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Categoria : Sua Arte

Cinco passos para a alta performance
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Ana Vidal

Por    Marcio Samia 

Foto: Marcio Samia

Foto: Marcio Samia

Numa longa viagem de aventura é extremamente importante que corpo e mente trabalhem juntos para que se consiga trilhar o Caminho de maneira saudável, a fim de se atingir algum objetivo, que muitas vezes só faz sentido para aquele que se aventura.

Com nossos sonhos não é diferente.

O problema é que, justamente por fazer sentido apenas para nós mesmos, muitas vezes acabamos deixando esses sonhos de lado ou adiando sua execução, por receio do que outras pessoas irão pensar ou dizer daquilo, ou por medo do que o desconhecido pode nos apresentar, obrigando-nos a sair da deliciosa e aconchegante zona de conforto em que nos encontramos.

Quando percorri os incríveis 800 quilômetros de caminhada rumo a Santiago de Compostela, pude perceber quanta coisa interessante eu estava deixando pra trás com medo do fracasso. Mal podia entender que esse conceito de sucesso ou fracasso dependia exclusivamente do que eu definisse como foco na minha vida.

Passo a passo, dia após dia, fui entendendo que, assim como na vida e nos objetivos que traçamos todos os dias para nós mesmos, cada pequena etapa percorrida deveria ser comemorada, pois o objetivo final somente seria atingido com a conclusão dessas pequenas partes. Por isso era tão importante manter o foco no presente, pois o futuro desejado só ia chegar caso trilhasse uma boa etapa no momento atual.

Nessa peregrinação, após mais de oitocentos quilômetros de caminhada, consegui extrair os cinco passos mais importantes que dei rumo à realização do meu objetivo. Trouxe isso para meu universo profissional, onde trabalho com coaching e treinamentos de alta performance, e adaptei os conceitos para que pudessem ser utilizados em qualquer área da nossa vida.

Compartilharei abaixo cada um desses passos, e nos próximos artigos irei abrir meu diário de viagem para falar um pouco mais sobre cada um deles. Dando exemplos vivenciados por mim mesmo na prática, lá no Caminho de Santiago, vou contar em mais detalhes como descobri cada passo para a alta performance, sendo eles:

1) Você define suas metas, mas é importante ter coragem de tirá-las do papel;

2) O que você carrega na sua bagagem certamente influenciará sua caminhada;

3) Aumente sua percepção enquanto você caminha em direção a seus sonhos;

4) É na caminhada, e não no destino, que deve se concentrar sua atenção;

5) Seja você o responsável pelos seus resultados. E aceite isso.

Ter a consciência de que seus hábitos e atitudes definem onde você irá chegar faz toda a diferença para que possamos atingir resultados extraordinários. Ter coragem de tirar os planos do papel é o primeiro passo rumo à caminhada para a realização dos seus sonhos e objetivos. Deixar pra trás pesos do passado é fundamental para que a caminhada seja mais prazerosa e prestar atenção aos pequenos detalhes é imprescindível para que você se concentre no único momento que realmente existe: o agora.

Depois disso sua jornada se tornará incrível e dia após dia você irá perceber que tudo o que você precisa para seu sucesso está dentro de você mesmo. Assumir seu papel como responsável pelos seus resultados é, talvez, o mais importante dentro de um processo de autoconhecimento.

O meu sonho era andar por oitocentos quilômetros nesse Caminho mágico. O seu pode ser o que você quiser. Realizar só depende de você!

Continue caminhando.

Um grande abraço. A gente se vê, Evoluindo por aí.

Edição        Ana Vidal

Samia nova bio


MECENAS, SABOTADORES
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Por          Vítor Steinberg

tome banho de bucha

soltaram a bruxa

disseram que é

mas não deve ser

a Xuxa

 

lave-se no sal grosso

a situação, meu irmão

agora é inverso

estragaram, carne viva

o significado do verso

tá osso
o que capta verba

e não pega o instante

verbaliza sem verbo

o leite ruim da lactante

 

 

 

 

 

é fato:

já tem muito rato

para se preocupar em importar

um lavatório, Mickey Mouse

em pleno MinC, Cards of House

 

a vergonha alheia o artesão publica,

uma arte que, envergonhado, ele não torna pública.

 

de aluguel

há barriga e

matadores
de verba há;

do essencial

não há

captadores

 

quaisquer artistas

bebem da fonte

cospem no prato que comeram

os sabotadores

 

 

 

verba mecênica

averbação nua

da arte cênica

 

sustentava os ditos cujos

vagabundos

pelas costas

esfaqueiam

os criadores

 

corre que é seu

ignóbil

sua própria versão

do prêmio Nobel

Edição        Enrique Shiguematu 

 vit


Conhecimento Prévio
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Por    André Dib

O conhecimento era prévio. Não haveria como saber disso depois. Nem muito antes. Era apenas um conhecimento que sabia e sabia que saberia antes de acontecer. Como um episódio de vidência repentina. Se sentia assim: com uma bola de cristal no bolso.

E antes que pudesse pegá-la e enxergar o futuro, já sabia o que aconteceria. Não é bem que sabia. Mas sentia que era o que aconteceria. E acontecia. Um de já vu do futuro. Uma premonição do passado imediatamente recente.

 Mas o que importava é que aquele carro havia batido, bem em frente a escola que lecionava. O tumulto era tão grande que não se sabia se havia realmente alguma morte ou só eram imaginação os relatos de defuntos espalhados pelo chão que eram contados nos corredores. Iria assistir tudo pela janela. O angulo era ruim, mas tinha noção de que fora um acidente grave. Já podia visualizar o óleo que escorrera do motor na batida. Parecia ferrugem líquida. Talvez estivesse misturado com o sangue do motorista.

Uma cena horrível. A fumaça lenta que tomava conta da rua dava espaço para o caminhão de bombeiro que já estava ao lado da ambulância há algum tempo. Os dois faziam uma boa dupla no horário do expediente.

A tempestade e o silêncio. Era isso o que sentia. Sentia que era óbvio aquele acidente. Tudo acontecera de maneira tão rápida que nem parecia que havia acontecido. Ele estava sentado quando ouviu os pneus gritando. Em seguida o barulho de uma enorme invenção humana se chocando contra qualquer outra invenção tão rígida quanto as pedras da costa, que em anos viram areia. E seguindo essa lógica da natureza o muro da escola havia virado alguns pedaços de escombros misturados com ferragens e pedaços de vidro. Como se tudo estivesse batido no liquidificador.

Demorou a se levantar e ver o que tinha acontecido. Estava terminando de corrigir uma prova e tinha a sensação de que daria tempo de acompanhar todos os capítulos de uma longa novela apenas na última semana.

Ficou imaginando como a assessoria de imprensa reagiria a tal acidente se houvessem alunos e pais envolvidos. Será que fora culpa do motorista, de algum pedestre ou dos guardas do colégio que não haviam conseguido segurar uma das crianças do jardim de infância que saiu correndo no meio do trânsito e transformou aquela manhã de Sol em manhã de tragédia.

Deixou os óculos na mesa e olhou para a janela. Seu alvo, seu posto de observação. Caminhou em sua direção com a calma de quem já sabe o que lhe espera. Sabia que dali não veria tudo, mas veria. Isso já bastava. Queria ser mais um na fila de curiosos que fala com toda certeza o que acontecera. Quais eram os fatos. Quais eram os motivos.

Quando chegou a janela, se apoiou como uma guarda-vidas se senta em seu posto de observação. Dali pôde ver um oceano tranquilo. Com correntezas e ondas quebrando de maneira natural e esperada. Tudo ocorrera como deveria ocorrer. Tudo como o esperado. Sem escombros, sem batida, sem defuntos, sem causas e sem culpa: era apenas uma manhã de Sol.

Edição    Filipe Dal’Bó e Samy Dana

André Dib

Tags : Oniricontos


Brilho do asfalto
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Por    André Dib

 

Era só isso o que queria. Paz. Buscava por paz. Encontrou um punhado no terceiro subsolo. Sob o banco de couro do importado. Entrou sentou e respirou fundo. Relaxe. Paz. Finalmente conseguiu sentir alguns de seus músculos perderem tensão e darem lugar para mais oxigênio e energia. Embora o terno, a camisa e a gravata esmagassem seus neurônios, esse era o menor dos problemas. Já estava acostumado com a camisa de força que saia de casa todos os dias pela manhã. Os problemas eram outros. Nem piores, nem maiores, nem melhores e nem menores. Tratavam-se de pensamentos. Eles estavam se reproduzindo como um vírus. Sua cabeça parecia um botijão de gás pulsante. Parecia que a qualquer turbulência a explosão seria certeira. A cabeça se desfaria junto com os 6 cilindros do motor, as linhas de couro, as vigas do prédio recém lançado e principalmente junto com os devaneios pensativos que eram a causa do seu trânsito mental. As avenidas principais estavam um caos, poucas sinapses produtivas estavam acontecendo.

Mas mesmo assim, continuaria vivendo. Disso tinha certeza. Não tinha tantos problemas de saúde assim, a maioria era controlável, e, convenhamos, qualquer pílula resolve. De olhos fechados passou as mãos no rosto e pode sentir a barba por fazer. Sabia que estava atrasado em relação a vida. Tinham muitas coisas atrasadas ou por fazer. Na porta da geladeira de inox havia uma lista de mercado, dentro dela alguns pacotes de fast food que cultivavam uma linhagem de espécies multiestrelares. Mas o que lhe trazia mais asia eram as listas de tarefas que guardava na gaveta do criado mudo. Para tentar se organizar e fazer a vida fluir de tempos em tempos fazia uma lista de coisas a fazer. O resultado era visível. Todos os papeizinhos se acumulavam na gaveta de modo que não pudesse ser aberta nem fechada. Provavelmente os trilhos já estavam emperrados.

A garagem estava calma. Diferente dos horários de pico. O prédio tinha algumas dezenas de andares e abrigava as maiores empresas, escritórios e agências do país. Era muita gente. Eram muitos negócios. Era muita pressão. Era muito chato. Porém, era muita grana. E era isso que alimentava a todos naquele lugar. Era como se o papel de parede do enorme hall de entrada fosse de dinheiro assim como o contrapeso dos elevadores de ouro.  O padrão era outro. Diferente do que tinha quando vivia com a sua família no interior. Se lembrava de como se divertia com pouco. Na verdade, se divertia com muito. Mas tudo o que tinha, todos também tinham. A natureza está para todos assim como a riqueza está para poucos. Se divertia na rua, no rio, na fazenda, com os bichos, com o céu, com as nuvens, com as estrelas, com as chuvas, com o barro…se divertia com tudo que estava a sua volta. Lembrou de uma vez que as crianças todas se juntaram e construíram um castelo de pedras. Na sua memória o castelo era tão grande que podia se esconder atrás das muralhas para se proteger das guerras de água.

Mas os tempos mudaram. Os tempos, os lugares e as pessoas. Perdera o contato com a família quando partiu para a capital cursar o ensino superior. Sozinho, conheceu um mundo novo. Um mundo, que até então, girava apenas na televisão. A vida é um filme. É preciso atuar, iluminar e editar. Mas o principal é esconder o que acontece nos bastidores. A parte de trás das cortinas é a que revela quem são os atores. Uma vez assistia sua avó fazendo tricô na sala deitado no chão. Parecia muito feio. As cores eram esquisitas, os formatos idem, nada parecia fazer sentido. Quando a avó estava perto de terminar o bordado o neto avaliou o trabalho e disse que estava muito feio. A avó pediu que se levantasse e olhasse o bordado por cima. Foi quando percebeu que, às vezes, é preciso olhar o outro lado da vida. Concluiu que a cidade grande foi bordada de cabeça para baixo. Talvez no andar de baixo alguém esteja entendendo alguma coisa. Só sabia que aquele não era o seu lugar. Opinião diferente do sábio jovem do interior que era há alguns anos atrás. Na cidade aprendeu o que era o brilho. O brilho das telas, dos letreiros luminosos, das joias, dos faróis dos carros de luxo. Descobriu que de noite o brilho é mais intenso. De dia é mais difícil fazer brilhar. De noite era mais fácil. Sabia muito bem disso. O seu fiel amigo isqueiro era a prova de que até o fogo era mais forte de noite. De dia acendia os próprios cigarros, mas de noite o instrumento podia se tornar uma celebridade e acender dezenas de cigarros de terceiros por aí. Mas para fazer brilhar era preciso lustrar um bocado. A vida atrás das cortinas eram listas de mercado e gavetas emperradas. O trabalho do lustrador só é valorizado quando ele já não está mais em cena.

E por conta disso buscou o brilho. Buscou o emprego mais brilhante, o carro mais brilhante, a casa mais brilhante, as roupas mais brilhantes. Mas o que realmente importou foi a escolha das pessoas: as mais brilhantes. E nessa história, quem brilha muito ofusca quem está por perto. Se via ofuscado. Se via como uma estrela: sem brilho próprio e sem nem sinal do Sol para fazer brilhar. Embora tivesse tudo o que queria não tinha nada de que precisasse.

Virou a chave, acendeu um cigarro e se colocou da garagem para fora. A madrugada era acolhedora. As casas de festas se punham a disposição como um mordomo de uma mansão. Da mesma maneira, os bares e restaurantes de luxo estavam de portas abertas para aqueles que podiam brilhar. Mas naquela noite não se sentia convidado, muito menos tinha vontade de participar dessa festa. Queria paz. Relaxe. Paz. Era isso que buscava. E, embora não soubesse para onde ir, sabia onde queria chegar. Já era um começo. Afinal, quando não se tem destino, qualquer caminho é caminho.

Edição    Filipe Dal’Bó e Samy Dana

André Dib

Tags : Oniricontos


Batendo asas
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GVcult

Por    André Dib

 

 Clarissa Bonet

foto: “Street”, por Clarissa Bonet. Créditos: lensculture.com

Um passo atrás do outro, caminhava na direção do equilíbrio pelo meio fio. Não era mais ágil como antes e o meio-fio também não era tão amigo como nos seus 8 ou 10 anos. A lembrança é do seu grupo de amigos do bairro, todos andando pelos meios-fios como uma locomotiva desliza sobre os trilhos: natural. Talvez antes fosse mais fácil, ou talvez a memória fizera questão de apagar os tombos e tropeços.

Mas o que importa é que, agora, com os seus 43 anos, percebera que os amigos se foram, os meios-fios de qualidade se foram e o equilíbrio se foi. Imaginava o que os transeuntes que passavam por ele achavam de um recém milionário que tentava se equilibrar na beira da calçada. Não sabiam que havia juntado seu primeiro milhão naquele dia, como também não sabiam dos pensamentos que, agitados em sua mente, trouxeram à tona a sensação tangível de infelicidade.

Era seu sonho, tornou-se realidade. Depois de realidade, virou pesadelo. Agora não sabia se pulava da calçada e continuava a caminhar como uma pessoa normal ou se tentava se equilibrar. Cair de uma vez também era um prato desse cardápio.

Tudo parecia bem até atingir seu objetivo. Nunca produzira tanto no trabalho, assim como nunca tinha visto taxas de rendimento tão altas nos seus investimentos pessoais na bolsa. Acordar sorrindo para dormir sorrindo. Um dia após o outro, imaginando como seria ler no extrato bancário: “saldo: um milhão de reais”. Lera. Naquela manhã acordou e como um leopardo avançou no smartphone que logo abriu o aplicativo do banco.

Depois da festa solitária e berros de vitória de um menino que ganha o campeonato de futebol do bairro, sentou na cama e estático permaneceu. Não  conseguia visualizar o segundo milhão, muito menos o terceiro. Também não conseguia se imaginar gastando sua verba de felicidade com algo que pudesse lhe trazer o prazer que procurava.

Quando se deu conta estava se equilibrando no meio-fio, completamente alheio à vida movimentada que havia à sua volta. Talvez o dinheiro não importasse tanto quanto pensava ou talvez ainda não tivesse dinheiro suficiente. Mas entre as dúvidas, especulações e lembranças daquele bairro de 30 e tantos anos atrás, havia uma certeza: a de que não estava vivendo o seu sonho. Talvez o sonho fosse ingênuo. Afinal, o que um milhão de reais poderia trazer de tão bom? Mas e se estivesse devendo um milhão, estaria mais ou menos feliz?

Os desafios e questões surgiam como as pombas que seu avô vivia espantando do telhado da casa verde de portões amarelos. “É para mostrar que esse é o melhor país do mundo para se viver”, dizia o velho que já havia viajando pelos países mais miseráveis do mundo como médico. Mas quando era pequeno não entendia porque todos do bairro deveriam saber que seu avô gostava tanto daquele país. Mas achava engraçado e dava risada dos cabelos bagunçados do querido avô espantando as pombas.,

Mas seus cabelos continuavam penteados. As pombas e as dúvidas ainda estavam lá. E talvez não fossem voar tão cedo. Talvez gostassem das cores do paletó e da gravata, assim como das cores do portão e da casa. E, portanto, ficariam por ali, mesmo que tentasse espantá-las.

Lembrou então da vez em que seu avô comprou um veneno para colocar no telhado, que prometia espantar as pombas. Depois do efeito do produto, o velho patriarca teve um trabalho diferente: subir no telhado e tirar todos os defuntos de pombas que o veneno deixou pra trás. Lembrava que naquela noite, pela fresta da porta da sala, assistiu ao seu avô chorando baixo e balbuciando arrependimento para a mulher, tão querida. O choro não era de tragédia, muito menos de drama, era pior: era sincero. As lágrimas corriam pelo seu rosto e paravam no seu bigode branco e desajeitado, assim como as pombas que parariam de incomodar os moradores daquela casa.

A partir desse dia, o senhor nunca mais espantou pombas. Ficou arrependido de tirar a vida daqueles animais que apenas sobreviviam na casa daqueles que buscavam sempre mais e mais. Formulou teses de como as pessoas são ruins. Como elas são ruins por natureza. Que não podem viver com a chateação de algumas pombas, precisam sumir com as pombas de sua vida. Agora, com os muros pintados e o portão preto, seu avô nunca mais ficara descabelado espantando pombas. Muito pelo contrário: vivia deixando alguns restos de comida escondidos entre as plantas para alimentar os bichinhos. Como quem alimenta aqueles que já foram.

Resolveu descer do meio fio e caminhou até o parque, que na sua infância não era cercado. No caminho passou pela antiga padaria do seu Zé, que já havia mudado de dono algumas vezes. Gastou um pouco da sua fortuna com pães quentinhos que alimentaram algumas dezenas de pombos daquele parque.

Edição    Filipe Dal’Bó e Samy Dana

André Dib


Árvore da Vida
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GVcult

Por    André Dib

Tree

Então era isso, ele ficaria ali sentado enquanto ela caminhava pra longe. Talvez fosse a última vez a vê-la. Mas também, ele já estava velho, podia simplesmente se desfazer a qualquer momento. Como um gigante pisando em uma formiguinha. Ele nem notaria, o gigante.

Durante toda a vida havia sido dedicado, sustentara uma família inteira durante gerações. O trabalho sempre árduo e ininterrupto. Nunca havia tirado férias. Suas lembranças da vida profissional eram de uma escada alta com inúmeros degraus. Ele subiu um por um, estava no topo, no final. Cada vez podia ver mais do alto. Cada vez podia ver mais longe. E cada vez podia ver mais e mais trabalho abaixo dele. Novos profissionais estavam no setor e profissionais novos também. Talvez um desses últimos tivesse pego seu lugar. Mas achava justo. Com ele também foi assim. Ele esperava que o superior direto caísse e tomava o lugar dele. Foi assim a vida toda. Todos fazem isso. Ele também fazia, outros também fariam.

Mas sua recente queda no mercado profissional não tinha sido premeditada. Sabia que já estava trabalhando há tempo demais e não tinha a mesma força e agilidade de antes. Mas embora estivesse velho, tinha experiência. Por um outro lado, se fosse capaz de continuar trabalhando não teria saído da jogada. Mas de qualquer maneira, foi um susto pra todos. Mas muitos também caíram junto. É um jogo de baralho marcado. Quando venta as cartas viram.

Aos poucos, já parava de sentir tanta dor com a perda, mas também não sentia muita felicidade. Todos os seus sentimentos e sensações pareciam estar secando aos poucos. Como se não pudesse mais respirar, como se não pudesse crescer. Sentia-se diminuindo. Ficando duro. Inflexível. Talvez quebrasse ao meio se alguém esbarrasse nele. Já havia ouvido algumas versões sobre a vida após a morte ou a morte após a morte. Tinha muito medo, não sabia o que ia acontecer, só sabia que ia acabar.

E aos poucos, toda a seiva daquele tronco foi secando. E assistia toda a sua equipe de folhas secarem junto, só que mais rápido. Sabia que eram mais sensíveis, mas a visão era amedrontadora. Ao amanhecer apareciam mais pessoas na rua e sabia que o momento estava se aproximando.

De repente avistou um par de botas marrom escuras vindo na direção deles. Tentou fazer algum movimento, mas era inútil. Quanto mais tentasse lutar pela vida, mais rápido se afastaria dela. Em um passo, as botas esmagaram três folhas queridas. Elas ficaram absolutamente destruídas no asfalto. Estavam muito secas, então o peso dos pés deu a martelada final e acabou com aquilo para sempre. Lembrou-se de quando as pequeninas folhas nasceram, ainda não estava tão alto. O que uma primavera não faz hein!? Mas sempre soube que as folhas eram mais sensíveis e duravam menos. Durante toda a sua vida deve ter perdido mais de mil folhas. Mas lá do alto nunca tinha visto de tão perto. O barulho era perturbador. O próximo podia ser ele próprio. Um sapato poderia quebra-lo no meio, ou um pneu de carro podia esmaga-lo até perder a respiração.

Mas o que importava era que quando estava caindo do topo da árvore, o velho tronco vira seu amor pela última vez. Ela parecia estar fazendo um bom trabalho, além das folhas e dos pequenos troncos, também sustentava um ninho de passarinhos. Tinha certeza de que seria uma boa mulher, uma boa mãe. Pena não poder se despedir. Pena não poder ter se apresentado. Mas ela sabia dele e ele sabia dela. Durante o outono, com a perda de folhas, ele podia vê-la. E eles flertavam com olhares distantes. Mas não tinha como se aproximar mais. Essa é a realidade de um tronco, e não pode ser mudada.

Por um momento, ao lembrar dos ventos frios sacudindo a todos na árvore, se recorda que tinha esperanças de continuar vivo fazendo parte daquela árvore. Mas a tempestade estava muito forte. Mais forte do que a de 20 anos atrás, que quase faliu a empresa. Vários troncos caíram. Inúmeras folhas se perderam de seus troncos e não tiveram sua estrutura encontrada. Havia sido uma tristeza. Mas, na noite anterior, poucos se prejudicaram. Há 20 anos a árvore ainda estava muito pequena e os troncos não eram fortes e nem experientes. Agora já era uma árvore tradicional da região, muita gente passava por ali e a via. Estava forte, saudável, com troncos grossos o suficiente para aguentar uma tempestade muito forte.

Mas o velho tronco não estava mais nos seus tempos áureos. Inclusive sabia disso e já estava cansado. Talvez cair daquela árvore tenha sido uma boa. Talvez tenha sido na hora certa. Sabia que não seria fácil. Jamais seria fácil e com ninguém seria fácil. Mas talvez agora pudesse descansar. Para onde quer que fosse, imaginava um paraíso onde só havia Sol e sombra e drinks de seiva para todos. Nenhum tronco trabalharia lá. Ninguém precisaria sustentar nenhuma folha. Não que não gostassem das folhas, mas os troncos cansam de ficar com os braços pro alto segurando milhares de folhas por anos seguidos.

Edição    Filipe Dal’Bó e Samy Dana

André Dib

 


Fome
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GVcult

Por    André Dib

O café da manhã era servido pontualmente todos os dias. Não que se sentasse a mesa todos os dias no mesmo horário. Mas se fosse até a varanda, saberia que ali estaria servido o banquete do desjejum. Também não eram todos os dias que comia. Alguns deles passava o tempo olhando o movimento do lado de fora do seu mundo de concreto. Se alimentava da vista e deixava a comida de lado.

Foi em um desses dias que levantou da mesa de barriga cheia. Não comeu nada, mas estava satisfeito. O dia estava lindo e bastava observar os poucos resquícios de nuvens para enxergar um céu azul imenso. Um céu violentamente azul, com delicados desenhos e nuances feitos à la nuvem, com molho de calor e tempero de vento. Embora fosse feito com calor, o prato não era quente. Tudo ali parecia estar em perfeito equilíbrio. O céu teve todo o seu sabor e intensidade harmonizados com as pitadas de nuvens. Enquanto que o vento fresco amenizava o calor. Cozinha sob medida, era o que pensava.

Aquilo bastava para que começasse o dia bem. Para que pudesse ter apetite para se alimentar do que visse durante o dia. Para que, nas ruas cinzas e sem graça, pudesse enxergar um petisco para a sua alma. Um lanche para seu coração ou, quem sabe, uma verdadeira refeição para sua imaginação.

Não sabia o que haveria para comer na manhã seguinte. Mas tinha certeza que poderia comer o que quisesse. Que, dali da varanda, poderia se alimentar de verdade. Seus olhos eram muito maiores que seu estomago. E isso lhe permitia se empanturrar de vida. Podia comer a vontade. Podia experimentar de tudo.

E quando se via por satisfeito, via algo que lhe abria o apetite. E então, começava tudo outra vez. E de tanto comer, mais fome tinha. Mais queria petiscar de tudo um pouco. Pode se dizer que as vezes, tinha uma crise, passava dias comendo, sem parar. Até que passasse mal. Até que tudo aquilo que vivera chacoalhasse demais seu cérebro e entrasse em colapso. Se alimentava da vida. E, de vida, passava mal.

E em uma dessas crises, em que se interessava por tudo que estava em seus campos sensoriais, parou diante de um objeto magnífico. Um objeto que jamais tivera toda a atenção que merecia. Se tratava de um espelho.

Imóvel, permaneceu ali durante o tempo necessário para digerir a cena. Se olhava fixamente, reparando em todos os detalhes. Na face, no corpo, nas vestimentas, na respiração…até que começou a se movimentar. E então passou a perceber as infinitas possibilidades de movimentos que seu corpo tinha capacidade de fazer. Em seguida vieram as caretas. Fantásticas. Era um puro fascínio. Um prato cheio para quem gosta da vida. Reconheceu muitos gostos que já experimentara ali naquele prato de si mesmo. Reconheceu muito do que vira pela varanda no que via ali, naquele espelho.

Foi então que percebeu o que realmente tinha ali. Costumava despender grande parte do seu dia se alimentando do que via. Observando a janela, as coisas, as pessoas e as paisagens. Aquilo era o que precisava para sobreviver, era seu alimento. E, diante daquele espelho, não sentia fome. O espelho nutria de uma maneira diferente, de uma maneira mais intensa. De modo que se sentia mais livre para comer o que quisesse, no tempo e medida que julgasse mais apropriado.

O que procurava pela vista da varanda era aquilo. Algo que estava debaixo do seu nariz, mas ao mesmo tempo muito distante, quase inalcançável. Procurava por aquilo que refletia no espelho, procurava por si.

Edição    Filipe Dal’Bó

André Dib


Teto
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Por    Estevan Eltink

 

Teto craniano,

Teto de lava,

Teto de osso,

Teto canino.

Teto que escava sentimentos tortos,

Teto que resvala em saber podre,

Teto que fere a realidade ocre,

Teto que mente pra mente,

Teto que canta ejaculações,

Teto que vive o credo cedro,

Teto que escala evoluções,

Teto que circula meu ser de plástico.

Teto insipiente, insípido e inodoro

que goza verdade chulas,

palpitações arrítmicas ríspidas,

acelerações nervosas conectivas,

verdades platônicas

e que tem muitos, extensos e altos

muros de Tróia.

Invadidos apenas por ela:

uma alma em forma de cavalo.

 

Edição    Filipe Dal’Bó e Samy Dana

Estevan Eltink


Enlatados
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Por    André Dib

crédito: “Last Call” (1983-1988), de Fred Folsom. Óleo sobre tela .

Combinado não sai caro. Era por isso que sentara a mesa e tentara resolver as coisas de maneira mais fácil. Mas parece que não haveria solução sem gritaria e um emaranhado de frases sem sentido. Podia sentir sua cota de boa vontade chegar ao fim quando tateou a própria cintura. Lá estava ela, longa e gelada, uma 38 milímetros que fora do seu avô na época em que tinham fazenda.

Sempre ouvira em casa que armas não são brinquedos. Que são “instrumentos de segurança”. Achava engraçado como podiam associar algo tão perigoso com a ideia de segurança. Depois que cresceu um pouco percebeu que a segurança estava apenas com quem estava atrás do instrumento de segurança, do lado do gatilho.

Nunca haviam precisado usar a arma na fazenda. Mas de tempos em tempos, quando o avô abria um barril de cachaça, uma coisa levava a outra até que estavam todos brincando de tiro ao alvo com o “instrumento de segurança”. O barulho assustava as mulheres e os de pouca idade. Isso fazia parte da brincadeira também. Quando todos estava distraídos conversando alguém atirava em uma das latas que funcionavam como alvo.

O avô, já avermelhado pela bebida, dizia que na vida haveria um bocado de latas, e que era preciso estar atento a elas. Ou você atira, ou você toma susto, porque alguém vai atirar por você. Já ouvira essa lição magnífica de vida tantas vezes quanto tentou esquecê-la. Mas não era por acaso.

Nunca gostou dessa brincadeira de tiro ao alvo. Nem do barulho, nem da pontaria, nem de nada. Mas o que ficou na memória foi o cheiro de bebida e seu velho avô repetindo essa lição de vida: “ou você atira, ou vão atirar por você”. Aquilo lhe perturbara em sonhos durante muitas noites. Não sabia exatamente porque, mas era um trauma.

Quando venderam a fazenda, ficou com a arma. Meio que sem ninguém saber. Um dia, ainda haviam alguns móveis e pertences para serem retirados, enquanto checava se algo era seu ou se lhe interessava, achou a 38. Apenas levou embora, só foi abrir a caixa e olhar com calma alguns anos depois.

E agora, lá estava ele, o instrumento de segurança. Estava se fazendo útil pela primeira vez em muitos anos. Talvez fosse a primeira vez em sua vida útil que seria usado para atingir algo que não fossem latas de um velho bêbado. Quando puxou o cano da cintura, a mesa ficou em silêncio. Sentiu-se realmente em segurança, talvez o avô tivesse razão. Mas logo aconteceu algo em uma velocidade mais rápido do que pudera entender.

crédito: “Fight” (1993-1994), de Fred Folsom. Óleo sobre tela.

Estavam em cima da mesa, entre murros e pontapés, entre copos e canapés. Podia ouvir coisas quebrando e gritos. Podia sentir raiva e poder. Sentia suas mãos agarrando e sendo agarradas. Por instantes fechou os olhos e tudo sumiu. Como se tudo tivesse acabado e fosse silencioso e calmo. Pôde enxergar um fundo branco e o avô andando em sua direção e dizendo muito sério “ou você atira, ou vão atirar em você”.

Em seguida, a seriedade desaparece e o avô solta uma longa alta e violenta risada, mas dessa vez, não sentia o bafo de álcool. O cheiro que entrava pelas suas narinas era de sangue. Era o cheiro do fim da confusão. O cheiro que vinha logo depois de um grande estrondo de uma 38 milímetros. E, enquanto tinha forças, olhou em volta e percebeu que o velho tinha razão quando dizia aquilo: o sangue era seu.

Edição    Filipe Dal’Bó e Samy Dana

André Dib


Teatro e Eu
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GVcult

Por    Maria Angélica Urbano

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“Teatro é vida para mim.

É onde me encontro.

Na arte, no teatro, na dança, observando a arte dos povos.

Na minha arte, no meu jeito de expressar, de olhar o mundo.

Em como eu me desafio, como artista, a me abrir para criação.

Ser criadora de algo.

É assim que vejo meu trabalho como atriz.

Onde aprendo e desaprendo.

É um trabalho de desconstruir para construir.

Uma relação de amor e ódio.

Às vezes, o desafio em transformar o que não existe em algo existente é de ser um mentiroso verdadeiro.

Porque o ator tem que enganar a todos, menos a si.

Se ele se engana, não tem trabalho, não há arte.

Acreditar e trabalhar, esse é o desafio do ator.

Trabalho e pesquisa, são alimentos do ator.

Uma ligação e corpo e alma.

Ser inteiro.

Por isso escolhi ser artista.

Para ser inteira na minha arte.”

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Edição    Filipe Dal’Bó e Samy Dana

Angélica Urbano