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Categoria : Ensaios

Os anos de formação de José Lins do Rego (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

A capital pernambucana, em que José Lins viverá como estudante universitário, era então a cidade mais cosmopolita das regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Na última década do século XIX, o Nordeste foi palco de movimentos místico-populares, que pregavam mensagens difusas e que reclamavam, dentre outras, uma volta à Monarquia. Isto ocorreu, de maneira mais dramática e contundente, no arraial de Canudos (1896-1897), interior da Bahia, conforme relatou em obra semidocumental e semificcional o escritor Euclides da Cunha, no clássico Os sertões (1903). A epopeia mostra como um humilde beato foi capaz de arregimentar milhares de sertanejos e fazer pregações milenaristas contra a “República da desgraça”, mobilizando afinal quase todo o Exército nacional, que dizimaria o valente povoado.

Quando José Lins do Rego nasceu, em princípios da década de 1910, o governo republicano continuava a se deparar com manifestações messiânicas e contestatórias desse tipo. Durante quatro anos, entre 1912 e 1916, a região Sul do país foi palco de uma longa e sangrenta guerra, na divisa oeste entre Santa Catarina e Paraná, na área chamada Contestado. Deflagrada a partir de conflitos de terras entre camponeses e uma indústria madeireira, ela seria liderada por outros pregadores milagrosos, com os “monges” João e José Maria. O combate levou à mobilização de numerosas tropas do regime, sob o comando do marechal-presidente Hermes da Fonseca (1855-1923).

Se no interior do país ocorriam revoltas dessa natureza, nas cidades os primeiros movimentos de massa eram organizados por operários brasileiros, gerados logo após uma incipiente onda de urbanização e industrialização do país. Enquanto o Rio de Janeiro conhece a rebelião dos marinheiros durante a Revolta da Armada, em 1910, São Paulo assiste a uma impressionante Greve Geral em 1917, no mesmo ano em que, na Rússia, estoura a Revolução de Outubro.

Os trabalhadores de Recife não ficariam atrás e, em 1919, ocasião em que Zé Lins contava com seus 18 anos de idade, também organizam uma grandiosa paralisação, sob a presença de um líder operário personificado em Joaquim Pimenta, também conhecido como ensaísta e fundador do jornal Diário do Povo. Figura romântica, a quem faltavam os “predicados para uma liderança ordenada, tranquila e eficaz”, Pimenta protagonizará episódios que serão mais tarde retratados ficcionalmente por José Lins, no seu romance urbano O moleque Ricardo (1935).

A capital pernambucana, em que José Lins viverá como estudante universitário, era então a cidade mais cosmopolita das regiões Norte e Nordeste do Brasil. Em 1920, era a quarta capital mais populosa do Brasil, com 240 mil habitantes, sendo destes 15 mil operários. O grupo industrial mais poderoso da capital abriu as Casas Pernambucanas naquele período.

Nem sempre tinha sido assim. Ainda em princípios do novo século, Recife tentava superar as marcas coloniais que se estenderam durante todo o século XIX, com ruas acanhadas, imundas e desagradáveis, sendo uma cidade considerada até então velha, bolorenta e em decomposição.

Deve-se atentar ainda para o fato de que Recife, ameaçada pela presença holandesa no século XVII, somente começa a ganhar importância no cenário político-econômico nacional a partir do século XVIII, com o advento do algodão, época em que se torna o segundo porto de exportação do país, depois de São Luís do Maranhão.

É neste cenário de uma cidade que se torna importante com a passagem do tempo que José Lins do Rego passará boa parte de sua mocidade. O crítico Álvaro Lins não tem dúvidas da importância da formação de José Lins na capital pernambucana:

“Embora nascido no interior da Paraíba, o sr. José Lins do Rego pode ser considerado um escritor do Recife, onde se formou em todos os sentidos, não só na Faculdade de Direito, mas sobretudo literariamente, na companhia dos srs. Gilberto Freyre e Olívio Montenegro, com os quais se iniciou na leitura de romancistas franceses e ingleses. E como se sabe, o que caracteriza a vida cultural do Recife é o seu espírito crítico. A crítica do Brasil nasceu no Recife, e o Recife permanece fiel a essa tradição. Este fato explica, talvez, que até os trinta anos o sr. José Lins do Rego não houvesse dado nenhum sinal de romancista, enquanto ia fazendo sucesso com seus ensaios de crítica. Era talvez o espírito crítico do Recife que retardava a eclosão da sua verdadeira personalidade: a do romancista.”

Tal formação se deve em particular a escolha da residência na cidade pela existência de uma tradicional e prestigiosa Faculdade de Direito. É possível compreender a importância histórica da Faculdade de Direito, isto é, a centralidade desse estabelecimento de ensino superior, no período com base nas palavras de um importante autor norte-americano, o brasilianista Robert Levine:

“A instituição que tinha enorme importância, que, na verdade, ocupava o centro do universo cultural do Nordeste inteiro, era a Escola de Direito do Recife, uma das duas únicas escolas de Direito do país até 1881. A maior parte dos chefes políticos de Pernambuco estudou na Faculdade, que tinha, para o norte do Brasil, a mesma importância da École normale supérieure, para a França, ou da Universidade Nacional, para o México. Os bacharéis preencheram o vazio entre o Império, quando a elite rural dominara o Estado, e os anos depois de 1930, quando os tecnocratas fizeram sua aparição, compondo com eles, daí por diante, a panóplia político-administrativa. Percorrendo uma lista impressionante de bacharéis, ativos na vida pública do século XIX, Gilberto Freyre sugere que o grau em Direito correspondia, virtualmente, a um ‘título de nobreza’. Ou, mais exatamente, o título de bacharel era o selo de legitimação que a sociedade conferia, com o sinal da sua maior estima, aos produtos de um sistema de educação superior ritualista, que tinha na Faculdade o seu pináculo.”

No livro Estilo tropical, o pesquisador Roberto Ventura apontou a Escola de Recife como uma das expressões mais bem-acabadas da cultura literária, jurídica e retórica do bacharel e do letrado brasileiro na segunda metade do século XIX. Surgiu em princípio como um movimento filosófico no interior da Faculdade de Direito. Inspirado no idealismo alemão, a instituição produziu também os primeiros germes de consciência científica nacional, sendo encabeçada por dois sergipanos: Tobias Barreto (1839-1889) e Sílvio Romero (1851-1914).

Seus líderes rejeitavam parte do positivismo francês, opunham-se ao direito natural e defendiam um ‘modernismo evolucionista’, que se revelava eclético, aberto e tipificado num profundo interesse pela filosofia germânica. A atenção recaía em particular na obra de Ernest Haeckel, autor que se tornaria um dos mais famosos cientistas da época, com os livros Os enigmas do universo e As maravilhas da vida.

O período que antecedeu a abolição da escravatura e a proclamação da República assistiu à profusão de uma imensa variedade de correntes políticas e intelectuais, taisc omo o republicanismo, o abolicionismo, o neokantismo e o positivismo. Seus protagonistas eram estudantes, de origem patrícia ou oriundos de setores da classe média, liberal e radical, muito embora Tobias Barreto, mulato do interior de Sergipe, exímio orador, vivesse em um dos bairros pobres do Recife, sob condições próximas de miséria, mantendo-se com seu magro salário de professor.

Ainda no final do século XIX, a chamada geração de 1870 vai romper com o protótipo do bacharel que, segundo Vamireh Chacon, até então se caracterizava por ser “pedantemente erudito, agressivo, provinciano e alienado dos problemas concretos de natureza social”. Em seu lugar, ela propunha um tipo de letrado engajado, que postulasse uma nova sociedade e um novo estilo de vida, como o farão, na Primeira República, os escritores Euclides da Cunha e Lima Barreto.

Em virtude disso, os estudantes como José Lins do Rego buscavam ultrapassar os atributos cavalheirescos e lançavam-se às orgias, ao humor, à audácia e ao romantismo. No afã de se diferenciar do bacharelismo da geração precedente, alguns de seus alunos radicalizavam contra a própria instituição:

“Alguns homens importantes renegaram a pretensão de supremacia intelectual da Escola de Direito. O diplomata e historiador pernambucano Oliveira Lima, por exemplo, recusou um cargo de professor do Ginásio e, por julgar curta de vistas a comunidade acadêmica do Estado, doou sua biblioteca particular à Universidade Católica de Washington D. C. em vez de deixá-la para a Faculdade de Direito do Recife, ou para qualquer outra instituição brasileira.”

É ainda o estudioso Souza Barros, autor de A década de 1920 em Pernambuco quem explica:

“Pessoa de Morais, lúcido sociólogo, considera a Faculdade de Direito do Recife, nos seus áureos tempos, uma complementação do fausto da casa-grande, uma projeção dessa força rural. O bacharel e o grande senhor rural estavam ligados por laços muito próximos de parentesco e de interesses de ordem econômica.”

Assim, junto à formação na faculdade, cedo José Lins iniciar-se-á no ambiente do jornalismo recifense. Sua estreia ocorre na imprensa local, através de um artigo no jornal Diário do Estado, dedicado ao jurista liberal e ex-ministro das finanças, Rui Barbosa (1849-1923):

“Eu, porém, não desistia de ser orador. Na Paraíba fiz um discurso contra Epitácio, defendendo a candidatura de Rui Barbosa à presidência da República. José Américo de Almeida e Olívio Montenegro me ouviram falar. Olívio, de fraque e anel de advogado, todo chique, não gostou do meu discurso. No dia seguinte, o Diário do Estado publicava um artigo meu com este título, ‘Ave, Rui’”.

No artigo, revela a sua admiração pelo mestre da oratória, justamente quando o político baiano declinava da chefia da delegação brasileira na Conferência da Paz, em Paris, sendo substituído por Epitácio Pessoa. Graças à projeção nacional e internacional, o Águia de Haia, formado na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, se candidatava à sucessão de Venceslau Brás na presidência da República. Rui Barbosa receberia o apoio de José Lins, que se opunha à candidatura de seu conterrâneo, Epitácio, à época interventor do estado. O candidato liberal seria, no entanto, derrotado por este último.

O jornalismo político-literário, dessa forma, levava José Lins a fazer comentário sobre a vida regional, o que por sua vez acaba por conduzi-lo à oratória. O engajamento nas lutas de poder local mostra uma de suas características que se acentuariam com o tempo: o gosto pela polêmica e pelas tomadas de posição em debates públicos.

Conforme o próprio rememora de sua vivência pernambucana: “Saí pelo interior do Estado com o senador Manuel Borba, na campanha de sucessão do governo José Bezerra, contra a intervenção de Epitácio Pessoa. Foi durante essa viagem política que fiquei amigo de um repórter do Jornal Pequeno, chamado Osório Borba.”

Edição      Enrique Shiguematu

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Galeria Claudia Andujar
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Síntese da confluência de linguagem, estilo e arquitetura na arte contemporânea

 

Alexandre Handfas e Louise Crivelenti

A área verde do Instituto Inhotim e a distribuição das obras em seu espaço são intrigantes. Ao caminhar pelas rotas arborizadas, repentinamente nos deparamos com imensas galerias de arte contemporânea arquitetonicamente imponentes. A de Andujar, porém, fica escondida ao final de uma trilha e guarda um aspecto de mistério. Foi a primeira vez que nos deparamos em Inhotim com tijolos aparentes de demolição. Transmitiam um ar robusto e de certa brutalidade. Perto da porta de entrada, o visitante se depara com um corredor coberto por um pergolado de madeira. Nele, a luz do sol incide sobre os relevos da parede, causando uma sobreposição de texturas e cores. O contraste de sensações da passagem da área externa para a área interna é grande. De uma arquitetura robusta, passa-se para uma arquitetura que nos parece modernista, com uma palheta de cores rude, na qual a luminosidade natural permanece do lado de fora.

A única opção do visitante para continuar a trajetória é uma porta que descortina em uma outra sala: desta vez muito mais ampla, com uma geometria espacial diferente das demais e relativamente confusa, pois o visitante não sabe exatamente que caminho percorrer para ver as obras. Este espaço é conectado com as outras salas, por um corredor belo com paredes de vidro e tijolos. É quase um respiro da intensidade das fotografias que retratam os rituais indígenas na sala anterior e um preparo para as que ainda estão por vir. A relação visitante-espaço-obra é pautada por uma certa confusão a respeito da compreensão da dimensão do todo.

Para nós, leigos a respeito do trabalho de Cláudia Andujar, houve dificuldade em identificar à primeira vista que o trabalho exposto era tão somente focado nos indígenas, pois nenhum elemento na arquitetura do local remetia à cultura dos Yanomami. Assim, observamos que, da mesma forma que os índios no Brasil não tinham dimensão das razões pelas quais os portugueses aqui chegaram, a galeria se propõe a fazer com que o visitante não tenha essa noção geral do que observará no decorrer da visita. A questão indígena no Brasil é grave e urgente, mas mesmo assim fica escondida sob as estruturas da sociedade contemporânea brasileira. A galeria, por fim, com seu exterior rígido e imponente, guarda em si retratos reais e frágeis de um povo que vive no limiar entre a proteção e a marginalização.

A fotógrafa Cláudia Andujar nasceu em Neuchâtel, na Suíça, no ano de 1931 e migrou para os Estados Unidos após perder praticamente toda sua família durante o Holocausto. Já adulta, veio para o Brasil, ao encontro de sua mãe, que aqui estava e começa a utilizar a fotografia como uma maneira de entrar em contato com as novas comunidades que adentrava. Andujar passa a publicar suas fotos em revistas brasileiras e estrangeiras e vai conhecer os índios brasileiros da tribo Karajá. A trabalho, para a revista Realidade, conhece a Amazônia brasileira e as tribos indígenas que lá habitam, como os Yanomami. Decide sair de São Paulo e ir morar em uma região próxima à tribo, onde realiza diversos ensaios fotográficos. Ao ser expulsa da região, devido à Lei de Segurança Nacional, vigente no período militar, volta para São Paulo e inicia uma fase de ativismo intenso, em defesa da demarcação e proteção das terras daquela comunidade.

Não é possível afirmar que a galeria de Andujar no Instituto Inhotim possui um estilo arquitetônico definido, pois pertence a um movimento de arquitetura contemporânea. É também composto de traços do estilo brutalista, já que a construção deixa expostos os materiais e métodos construtivos, em uma tentativa de desmistificar o conteúdo artístico lá exposto. Uma galeria que expõe os seus materiais e métodos de construção fortifica a ideia de que suas obras possuem forte relação com a realidade, e não são separados dela. Pode-se fazer aqui uma equiparação com a dramaturgia do alemão Bertold Brecht: esse tinha a intenção de revelar em suas peças as ferramentas artísticas que a compunham; queria deixar claro aos espectadores que aquilo que estavam apreciando não era a realidade, eram pessoas interpretando, de forma artificial, a vida real.

Além disso, é possível perceber a presença de diversos aspectos da construção e da arquitetura da galeria que demonstram a forte presença da marca do Holocausto. A primeira semelhança que vem à tona diz respeito aos tijolos aparentes que constituem a parte externa da construção que muito lembram os tijolos pelos quais se sustentavam os campos de concentração nazistas. Ao mesmo tempo, a construção da galeria possui elementos mais discretos e elementos de imponência, como o alto pé direito do local. Uma situação parecida pode ser conferida no campo de concentração de Auschwitz, pois este era um local que, ao mesmo tempo em que não se destacava na região e parecia um simples conjunto de galpões, apresentava um aspecto bastante imponente e tenebroso.

Outro aspecto relevante a ser mencionado é o de que há um cuidado muito grande na disposição das salas e dos espaços internos da galeria. É possível perceber que existem três blocos construídos intercalados por espaços externos que ficam nos jardins do parque. Percebe-se então uma forte ligação entre a natureza e a obra de arte, relação essa também presente nas imagens de Claudia Andujar. Essa conexão é tão forte que, durante a inauguração do espaço, os índios Yanomami que estavam presentes nomearam a galeria de Maxita Yano, em sua língua, “casa de barro”, demonstrando a forte percepção do potencial de interconexões entre arquitetura, natureza e paisagem.

A arquitetura da galeria de Andujar potencializa a abertura de um leque de interpretações e de análises, principalmente pela falta de estilos pré-determinados e uma espécie de mão livre do desenho do local, da disposição das imagens e dos espaços. Essa possibilidade de não seguir padrões estabelecidos, ao contrário do que ocorria na arquitetura modernista e bauhausiana, por exemplo, é característica da contemporaneidade, como afirma Luiz Camillo Osorio em seu Arte contemporânea brasileira: multiplicidade poética e inserção internacional. Neste movimento, não há mais um norte de centralização e padronização que guie as produções artísticas e o propósito para a arte é livre e variável.

Essa multiplicidade de linguagens é presente tanto na obra de Andujar quanto na sua galeria em Inhotim, em que a mistura de estilos diversos e as diferentes interpretações suscitadas por essa não padronização arquitetônica é marcante. Como afirma Osório (2011): “Não há mais um Greenwich poético regulando o relógio do contemporâneo, assim como não há mais uma topologia artística diferenciando um centro criativo das muitas periferias reprodutivas”.

Em relação à arquitetura da galeria, os pontos positivos são muitos. A beleza da construção é simplesmente estonteante, sendo que sua apreciação é um evento à parte. Também é relevante a harmonia entre a artista, o curador e os arquitetos, pois é perceptível uma organização prévia do espaço, que se estrutura por meio da preocupação com a trajetória física, emocional e intelectual a ser percorrida pelo visitante dentro da galeria. A estrutura espacial e as imagens ali expostas integram-se à exuberante área verde no entorno. As aberturas para áreas exteriores estão estrategicamente colocadas, permitindo um momento de alívio para que o visitante seja capaz de apreciar com profundidade as imagens ali expostas, muitas vezes chocantes e pesadas. Porém, como o parque recebe muitos visitantes que não estão a par da realidade indígena, certas fotografias podem reduzir a cultura indígena a um conjunto de estereótipos. Ou seja, se o visitante não tiver um olhar analítico e crítico para aquilo que observa, o impacto das imagens de Andujar pode ser negativo no sentido de reduzir o significado da amplitude cultural dos Yanomami, conforme acentuam Pierre Bourdieu e Alain Darbel, no capítulo “Obras culturais e disposição culta”, do livro O amor pela arte.

Por fim, é possível afirmar que a obra de Claudia Andujar e sua galeria no Instituto Inhotim são muito relevantes pois, de alguma forma, representam a trajetória da autora e assim trazem uma linha do tempo não somente a respeito do Brasil, mas de caráter universal: características arquitetônicas da galeria revivem as experiências totalitárias do século XX e a fotografia de Andujar apresenta um modelo de exposição do processo de entrelaçamento simbólico de uma estrangeira com um novo país. O tema de suas imagens representa a interpretação de uma realidade extremamente importante do Brasil, a da questão indígena e da proteção de seu território e cultura. É, neste sentido, um conjunto artístico que tende à completude, podendo, a cada diferente olhar, suscitar novas visões.

 

Edição: Enrique Shiguematu

Ensaio apresentado à disciplina Sociedade & representação: o Brasil através das artes, ministrado pelo professor Bernardo Buarque, para alunos de primeiro período de Administração Pública, da EAESP/FGV, São Paulo


Os anos de formação de José Lins do Rego (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Cidade de Pilar, PB.

Aos onze anos de idade, o engenho natal, situado na cidade de Pilar (PB), ficará ainda mais distante para José Lins do Rego (1901-1957), não apenas do ponto de vista sentimental. Depois de cursar o primário no instituto de Itabaiana, o menino foi enviado à capital paraibana, a fim de ingressar em um outro internato, onde dará prosseguimento à sua formação escolar.

Em 1912, a capital do Estado ainda não se chamava João Pessoa, designação cunhada somente após o incidente fatal de 1930. Àquela altura, tinha por nome simplesmente Parahyba, que em tupi significa “rio ruim”. José Lins tem a lembrança da capital como uma área ainda semi-rural, com carroças e bondes puxados a burro. A década de 1910, contudo, assiste a um relativo surto de desenvolvimento. Era o início de um ciclo de modernização, semelhante ao modelo de transformação urbana por que acabavam de passar as cidades do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Recife. As avenidas do centro da cidade eram iluminadas, as suas ruas mais importantes eram alargadas e pavimentadas, os seus meios de transporte, progressivamente mecanizados.

De certa maneira, o internato na Paraíba foi uma continuação do ensino que recebera no instituto de Itabaiana. Ambas as instituições tinham em comum uma orientação com princípios religiosos. O Diocesano Pio X fora fundado e dirigido por Irmãos Maristas, ordem católica que chegara ao Brasil em 1897, na condição de adeptos dos ensinamentos do sacerdote francês São Marcelino de Champagnat (1789-1840).

Inspirados neste seguidor de Maria, a “Boa Mãe”, fundaram o primeiro instituto dos Irmãos Maristas das escolas já no ano de 1817 e disseminaram desde então sua pedagogia e seus estabelecimentos escolares por todo o país. Seria o caso de lembrar o estado da Bahia, onde havia o Ginásio Nossa Senhora da Vitória, conhecido como “o colégio dos maristas”. Nele estudou o crítico literário Afrânio Coutinho, que relata suas recordações da escola nos anos 20:

“Os Irmãos Maristas, gente recrutada sobretudo na vida rural francesa, eram excelentes agricultores, constituindo uma corporação verdadeiramente democrática, impressionante para meninos da Bahia senhorial da época. Ali ingressavam pretos, judeus, protestantes, sertanejos bravios e meninos delicados da cidade. Os Irmãos nos tratavam paternalmente, sem imposições religiosas naqueles bons tempos em que o colégio particular não tinha inspetor de ensino, nem qualquer contato com autoridades do Governo. Não se falava em subvenções nem se pretendia fundos públicos de educação para a Escola particular.”

 

O escritor mineiro Mário Palmério (1916-1996), autor de Vila dos confins e Chapadão do bugre, frequentou o Colégio Diocesano da cidade de Uberaba, enquanto o poeta e médico alagoano Jorge de Lima (1893-1953), de quem José Lins se tornará amigo anos mais tarde, estudou no colégio dos Irmãos Maristas da capital alagoana, Maceió. Talvez por isto, tanto Jorge quanto José Lins tenham tido uma sólida base de ensino religioso, que se manifestará, com maior ou menor grau, em cada uma das futuras obras literárias. Se as primeiras noções de catecismo a José Lins do Rego haviam sido dadas no Instituto Nossa Senhora do Carmo, a educação cristã vai ganhar então ainda mais solidez na sua formação após sua entrada no Diocesano Pio X.

Em recordação de mocidade, diz:

 

“Quero referir-me à época proveitosa que passei sob a tutela psicológica do colégio ‘Pio X’, ali onde se sabe render o culto divino a um Deus justo e poderoso e idolatrar, com dedicação, as tradições imaculadas de nosso povo.”

 

José Lins frisou, em seu livro de memórias, as dificuldades de aprendizagem. Mas, pouco a pouco, é possível dizer que a vivência dolorosa se transformou em prazer. Este foi associado às descobertas proporcionadas pela leitura. Além das aulas de Religião, tinha as matérias de Aritmética, História e Gramática, no internato de Itabiana. A Geografia foi uma das disciplinas que mais despertou seu interesse. Com ela, conforme confessava ficcionalmente em Doidinho, “o mundo crescia para mim”.

Já na mesma crônica acima citada, lembra:

 

“No vasto salão do velho e bem ordenado ‘Pio X’, sob a presidência de Aprígio Fonseca, bizarra figura de prefeito enérgico, eu na minha desmantelada banca de estudos com os olhos pregados nas páginas de uma Geografia, divagava imaginativamente pelas cidades formosas da Itália. Lembrava-me de Veneza, a ex-sacerdotisa dos mares, que tem em cada gôndola uma poetisa inspirada e em cada canal um poema. Ia depois nessa viagem subjetiva admirar Florença, núcleo germinal da Renascença, então meu espírito costumava sorrir ante a bela pátria de Dante.”

 

O conhecimento das ordens de grandeza e das dimensões do mundo era obtido não somente através das aulas, mas, sobretudo, por meio de uma das novidades técnicas oferecidas pela vida moderna que chegavam às cidades, depois de inventada no final do século XIX: o cinematógrafo. Na época do colégio, como recorda, foi instalada em Itabaiana uma sala que exibia filmes da Pathé, empresa francesa fundada em 1896.O cinema, diga-se de passagem, virá a ser uma das predileções de José Lins do Rego, quando já adulto, residente no Rio de Janeiro.

Ainda na voz de seu alter ego, o estudante Carlos de Melo, rememora o papel pedagógico da sétima-arte no Brasil do início do século XX:

 

“A verdade, porém, era que o cinema nos educava, mostrava-nos cidades da Europa, terras coloridas da Itália. Lá estava Florença, a terra do Pequeno Escrevente Florentino. O Arco do Triunfo de Napoleão em Paris. Roma, com igrejas grandes. Gênova, donde Marcos saíra para a sua viagem”.

 

 

Pouco a pouco, assim, a dificuldade crônica de aprender começou a se converter no gosto de ler. Em princípio, a literatura foi uma maneira de compensar o isolamento e a sensação de abandono vivido na escola. Paulatinamente, ela passa a se transformar em um hábito prazeroso, capaz de alargar os horizontes de sua “pobre imaginação de penitenciário”.

Edição      Enrique Shiguematu

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Uma historiografia do Iluminismo (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

“Este assim se encontra apesar de toda a modernização produzida pelos déspotas esclarecidos…”

Para além dos homens e das sociedades ideais projetadas pelos grandes pensadores iluministas, o que dizer da realidade dos grupos e da massa anônima que vivia à época do Iluminismo? É esta a questão de fundo que perpassa a obra coletiva organizada por Michel Vovelle (1996), na qual o historiador francês periodiza o Iluminismo como o momento que se interpõe entre a ruptura do Barroco na era pós-tridentina e os efeitos paroxísticos produzidos pela Revolução francesa, com sua “pá de cal” no que se passa a denominar de estrutura política do Antigo Regime.

Apesar dessa periodização preliminar e desse vínculo social, a obra coordenada por Vovelle não se constitui à maneira, dir-se-ia um tanto apelativa, de uma “história vista de baixo”, oferecendo um perfil de personagens em sua maioria pertencentes à elite, em lista que inclui o nobre, o guerreiro, o homem de negócios, o homem de letras, o homem de ciência, o artista, o explorador, o funcionário, o padre e a mulher.

Junto ao quadro humano e social, seria o caso também de se colocar a polêmica questão proposta por Roland Mousnier na década de 1950, acerca da natureza da sociedade setecentista. Afinal, pergunta o historiador francês, num diálogo com teorias marxistas e weberianas, trata-se de uma organização social baseada ainda em estamentos/ordens ou já estruturada em classes?

Não se trata, portanto, em nenhum dos dois autores, de interrogar o homem das Luzes em sua formulação ideal. Mais do que o homem abstrato e geral definido e fixado pelo Iluminismo na Enciclopédia, mais do que prescrever valores e virtudes, do que postular a liberdade do direito natural, busca-se o homem concreto e particular de uma Europa dividida entre campo e cidade, entre letrados e analfabetos, entre hierarquias de nobreza e desejos de ascensão social, entre sistemas políticos monárquicos e aspirações republicanas, entre defensores da fisiocracia e da economia política, entre guerras e epidemias.

Para compreender a realidade e a nova configuração da ordem social, é preciso fornecer um quadro demográfico da Europa do Setecentos, o que é possível aferir graças aos estudos quantitativos de um Labrousse, de um Mandrou (1988), de um Mousnier (1980). O crescimento demográfico, sobretudo na segunda metade do século XVIII, conforme sintetiza com clareza Hobsbawm em sua era revolucionária (2006), se mostra sensível na Inglaterra e na França, que passa de 20 para 28 milhões de habitantes, e alcança a Europa central e oriental – a Hungria, por exemplo, assiste a uma explosão populacional. As causas deste crescimento, segundo Vovelle, se encontram menos no controle das doenças e no avanço da medicina e das vacinas, e mais no recuo das epidemias, com a superação das taxas de natalidade sobre a mortalidade, o que vem a relativizar a ideia de uma consequência direta da política voluntarista dos agentes das Luzes.

Nas regiões urbanas consideradas mais evoluídas e prósperas da Europa, as atitudes coletivas face ao nascimento, à vida, à sexualidade e à morte começam a mudar. Para além da história quantitativa, é Phillipe Ariès (1975) quem estuda a figura da criança no seio da família burguesa e sua mudança de papel, adquirindo cada vez mais importância como uma idade especial e autônoma frente à vida adulta. A estrutura familiar se transforma pouco a pouco nessas regiões centrais, onde práticas como a contracepção são adotadas, notadamente a partir da década de 1770.

Contudo, deve-se assinalar que, por ocasião da Revolução Francesa, cerca de 85% da população se encontra concentrada ainda no campo. Embora já seja objeto de idealização por autores como Jules Michelet e Restif de la Bretonne, o que se pode constatar de maneira concreta é o crescimento da população e a ampliação de áreas cultiváveis. Em determinados lugares da Europa, chega a se falar em Revolução Agrícola: da Inglaterra aos Flandres, de certas áreas da França até o Rio Pó. Na Europa oriental, o cultivo de cereais também alcança vastos domínios.

A condição camponesa não acompanha no mesmo ritmo as conquistas técnicas agrícolas do mundo rural. Na França da segunda metade do século XVIII, o salário encontra-se estagnado. Os quadros senhoriais tradicionais permanecem inalterados. A Inglaterra, contudo, é quem começa a sinalizar para um sistema feudal em desagregação e já moribundo. Enquanto isto, o leste europeu conhece a época de sua “segunda servidão”, com o reforço dos laços de servidão.

Assim, a Revolução Industrial já está em curso nas ilhas britânicas, com formas de protoindustrialização sendo introduzidas na Europa ocidental. As inovações são mais notáveis no campo do que na cidade. Esta assiste a novos processos de dependência, com a decomposição de antigas solidariedades corporativas, cada vez mais influenciadas pelo progresso comercial e fabril. Por outro lado, para Pierre Chaunu, nem o campo nem a cidade conhecem ainda uma verdadeira revolução. Fazendo eco a este historiador, Labrousse considera que, apesar da entrada da máquina no mundo industrial do têxtil e da metalurgia, o século das Luzes é ainda movido pelo sistema de produção antigo. É certo, de todo modo, que a nova era já apresenta seus sinais no mundo urbano de Londres ou Paris, nas grandes cidades portuárias, bem como no comércio transoceânico.

A imagem da cidade entre os contemporâneos é ambígua. Ela é vista como lugar de perdição, da mesma maneira que espetáculo de luxo e miséria, corrompida sob diversos aspectos, com seu vapor poluente. Lugar de residência da aristocracia e da burguesia, ela apenas pouco a pouco se afirma na Europa ocidental, com novos hábitos, novas maneiras de ser e aparecer, tal como estudadas por Daniel Roche e Arlette Farge. A despeito das estruturas que permanecem imutáveis, como as guildas e as corporações, a modernidade pavimenta seu caminho.

Em relação a um dos símbolos do século das Luzes, a difusão da cultura letrada, Michel Vovelle contrapõe um noroeste da Europa majoritariamente letrado, fronteira que se estende da França setentrional até Genebra, a uma Europa meridional e, progressivamente menos letrada, do oeste ao leste europeu. Este assim se encontra apesar de toda a modernização produzida pelos déspotas esclarecidos na Rússia (Catarina), na Prússia (Frederico II) e no Império Austro-Húngaro (José II).

A grande extensão territorial que resta à margem do movimento das Luzes não deixa de conhecer transformações, conforme sustenta Maurice Agulhon, com uma evolução interna no sentido da secularização, em áreas onde predominavam as penitências e as confrarias religiosas. O terreno religioso é, aliás, um dos principais campos de batalha dos iluministas e incide mais sobre homens do que sobre mulheres, mais nas cidades do que no campo.

Ainda de acordo com Vovelle, o contraste de realidades europeias permite afirmar que a estabilidade das estruturas religiosas profundas coexiste com um mundo mais povoado, mais movimentado, onde a modernidade abre seu caminho através de novas maneiras de produzir, de ser e de parecer, mobilidade refletida nas atitudes e nas representações coletivas. No domínio cultural, como na economia e na sociedade, os polos de difusão das novidades se esboçam, em meio a zonas de sombra. Assim, uma cidade nova a ser criada, unificada segundo normas inéditas, se oferece à iniciativa voluntarista dos novos atores da transformação social e intelectual.

Esses, os homens das Luzes, trazem à cena uma temática que se divide entre o antigo e o novo, a liberdade e a opressão, a natureza e a história, a razão e o despotismo, a virtude e a libertinagem, o mérito e o ócio.

Edição      Enrique Shiguematu

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As cidades europeias na Época Moderna (II)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

A alfabetização é diretamente superior em cidades onde aparece uma geografia mais urbanizada.

Entre as múltiplas funções das cidades, emerge na Europa moderna uma tripla hierarquia – religiosa, judiciária e administrativa. Esta hierarquização compreendia as instituições de comando, ocupada por intendentes, oficiais de justiça e de finanças, até escrivães de polícia. Por volta de 1715, o reinado da França compreendia 128 sedes episcopais, treze parlamentos, dez câmaras de contas, quatro cortes de ajuda, duas cortes de moeda, 31 intendências, dezessete universidades, cem tribunais de justiça e quatrocentas sedes administrativas.

A título de exemplo, a comuna francesa Le Puy, com população em torno de quinze mil habitantes, que compreende um artesanato numeroso e múltiplas atividades de fraca envergadura, é dominada pelo padre, pelo tribunal de justiça e por alguns negociantes. As cidades de fronteira têm com frequência uma função militar, supervisionadas em geral pelo arquiteto francês Vauban (1633-1707), enquanto as cidades portuárias tinham uma vocação comercial que vinha do período medieval, como as várias cidades atravessadas por rios – Orléans, Tours (cidade têxtil) e Lyon, por exemplo. A atividade industrial permanece na esteira do comércio, como em Amiens e Beauvais.

Os limites da paisagem urbana explicam o pequeno número de criações nas cidades, concentradas na segunda metade do século XVII. Trata-se de praças bem demarcadas, como um tabuleiro de xadrez, em fronteiras como a Lorena, a Alsácia, os Alpes e os Pireneus. Nenhuma dessas cidades-casernas conheceu um desenvolvimento demográfico. Novos portos, no entanto, são criados: Brest, Lorient, Rochefort e Sète. Mas as únicas cidades realmente prósperas são Versalhes, com 25 mil habitantes em 1715, e dois portos na Bretanha: Brest, uma base militar, e Lorient, um entreposto.

Todos os dois são cidades coloniais, pela justaposição de bairros baixos bretões, habitados por camponeses e analfabetos, e de bairros franceses, com sua elite dirigente e citadina vinda de longe. Nas cidades antigas, os muros fortificados permitem apenas uma remodelagem mais ou menos importante. Mas, se durante o primeiro terço do século XVII numerosos trabalhos foram feitos para consolidar o entorno das cidades, em Paris Vauban empreendeu um trabalho de derrubada de seus muros de pedra. As mudanças são possíveis pelo loteamento de grandes partes e pela construção a partir de então em vertical.

Mas os intendentes limitam a autonomia de decisão dos magistrados em relação ao traçado das ruas, à definição da arquitetura e à estética dos edifícios. O alargamento era às vezes decidido pelo próprio poder monárquico, as ampliações mais importantes sendo aquelas ocorridas em Lille e Marselha, onde as cartografias de 1666 previam a duplicação da superfície pela extensão a leste e a sul. Estas decisões permitiam a abertura do tecido urbano, mas somente uma minoria de privilegiados se instalava na nova zona: mercadores, oficiais, entre outros. Assiste-se à incorporação dos subúrbios em Tours e Aix-en-Provence, e à extensão do espaço aplainado em Grenoble e Toulon.

De maneira geral, essa política visa a reforçar as fortificações, a defender a cidade contra as epidemias e a conferir mais dignidade à ordem urbana. Enfim, a estreiteza da praça disponível impedia edifícios altos, com um máximo de quatro andares, e a construção de casas novas. Uma das mudanças arquitetônicas do Seiscentos é a substituição da madeira pela pedra, por causas econômicas e psicológicas que decorrem do prestígio do modelo parisiense. Em Paris, uma das inovações é a criação da Praça Real – atual Praça de Voges – construída como um lugar de habitação para a elite e como um espaço ritual para a celebração da monarquia. Antes de construir a praça, algumas cidades fazem a estátua de Luís XIV. Duas ordens sociais têm papel ativo na arquitetura urbana: o clero e a nobreza.

A Reforma Católica influencia uma construção religiosa ativa, com seu tempo forte situado entre 1600 e 1650. A atividade se traduz, sobretudo, na criação de numerosas casas religiosas, que modificam a decoração da cidade e alteram os modos de ocupação de terrenos próximos. Já o habitat aristocrático conhece uma significativa mutação: isolamento das construções vizinhas, sendo que o domicílio sobre a rua é substituído por um muro e um portão, no interior do qual se localiza a casa.

Os corpos oficiais municipais se caracterizam no século XVII pela intervenção crescente do poder central e por um aprofundamento das diferenças sociais. As instituições se organizam segundo formas diversas. Um pouco por toda a parte, o poder urbano é distribuído de maneira desigual entre um corpo restrito de cônsules e de magistrados e um conselho submetido ao poder central. O assento eleitoral dos cônsules e dos magistrados é reduzido em todas as províncias francesas. Entre as competências municipais, a preocupação fiscal é obsessiva. Os outros setores dizem respeito à assistência, aos fiscais das vias de ligação entre cidades e aos fiscais de impostos. Em algumas cidades, as funções administrativas são enobrecidas, com a formação de uma nobreza municipal.

A tutela monárquica se traduz na modificação autoritária de numerosas constituições urbanas, seja no momento seguinte à Liga católica, seja nas cidades rebeladas após da guerra civil da Fronde (1648-1653), como Marselha, seja nas cidades anexadas ao Reinado, como Lille e Besançon. O poder Real aproveitava-se também das discórdias frequentes e dos endividamentos para reforçar seu controle. O século XVII assiste a uma degradação das liberdades municipais por etapas: pela redução do número de eleitores, depois pelo decréscimo de magistrados, enfim pela criação em 1692 de oficiais municipais estreitamente ligados à monarquia, o que deslegitima todos os antigos mecanismos de nomeação local.

Face à perda de poder das províncias, os magistrados reagem às vezes com uma afirmação simbólica da cidade, passando a valorizar a sede da prefeitura (o Hôtel de Ville), por exemplo. No século XVII, são construídos novos e numerosos prédios, que possuem em geral três novas características da ordem municipal: os sinos, os relógios e as decorações das salas interiores. Ao mesmo tempo, valoriza-se a memória e a história é percebida como cimento da consciência urbana, capaz de afirmar a ancestralidade da cidade e projetá-la como monumental.

No curso do século XVII, assiste-se a uma repressão progressiva a práticas de sociabilidade da juventude, com a reprovação das confrarias festivas e das sociedades báquicas. Uma nova prática social urbana surge nas camadas mais intelectualizadas: livrarias, salões, o cultivo da erudição e da amizade. Estas reuniões intelectuais fervilham no final do século com a criação das Academias, pontos de encontro e de socialização, onde inclusive as mulheres têm espaço, que se tornam espaços de distinção da elite francesa frente aos meios populares e que continuam presos à língua regional de origem.

A Igreja tridentina, por sua parte, esforça-se por controlar e frear os lazeres, multiplicando as procissões que dão ritmo às festividades e lutando contra a dança e a máscara carnavalesca. A festa urbana evolui da participação comunitária ao espetáculo consentido. As cerimônias, como as entradas reais, tendem a ser reduzidas a um fogo de artifício e a instituir uma ordem urbana em separado. O povo, que tinha um papel ativo nos jogos e nos espetáculos, passa a ser um simples espectador.

As elites começam a cultivar lazeres próprios, como o teatro de Molière, Racine e Corneille. As trupes itinerantes chamam a atenção da burguesia letrada e bem aquinhoada. Em contrapartida, os meios populares, segundo descrevem os célebres estudos de Mikhail Bakhtin (2002) e Peter Burke (1999), cultivavam de há muito a “cultura da praça”, em particular nos dias de feira, com as mostras de animais, com os malabaristas e com os teatros populares.

Uma das especificidades do século XVII é a forte progressão da cultura letrada no meio urbano, sob a forma de escolas e de livros, na sequência do advento da imprensa. Durante os primeiros decênios, coloca-se em ação uma rede de estabelecimentos de ensino religioso que privilegiam as cidades segundo as funções administrativas e eclesiásticas. Somente pequenos institutos são criados em cidades entre três e cinco mil habitantes. Nestes, o essencial da rede é constituído por jesuítas.

Os Colégios – lembre-se a criação do afamado Collège de France – tornam-se um privilégio urbano, pois o recrutamento é limitado e os alunos dos meios modestos são proporcionalmente menos numerosos, sobretudo depois de 1660. O ensino elementar assiste a uma notável impulsão nas cidades da Reforma Católica, que multiplicam as pequenas escolas, instituem o ensino caritativo gratuito para crianças pobres e beneficiam também, em 1700, as escolas de irmãos cristãos, em cerca de vinte cidades francesas. Surge também o ensino feminino assegurado por congregações para os meios modestos, as escolas ursulinas voltadas para a alta burguesia em uma centena de cidades.

A alfabetização é diretamente superior em cidades onde aparece uma geografia mais urbanizada. Em Amiens, os bairros de mercadores são mais alfabetizados que os bairros de trabalhadores. Em Rouen, percebe-se um decrescimento das taxas de alfabetização a partir do centro que assume a direção religiosa, administrativa e comercial.

Na França do Norte, menos de 50 a 75% da população urbana masculina é alfabetizada em 1700. A alfabetização favorece a imprensa, presente em 132 cidades em 1700, a circulação de livros de catecismo e de almanaques, as livrarias que se tornam espaço de sociabilidade e as bibliotecas no mundo da escrita e dos ofícios. Nos estratos mais largos, circulam livros populares difundidos sob a forma de folhetos – os “colportage” estudados por Robert Mandrou na chamada Bibliothèque Bleue de Troyes, conforme estudado por Jacques Revel – de maneira que, em 1700, o chamado processo de aculturação escrita é largamente adotado nas cidades.

Tal processo contribui para ampliar a dominação sobre o campo. A imigração rural torna-se uma necessidade que tende a manter o equilíbrio demográfico. O aumento da demografia acentua o problema da distribuição socioeconômica, regulada por um mercado mal organizado e frágil. O menor desregramento na produção é suscetível de gerar a carestia e a ausência de alimentos. As transferências urbanas são pesadas: em 1700, a cidade se atribui dois terços da renda fundiária, com vinte por cento da renda agrícola aos proprietários e detentores de direitos senhoriais e eclesiásticos. Numerosos citadinos compram títulos senhoriais, enquanto nobres tendem a se instalar na cidade que concentra o essencial dos meios de pagamento.

Segundo Roger Chartier, no século XVII a cidade é a sede de um poder de comando temporal e espiritual, com funções tanto econômicas quanto políticas, tanto psicológicas quanto culturais. Mais do que na produção, o ideal urbano assenta no aluguel da propriedade, na administração e na mercadoria, fonte de poder citadino.

Edição      Enrique Shiguematu

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O dia de ser feliz é hoje!
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Por Marcio Samia

No dia 20 de março, apesar de não ser amplamente divulgado, comemorou-se o dia mundial da felicidade. Como tenho escrito por aqui sobre vida criativa achei que poderia ser interessante abordar esse tema, especialmente porque no mesmo dia mundial da felicidade também se comemora um outro dia muito curioso: o dia nacional do contador de histórias.

Por esse motivo, peço licença para reproduzir aqui uma das histórias que meu avô contava, e que ouvi quando ainda era criança, lá em Minas Gerais na pequena cidade de Delfim Moreira, um vale encantado e habitado por lendas e causos que povoavam a imaginação das crianças daquele pedacinho esquecido de terra.

Ele contava que muito antigamente, lá quando Deus criou o homem, Ele o fez completamente à sua imagem e semelhança. Mas quando havia quase concluído sua tarefa, percebeu que tendo um corpo, força e inteligência semelhantes ao Seu, estaria na realidade criando deuses e, portanto, seria necessário retirar algo dessa divina criação, para que a obra se diferenciasse do Criador.

Resolveu então tirar a felicidade daquela criatura, mas restava agora decidir onde esconder aquele dom tão precioso, já que com a força e a vontade que deu ao homem, este poderia escalar até a mais alta das montanhas. Com a inteligência poderia criar alguma máquina que navegasse até os mais longínquos oceanos e até mesmo esconder em outro planeta seria inútil, pois a curiosidade e a ambição faria com certeza com que os seres humanos buscassem incessantemente a felicidade, onde quer que ela se encontrasse.

Após muito pensar, Deus sabiamente decidiu colocar a felicidade no único lugar onde o ser humano demoraria a encontrar – isso se encontrasse.

Buscando pelo dom em todos os lugares existentes (e até mesmo nos objetos), certamente demoraria muito até pensar que o único lugar onde de fato a felicidade poderia estar era dentro de si mesmo.

E desde então tem sido assim: o homem passa a vida toda buscando a felicidade em vários lugares / coisas / pessoas e se esquece de olhar para dentro de si, onde Deus guardou o dom de ser feliz.

.   .   .

Essa pequena história (e muitas outras que ouvíamos sentados ao lado do fogão a lenha ardendo em brasas), servia muito para que nossas noites sem energia elétrica ganhassem um pouco de iluminação. Assim iríamos deitar para dormir pensando em como era mais importante descobrir a felicidade em pequenas coisas, como subir num pé de jabuticaba ou na graça que tinha a risada sem dentes do vizinho ao lado, do que na frustração incessante de querer o brinquedo mais moderno que existisse no momento, já que não teríamos condições de adquiri-lo.

O tempo passou e a vida na cidade grande de São Paulo me fez entender o que é que meu avô estava preocupado em nos explicar naquelas palavras tão simples. Muitas vezes a vida e nosso meio nos cobram tanto que para “parecer” que estamos nos dando bem nos preocupamos demais com o que temos, mas aí acabamos deixando de lado o que somos. E junto com isso deixamos de nos alegrar com a incrível imagem de um pôr do sol na estrada porque estamos preocupados demais com outras coisas que temos que fazer depois, e aí não percebemos que depois pode ser tarde demais para um abraço, um beijo, um carinho… que o único dia que temos é hoje. E o único momento de ser feliz, é agora!

Edição: Enrique Shiguematu


As Cidades Européias na Época Moderna (I)
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Londres, a propósito, contava quase seiscentos mil habitantes, ultrapassando Paris com 530 mil.

Segundo o historiador francês Bernard Vogler, a Europa de 1700 possuía dois agrupamentos urbanos principais: Flandres e o norte da Itália, este último acompanhado por índices de urbanização importantes. Na Europa central e oriental, em razão da presença germânica na direção leste, é possível assinalar a existência de um número elevado de grandes cidades – Praga, Viena, Breslau, Moscou, Belgrado –, com pelo menos mais de quarenta mil habitantes. No extremo oposto, nas ilhas britânicas e na Escandinávia, a rede urbana encontrava-se ainda pouco desenvolvida, à exceção de Londres, Dublin, Estocolmo e Copenhague.

Londres, a propósito, contava quase seiscentos mil habitantes, ultrapassando Paris com 530 mil. A terceira cidade europeia é Nápoles, com cerca de trezentos mil habitantes, seguida de várias cidades italianas com uma população em torno de cem mil, como Veneza, Milão, Roma e Palermo, todas cidades importantes do ponto de vista econômico. Sublinhem-se ainda cidades holandesas como Amsterdã, Leiden, Roterdã, Haarlem, Haia e Delft que, juntas, somam mais de quatrocentos mil habitantes, o que põe em evidência o importante papel urbano-comercial ocupado pelas Províncias Unidas à época.

As estruturas sociais, muito variáveis segundo as cidades e suas funções, se caracterizam por uma dupla natureza. Uma estrutura vertical, que tende a se diluir do topo à base, reúne os ofícios e as diversas corporações de trabalhadores, nos quais cada uma mantém seus próprios ritos, suas reuniões e suas festividades, que favorecem uma forte endogamia.

Na estrutura horizontal, existe uma divisão tripartite fundamental, que tende a se reforçar no decorrer do século. No topo, uma oligarquia urbana, principalmente composta de proprietários de terras, de negociantes e de oficiais, que constitui em geral menos de 10% da população. Esta minoria oligárquica é às vezes enfraquecida por rivalidades internas, como aquelas que dividiram negociantes na cidade portuária de Bordeaux, no sudoeste da França. Esta oligarquia obtém seus dividendos, domina o mundo intelectual e artístico e participa, por extensão, do poder real. Nas cidades parlamentares, o meio judiciário, que constitui entre 7 e 8% da população, detém entre um terço e a metade da riqueza.

Já as classes médias são representadas pelo artesanato e pelo pequeno comércio, enquanto os estratos inferiores, compostos por diaristas, empregados domésticos – muito numerosos e com frequência solteiros – e pobres, representando às vezes 50% da população. Estes se submetem ao subemprego, que atinge de 25 a 50% da dependência econômica, tendo de confrontar-se ainda às incertezas do futuro.

Segundo Vogler, esse é o quadro mais geral político-econômica que estrutura a sociedade urbana europeia do Ancien Régime. Numa palavra de síntese, o século XVII conhece uma consolidação da oligarquia – a despeito da crise aristocrática britânica estudada por Lawrence Stone (1965) –, um enfraquecimento da plebe e uma fragilização da classe média, sendo esta duramente atingida pelo incremento do fisco, levado a cabo pelo ministro francês, o Cardinal de Richelieu nos anos 1630. Em virtude disto, a tensão se acirra e as insurreições urbanas tornam-se numerosas. Face à pauperização, várias cidades colocam em prática o cercamento dos pobres, com êxitos diversos: trata-se de uma ação tripla, com vistas a isolá-los, a submetê-los ao trabalho e a evangelizá-los.

No caso específico das cidades francesas do Ancien Régime e de sua organização social, sobre as quais iremos nos deter nesta resposta, a importância de sua rede urbana provincial é evidenciada na medida em que 43 cidades, à exceção de Paris, ultrapassam a escala das dez mil pessoas. Em termos demográficos, o grupo mais importante aglutina entre 15 e 25 mil habitantes e, destes, a maioria não passa de vinte mil. As grandes capitais provinciais são em número de nove, sendo que apenas Lyon se aproxima da escala dos cem mil.

Na historiografia corrente, o século XVII aparece à primeira vista como um período de imobilidade. Apesar disto, é possível afirmar que as cidades conhecem mudanças consideráveis. Na França, em particular, sua população passa de 14% – aquela do reinado em 1600 –, para 17%, no fim da mesma centúria. Na base desta estrutura demográfica, encontra-se uma multidão de pequenos mercadores enraizados no meio rural, com um artesanato ativo. Estes mercados constituem dois níveis, um primeiro entre mil e dois mil habitantes e um segundo em torno de cinco mil habitantes. Tais cidades serviam tanto de residência para as elites quanto de mercado de troca entre produtos agrícolas e artesanais, que mais tarde vão dinamizar os primórdios no processo industrial na Grã-Bretanha.

Em nível de adensamento urbano superior, havia em 1700 cerca de sessenta cidades com mais de dez mil habitantes. Elas eram numerosas ao noroeste da França, ao longo dos grandes rios, assim como no lado do litoral mediterrâneo, como Marselha. A rede urbana geral variava segundo a região, sendo fraca em regiões montanhosas, mas forte no Languedoque, na Aquitânia, no corredor de rios como o Rhône e Saône, na bacia parisiense, na região de Flandres e na Alsácia. Na Bretanha, as cidades se caracterizavam por um policentrismo vigoroso.

As cidades em expansão eram grandes praças portuárias e comerciais do Atlântico, como Nantes e Marselha, e cidades com atribuições políticas, o que confirma o papel crescente do político. Neste ponto, entretanto, há uma divergência entre os historiadores franceses. Para Jean-Pierre Poussou (1983), que estudou a estrutura das cidades nas ilhas britânicas do século XVIII, a atividade urbana tem, primeiramente, um papel econômico, mesmo se Londres exerça uma função política de destaque. Poussou se opõe, desta maneira, ao pressuposto de Georges Duby (1980), para quem o papel primordial da cidade não é econômico, mas político. Para o organizador do compêndio História da França urbana, a cidade se distingue na paisagem e no meio que a circunda como um ponto de enraizamento do poder. O Estado assim engendra a cidade.

Não obstante, ainda em relação à França, seguindo o raciocínio de Vogler, que endossa a perspectiva de Duby, algumas localidades tornam-se centros regionais graças a funções políticas, como Grenoble e Brest. A hierarquia das grandes cidades se modifica ligeiramente com o recuo de Rouen e de Toulouse, e a subida de duas cidades recentemente anexadas, Lille e Estrasburgo, transformadas em capitais administrativas, mantenedoras da fronteira.

Após ter conhecido um ritmo de crescimento rápido no século XVI, as cidades francesas assistem a uma evolução mais diversificada e contrastada no século seguinte. A grande maioria das urbes da França se beneficia do desenvolvimento econômico na primeira metade do século, seguida de uma inflexão na segunda metade. A taxa de crescimento anual médio cai de 0,53% em 1600 para 0,19% na segunda metade do século. Entre as causas da redução, figuram as crises populacionais provocadas pela fome e pelas epidemias, mais mortais nas cidades que no campo. Cada crise atinge de 10 a 20% da população e interrompe seu dinamismo durante vários decênios.

De 1640 a 1700, a população de Rouen, por exemplo, cai de 75 para 60 mil e aquela de Angers assiste a uma redução de 34 para 30 mil entre 1650 e 1680. Uma das hipóteses para o recuo se liga à revogação do Édito de Nantes, em 1685, que provoca o êxodo massivo em certas cidades devido à presença huguenote e às guerras de Luís XIV.

As ameaças navais britânicas sobre as regiões costeiras da Picardia, da Normandia e da Bretanha, e as ameaças militares sobre as fronteiras de Lille a Berfort, provocam um esvaziamento dessas cidades. Dois comportamentos majoritários se esboçam: as cidades que tiveram um grande desenvolvimento no século XVI vão diminuir seu ritmo de crescimento, como no caso de Nantes, de Saint-Malo e de Grenoble, enquanto aquelas que tiveram apenas uma progressão lenta irão conhecer a estagnação. Algumas cidades antes dinâmicas tornam-se inativas, como Toulouse.

Edição      Enrique Shiguematu

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Walter Benjamin e Paul Zumthor (IV): ocaso da civilização escrita?
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Por    Bernardo Buarque de Hollanda

McLuhan aponta para o estágio atual de transição de uma Era Mecânica, assentada no livro, a uma Era Eletrônica, alicerçada na televisão.

“… as relações de comunicação constituem

a estrutura de sustentação e desenvolvimento

de todo o processo da história”.

In: Civilização escrita e cultura de massas

Emmanuel Carneiro Leão

A conclusão da série sobre a oralidade e a escrita no mundo moderno será feita na coluna de hoje com apoio nas ideias de Marshall McLuhan (1911-1980). A leitura do canadense suscitou-nos a identificação de alguns pontos de contato das teses do autor com os textos de Benjamin e Zumthor. McLuhan aponta para o estágio atual de transição de uma Era Mecânica, assentada no livro, a uma Era Eletrônica, alicerçada na televisão.

Segundo sua formulação, divulgada nos anos 1960 com “A galáxia de Gutenberg”, o alfabeto e a imprensa foram os dois instrumentos principais para o desenvolvimento da escrita na história ocidental. O influxo de uma nova revolução tecnológica no século XX coloca em xeque os fundamentos da civilização calcada na leitura.

O alfabeto foi responsável não apenas pela promoção do ato de ler em nossa sociedade, mas também pela hipertrofia do olhar em detrimento dos demais órgãos dos sentidos. Estes até então se integravam em um conjunto harmônico de percepção do mundo, sem noção de perspectiva. O desequilíbrio sensorial acarretou o fim da vivência totalizadora e instaurou uma visão, por assim dizer, unidimensional. A separação entre realidade e palavra estabeleceu a necessidade de um grande esforço do ser humano na decodificação e na decifração da linguagem alfabética.

Já a imprensa substituiu o papiro e o pergaminho, típicos do Império Romano e da Idade Média, pelo livro e pelo papel. Estes possibilitaram o alargamento do alcance de uma mensagem, ao mesmo tempo em que fundou uma relação interpessoal entre autor e público, entre remetente e destinatário. Como veículo abstrato, a obra impressa dispõe informações, baseadas na relação cognitiva olho-cérebro. Mas de forma paralela acentua o individualismo, isolando o homem da participação e da convivência interpessoal.

O aparecimento da noção mcluhiana de aldeia global permite ao homem contemporâneo a recuperação da ideia de uma unidade comunitária, de uma totalidade vital e de um novo equilíbrio entre os órgãos dos sentidos. Diante da televisão, a civilização escrita vê-se reduzida em razão de seu caráter linear e fragmentário, causal e sequencial. Os laços globais do ser humano procuram ser refeitos em meio a uma mutação radical no universo da comunicação.

O ponto de convergência dessa tese com o pensamento de Benjamin diz respeito à suposição de que a imprensa segregou o convívio direto de pessoa a pessoa, ante a dissolução dos vínculos comunitários. A comunicação oral tornou-se qualitativamente distinta de um mundo embotado de informações.

De acordo com o filósofo Carneiro Leão: “Mesmo quando uma conversação é aparentemente menos carregada de informação, o simples fato de falar em grupo, de se estabelecer um encontro, mobiliza uma participação do todo. A palavra escrita só tem uma forma. O livro é uma forma para todos. Um interlocutor, ao contrário, é uma totalidade, dando e tomando parte num conjunto”. (Aprendendo a pensar I, Petrópolis: Vozes, 1991, p. 160).

Quanto a Zumthor, as semelhanças com as perspectivas de McLuhan dão-se na ênfase da literatura como um fenômeno pontual e transitório na história do Ocidente. Neste sentido, a volta do predomínio da fala e da audição na cultura de massas, através das séries radiofônicas e televisivas, por exemplo, possibilita uma projeção mais auspiciosa para a tradição oral e menos alvissareira para a tradição escrita em nossa sociedade, no limiar da humanidade do terceiro milênio.

Edição      Enrique Shiguematu

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Quer algo pós-moderno? Latte Art!
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Por Enrique Shiguematu

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No desespero de sair da situação de desempregado. Cogitei oportunidades de virar barista, um profissional especializado em bebidas baseadas em café. Curiosamente as vagas de barista, diferente de quase todo o resto do mercado trabalho, não exigem inglês, nem excel, nem “cabeça de dono”, nada disso. Nem precisava comprovar experiência! Para virar barista, bem, a única coisa que precisava era curso de barista. Eu não tenho curso de barista. É. Grande novidade.

Mas não me desanimei. Assim como aprendi fotografia com os infinitos tutoriais do Youtube, poderia aprender a arte do barista, certo?

Nunca estive mais enganado.

Sim, você encontra bons vídeos que lhe mostram os passos corretos de como fazer um espresso, como esquentar o leite no vapor, qual é a diferença de um capuccino para um latte… Um mundo à parte. A atenção perfeccionista para os pequenos detalhes e procedimentos e opiniões de paladar que ficam próximos à pedância dos sommeliers definitivamente me indicaram para não mergulhar de cabeça no mundo café, por mais “romântico” que seja trabalhar numa cafeteria. Definitivamente não sou um cara dos detalhes e se você encontrou um erro de ortografia, vire barista. O mundo precisa de mais pessoas atentas ao seu café.

Por que digo isso? Já viu Latte Art? É uma técnica super-difícil na qual o barista “desenha” com leite no seu café. Quando digo super-difícil, eu quero dizer realmente difícil, como encostar a sua testa na ponta do seu pé. Bem, talvez eu esteja exagerando, mas não achei nada na internet que me indicasse que é algo trivial.

É tão não-trivial,que chega a ser uma experiência que vale mais que o café em si. Um pingado de padaria, mesmo com teoricamente mais leite e mais café, não vale, nem de longe, o mesmo que uma xícara bem executada de latte art. Se você fotografa um pingado e joga no instagram, provavelmente vai colocar de legenda #segundafeira #sono. Mas se você lançar nas redes sociais uma xícara com latte art, vai escrever uma mensagem que pode ser traduzida em #souchique #sourico #nãotomocafédeplebeu.

A experiência de saber que seu café foi feito com todo o ritual da máquina de espresso. De saber que um sujeito treinou anos e anos para fazer aquela xícara de “café com leite” vale mais que a bebida em si. A atenção que devia estar voltada ao sabor da bebida se redireciona para sua estética. A sobrevalorização das experiências é um elemento claro da pós-modernindade. Latte Art é um excelente exemplo de como, num mundo onde parcelas da população usufruem de abundância e excedentes relativos, as atenções e demandas estão sendo redirecionadas para coisas cada vez mais exóticas e gourmetizadas.

Então não se esqueça, se o “cafézinho” ou o “café com leite”está custando quase 10 reais naquela padaria um pouco mais sofisticada, lembre-se que é culpa da pós-modernidade!


Walter Benjamin e Paul Zumthor (III): da voz à letra
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O romancista é a culminância do indivíduo atomizado, isolado, do ser solitário carente de comunicação e incapaz de dar conselho.

 

A inflexão na relação entre a oralidade e a escrita é resultado da invenção da imprensa e da propagação do livro impresso a partir do século XVI. A escrita, até então condicionada às convenções da leitura em grupo, do domínio de conhecimento religioso ou da performance teatral, passa a ser uma atividade encerrada em si própria. Os efeitos dessa transformação no âmbito da literatura, longe de constituírem para Benjamin um mero sinal da decadência cultural do mundo moderno, significam um fenômeno global que se inscreve no processo dialético-secular das forças produtivas. No afamado ensaio do autor alemão, o narrador e o romancista serão os dois protótipos que encarnam essa mudança histórica entre o contar e o escrever.

A figura do narrador é constituída por oposição à do romancista. A cultura oral desagrega-se nos tempos modernos com a consolidação da tipografia. Tomando-se cada vez mais residual, entre o “rastro” e o “resto”, como sugerem Sabrina Sedlmayer e Jaime Ginzburg em coletânea dedicada a Benjamin, a faculdade de narrar e de intercambiar experiências é mantida apenas entre alguns expoentes da literatura, à maneira de um Nicolai Leskkov ou de um Edgar Allan Poe.

A narrativa desses contidas possui características que remetem, ainda que longínqua e remotamente, ao estágio de vida da era pré-industrial. Nesta, a maneira de contar, de compartilhar e de repertoriar histórias integra os homens de uma comunidade em um universo totalizador. O narrador condensa experiências pessoais e coletivas, vivendo-as, colhendo-as e as transmitindo a outrem de maneira direta, de pessoa a pessoa, de geração a geração. Desta forma, constitui uma cadeia de conservação e de perpetuação da memória grupal ou comunitária.

A transmissão oral é, pois, uma das marcas da narrativa, fazendo da vivência a matéria-prima para a passagem sucessiva de histórias e enredos tradicionais. Estabelece-se aí uma comunhão entre o narrador e seus ouvintes, na mesma proporção que entre um artesão e seus aprendizes. O ato de contar carrega em si uma moral, traz nele um ensinamento, guarda consigo uma lição de sabedoria, de caráter utilitário e prático em boa parte das oportunidades. A equivalência da arte de narrar com o mundo dos mestres, dos sábios e dos artífices é um dos pontos chaves do argumento benjaminiano.

Em Magia e técnica, arte e política, assim o ilustra: “A antiga coordenação da alma, do olhar e da mão, que transparece nas palavras de Valéry, é típica do artesão, e é ela que encontramos sempre, onde quer que a arte de narrar seja praticada”. (São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 221.)

Já o romance corresponde à vigência de um contexto histórico distinto. Se para György Lukács a criação romanesca constitui uma epopeia sem deuses, para Benjamin o romance é uma epopeia destituída de fala, sem voz, sem comunicação, sem experiência vital. Para tanto, o arco do romance do autor alemão se estende do cervantino Dom Quixote, no século XVI, até o flauberiano Educação sentimental, no século XIX. O romance, cuja ascensão foi historicizada de maneira minuciosa por Ian Watt em 1957, é a expressão literária da burguesia, quando as manifestações artesanais são suplantadas pela manufatura e pelo modo industrial capitalista.

O romancista é a culminância do indivíduo atomizado, isolado, do ser solitário carente de comunicação e incapaz de dar conselho. Distanciado de seus pares, está acima, mas dissociado do convívio com o seu leitor. Este, por seu turno, é aquela pessoa ávida por extrair da leitura de uma obra impressa algum sentido para a sua vida, pois ele próprio carece de realizações. A evasão do mundo destituído de significado permite ao romancista revelar a condição melancólica do homem burguês na sociedade moderna.

Em um livro do crítico brasileiro Álvaro Lins sobre um renomado escritor francês, A técnica do romance em Marcel Proust encontramos um exemplo ilustrativo do sentimento existencial do romancista moderno:

“A solidão de Marcel Proust, a que já aludimos no início desta obra, revela-se inteiramente no seu individualismo como na sua liberdade: ele não tinha nem ideologia, nem partido político, nem norma social, nem religião. Um espírito livre, porque solitário. Decidiu-se a exprimir a realidade de sua experiência vital, mas quando já não se sentia preso a qualquer das suas contingências. Fechara as portas do mundo” (Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1956, p. 177).

Lado a lado do romance, uma nova forma de comunicação se torna dominante com a consolidação da burguesia: a informação. A notícia, veiculada de modo primordial pelo jornal, não requer a transmissão de uma experiência ou de uma sabedoria, mas a verificação e a apreensão imediata dos acontecimentos diários. Por isto, a informação é uma dimensão fechada em si mesmo, passível de explicação pura, inconcussa e exata dos eventos ordinários, ao contrário da narração, inacabada e sempre franqueada à interpretação.

Com base nessas colocações de Benjamin, a análise das consequências da informação na relação entre a tradição oral e a escrita na contemporaneidade será o quarto e último passo dessa série, a ser publicada na próxima quinzena.

 

Edição      Enrique Shiguematu

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