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GV CULT - Criatividade e Cultura

Discretas Esperanças – por Vítor Steinberg

GvCult - Uol

09/10/2020 06h43

Imagem Reprodução Internet.

Por Vítor Steinberg

"Etiqueta", pasme, não deriva da primeira classe do Titanic, nem de hábitos de quem usa perucas brancas há trezentos anos atrás. Etiqueta, acima de todos os preconceitos, é pura lacração, pois significa nada mais do que "pequena ética".  Distinguida como um método eurocêntrico civilizatório, a etiqueta e suas pequenas éticas são o que construíram a nossa noção das coisas. Em resumo, a educação. Sem etiqueta não teríamos o menor conhecimento, como a Pequena Sereia pensando que garfo é escova de cabelo. Os talheres têm muito mais valor do que pensamos. Foi colocando a serrinha da faca em direção ao prato que aprendemos a não esfaquear os outros como selvagens.

Nessa emergência da desconstrução genérica de agora, talvez exista um ponto crítico de violência. Descaracterizar as pequenas éticas.

Etiqueta é micropolítica. Você tem certeza absoluta que "foda-se" tudo?

Estamos com um problema crônico de noção. Noção é bússola, orientação, para onde ir – e o que fazer quando chegar. Desapareceu nosso alicerce mais instituído. Desapareceram nossas referências, o mapa das coisas perdeu a grafia e viramos analfabetos.

O que são as referências: o tesouro que a humanidade do passado fez para nós e nos transmitiu. Agora, por conta da crise do valor-nenhum, (em que o passado não interessa, história não interessa, literatura não interessa) desaparece.

Como diz uma filósofa, as crises vinham de gerações, mas agora as crises são intra-geracionais, a cada três meses ou menos topamos com fortes revoluções, destruições, desnivelamento de toda nossa referência.

Queria muito que a Luíza Sonza se preocupasse com isso, mesmo que eu seja loucamente apaixonado por ela e não pretendesse incomodá-la. Repare: desconstruidões criticam os valorizadores de cultura dizendo que não aguentam a inovação. Não. Não é o fracasso em conter as inovações. São as inovações que não estão nos aprimorando.

Serrinha da faca: virada para o prato. Por um lado, progressos da ciência e da técnica, por outro regressões da sociedade… uma equação bem desonesta.

Colaborando com a noção, para entendermos melhor o que estamos fazendo, vamos identificar: o que seriam os tempos modernos?

São aqueles que se inciam no Renascimento com três grandes rupturas:

1 – A descoberta da América. Primeiro choque com relação a humanidade conhecida na Europa Ocidental. Espanto de uma população que vivia de um maneira diferente, que era totalmente desconhecida dos modos de vida europeus e que questionou muito as formas políticas conhecidas até então. Montaigne se manifestou no século XVI a partir do primeiro contato com essas populações ditas primitivas dizia que eram antropófagos, pessoa sem civilidade em comparação ao homem adulto, branco, europeu do período. "Não sei o que é mais cruel: comer um homem depois de matá-lo com um único golpe ou torturar as pessoas e esquartejar os cadáveres enquanto assistimos" (espetáculos que faziam na Europa neste período).

Esta perplexidade diante do novo mundo foi uma das questões que trouxeram consigo a primeira globalização. Econômica, de valores e costumes. E esse foi o primeiro encontro "desencontrado" das várias regiões do mundo.

2 – Mudanças da ordem científica. Fim do geocentrismo e o advento do heliocentrismo. A Terra – que era considerada durante toda a antiguidade e a Idade Média como centro do universo – em torno do qual girava toda religião e a teologia e a justificativa inclusive das monarquias por direito divino, desmorona a partir do momento que a Terra não é mais o centro: o centro é o Sol. E mais que isso, num primeiro momento que houve o deslocamento para o heliocentrismo já se criou um choque na cristandade, esse mundo criado por um Deus, com a verdade que está na periferia do Universo em expansão, um astro errante num Universo infinito.

Então essa passagem do Cosmos antigo para o infinito determinou uma perda de referências, um sentimento de vertigem.

Pascal: "mas o que significa estar na Terra? Uma prisão perdida no meio de um mundo desconhecido, o homem está nesse mundo sem saber o que está fazendo, por que ele está aqui, por que agora e não antes, por que aqui e não em outro lugar?"

Todo  esse sentimento de deriva que vem desse espanto de perda de uma referência estável e estabilizadora: ideia de a Terra ter sido ponto fixo.

Mas se estabeleceu uma certa confiança: a rotação dos planetas era circular. Por que isso criava um clima de tranquilidade? Porque na tradição desde a Grécia, Idade Média e outras razões, o círculo é perfeito. Inteiramente realizado. Porque o fim coincide com o início. Portanto, a ideia do completo, do terminado, é a ideia da perfeição. Se o Universo é perfeito, temos paz, temos beleza. Tudo o que queremos. Se tem beleza intrínseca, ele é totalmente realizado.

A partir de Kepler, nota-se que a rota dos planetas sequer é circular. Ela é uma elipse. O sentido da elipse é que ela tem muitos centros e encaminhamentos. Portanto aumentou ainda a ideia da expansão infinita, o cosmos não é mais perfeito, finito e terminado, agora é infinto – e no infinto, onde é o meio termo? Qual é a boa direção?

Esse sentimento perturbador do estranho daquilo que abala nossas certezas e convicções, criaram essa ideia de sermos exilados desse mundo, sem saber por que viemos, qual nosso destino.

Agora não temos mais nem o cosmos grego, no qual o homem se insieria segundo a ideia de medida, proporção e cada um ocupa um lugar que lhe cabe na ordem da criação… tampouco o homem é criatura de Deus.

O homem foi devolvido para o mundo, perdeu a transcendência, sem saber quem é e o lugar que ocupa nesse mundo.

Um sujeito que não tem mais progresso em sua instituição de sujeito, foi devolvido a si mesmo sem saber quem ele é. O homem grego se definia por sua inserção no Cosmos, por seu pertencimento a um destino comum compartilhado na Pólis, que fazia dele um homem cidadão.

A perda dessa centralidade da política, que foi se perdendo progressivamente a partir do Renascimento, fez com que o sentimento de perdição e desolação, perda do solo, da ideia de pertencimento, começasse a se aprofundar com essas revoluções, essas três rupturas.

3 – A Reforma Protestante. "A Revolução Alemã". Aquele Jesus que aproximou Deus do Homem, o finito do infinito, aquele Deus que lhe dava a graça, tornou-se um Deus escondido. Não há mais confiança nenhuma nem no arrependimento, nem na penitência. A punição ou dissolução vem da vontade arbitrária de um Deus escondido, um Deus que nós não sabemos onde está. Por que a alguns ele salva e outros ele condena? A perda de uma transcendência protetora, próxima do homem, se perde no protestantismo.

Sobra alguma coisa? Sim. Vamos desenvolver discretas esperanças. Seguindo em nossas lutas e combates com o anseio do triunfo da beleza e da justiça.

 

Instagram do autor @steinberg__

Edição Final: Guilherme Mazzeo

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.