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As cartas de José de Anchieta

GVcult

12/02/2015 07h30

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

Crédito: "Primeira Missa no Brasil" (1860) de Vitor Meireles (1832-1903). Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

As missivas escritas por José de Anchieta (1534-1597) são importantes testemunhos da ação e da reflexão missionária do renomado padre jesuíta espanhol no Brasil. Anchieta foi um expoente da Companhia de Jesus. Viveu nos primórdios da colonização brasileira e trabalhou na inculcação da fé cristã entre os gentios da terra.

Desse contato com os diversos agrupamentos indígenas, espargidos pela costa brasileira, resultou um conjunto significativo de epístolas, escritas entre 1554 e 1565, e enviadas pelo padre a Portugal. Nelas, são descritos à Coroa portuguesa importantes aspectos das relações entre os jesuítas e os aborígenes de então.

Grosso modo, as cartas versam sobre quatro tópicos principais: a organização do modo de vida dos índios; a doutrinação pedagógico-religiosa a eles imposta; as técnicas de conversão; e os problemas enfrentados no contato interétnico.

O primeiro tópico, sobre os aspectos organizativos, descreve as características, os hábitos e os costumes silvícolas. As diferenças entre aldeias, grupos tribais e etnias são postas em relevo, uma vez que os índios Carijós, os Tapuias e os Tupis guerreavam entre si, tal como mostrou, por seu turno e a seu modo, o sociólogo Florestan Fernandes, na brilhante tese de doutoramento A função social da guerra na sociedade Tupinambá. Já Anchieta assevera que as divergências não diziam respeito apenas à funcionalidade totalizante das questões belicosas, como também à maneira de realizar rituais antropofágicos e à discordância quanto ao papel social dos pajés.

O segundo tópico, de cunho doutrinário, alude à prática empregada por Anchieta na catequização dos meninos índios, isto é, os curumins, bem como dos índios adultos, mais arredios e hostis à missão de catequese.

O terceiro ponto, que se articula ao anterior, trata da tarefa de conversão catequética e se debruça sobre o empenho missionário no sentido de introduzir a fé católica. Eis a missão: incutir a palavra divina no seio do gentio da terra. Como observado no item precedente, Anchieta observa com frequência a maior facilidade em afeiçoar as crianças e as mulheres no ato de batismo cristão.

O quarto e último ponto tematizado nas cartas refere-se a toda sorte de problemas no processo de conversão. O padre faz um levantamento para o rei de Portugal dos maiores empecilhos encontrados pela ordem religiosa na inoculação do cristianismo. Dentre as maiores dificuldades, afigura-se a carência de missioneiros dispostos à tarefa de persuadir e converter índios, além das diversas mortes por infecção, quando não da dizimação em massa, decorrentes da política impositiva de aldeamento e, ao revés, da sedimentação de costumes indígenas, sérios obstáculos na transfiguração religiosa e na aculturação daqueles povos.

O tema é histórico e fascinante. Quem quiser saber mais, deve recorrer ao antropólogo Luiz Felipe Baêta Neves e a seu estudo O combate dos soldados de Cristo na Terra dos Papagaios: colonialismo e regressão cultural. Trata-se de sua "tese de mestrado" – assim se chamava nos idos de 1970 –, publicada em livro pela Forense Universitária, no ano de 1978.

O autor acresce à compreensão do fenômeno o método empregado pelos missionários na domação dos índios, valendo-se do teatro, dos autos populares e da encenação litúrgica. Era, argumenta Baêta Neves com acurácia, um suave estratagema para atrair aborígenes à palavra onisciente de Deus.

Para saber mais, é mister também assistir à película Anchieta, José do Brasil, do cinemanovista Paulo César Saraceni, exibido no ano de 1979 nas telas brasileiras, sob os auspícios da finada Embrafilme. No filme, Ney Latorraca faz as vezes de Anchieta, contracenando com Hugo Carvana, Maurício do Valle, Joel Barcelos, Maria Gladis, entre outros ases do elenco.

Por fim, para os adictos do turismo cultural, sugiro uma visita aos Sete Povos das Missões, estância no extremo sul do país, a leste do Rio Uruguai, onde ainda hoje restam ruínas arquitetônicas que indiciam o modus vivendi nas reduções jesuítas do Brasil quinhentista e seiscentista.

Edição    Filipe Dal'Bó e Samy Dana

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Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

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