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Trilogia Literatura e Isolamento Social

GvCult - Uol

14/09/2020 07h12

Foto de um original francês da obra A Rebours, datada de 1884 | Foto: Pinterest

Por Hélio Rainho

 Tomo III –  Às Avessas – Yoris-Karl Huysmans (1884)

"Adquiriu reputação de excêntrico, que rematou usando trajes de veludo branco, coletes orlados de ouro; espetando, à guisa de gravata, um ramalhete de violetas na chanfradura decotada de uma camisa"

Joris-Karl Huysmans, "Às avessas"

O final do século XIX foi considerado, por uma corrente de artistas e pensadores pessimistas franceses, uma espécie de versão cultural do declínio do império romano para a chamada França moderna. Não obstante os avanços tecnológicos e científicos desse período, havia uma inquietude intelectual – herdeira dos mais desolados pensamentos críticos de Schopenhauer, Baudelaire, Gautier, Mallarmé, Verlaine, Zola, Maupassant, Manet, Rodin e Debussy, entre outros, cada qual em seu campo de atuação – apregoando uma recorrência de ideias e uma sensação de que tudo já havia sido feito, restando tão somente o tédio como resultado de tamanha abundância.

Surgiria, desse movimento, a corrente conhecida como "Decadentismo". Tratava-se de uma contraposição ao realismo e ao naturalismo por meio de uma adesão ao subjetivismo, à primazia do estético, a valores inconscientes, aos mistérios da alma humana. A proposição artística dessa corrente adquiriria, a seu tempo, um caráter "maldito", no sentido de atribuir a uma considerável "estabilidade conceitual" da sociedade francesa uma reflexão soturna, negativista, criticista, entediada.

Joris-Karl Huysmans, autor da obra Às Avessas |Foto: Pinterest

Nesse cenário de retórico desencanto e viés crítico, uma obra literária surge com a alcunha de "a bíblia do decadentismo" – o movimento intelectual que aí se configurava – ilustrando a insatisfação e o ceticismo ante as estruturas de pensamento então vigentes. A obra é Às avessas, de Joris-Karl Huysmans, publicada em 1884, espécie de ode ao esteticismo e à vida elegante, marcas expressivas da adesão ao decadentismo francês.

No conto de Huysmans, o rico herdeiro Jean Floressas des Essaintes, personagem icônico da literatura dandista, isola-se das pessoas para fugir do tédio e imergir em um universo peculiar de luxo, requinte e glamour, apartado do dogmatismo dos aristocratas a seu redor. Entediado pelo déjà-vu, arregimenta-se numa sofisticação desmedida e num refinamento desenfreado de seus prazeres. Isolado, dedica-se ao requintamento e ao consumo como realidades de sua própria vida.

Gravura de Auguste Lepère para edição de 1903 da obra "Às Avessas" | Fonte: Pinterest

Às avessas é a fábula moderna do homem abastado que descobre nunca mais precisar trabalhar e vê-se isento das ameaças econômicas de todos os mortais. O malogro, porém, está em sua própria finitude: ele é vítima de uma doença – a nevrose – que tanto abrevia sua expectativa de vida quanto incentiva sua ânsia de refúgio em um ímpeto hedonista. A quarentena de Des Esseintes é autoprescritiva: ele é um esteta iluminado pelo mais sutil bom gosto possível aos homens de sua época, que se enoja de seus iguais, "dessocializa-se" do centro nevrálgico de Paris e isola-se numa casa na pacata Fontenay-aux-Roses, onde, chafurdado em seu enlevo estético, faz da nova morada um oásis de beleza para deleite pessoal, até que lhe cheguem seus últimos dias. Aos poucos, e a cada capítulo, decora detalhadamente sua casa como quem reconfigura a própria vida, demonstrando todo seu apreço e vínculo aos objetos mais custosos e estetizados de seu tempo.

A vida e a sociabilidade, conforme nos oferece o "lugar comum" de todos os homens, são, para Des Esseintes, mero tédio. Ele reconstrói simbolicamente tudo a seu redor, ressignificando sua própria existência a partir de coisas, objetos, ornamentos e produtos comprados no mais esfuziante e sofisticado mercado europeu de sua época – o comércio de Paris.*

A saga de isolamento de Des Esseintes aponta para um mundo estético que não se encerra, mas se locupleta dentro de um universo que é o seu próprio lugar de existência. Embora estando doente, não é a doença em si que o confina, nem a possibilidade de sua transmissão – trata-se de uma opção de quarentena para quem cansou-se do mundo lá fora e resolveu abraçar a si mesmo e a seus ideais.

É provável que a trajetória do protagonista dessa fábula oitocentista de Huysmans não encontre paralelos contemporâneos, apesar dos inúmeros recursos de que dispomos em nossos lares para uma vida digital plena de alternativas ao mundo presencial – algo de que não desfrutava Des Esseintes. Se no primeiro momento da pandemia de nosso século as pessoas estavam atônitas diante de dois temores – o pânico da contaminação nas aglomerações e o risco de adoecimento psíquico pelo isolamento -, passamos por uma nova fase que menos tem a ver com a flexibilidade e muito mais com o negacionismo: pessoas novamente aglomeradas, tripudiando de protocolos e violando princípios de segurança conjunta.

Talvez porque, ao contrário do personagem literário, ainda nos falte, no âmbito geral, o mesmo sentido de apreciação estética e ímpeto criativo que nos leve a uma convivência pacifica com o interior de nós mesmos, diante de nossos espelhos e gostos. O hedonismo do sujeito do século XXI parece não mais ser aquele que olha para si mesmo, mas o da síndrome de ser olhado por todos. Para isso, o isolamento é uma experiência torturante, e o convívio social virou uma quase dependência.

O que hoje nos falta não deve ser somente segurança sanitária, nem vacinas, nem politicas de saúde.

O que hoje nos falta… deve ser literatura!

 

* Os seis primeiros parágrafos deste texto são extraídos do artigo Décadence avec élégance": do decadentismo literário à antropologia material, um olhar sobre o consumo, de minha autoria, publicado na revista Signos do Consumo, da USP, em 2018. O artigo na íntegra pode ser acessado em < http://dx.doi.org/10.11606/issn.1984-5057.v10i1p82-93>.

Edição Final: Guilherme Mazzeo

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.