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Pinceladas de teoria da história

Guilherme Mazzeo / GvCult - Uol

14/04/2020 07h46

Cena de Carnaval. Jean Baptiste Debret. Aquarela sobre papel (18 x 23 cm). Ano: 1823

Por Bernardo Buarque de Hollanda

As coordenadas históricas da vida moderna e contemporânea mostram de que maneira nossos valores mais íntimos como justiça, a nossa aspiração pela igualdade social e pela liberdade política encontram sua formulação original e seu ponto de partida em manifestações intelectuais. Estas remontam ao Renascimento, com a emancipação do indivíduo e seu entusiasmo pelas leis da natureza, e ao Iluminismo, com o projeto de universalização do saber e com a utilização da razão como elemento mediador principal da vida em sociedade.

Ambas as correntes de ideias se consumam no século XVIII, na esteira de dois processos revolucionários: a Revolução Industrial, que radicaliza a complexidade da divisão social do trabalho em uma nova unidade laboral – a fábrica – e torna o mundo interdependente através da produção; a Revolução Francesa, consumação desta nova ordem social, libelo contra a tirania, contra os privilégios estamentais e contra toda forma despótica. Emancipada desta, legam-se a separação de poderes (vide Montesquieu) e a representação popular como ideal coletivo (vide Rousseau), que tornam possíveis a concretização dos direitos sociais por meio de instituições. Está em jogo um processo de secularização do tempo e de autonomia do ser humano, em que o saber técnico-científico cada vez mais avulta em importância.

Mas os regimes de historicidade, de que falava François Hartog, devem nos ajudar a relativizar valores nos quais fomos socializados e que acabamos por naturalizar. Assim, em teoria, deve-se aprender com as origens greco-romanas da História, inventada por Heródoto e Tucídides. Para estes o ofício do historiador tem por desígnio indicar aqueles que veem as guerras antigas, testemunham as batalhas in loco, em seu teatro de operações, e as registram para a posteridade. Há História, assim, não apenas quando existe encontro, porém também nas ocasiões de confronto entre os povos, colocando a identidade de uma população sempre em relação a uma alteridade.

Avança-se teoricamente para o reconhecimento do caráter relativo da História. Neste sentido, a História é menos uma ciência que estuda o passado e mais uma disciplina que examina o tempo, colocando-a em diálogo também com o mito e com a filosofia. No período medieval, a História estava ligada à crônica e, portanto, ao tempo presente, contemporâneo. No período iluminista, esta ganha interesse na medida em que ele prenuncia o futuro.

É apenas com o positivismo que a ciência histórica assume lugar na repartição das atividades científicas, como saber exclusivamente devotado ao passado. Pauta-se, para tanto, em documentos, arquivos e registros escritos. Entra em cena o sentido de representação da história, que pode ser configurada como uma linha reta, uma seta ascendente, uma linha em espiral, um círculo, enfim, haverá inúmeras histórias quantas formas mutáveis de representação do tempo houver.

Por fim, gostaríamos pincelar o que hoje se chama de batalha de representação, a ressaltar a importância das classificações e o ato de nomear períodos históricos. Temos assim um diálogo com a filosofia da linguagem e com o pressuposto de que a língua não é neutra nem objetiva, muito menos opaca, mas ao contrário prenhe de sentidos arbitrários e convencionados. Autores diferentes entre si, como Friedrich Nietzsche (Das vantagens e desvantagens da história para a vida), Michel Foucault (As palavras e as coisas) e Pierre Bourdieu (O poder simbólico) e Wittgenstein esposam essa vertente, cada um a seu modo.   

Edição Final: Guilherme Mazzeo

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

Sobre o Blog

O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.