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GV CULT - Criatividade e Cultura

As palavras de Guimarães Rosa (II): Tutaméia

GvCult - Uol

13/10/2020 13h51

João Guimarães Rosa no sertão de Minas Gerais.
Fonte: Wikimedia Commons

Por Bernardo Buarque de Hollanda

João Guimarães Rosa lançou o livro de contos Tutaméia – terceiras estórias em 1967, no mesmo ano de seu falecimento. Quando o li pela primeira vez, tive certa dificuldade na compreensão. Considerei-o experimental, em que levou a fundo o projeto de decomposição e de torção das palavras. Lembro-me que à época da leitura recorri ao esclarecedor prefácio de Paulo Ronai, capaz de dirimir muitas de minhas dúvidas.

Tutaméiaapresenta um estilo de narração distinto dos outros livros de JGR. O conto "Antiperipléia", por exemplo, traz interrogações a cada momento. Trata-se de um texto urdido de cabeça para baixo, por assim dizer, ao se estruturar no formato de respostas à interpelação das perguntas.

De todo modo, vamos a seguir acompanhar a pletora do vocabulário do escritor mineiro, entre definições, etimologias e frases:

– Açorado: ávido, sôfrego.

– Alvéolos: cavidade pequena, célula do favo de mel, casulo.

– Azo: motivo, ensejo, pretexto, ocasião.

– Aletria: massa de farinha de trigo em fios delgados, usada em sopas ou preparada com ovos, leite e açúcar; cabeça-de-anjo, fidelinho, fidéus, manjuba.

– Arrulhar: dizer palavras doces, amorosas, em tom meigo; exprimir com ternura.

– Catre: cama de viagem, dobrável, de lona; leito tosco e pobre.

– Cerce: pela parte mais baixa, pela raiz, rente.

– Cimalha: a parte superior da cornija, arquitrave, epistílio, saliência da parte mais alta da parede, onde assentam os beirais do telhado.

– Curimbaba: do tupi, força, valentia, valor, capanga.

– De truz: de primeira ordem, excelente, magnífico.

– Debuxar: delinear, desenhar, traçar, esboçar e bosquejar.

– Delir: apagar, desvanecer, evanescer.

– Dunga: homem bravo, valente.

– Eflúvio: emanação invisível que se desprende de um fluido; efluência, exalação.

– Embotar: fazer perder a sensibilidade; enfraquecer.

– Gamboa: local, no leito dos rios, onde se remansam as águas, dando a impressão de lago sereno.

– Itaipava: itaipaba, do tupi, elevação de pedra; recife de pedra que atravessa um rio de margem a margem, causando o desnivelamento da corrente.

– Limbo: orla, borda, rebordo.

– Mocó: variedade de algodão nordestino, apreciado por ser muito comprido e por ter fibras sedosas.

– Mourejo: trabalho, faina árdua e incessante.

– Muxoxo: beijo, carícia.

– Palustre: alagadiço, pantanoso.

– Pejo: pudor.

– Poranduba: do tupi porã'duba – pergunta, notícia, informação.

– Primícia: primeiros frutos, primeiras produções, primeiros efeitos, primeiros lucros, primeiros sentimentos, primeiros gozos, começos, prelúdios.

– Prisco: antigo.

– Quermesse: do flamengo kerkmesse, do francês kermesse. Feira paroquial celebrada anualmente nos Países Baixos, em grandes folguedos populares.

– Ramerrão: rotina, repetição monótona.

– Seminal: relativo ou pertencente a semente ou a sêmen; produtivo, fértil.

– Surunganga: valente, corajoso.

– Tacho: vaso de natal ou de barro, largo e de pouca fundura, em geral com asas.

– Tisana: cozimento de cevada; medicamento líquido que constitui a bebida comum de um enfermo.

– Venado: que tem veias.

*

"Agora, ao pôr-do-sol, desciam as canoas – de enfia-a-fino, serenas, horizonteantes, cheias de rude gente à grita, impelidas no reluzente – de longe, soslonge". (p. 31)

"… em mãos o rosário e o remo amarelo-venado de taipoca". (p. 31)

"Na casa, que fedia a couros podres, à boca da floresta, Pajão caranguejava". (p. 38)

"Os olhos põem as coisas no cabimento". (p. 42)

"Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento". (p. 47)

"Amanhecendo o sol dava em desverde de rochedos e pedregulho, fazia soledade, de repente, silêncio". (p. 50)

"Deu com miriquilho de vala, ajoelhou-se, bebia água e sol". (p. 51)

"De dia o calor, na regência do sol, as fragas amareladas alumiavam, montanhitância, só em madrugada, só em madrugadas e tardes se sofria o enfrio e vento". (p. 52)

"Mas rebém as lavaredas de canela-de-gema e candeia o aquentavam, permanecido no esconso". (p. 52)

"Iam os cavalos a mais – o céu sol, massas de luz, nuvens drapuxadas, orvalho perla a pérola". (p. 73)

"A gente de levante, a boiada a querer pó e estrada, melindraram-se esticando orelhas os burros de carguejar, ajoujados já com tralha e caixotas". (p. 178)

"Saía-se, na alva manhã, subia-se a Serra". (p. 179)

Edição Final: Guilherme Mazzeo

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.