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O Arqueiro - por Vítor Steinberg

GvCult - Uol

05/09/2020 14h15

Godard dirigindo Le Mepris (fotógrafo desconhecido)

Por Vítor Steinberg

Numa exposição em Paris, Godard passeia fumando charuto enquanto é filmado por dois estudantes de cinema. Estão fazendo um documentário para a universidade e correm desesperados, empolgados e destrambelhados para encontrar ângulos e opiniões relevantes. Afinal, estão filmando Godard, uma tarefa complicadinha. Nesse corre-corre, o diretor dá uma lição que, sem dúvida, valerá a íntegra do curso que estudam.

Um dos alunos usa uma câmera digital de visor. Como antigamente, o cinegrafista deve colocar apenas um olho no visor para filmar. Quase como que "entrar" na câmera, mirar, olhar pelo telescópio, fazê-la ser como parte de seu corpo, a câmera vira seu olho, um processo fundamentalmente orgânico. A outra, uma aluna comivida com o evento, filma como uma sony handycam. Aquela que você filma com as duas mãos, de longe, olhando a imagem num monitorzinho móvel.

Godard interrompe o passo e diz:

"Um de vocês está fazendo cinema, o outro nem um pouco! O que acontece é: o negócio do cinema é ponto de vista, ponto de fuga, perspectiva, visão, mira, objetivo, foco, olhar, ângulo. Isso depende de uma escolha e, para tanto, você só pode usar um olho".

A menina com a handycam não está propriamente filmando, está "apenas Sony", nas palavras do diretor.

A  seguir o professor explana que os grandes pintores empregaram apenas um pincel para compor as grandes obras-primas. Não é possível pintar com dois pincéis, tarefa que a handycam nos obriga a fazer.

O mesmo vale para iphones, etc. Quando um pintor examina uma paisagem, ele levanta um dedão para regular a perspectiva, um absurdo seria usar as duas mãos, os dois dedões… Como você acerta "a mira" desse jeito? A arte cavalheiresca do arqueiro zen. Assim como o thumb up, de curtir status do facebook, o nosso velho "jóia". Para ser jóia, é preciso ter ponto de fuga, ponto de estresse, ponto de tensão, olhar, visão. Para achar a jóia é necessário ter um olhar.

Aí vem um cara nervosinho que argumenta com o diretor: "mas nós podemos usar com inteligência as novas tecnologias". Para seu azar, toma uma peia: "Não, não podemos. Não podemos".

E Godard sai, fumando…

Instagram do autor @steinberg__

Edição Final: Guilherme Mazzeo

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.