida em si. A atenção que devia estar voltada ao sabor da bebida se redireciona para sua estética. A sobrevalorização das experiências é um elemento claro da pós-modernindade. Latte Art é um excelente exemplo de como, num mundo onde parcelas da população usufruem de abundância e excedentes relativos, as atenções e demandas estão sendo redirecionadas para coisas cada vez mais exóticas e gourmetizadas.

Então não se esqueça, se o ''cafézinho'' ou o ''café com leite''está custando quase 10 reais naquela padaria um pouco mais sofisticada, lembre-se que é culpa da pós-modernidade!


Walter Benjamin e Paul Zumthor (III): da voz à letra
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O romancista é a culminância do indivíduo atomizado, isolado, do ser solitário carente de comunicação e incapaz de dar conselho.

 

A inflexão na relação entre a oralidade e a escrita é resultado da invenção da imprensa e da propagação do livro impresso a partir do século XVI. A escrita, até então condicionada às convenções da leitura em grupo, do domínio de conhecimento religioso ou da performance teatral, passa a ser uma atividade encerrada em si própria. Os efeitos dessa transformação no âmbito da literatura, longe de constituírem para Benjamin um mero sinal da decadência cultural do mundo moderno, significam um fenômeno global que se inscreve no processo dialético-secular das forças produtivas. No afamado ensaio do autor alemão, o narrador e o romancista serão os dois protótipos que encarnam essa mudança histórica entre o contar e o escrever.

A figura do narrador é constituída por oposição à do romancista. A cultura oral desagrega-se nos tempos modernos com a consolidação da tipografia. Tomando-se cada vez mais residual, entre o “rastro” e o “resto”, como sugerem Sabrina Sedlmayer e Jaime Ginzburg em coletânea dedicada a Benjamin, a faculdade de narrar e de intercambiar experiências é mantida apenas entre alguns expoentes da literatura, à maneira de um Nicolai Leskkov ou de um Edgar Allan Poe.

A narrativa desses contidas possui características que remetem, ainda que longínqua e remotamente, ao estágio de vida da era pré-industrial. Nesta, a maneira de contar, de compartilhar e de repertoriar histórias integra os homens de uma comunidade em um universo totalizador. O narrador condensa experiências pessoais e coletivas, vivendo-as, colhendo-as e as transmitindo a outrem de maneira direta, de pessoa a pessoa, de geração a geração. Desta forma, constitui uma cadeia de conservação e de perpetuação da memória grupal ou comunitária.

A transmissão oral é, pois, uma das marcas da narrativa, fazendo da vivência a matéria-prima para a passagem sucessiva de histórias e enredos tradicionais. Estabelece-se aí uma comunhão entre o narrador e seus ouvintes, na mesma proporção que entre um artesão e seus aprendizes. O ato de contar carrega em si uma moral, traz nele um ensinamento, guarda consigo uma lição de sabedoria, de caráter utilitário e prático em boa parte das oportunidades. A equivalência da arte de narrar com o mundo dos mestres, dos sábios e dos artífices é um dos pontos chaves do argumento benjaminiano.

Em Magia e técnica, arte e política, assim o ilustra: “A antiga coordenação da alma, do olhar e da mão, que transparece nas palavras de Valéry, é típica do artesão, e é ela que encontramos sempre, onde quer que a arte de narrar seja praticada”. (São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 221.)

Já o romance corresponde à vigência de um contexto histórico distinto. Se para György Lukács a criação romanesca constitui uma epopeia sem deuses, para Benjamin o romance é uma epopeia destituída de fala, sem voz, sem comunicação, sem experiência vital. Para tanto, o arco do romance do autor alemão se estende do cervantino Dom Quixote, no século XVI, até o flauberiano Educação sentimental, no século XIX. O romance, cuja ascensão foi historicizada de maneira minuciosa por Ian Watt em 1957, é a expressão literária da burguesia, quando as manifestações artesanais são suplantadas pela manufatura e pelo modo industrial capitalista.

O romancista é a culminância do indivíduo atomizado, isolado, do ser solitário carente de comunicação e incapaz de dar conselho. Distanciado de seus pares, está acima, mas dissociado do convívio com o seu leitor. Este, por seu turno, é aquela pessoa ávida por extrair da leitura de uma obra impressa algum sentido para a sua vida, pois ele próprio carece de realizações. A evasão do mundo destituído de significado permite ao romancista revelar a condição melancólica do homem burguês na sociedade moderna.

Em um livro do crítico brasileiro Álvaro Lins sobre um renomado escritor francês, A técnica do romance em Marcel Proust encontramos um exemplo ilustrativo do sentimento existencial do romancista moderno:

“A solidão de Marcel Proust, a que já aludimos no início desta obra, revela-se inteiramente no seu individualismo como na sua liberdade: ele não tinha nem ideologia, nem partido político, nem norma social, nem religião. Um espírito livre, porque solitário. Decidiu-se a exprimir a realidade de sua experiência vital, mas quando já não se sentia preso a qualquer das suas contingências. Fechara as portas do mundo” (Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1956, p. 177).

Lado a lado do romance, uma nova forma de comunicação se torna dominante com a consolidação da burguesia: a informação. A notícia, veiculada de modo primordial pelo jornal, não requer a transmissão de uma experiência ou de uma sabedoria, mas a verificação e a apreensão imediata dos acontecimentos diários. Por isto, a informação é uma dimensão fechada em si mesmo, passível de explicação pura, inconcussa e exata dos eventos ordinários, ao contrário da narração, inacabada e sempre franqueada à interpretação.

Com base nessas colocações de Benjamin, a análise das consequências da informação na relação entre a tradição oral e a escrita na contemporaneidade será o quarto e último passo dessa série, a ser publicada na próxima quinzena.

 

Edição      Enrique Shiguematu

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Marcio Samia

Algo sempre me chamou a atenção quando, nas minhas viagens, eu me encontro com pessoas determinadas a contradizer conceitos (e porque não dizer pré-conceitos) estipulados sabe-se lá por quem, mas que se tornam quase regras de como deve-se agir por causa da sua idade, gênero ou peso por exemplo.

Foi assim quando conheci uma vovó de mais de 80 anos percorrendo os 800 quilômetros a pé rumo a Santiago, ou quando encontrei uma jovem mãe solteira percorrendo o mesmo caminho com seu filho de 04 anos num carrinho de bebê reforçado. Também encontrei um rapaz com seus quase 40 anos e mais de 100 quilos, subindo a incrível Trilha Inca, rumo a Machu Picchu. Jovens de 18 anos conhecendo as geleiras da Patagônia, caminhando com sorrisos maravilhosos nos rostos e vivendo com poucos recursos, mas com muita alegria.

Esses são alguns poucos exemplos dos muitos que encontrei e continuo encontrando a cada vez que decido, não sem um friozinho na barriga, sair da minha deliciosa e viciante zona de conforto. Sim… esse limbo em que nos encontramos não sabemos exatamente o porquê, e que (quase sempre) nos impede de tentar algo novo a cada dia.

Obviamente a primeira reação das pessoas quando são colocadas contra a parede sobre o porquê de não fazer algo diferente, já que o que vem sendo feito não o motiva mais, é sempre parecida com uma frase padrão, mais ou menos assim:

                  – Não tenho mais idade pra isso…

Ou:

                  – Não tenho tempo…

Ou ainda, a mais conhecida de todas:

                  – Não tenho dinheiro pra fazer essas coisas…

Bom, nos últimos tempos tenho lido bastante sobre criatividade e sobre como trazer isso para o nosso dia a dia. Fui percorrer caminhos maravilhosos, me coloquei à prova para testar em mim mesmo se os conceitos (muitas vezes ousados) eram realmente aplicáveis no cotidiano de quem, assim como eu, leva uma vida normal (entenda-se por isso aquele cara que não vive no ambiente extremo da aventura no seu dia a dia).

Percebi que quanto mais eu me permitia conhecer pessoas, mais eu via que meus problemas cotidianos eram extremamente comuns, de certa forma até simples de serem resolvidos. Que existem muitas pessoas por aí se esforçando para viver uma vida extraordinária (sim, isso exige esforço) e conseguindo sucesso na sua empreitada (entenda-se por sucesso aquilo que te traz realização, e não simplesmente o nome do cargo que você ocupa na empresa que trabalha).

Claro que ascensão profissional e reconhecimento financeiro são importantes para se levar uma vida confortável. Mas quando isso se torna o principal alicerce na sua viagem (vida), perde-se o sentido das coisas simples, como um amanhecer na beira da praia ou um por do sol nas montanhas.

Percebe que isso não “custa” quase nada?

Contemplar o belo, admirar o simples, realizar um sonho e buscar o que é mais importante pra você muitas vezes é completamente possível com uma boa dose de planejamento, organização e coragem. Dos ingredientes citados, o mais importante é a coragem. Porque sair da zona de conforto, essa deliciosa e quentinha prisão a que nos submetemos, realmente não é tarefa simples, mas certamente é recompensador.

Ouvi uma frase (não sei o autor) que me inspira a cada novo desafio:

                  Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?

 

Desejo um excelente e criativo mês. A gente continua se vendo e Evoluindo por aí!

 

 

 


Walter Benjamin e Paul Zumthor (II): o “romance” medieval
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''Paul Zumthor dedica-se ao estudo dessa fase…''

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

“Etimologicamente haurido de Roma, romance indica o percurso de uma língua,

a latina, em seu modo próprio de desdobrar-se, em seu destino”.

Márcia de Sá Cavalcanti

 

Em A letra e a voz (Companhia das Letras, 1993), Paul Zumthor examina uma das gêneses do romance. Seu surgimento pode ser situado na segunda metade do século XII, em um primeiro momento no território que hoje corresponde à França e, em um segundo momento, ao que na atualidade se chama de Alemanha. Tal gênero literário, ainda embrionário, vai-se desenvolver de maneira lenta até o século XV, imerso de uma cultura oral dispersa e multívoca, em que a voz ocupa um lugar de eminência sobre o conjunto de expressões artísticas, cênicas e corporais do período.

A narrativa escrita permanece híbrida, jungida à elocução verbal, transformando-se de forma paulatina até o advento da imprensa no século XVI, quando a relação entre o homem e a linguagem sofre uma alteração profunda.

Paul Zumthor dedica-se ao estudo dessa fase, em que germina a ideia preliminar de romance e procura captar as linhas de força do gênero, ainda difuso e desconfigurado, nos textos de então. A sociedade medieval é marcada pelo predomínio da voz sobre a escrita, encontrando-se subordinada aos recitais e à audição comunitária. O prestígio da voz sobressai em uma paisagem, em sua grande maioria, ágrafa.

A ascensão do romance no século XII ocorre em um contexto de divisão da sociedade, segundo dois universos linguísticos básicos: a língua latina e as línguas vulgares. O latim é praticado por uma parcela assaz reduzida da população, com destaque para o clero e com ênfase na escrita. Já a língua vulgar é utilizada pela maioria da população e exercida primordialmente através da fala. As manifestações da língua vulgar dão-se entre os contadores de história, os jograis, os cantadores de gesta, os trovadores e os menestréis. Em uma atmosférica poética abrangente, esses extratos da sociedade valem-se da voz viva para dar azo a toda sorte de improvisação e malabarismo verbal.

O romance coloca-se de forma antagônica ao conto, sendo este pertencente ao tronco folclórico anônimo, menosprezado como gênero menor. Fixado em língua vulgar, o texto romanesco apresenta uma composição voltada para a leitura em grupo, revelando o trânsito fluido entre a oralidade e a escritura nessa fase. Por um lado, ele é uma adaptação de uma obra latina antiga, como a Ars amandi, de Ovídio, com vistas à glosa e à transmissão de boca em boca. Por outro, ele é uma transposição escrita de uma história propalada oralmente.

Os romances desse período dividem-se também em prosa e verso. O primeiro destina-se ao público cavalheiresco e nobre, ao passo que o segundo dirige-se ao intérprete e ao seu desempenho teatral. Os temas do romance em prosa são com frequência tristes e trágicos, enquanto os romances escritos são alegres e frugais. O romance medieval nutre-se de narrativas históricas baseadas seja na fantasia, seja nas reminiscências do narrador.

A indeterminação romanesca pode ser ilustrada nessa passagem do livro:

 

“… romance mal alinhavado, desprovido de unidade, parasitado por digressões adventícias, mas de um ardor em que se fundem numa liga brilhante mil elementos heterogêneos; de um verdor alternadamente cáustico, galante, heroico, enternecido; em que o verbo tanto adere à nudez do vivido quanto tremula ao vento das palavras como uma bandeira: alegre, levando seu ritmo sem muito cuidado de horários…” (p. 273)

Se os elementos variados do romance despontaram nos séculos XII e XIII, nos séculos XIV e XV, assiste-se a algumas cristalizações do gênero, com base no avanço de uma certa consciência da linguagem ficcional e na progressiva laicização da sociedade. O romance começa a se interrogar sobre a origem das “coisas”, interessa-se pela verdade, argui pela justiça. A noção de sujeito e personalidade aflora também, mas em um ritmo espaçado, vagaroso. Já o conto e as encenações orientam-se tão-somente na busca da diversão e do prazer, no intuito de satisfazer o protagonista e de entreter o seu público. O que então se chama de romance procura construir um universo à mercê do ser humano, ao invés do conto, cujo propósito é a fruição do mundo.

As diferenças entre o contador de histórias e o romancista vão-se delineando até a emergência da imprensa, no século XVI, quando os intercâmbios entre a letra e a voz são comprometidos. Uma ordem social, econômica e cultural amaina os contatos livres entre a linguagem oral e a escrita.

A conclusão de Zumthor é o elo a remissão ao ensaio de Benjamin, a ser tratado na próxima quinzena: “A difusão da imprensa fez cair os últimos obstáculos à constituição do que se tornaria, depois da ‘Idade Média’, uma literatura. Por fim, ela viraria de ponta-cabeça as relações entre o autor e o seu texto, entre este e seu público” (p. 282).

Edição      Enrique Shiguematu

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