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Frio psicológico – por Vítor Steinberg

GvCult - Uol

18/09/2020 07h28

"Auto-retrato Do Artista Na Forma de Um Zombador" (1793), de Joseph Ducreux.

Por Vítor Steinberg

Algumas teorias e presunções foram canceladas graças à pandemia? Concordo com uns filósofos moderninhos ao dizerem: "acreditar nas mudanças de certos comportamentos humanos por causa da pandemia é romantismo". No entanto, no atual método de embrutecimento da alma, algumas bobagens foram esquecidas. Não se diz mais. Ou talvez, sinta-se vergonha de dizer. Quem sabe o processo não seja só embrutecimento, mas envergonhar-se de muita coisa. Como dizer que o frio é psicológico.

Umas bobagens foram naturalmente esquecidas, não precisou do esforço de uma campanha de cancelamento.

E o Prêmio Ignóbel da Paz vai para…

É sempre bom lembrar que se o frio fosse psicológico, não teríamos tempo e dinheiro para fazer yoga e meditar até atingir a iluminação transcendental do calor autossustentado. Então qual é a problemática?

Quando os espanhóis chegaram no México, os Maias repetiam a palavra Yucatán, ou seja: "não estamos entendendo o que vocês estão falando". Por essas e outras, os espanhóis achavam tratar de uma palavra bendita e denominaram a cidade de Yucatán.

A incomunicabilidade do mundo é mais longeva do que se pensa.  Outro exemplo, muito antigo: a grosseira pelugem no rosto masculino do povo do Norte foi nomeada pelos romanos de "barba", porque pertence aos bárbaros. Passando para hoje, é uma exigência nas descrições dos fetiches de mulheres solteiras em aplicativos de relacionamento.

A incomunicabilidade não é queixa de crítico, é uma constatação óbvia. E mesmo assim há tanto a dizer.

Podemos praticar o exercício da listagem, para nos assegurar de críticas e compromissos – e o cérebero ser recompensado com a dopamina do check. Há um livro, incrível, que mostra várias listas lendárias, a começar pela mais antiga, de legumes numa feira orgânica da Mesopotâmia até chegar a um Manual de Conduta do Cowboy.

Deixo aqui alguns números da interessante lista de ítens essenciais de Jack Kerouac, transcritas de seu livro Crença e Técnica para a Prosa Moderna (1958):

2 – Esteja submisso a tudo, aberto, escutando;

10 – Hora de poesia é exatamente a hora que é;

14 – Como Proust, seja um velho viciado em tempo;

19 e 20 – Aceite a perda e acredite no contorno da vida;

21 – Esforce-se para registrar o fluxo que já existe inato na mente;

28 – Componha loucamente, sem disciplina, puramente, saindo de dentro, quanto mais louco melhor;

30 – Roteirista-Diretor de filmes Terrestres Patrocinados & Angelizados no Céu.

Em work-in-progress, modestamente tenho esta, que segue:

1- Mire poesia visual e sonoridades profícuas;

2- Ame bem e perdoe-se por tudo, mesmo;

3- Desintoxique-se do romantismo da dinâmica do casal, não reserve filmes, lugares e músicas para usufriur somente com uma paixão;

4- Saia das narrativas sociais com elegância;

5- Invente micropolíticas e microperformances;

6- Ressignifique o ego e bote o ego pra trabalhar;

7- Tenha aliados que sustentem a narrativa afetiva e sustentem com você a narrativa afetiva;

8- Transmita conteúdos com responsabilidade;

9- Está liberado e é mais bacana ser estúpido. Resista contra a imbecilidade, a ignorância é a origem do mal;

10- Sou legal, não estou dando mole;

11- Todo inculto procura desqualificar a qualquer custo o culto. (Tome muito cuidado com isso, até com seus melhores amigos). Parece muito fácil destruir finesse com brucutudade, mas não é;

12- Faça um retiro espiritual se um dia você usar uma carteirada: "Estar à altura…" "Quem você pensa que é?" "Você sabe com quem está falando?"

13- Vírus não tem agenda, o mundo não vai ficar melhor ano que vem, isso é reveillón da Globo;

14- Liberais são muito facilmente ofendidos;

15- Desmanche de like não é sintoma de perda da amizade;

16- 77% dos filmes disponíveis na Netflix são produções dos últimos 11 anos. É o mesmo tempo que redes sociais foram disponibilizadas em telefones celulares. O que será dos clássicos?

17- Aprenda todos os dias. Abrir e selar portais;

18- Tampe os ouvidos ao alarmismo coletivo por "acordar", cair na real;

Enquanto não se contrata uma empresa privada para ionizar nuvens na Cantareira, pessoalmente não acho que o cinema é um despertador, mas o contrário, um ópio finíssimo das arábias – uma paisagem repleta de névoa, para estimular o sonho.

Cinema seria máquina de sonhar, não de despertar. Vejo muitos trabalhos feitos para "cair na real", de forma até violenta. Limites dos atores, limite dos movimentos de câmera.

O cinema ficou catequisado, passando vergonhinha?

O.K.

19- Não fala O.K. Significa Zero Killed.

20- Jean-Claude Van Damme, apesar da sonoridade embutida em seu nome (e uns escreverem Van Daime) não é Ayahuasqueiro, nem o padroeiro do Santo Daime.

 

Instagram do autor @steinberg__

Edição Final: Guilherme Mazzeo

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.