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As palavras de Euclides da Cunha

GvCult - Uol

15/09/2020 06h16

Vista parcial de Canudos ao sul. Foram contados 5200 casas no arraial de Antônio Conselheiro, 1897 (Flávio de Barros/Acervo Museu da República).

Por Bernardo Buarque de Hollanda

Ler Os sertões (1902) não é para principiantes. Obra de fôlego, com escrita seca e áspera, atravessá-la requer um equipamento filológico à altura, com o conhecimento dos significados da pletora de sua linguagem arcaica, cujas definições escapam aos que a ela acedem no século XXI. Para tanto, elaborei um apanhado de palavras, que sublinhei à medida que avancei na leitura das três partes constitutivas do livro clássico da literatura e da história brasileiras: "A terra", "O homem"; e "A luta". A fim de facilitar o acompanhamento do vocabulário selecionado, coloco-o em ordem alfabética:

A

– Acólito: auxiliar, ajudante, assistente;

– Adunar: reunir, incorporar em um só, congregar;

– Adusto: queimado, abrasado, muito quente;

– Alambicado: presunçoso;

– Alferes: hierarquia militar;

– Altamaria: que se eleva muito alto, soberbo, altivo, sobranceiro;

– Altear-se: erguer-se, tornar-se mais alto;

– Alvitre: sugestão, opinião, lembrança, arbítrio;

– Anágua: saia usada sob o vestido, de feitios e materiais diversos, curta ou longa, estreita ou larga;

– Anfractuosidade: saliência, depressão ou sinuosidade irregulares;

– Aquilino: diz-se do olhar penetrante como os olhos da águia;

– Arroio: regato intermitente, pequena corrente de qualquer líquido;

– Atavismo: reaparecimento em um descendente, de um caráter não presente em seus ascendentes imediatos, mas sim em remotos;

– Atilado: escrupuloso, correto, discreto, sagaz e elegante;

– Azáfama: muita pressa, urgência, grande afã;

– Azêmola: besta de carga que forma récua com outras;

– Aziago: de mau agouro, infeliz, azarento;

B

– Baluarte: suporte, apoio, sustentáculo, lugar seguro, fortaleza;

– Baraço: corda, cordel;

– Beato: homem muito devoto;

– Bogó: vaso de couro com que se tira água da cacimba;

– Bronco: tosco, áspero, agreste, rude, rústico, inculto, ignorante;

– Brunido: aprimorado;

C

– Cabilda: designação comum a diversas tribos nômades da África setentrional; tribo, bando;

– Cafre: relativo à Cafraria, antigo nome dado à parte da África habitada por não-muçulmanos, e que hoje designa duas regiões da África do Sul;

– Canícula: época do ano em que Sírio está em conjunção com o Sol, grande calor atmosférico;

– Cateretê: dança rural, em fileiras opostas, cantada, cujo nome indica origem tupi, mas que coreograficamente mostra-se muito influenciada pelos processos africanos de dançar;

– Célere: veloz, ligeiro, rápido;

– Chasquear: dizer chascos a, zombar de, escarnecer;

– Cimo: cume;

– Coevo: contemporâneo;

– Cômoro: pequena elevação de terreno, duna, combro;

– Cossaco: soldado de um copo de cavalaria russo, recrutado entre os povos, outrora nômades, das estepes da Rússia;

D

– Dissímil: dessemelhante, desigual;

E

– Eclipse: no caso euclidiano em questão, seria uma distância mediana entre as montanhas ao redor de Canudos;

– Emboaba: nos tempos coloniais, alcunha que os descendentes dos bandeirantes paulistas davam, especialmente nas regiões das minas, aos forasteiros portugueses, e brasileiros de outras origens, que entravam no sertão à busca de ouro e pedras preciosas;

– Epicurista: pessoa dada aos deleites da mesa e do amor;

– Esquadrinhar: examinar minuciosamente, pesquisar;

– Estepe: tipo de vegetação ou de paisagem dominado por plantas pequenas, sobretudo gramíneas, que se encontra em zonas frias e secas. A estepe é característica do norte da Europa, sendo comum também na Ásia, e aparece nos pampas sul-americanos;

– Estrênuo: valente, corajoso, esforçado, forte;

– Esvanecer: apagar, desvanecer, desfazer, dissipar;

F

– Faina: qualquer trabalho aturado;

– Fastígio: o cume, o ponto mais alto, o apogeu;

G

– Galicismo: francesismo;

– Genuflexo: ajoelhado;

– Gnosticismo: ecletismo filosófico-religioso surgido nos primeiros séculos da nossa era e diversificado em numerosas seitas, e que visava a conciliar todas as religiões e a explicar-lhes o sentido mais profundo por meio da gnose; são dogmas do gnosticismo a encarnação, a queda, a redenção e a mediação, exercida por inúmeras potências celestes, entre a divindade e o homem;

– Grei: rebanho de gado miúdo;

– Grimpa: o ponto mais alto, o cocuruto, a crista;

I

– Ignoto: ignorado;

– Impávido: que não tem pavor, destemido;

– Incauto: ingênuo e imprudente;

– Indene: homem que não sofreu dano ou prejuízo;

– Indômito: indomável;

J

– Juazeiro: árvore alta e copada, da família das ramnáceas, característica da caatinga nordestina, de folhas trinérveas, flores pequeninas, fruto drupáceo, amarelo, com polpa édula, e cuja casca é rica em saponina e serve como sabão e dentifrício. Fornece ao gado sombra e alimento, não perdendo a folhagem durante a seca;

L

– Labéu: nota infame ou infamante, mancha na reputação, desdouro, desonra;

– Laconismo: modo breve, conciso e resumido de falar; escrever em poucas palavras;

– Laje: pedra de superfície plana;

– Lázaro: leproso;

– Lídimo: legítimo, autêntico, genuíno;

– Lindes: os limites;

M

– Manelo: pequena porção de coisas que se pode abarcar na mão;

– Mangabeira: arvoreta da família das apocináceas, frequente em cerrados e no litoral nordestino, que produz fruto comestível, a mangaba, e láctea útil na fabricação de borracha, e cujas flores são grandes e alvas;

– Maninho: inculto, bravo, silvestre, não aproveitável;

– Marruá: novilho que não foi domesticado;

– Matula: multidão de gente ordinária, de vadios, corja;

– Monção: época ou vento favorável à navegação;

– Morubixaba: chefe temporal das tribos indígenas brasileiras;

– Mutã: estrado alto ou assento, feito no mato ou na beira da água, no tronco das árvores, para espera da caça ou da pesca;

N

– Nefelibata: quem anda ou vive nas nuvens; literato alambicado que despreza os processos;

O

– Ônix: variedade de ágata entre cujas camadas se observa sensível destaque de cor;

– Ourela: margem, beira, costa;

P

– Patrício: compatriota, conterrâneo;

– Píncaro: cume;

– Potiguar: indivíduo dos potiguares, tribo indígena Tupi, que habitava as margens do Rio Paraíba do Norte;

– Prado: campo coberto de plantas herbáceas que servem para a pastagem; campina;

– Prélio: sinônimo de luta, batalha, combate;

R

– Regatão: vendedor que percorre os rios de barco parando de lugar em lugar;

S

– Sáurios: animais protozoários, cordados, répteis, escamados, de subordem Sáuria;

– Soalheira: a luz e o calor mais intensos do Sol: exposição à luz solar;

– Sopé: base da montanha;

T

– Tabajara: indivíduo pertencente à tribo indígena da serra da Ibiapaba, no Ceará, considerada Tupi;

– Tabaréu: caipira;

– Talisca: uma fenda na rocha;

– Talude: terreno inclinado, rampa, escarpa;

– Tapera: habitação ou aldeia abandonada;

– Taumaturgo: aquele que faz milagres;

– Tijupá: cabana de índios, menor que a oca, choupana, rancho;

– Trigueiro: que tem a cor do trigo maduro, moreno;

V

– Valetudinário: indivíduo de compleição muito fraca, doente ou até inválido;

– Vesânia: denominação comum às várias espécies de alienação mental;

X

– Xisto: designação comum a rochas metamórficas que possuem minerais;

 

'O Sertanejo é, antes de tudo, um forte'.

Euclides da Cunha.

Edição Final: Guilherme Mazzeo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.