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GV CULT - Criatividade e Cultura

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A história e a política em Quentin Skinner

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23/10/2018 06h57

Por    Bernardo Buarque de Hollanda

 

Quentin Skinner é um historiador britânico, nascido em 1940, que atua como professor de ciência política em Cambridge desde 1978, ano da publicação seminal de "As fundações do pensamento político moderno". Seu livro seguinte, sobre Maquiavel, data de 1981, projetando-o na historiografia política internacional. Skinner ampara-se em Hans Baron, Keith Thomas e John G.A. Pocock, estudiosos que insistem sobre a contribuição das doutrinas aristotélicas na formação do humanismo "cidadão". O objetivo do livro de 1981 é dar um retrato de Maquiavel como essencialmente o porta-voz de uma tradição humanista bem específica no seio do republicanismo clássico.

Entre os aspectos originais e criativos da concepção da política de Maquiavel, Skinner destaca as reações polêmicas, às vezes sob o modo da sátira, face ao conjunto dos valores humanistas dos quais ele é herdeiro e aos quais permanece subscrito. Recupera a categoria central do autor, a virtù (do latim virtus), para reconstituir o contexto no qual sua obra foi originalmente concebida: o contexto intelectual – efeito da filosofia clássica, mas também aquela da Renascença; e o contexto político – emergente na vida cotidiana dos principados italianos neste começo do século XVI.

Já no livro anterior, de 1978, Skinner dedicou-se à história do pensamento político entre os séculos XIII e XVI. Sua obra mergulha nas diversas correntes de pensamento e na interpretação dos escritos políticos de uma plêiade de autores renascentistas, tais como Dante, Marsílio, Bártoli, Maquiavel, Erasmo, Thomas More, Lutero, Calvino, Bodin, Montaigne, entre outros. O conceito-chave de Estado é entendido como a elaboração progressiva do vocabulário do pensamento político. Aborda tanto teóricos constitucionalistas franceses, como Bodin, Bèze, Hotman, Mornay, quanto autores clássicos, Pierre Mesnard, responsável por L'essor de la philosophie politique au XVIe siècle. Seu objetivo primordial é o esclarecimento da maneira pela qual é formada a concepção moderna de Estado.

O autor explora a transição decisiva entre a passagem da ideia do soberano e a existência de uma ordem legal e constituída separada, aquela do Estado, que o soberano tem o dever de defender. Em consequência, o poder do Estado passa a ser a base do governo, não mais o soberano. Em termos modernos, o Estado é a fonte única da lei e a força legítima sobre seu próprio território, como o único objeto de alegação para os cidadãos. Passa-se assim da história à semântica histórica, da concepção de Estado à palavra Estado, em particular na França e na Inglaterra. Isto pois, a seu juízo, o melhor signo de apropriação consciente por uma sociedade de um novo conceito é a formação de um novo vocabulário.

Para tanto, recebe a influência de outro historiador britânico, R. G. Colligwood, bem como inspira-se no método do livro supracitado de Mesnard, a fim de investigar a história dos textos clássicos. O método de Skinner constitui a matriz intelectual e social geral de onde saem os teóricos, frisando os elementos mais característicos da sociedade na e para a qual são escritos. A vida política coloca os problemas de que irão tratar os teóricos, a exemplo da produção dos textos: um contexto feito de escritos antecedentes e ideias adquiridas sobre a comunidade política.

Seu propósito é recolocar os textos clássicos nos contextos ideológicos, de modo a articular teoria e prática da política, e a refazer os laços entre teoria política e vida política., conciliando discurso normativo e ação política. Interpretação é, pois, o ato de tentar situar um texto num contexto. Temos assim dois novos resultados da metodologia empregada por Skinner: 1ª. O vocabulário do pensamento moral e político da Renascença tem suas fontes no estoicismo romano. Isto pode modificar a visão da relação entre Maquiavel e seus predecessores, seus objetivos e suas intenções enquanto pensador político. 2ª. Os luteranos e os calvinistas radicais baseiam-se no esquema de pensamento derivado do estudo do direito romano e da filosofia moral escolástica, com teorias banhadas, portanto, na linguagem jurídica e moral de seus adversários católicos.

Como o teórico alemão Ernest Kantorowicz, que veremos a seguir, o trabalho de três anos de Skinner foi feito no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e traz agradecimentos ao antropólogo Clifford Geertz. Assim, nos estudos de ponta do Renascimento, soma-se a Eugénio Garin, que trabalhou sobre as origens platônicas da filosofia política da Renascença.

Trata-se do segundo livro da coleção « Cursos e Trabalhos », organizada por Bourdieu, que, em razão de seu falecimento, não pode escrever o prefácio, tal como fizera para apresentar em 1967 os dois ensaios de Panofsky: "Arte gótica e pensamento escolástico", ensaio de história da filosofia política medieval. Este primeiro fora um texto célebre, erudito e antigo, conhecido em inglês, alemão e turco, com debate entre disciplinas que têm por objeto o mundo social. Com Skinner, temos uma revolução teórica e prática, a saber:

1ª. Transforma profundamente as condições de escrita da história da filosofia política; recusa ao fetichismo do texto, à glosa de autores clássicos, às genealogias fabulosas, à celebração de grandes pensadores fora do tempo e do espaço. Opção pelas "ideias em contexto". Coloca o léxico político, visual e textual à disposição dos agentes históricos dos séculos XIII e XIV. Lança mão das condições e os objetivos do exercício legítimo da autoridade. Opera uma re-historicização decisiva do vocabulário da filosofia política, além das exigências essenciais da "história dos conceitos". Esta retraça a evolução do campo lexical e da gramática visual do Bom Governo, da Soberania e do Estado. Skinner descreve os contextos sociais precisos e determina seus usos efetivos, restituindo passo a passo a linguagem de uma época, a estruturas cognitivas socialmente formadas, segundo as quais os agentes pensam e transformam o mundo social.

Por exemplo: o contexto remonta aos séculos XIII e XIV. As instituições comunais de Florença e Siena são vistas à luz da construção de novos conjuntos arquitetônicos: o Palácio Vecchio e o Palácio Público. Já a decoração apresenta vastos programas iconográficos, que ensejam a percepção da ideologia das comunas italianas e suas traduções visuais.

2ª. Ruptura metodológica. Exame minucioso do léxico visual de Ambrogio Lorenzetti (1290-1348) para encontrar suas fontes verdadeiras. Para este último, a imagem conduz aos textos. Lorenzetti, filósofo italiano, dá lugar às estratégias visuais específicas das comunas na península itálica na formação de um léxico iconográfico original e procura corporificar a ideologia que o inspirava e justificava.

3ª. Skinner demonstra a existência de novos princípios de ética cívica em curso na ideologia republicana pré-humanista, anterior à difusão do aristotelismo escolástico, com ênfase nos autores romanos Cícero, Sêneca e Salustio. Explora o calendário gregoriano e aporta as conotações do latim para rei, príncipe e imperador. Não descura de examinar o magistrado, classe de oficiais de justiça, bem como dedica-se aos Studia humanitatis e à noção ciceroniana. A seu juízo, por fim, a filosofia política, anterior à revolução inglesa e a formação da ideologia liberal, não pode ignorar essa concepção neorromana.

 

Referências bibliográficas

 

SKINNER, Quentin.  Les fondements de la pensée politique moderne. Paris : Albin Michel, 2001.

 

SKINNER, Quentin.  Maquiavel. Paris: Seuil, 1989.  

 

SKINNER, Quentin. L'artiste en philosophie politique : Ambrogio Lorenzetti et le Bon Gouvernement. Paris : Raison d'Agir, 2003.  

Edição      Enrique Shiguematu

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o editor

Guilherme Mazzeo é coordenador institucional do GvCult, graduando em Administração Pública pela FGV-EAESP. Um paulista criado em Salvador, um ser humano que acredita na cultura e na arte como a direção e o sentido para tudo e para todos. A arte é a mais bela expressão de um ser humano, é a natureza viva das coisas, a melhor tradução de tudo. Só a cultura soluciona de maneira sabia e inteligente tudo, a cultura é a chave para um mundo melhor, mais justo, livre e próspero! Devemos enaltecer e viver nossas culturas de forma que sejamos protagonistas, numa sociedade invasiva e carente de: vida, justiça, alegria e força.

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O GV Cult – Núcleo de Criatividade e Cultura da FGV desenvolve atividades de criação, fruição, gerenciamento, produção e execução de projetos culturais e de exercícios em criatividade.